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Gil do Vigor se consolida como uma das vozes mais influentes da comunidade LGBTQIA+ no Brasil

Gil do Vigor se consolida como uma das vozes mais influentes da comunidade LGBTQIA+ no Brasil

Sem ainda acreditar em tudo o que conquistou desde que saiu do BBB21 e sempre com muita intensidade, Gil do Vigor é o cara mais amado do Brasil.

Hoje, ele é sinônimo de sucesso e identificação entre os brasileiros. Gilberto José Nogueira Junior, ou somente Gil do Vigor, foi um dos participantes mais queridos pelo público na edição de 2021 do Big Brother Brasil. Economista de formação – com passagem garantida para o PhD na Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, a partir de setembro deste ano – ele também é um verdadeiro comunicador por essência. Toda a autenticidade que o pernambucano transmitiu no reality show mais visto do país é mesmo natural dele. Cria bordões, fala o que pensa, vive momentos festivos com muito prazer e fica indignado com injustiças.

 

Foto: Thiago Bruno

Foto: Thiago Bruno

 

Para Gil, o Brasil está mesmo lascado, como repetiu algumas vezes dentro da casa do BBB. “Mas não está tudo perdido, estamos passando por um problema muito grande com a pandemia, tanto econômico quanto social, temos muitas pautas a serem levadas em conta, além do respeito a todas as formas de vida que ainda precisa sempre ser reafirmado, temos que lutar por tudo isso”, reflete. Diante de tantas complexidades que o país atravessa, ele quer usar seus estudos para mudar a vida das pessoas. “Adoro o sistema monetário, é muito interessante, e eu sonho em ser presidente do Banco Central, porque sei que as decisões desse cargo impactam a vida de todas as pessoas, o poder de compra de todos, dos mais pobres”. Vai para os EUA, mas garante que volta. “Tenho um compromisso com o Brasil”, afirma.

Além de explicar conceitos econômicos para outros participantes – e consequentemente para o país inteiro – ser da “cachorrada” é outro título que recebeu na casa mais vigiada. “Adoro me divertir, ir para festas, consegui assumir verdadeiramente quem eu sou lá dentro, beijar quem quisesse, foi um processo de libertação”, conta. Mas quando perguntado sobre o seu maior sonho ainda não realizado – depois de tantas conquistas agora vividas, como quitar dívidas, ajudar familiares e estruturar a continuidade dos estudos – responde na lata: “Quero casar e adotar filhos, construir uma família, sinto falta de um amor verdadeiro, sou romântico”.

 

Foto: Thiago Bruno

Foto: Thiago Bruno

 

Vigorar é um processo

Natural de Jaboatão dos Guararapes, Região Metropolitana do Recife, Gil viveu em Recife e passou parte da juventude também em São Paulo. “Fui missionário na igreja, sou evangélico, e visitei muitos bairros paulistanos nessa época, como Jaçanã, além de passar por Osasco e Barueri’, lembra. Foi também na igreja que aprendeu a deixar a timidez de lado e ser voz ativa. “Até a adolescência não falava muito, ainda sou tímido. Mas quando fui convidado para fazer uma oração no púlpito, me soltei. Falei ‘aleluia’ bem alto, vi que contagiei todo mundo ali, todos riam.”

A fé é uma herança que traz de sua terra e de sua casa, além da força e da intensidade. Os cálculos ficam apenas para os momentos de estudo, porque no dia a dia é muita entrega e intuição. “O pernambucano é batalhador, não tem medo de se expor e falar a verdade, é isso que denomino como vigor, a vida não é calculada, é bom se entregar.”

Gil do Vigor completa 30 anos neste mês. E as batalhas dos últimos anos começam a dar muitos frutos. Hoje, ele é garoto propaganda requisitado por marcas de peso, como iogurtes Vigor, o banco Santander e o Boticário. O economista também está na TV e foi contratado pela Globo. “Se não fosse o BBB, eu não conseguiria realizar tantos sonhos, e o maior deles é ir para Davis, na Califórnia! Sem os trabalhos que estou fazendo agora, eu não conseguiria comprovar renda para ir para lá, já tinha feito empréstimos para a aplicação do PhD”, conta.

 

Foto: Thiago Bruno

Foto: Thiago Bruno

 

Orgulho sem medo

A coragem precisa ser compartilhada e nisso Gil acredita fielmente. Lançou o livro “Tem que vigorar!” – a obra está entre as mais vendidas na Amazon, na seção Memórias e Biografias de líderes e pessoas notáveis, desbancado até “Uma terra prometida”, do ex-presidente dos EUA, Barack Obama – em que conta seus momentos preferidos no BBB, sua infância com muitos desafios em Pernambuco e revela as dificuldades que passou na vida, como quando teve que morar na rua. “Quando penso em infância, não consigo me lembrar de nada muito feliz. Nada. Estão gravados em minha mente muitas brigas, problemas, dor, sofrimento e fome”. No livro, ele escreve que passava dias inteiros na escola, para fugir da realidade em casa, quando, muitas vezes, testemunhava a violência do pai contra sua mãe.

 

Livro "Tem que vigorar!", lançado após a saída de Gil do BBB21, em que ele conta sobre sua trajetória de aceitação e muitos estudos - Foto: Cauê Moreno | Globo Livros

Livro “Tem que vigorar!”, lançado após a saída de Gil do BBB21, em que ele conta sobre sua trajetória de aceitação e muitos estudos – Foto: Cauê Moreno | Globo Livros

 

Com depoimentos de Jacira, mãe de Gil, Xuxa Meneghel e Deborah Secco, seu primeiro livro traz também muitos momentos de alegria, a exemplo de como a educação o salvou e a descoberta da sexualidade e seu processo de autoconhecimento e aceitação. E ao aconselhar alguém que ainda precisa de apoio para viver suas verdades, Gil é enfático e empático: “Não dá para ter medo, temos que viver, rir e nos apaixonar, é uma dívida com a gente mesmo, é importante ter apoio, as realidades podem ser muito difíceis, mas precisamos dar a mão um para o outro, passar a coragem adiante. Eu diria simplesmente ‘confia, você é bravo e especial e o respeito é um direito, não é uma escolha’.”

 

Foto: Thiago Bruno

Foto: Thiago Bruno

 

Faria tudo de novo

Gil é o ex-BBB homem mais seguido nas redes sociais. No Instagram, conta com mais de 14 milhões de seguidores. O seu momento é definitivamente agora. “Quem não quer mudar de vida da noite para o dia? Eu ainda nem acredito que tudo isso está acontecendo comigo, Deus realmente escolhe os momentos certos para vivermos as coisas”, diz.

Mesmo após uma edição com muito amor e ódio, em que alguns participantes foram muito exaltados pelo público, como a vencedora Juliette, mas outros foram verdadeiramente cancelados, se chamassem Gil para voltar ao reality show, iria sem pestanejar. “Mas é claro, amiga! Somos muito respeitados lá dentro, a produção cuida muito bem de tudo, e é lá que me encontrei, as lições que tirei são sobre julgar menos e confiar nas nossas intuições, temos que ser felizes, assim teremos amor e aceitação.”

Desde que saiu do BBB, o economista tem uma rotina intensa de gravações, participações em muitos programas e produções de comerciais. A agenda é tão cheia que a entrevista para a capa desta edição foi feita por videochamada às 20h30, depois de um longo dia, mas Gil estava com sorriso no rosto. E, assim como o pernambucano acredita, depois das batalhas vêm as conquistas. Junto com a produção desta matéria, no final de junho, ele pôde finalmente curtir férias, foi para Fernando de Noronha com a família. “Regozijando, a vida é boa”, postou.

 

Foto: Thiago Bruno

Foto: Thiago Bruno

Dupla do vôlei de praia, Ágatha e Duda, conta como foi a preparação para as Olimpíadas de Tóquio

Dupla do vôlei de praia, Ágatha e Duda, conta como foi a preparação para as Olimpíadas de Tóquio

Favorita em Tóquio, a dupla do vôlei de praia Ágatha e Duda teve bons resultados em circuitos nacionais e mundiais e segue focada para trazer mais medalhas para o Brasil.

A sergipana Eduarda dos Santos Lisboa é uma atleta prodígio no vôlei de praia. Cinco anos depois de iniciar na modalidade, aos 9 anos, na escola de vôlei de sua mãe, a ex-jogadora Cida Lisboa, ela se tornou a primeira a disputar, em um mesmo ano, os campeonatos mundiais de base de três idades diferentes. Conquistou um título sub-19 e um vice-campeonato sub-23. E não parou por aí. Em 2019, aos 20, Duda – como ela é conhecida no esporte – tornou-se a atleta mais jovem a levantar o troféu de campeã do Circuito Mundial.

Mais ainda: foi eleita a melhor atleta do mundo do vôlei de praia naquele ano. “O fato de sua mãe ter sido jogadora e de Duda, desde pequena, acompanhá-la nos torneios fez com que ela naturalizasse a competição”, opina Ágatha Bednarczuk, sua atual parceira na praia. “Aquele glamour que as meninas enxergam quando começam a jogar etapas do circuito brasileiro ou do mundial, sempre foi minimizado por Duda, porque ela já estava acostumada ao ambiente.”

 

Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

 

Paranaense de 38 anos, Ágatha – que, ao lado de Duda, 22, forma a dupla de vôlei de praia brasileira com maior chance de medalha em Tóquio – é também jogadora de altíssimo nível e chega para a sua segunda edição olímpica como favorita por ter conquistado a medalha de prata nos Jogos do Rio de Janeiro. Em 2020, Ágatha e Duda venceram nove etapas do Circuito Brasileiro de vôlei de praia. Este ano, outras três em cinco finais que disputaram.

A seguir, a dupla formada em 2017 – líder do ranking do Circuito Brasileiro de Vôlei de Praia e primeira colocada do ranking de entrada do Circuito Mundial de Vôlei – abre o jogo, divide suas trajetórias e relata como foi a preparação em tempos de pandemia.

 

Ágatha e Duda chegam à final do Mundial em Cancún e levam a prata - Foto: Alejandro Gutiérrez Mora

Ágatha e Duda chegam à final do Mundial em Cancún e levam a prata – Foto: Alejandro Gutiérrez Mora

 

Como o vôlei de praia entrou na sua vida?

Ágatha: Iniciei no vôlei aos 5 anos, jogando na quadra. Eu e muitas garotas da minha geração somos atletas de quadra que migraram para a praia. Ainda mais porque sou do Sul, onde não havia centros de treinamento de praia, como encontramos facilmente no Rio de Janeiro e no Nordeste do Brasil. Eu me tornei atleta de vôlei de praia somente aos 18 anos. A Duda, por outro lado, já nasceu no esporte como atleta da praia. A mãe dela tem uma quadra de vôlei do lado da casa onde mora, em Aracaju, e foi técnica da Duda desde quando a filha era pequena. Muitas atletas já haviam jogado contra a mãe dela, que já brincava de vôlei com a Duda.

Você impressiona pelos títulos individuais e os que conquistou com a Ágatha. Foi eleita a melhor atleta do mundo, aos 20 anos. Como encara isso tudo?

Duda: Os feitos que conquistei vieram rapidamente. Eu não percebia a minha idade. Perdi, naturalmente, um pouco da minha juventude. Por exemplo, eu estudava à distância. Por outro lado, crescer no esporte era um desejo meu. Não fui forçada por ninguém. Tenho psicólogo, faço terapia e sempre respeitei as minhas limitações e o desenvolvimento do meu corpo. Assim, fui encarando as dificuldades e aprendi a andar com as próprias pernas. O esporte também acelera o nosso amadurecimento.

 

Ágatha no Circuito Mundial de Vôlei de Praia, em Cancún, neste ano.   - Foto: Alejandro Gutiérrez Mora

Ágatha no Circuito Mundial de Vôlei de Praia, em Cancún, neste ano. – Foto: Alejandro Gutiérrez Mora

 

Como você lidou com o cancelamento e, posteriormente, o adiamento dos Jogos Olímpicos?

Ágatha: Foi impactante, primeiramente. Imaginava que aconteceria o adiamento, porque muitos eventos seguiam esse curso. Mas eu sou uma atleta que procura sempre o lado positivo das coisas. Passamos a procurar soluções para o time ficar melhor com um ano a mais pela frente de preparação. Eu e a Duda ficamos longe uma da outra durante três meses e voltamos a trabalhar juntas em junho de 2020. Foram surgindo um torneio, em setembro, na Holanda, o Circuito Brasileiro e, neste ano, o internacional. A pandemia veio para que a gente enxergasse o hoje. Não dava mais para fazer planos. Tiramos o foco da Olimpíada. Isso fez com que a gente não sentisse tanta ansiedade. Funcionou. Jogamos oito torneios, vencemos seis e ficamos com a prata em outros dois.

O fato de ser sua primeira Olimpíada e o torneio ser realizado em Tóquio exige de vocês uma atenção especial?

Duda: Jogamos em Tóquio, em 2019. Era um torneio que serviu de ensaio de como será a Olimpíada. Fomos campeãs. Deu para perceber o clima, que é muito seco e varia muito. Ou seja, vamos precisar nos hidratar o tempo todo. E o fuso é complicado também. Mas chegaremos doze dias antes do início do torneio. Teremos, portanto, um bom tempo de aclimatação. Os japoneses aproveitam muito o dia, são educados e sempre querem saber se estamos bem, se precisamos de alguma ajuda. Sobre os times adversários, o nosso esporte está muito pareio e é difícil apontar qual dupla será mais complicada para nós.

 

Duda no Circuito Mundial de Vôlei de Praia, em Cancún, neste ano. - Foto:  Alejandro Gutiérrez Mora

Duda no Circuito Mundial de Vôlei de Praia, em Cancún, neste ano. – Foto: Alejandro Gutiérrez Mora

 

Sua estreia em Olimpíada foi no Brasil, em 2016. Como foi debutar em casa?

Ágatha: Eu não tirava o sorriso do rosto. Quando estou emocionada, recorro à risada e não ao choro, na maioria das vezes. Fomos para a Vila Brasileira que ficava na Urca, mais próxima da Arena onde competíamos, em Copacabana. Chegamos nela três dias antes do início dos Jogos e eu queria conhecer todos os cantinhos da Vila. O primeiro momento de que lembro foi saindo da minha casa, em direção ao Comitê Olímpico para receber os uniformes. Foi muito emocionante provar os uniformes, pegar a mala… estava acontecendo! Eu sorria de felicidade.

Olimpíada é algo tão especial que, por exemplo, o nadador norte-americano Michael Phelps treinou, literalmente, todos os dias durante quatro anos para chegar à Olimpíada de Pequim, em 2008, e fazer história. Tornou-se o recordista de medalhas de ouro (oito) em uma única edição.

Ágatha: Eu li sobre essa história do Phelps. Muitas vezes, a gente tem essa dedicação sem mesmo saber se irá à Olimpíada. Eu e a Duda fechamos parceria em janeiro de 2017. As pessoas imaginam, mas, de verdade, não têm ideia o que é um ciclo olímpico, não têm clareza sobre o tanto de abdicações que uma atleta encara. A nossa família sabe, porque perde o convívio conosco. É muita renúncia em relação à vida social, ao convívio com muitas pessoas, a viajar com amigos… Pode esquecer tudo isso! Casamentos, aniversários: a mesma coisa. Ainda bem que o preparador físico da nossa equipe é o meu marido (risos).

 

Ágatha no Circuito Mundial de Vôlei de Praia, em Cancún. - Foto: Duda no Circuito Mundial de Vôlei de Praia, em Cancún, neste ano. - Foto:  Alejandro Gutiérrez Mora

Ágatha no Circuito Mundial de Vôlei de Praia, em Cancún. – Foto: Duda no Circuito Mundial de Vôlei de Praia, em Cancún, neste ano. – Foto: Alejandro Gutiérrez Mora

 

O que é peculiar em nosso jeito de jogar vôlei de praia? Como o Brasil se define nessa modalidade?

Ágatha: Ter um país com um litoral extenso ajuda muito. A temperatura faz com que a gente possa praticar o esporte o ano inteiro. Temos um número grande de atletas e assim fica mais fácil de colher frutos para o alto rendimento. Os gringos, no inverno, ou treinam em quadras construídas em lugares fechados, ou viajam para outro lugar para treinar. Treinar em quadra fechada representa uma perda na preparação. E nós sempre contamos com muitos bons profissionais. Nossos técnicos seguem como referência no mundo. Exportamos técnicos mundo afora, hoje em dia. Também contribui o fato de a gente desfrutar há muitos anos de um circuito nacional de vôlei de praia. Isso faz com que a gente jogue o ano inteiro, algo que os gringos não possuem. Lá fora, isso só acontece no verão. Mas é algo que está mudando. Os países de fora estão mais preparados, importando os nossos técnicos, o que faz com que eles entendam mais sobre a modalidade. Os atletas estão mais altos e fortes. Ou seja, é sinal de alerta.

Muita gente cita a sua maturidade, apesar dos 22 anos, como uma característica importante para a sua carreira.

Duda: Eu sempre fui muito apegada a minha família. Prezo muito por isso. Como comecei muito nova no vôlei, logo passei a enxergar a vida como uma pessoa adulta, que já viajava, tinha responsabilidades. Eu amadureci muito. Sinto, logicamente, falta da minha família. Também namoro à distância. E isso tudo, então, dificulta um pouco. Por mais que o Rio de Janeiro, onde moro e treino, seja lindo, sigo muito caseira. Como vim do interior, onde sempre ficava com a minha mãe dentro de casa, continuei assim. Hoje, de tardezinha, tirei um cochilo e pela primeira vez sonhei que eu estava jogando a Olimpíada. No sonho, eu entrava na quadra, era em Tóquio, e tinha público na arquibancada. Aleluia!

Qual é a grande qualidade da Ágatha, sua parceira?

Duda: Ela tem várias. Mas citarei o comprometimento, a dedicação e o foco.

 

Duda no Circuito Mundial de Vôlei de Praia, em Cancún. - Foto: Duda no Circuito Mundial de Vôlei de Praia, em Cancún, neste ano. - Foto:  Alejandro Gutiérrez Mora

Duda no Circuito Mundial de Vôlei de Praia, em Cancún. – Foto: Duda no Circuito Mundial de Vôlei de Praia, em Cancún, neste ano. – Foto: Alejandro Gutiérrez Mora

 

Você tem um projeto de vôlei em Paranaguá, no Paraná. Como surgiu a ideia?

Ágatha: Criei o projeto em 2008, é um centro de treinamento de esportes de areia. Nunca cobramos nada das crianças. Firmamos parcerias com o governo municipal e empresas da cidade. No começo, só ensinávamos vôlei de praia para crianças e adolescentes de 7 a 17 anos. Hoje, também ministramos treinamento funcional para adultos. A ideia, agora, é envolver a família inteira. Fazemos eventos durante o ano inteiro, pensando, principalmente, no que é importante para o crescimento das crianças, como levá-las ao cinema. Mais de 8 mil crianças e adolescentes já passaram por lá.

Onde você exibiria uma possível medalha olímpica?

Duda: Como moro de aluguel no Rio de Janeiro, queria ter um espaço em uma propriedade minha para exibir a medalha, seja qual for. Hoje, deixo com o meu pai, que guarda todos os meus prêmios no meu quarto, em Sergipe.

Onde está a sua medalha de prata olímpica? Como lida com a possibilidade real de ganhar o ouro dessa vez?

Ágatha: A prata está emoldurada em um quadro e fica exposta na parede do escritório de casa. Antigamente, eu a guardava em uma caixinha dentro do armário por medo de perdê-la. Mas aí o meu marido insistiu para deixá-la exposta na parede. E concordei. O nosso time, hoje, tem expectativa grande para essa Olimpíada. Mas para conquistar uma medalha, temos de chegar lá no nosso melhor. Se vier o ouro – enfim, a cor que for –, a medalha de Tóquio ganhará um lugar, em casa, ao lado da prata dos Jogos do Rio de Janeiro.

 

Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

Revista Online: Edição 138 – SP

Revista Online: Edição 138 – SP

Revista Online: Edição 138 – RJ

Revista Online: Edição 138 – RJ

Leticia Bufoni, representante do skate nas Olimpíadas, fala sobre o espaço das mulheres no esporte

Leticia Bufoni, representante do skate nas Olimpíadas, fala sobre o espaço das mulheres no esporte

Recordista do circuito mundial de skate, Leticia Bufoni estreia a categoria na Olimpíada de Tóquio e é a grande aposta do Brasil na modalidade.

Leticia Bufoni sempre soube muito bem quem era e o que queria. Nascida em Vila Matilde, na zona leste de São Paulo, foi a primeira menina da vizinhança a substituir as bonecas pelas manobras de skate. “Moleca”, crescida entre os meninos nas calçadas paulistanas, teve que ralar e se ralar muito para confrontar o machismo que até hoje predomina no esporte e se firmar entre os maiores nomes do circuito mundial.

 

Foto: Atiba Jefferson | Red Bull

Foto: Atiba Jefferson | Red Bull

 

Skatista profissional desde os quatorze anos de idade, quando foi convidada a ir para os Estados Unidos para competir, pela primeira vez, no X-Games (torneio conhecido como as “Olímpiadas dos esportes radicais”), Leticia se tornou um símbolo da luta feminina no esporte. Seja pelo cabelo rosa – que, mais do que sua marca registrada, virou carimbo da presença das mulheres na modalidade –, seja pelo prestígio ao redor do mundo. E não é à toa que ela é considerada uma das maiores da história: aos 28 anos, Leticia ocupa o quarto lugar no ranking de melhores do globo e tem seu nome estampado no Guinness World of Records, como maior campeã do circuito mundial – são onze medalhas ao todo, conquistadas ao longo de nove anos de competições.

Para completar a já extensa coleção de conquistas, a skatista se prepara para tentar o ouro olímpico em Tóquio. Pela primeira vez, o skate integrará a lista de modalidades dos Jogos. Neste ano, as competições ainda não rendem medalhas oficiais, mas a paulistana já é a grande aposta brasileira na categoria.

Em entrevista para a 29HORAS, Leticia Bufoni reflete sobre sua trajetória profissional, comemora a “invasão feminina” na modalidade e fala sobre suas expectativas para a Olimpíada de Tóquio.

 

A paulistana treinando em pistas em Los Angeles, nos EUA - Foto: Steven Lippman | Red Bull

A paulistana treinando em pistas em Los Angeles, nos EUA – Foto: Steven Lippman | Red Bull

 

Você tem lembrança do dia em que subiu em um skate pela primeira vez? Como e quando foi?

Minha relação com o skate é tão intensa e íntima que, inclusive, tenho a sensação de que essa paixão sempre foi parte de mim. É difícil lembrar de um momento em que isso não era parte do meu estilo de vida. Mas posso dizer que as primeiras lembranças que eu tenho do esporte são de meus amigos do bairro manobrando e eu ali, assistindo. Eu, na verdade, era a menina da bola, queria ser jogadora de futebol. Mas, chegou a era do skate, todos os meus amigos compraram um e me deixaram jogando bola sozinha. Foi aí que decidi entrar na onda também, só para não perder a brincadeira, e acabei ficando melhor que eles. Foi amor à primeira manobra.

Naquela época, você já imaginava que o skate faria parte do seu futuro profissional?

Eu nunca imaginei que o skate pudesse ser uma profissão. Naquela época, não tinha YouTube, Facebook e, muito menos, acesso a informações sobre o esporte. O que eu via era o que passava, muito de vez em quando, na televisão. Minhas primeiras referências foram o Bob Burnquist e o Sandro Dias, mas até então não tinha visto nenhuma mulher no esporte, em quem pudesse me inspirar ou que me instigasse a me imaginar trabalhando nisso um dia.

O skate não costuma ser um esporte usual para despertar a paixão de uma criança – não como o futebol, ou o vôlei, por exemplo. Como foi a reação da sua família quando você começou a pensar em seguir essa carreira?

No começo foi bem difícil. Meu pai não gostava nem um pouco da ideia e me proibia de andar. Ele ficava muito incomodado, porque eu era a única menina do bairro “fazendo coisa de menino”. Teve um dia que ele ficou tão irritado que pegou uma serra e cortou meu skate ao meio. Eu chorei por horas, mas no dia seguinte consegui um shape (prancha de madeira) emprestado e rodinhas, e montei um skate novo. Depois disso ele percebeu que não tinha como me separar do esporte, e virou meu maior apoiador. Foi ele quem me acompanhou na minha primeira competição internacional, em 2007.

 

Letícia Bufoni conquista o segundo lugar no Street League de Skate, realizado no Parque Olímpico da Barra, no Rio de Janeiro, em 2019 - Foto: Breno Barros | rededoesporte.gov.br

Letícia Bufoni conquista o segundo lugar no Street League de Skate, realizado no Parque Olímpico da Barra, no Rio de Janeiro, em 2019 – Foto: Breno Barros | rededoesporte.gov.br

 

O skate ainda é um esporte majoritariamente masculino? Ou a participação das mulheres já avançou nessa modalidade? Você, de certa forma, foi uma pioneira…

O skate feminino tem crescido muito nos últimos anos, e sou muito grata em saber que contribuí para isso. Não fui a primeira mulher a me arriscar na modalidade, muitas outras vieram antes de mim, mas eu sei que a minha presença foi importante nesse movimento. A primeira vez que eu vi mulheres competindo foi em um DVD, que ganhei de um amigo meu. Era um compilado de várias manobras incríveis feitas por mulheres. De todas que apareciam no vídeo, só uma era brasileira. Foi justamente ela, a Tatiane Marques, que virou minha inspiração. É importante ver pessoas como você alcançando coisas grandes e eu fico muito feliz por ter virado esse tipo de inspiração para muitas outras meninas.

Neste ano, você completa metade da sua vida morando nos EUA. Como é manter o espírito brasileiro morando fora do país?

Eu amo Los Angeles e não pretendo me mudar daqui tão cedo. Mas, por mais que eu more aqui há muito tempo, a minha alma é sempre brasileira. A Califórnia é a minha base agora, mas a Vila Matilde é minha raiz. Minha família inteira ainda está no Brasil, e ela me traz a memória de onde eu vim. Além disso, é muito reconfortante poder viajar com a seleção e estar em contato direto com pessoas que fazem um trabalho tão lindo no esporte, levantando a bandeira da minha origem. Competir pelo Brasil é, com certeza, uma forma de me sentir sempre em casa.

Você se divide entre treinar em pistas brasileiras e competir em Los Angeles. Como é a relação do Brasil com o skate? É diferente ser skatista no Brasil e no exterior? O que muda?

Essa diferença já foi muito mais gritante. Hoje em dia, o Brasil tem mudado bastante a forma de enxergar o esporte. Mas, ainda assim, aqui nos Estados Unidos é muito mais fácil encontrar pistas públicas, patrocínio e apoio. Eu penso que, se eu não tivesse me mudado para Los Angeles, talvez eu não estivesse ainda trabalhando com skate, seria muito mais difícil levar esse sonho adiante. Todas as competições ainda são no exterior e, aqui, o skate aparece muito mais na mídia. No Brasil, falta muito investimento em estrutura, temos poucas pistas e, mesmo as que existem, não têm qualidade suficiente para abrigar competições.

 

Foto: Atiba Jefferson | Red Bull

Foto: Atiba Jefferson | Red Bull

 

Esta é a 33ª edição dos Jogos Olímpicos e a primeira vez que o skate entra como modalidade oficial. Por que demorou tanto para que o skate fosse formalizado como um esporte olímpico, na sua opinião?

Já faz quase quinze anos que o Comitê Olímpico planeja colocar o skate na lista olímpica, mas nunca acontecia. Acho que essa demora se deve muito ao fato de que o skate não tinha, até então, uma federação que representasse internacionalmente o esporte ou um circuito mundial consolidado, como acontece com o surfe ou o futebol. Nós tínhamos grandes prêmios mundiais, mas todas essas competições eram independentes e não se organizavam em um circuito grande e sólido. Por isso acredito que demorou tanto para nossa reivindicação ser ouvida. Mas eu penso que esse é o momento certo para começar. Hoje temos competidores muito fortes e experientes, e muito mais mulheres no esporte.

Você é recordista no X-Games, é veterana das competições internacionais e agora estreará nas Olimpíadas. Depois de tantas vitórias no esporte, o que você espera sentir de novidade nos Jogos de Tóquio?

Tóquio vai ser uma experiência única. Sinto que vai ser um marco para a história do skate, que ainda é visto como um esporte marginal e menor por muita gente ao redor do mundo. Além disso, essa vai ser a primeira vez que vou ter uma nação inteira me assistindo e torcendo por mim.

E podemos esperá-la em Paris em 2024?

Com certeza! Quero passar por pelo menos mais uma experiência olímpica, dessa vez valendo ouro e pódio. Acho que seria um jeito lindo de fechar minha carreira. E, bom, talvez eu esteja um pouco velha para isso, com 35 anos, mas em 2028 o plano é que os Jogos ocorram em Los Angeles. Já estarei por aqui… Quem sabe eu não vou para mais uma?

 

Foto: Atiba Jefferson | Red Bull

Foto: Atiba Jefferson | Red Bull