Bandas Bala Desejo e os Gilsons retomam a nostalgia da MPB do século passado

Bandas Bala Desejo e os Gilsons retomam a nostalgia da MPB do século passado

A paz e o amor, lema cantado e difundido no mundo e no Brasil afora no século passado, volta repaginado em bandas e produções nacionais que são pura poesia

O outono já invade os dias e as nossas vidas. Isso quer dizer que as praias estão lindas e desertas, esperando por nós, como na música “As Praias Desertas”, de Tom Jobim. Ao mesmo tempo, sabemos que a vida segue com suas dificuldades habituais e que a liberdade de estar no mar e na folia com os amigos não é para toda hora. O mundo vive simultaneamente uma pandemia e algumas guerras. E que saudade que dá do nosso amor na paz, não é? Já ressoa aos ouvidos “A Paz”, de João Donato e Gilberto Gil.

Lembro do movimento hippie paz e amor contra a guerra do Vietnã, lembro de Ella Fitzgerald cantando “Let’s Do It” de Cole Porter (“Vamos Amar”, na versão de Carlos Rennó com Elza Soares). E recordo dos nossos anos 1960 e 1970 com as maravilhas cantadas por Gal Costa, Luiz Melodia, Marina Lima. Plena ditadura e a música sempre indicando a saída. Ou pelo menos fazendo mais fácil existir.

Nesse verão de 2022 vimos duas bandas muito jovens com o espírito odara enchendo praias e teatros pelo Brasil. Sim, praias! Vejam que delícia. Bala Desejo (foto) é um quarteto formado meio sem querer no princípio da quarentena. Foram morar juntos Julia Vargas, Zé Ibarra, Dora Morelenbaum e Lucas Nunes. Fizeram lives da escadaria do prédio, compuseram, tocaram e, agora, espalham esse amor por aí. O primeiro trabalho já está nas plataformas e é uma delícia. Nas fotos parece que estamos vendo os doces bárbaros do século 21, cariocas, jovens, talentosos e livres – ou, ao menos, pregando a liberdade, a paz e o amor.

 

Banda Bala Desejo | Foto Divulgação

Banda Bala Desejo | Foto Divulgação

 

A outra banda, ainda que não more junto, convive desde o berço. São os Gilsons. Nome dado por Preta Gil para juntar o som e os três meninos de mesmo sobrenome: José, João e Francisco. O álbum “Pra Gente Acordar” é um tremendo sucesso e a agenda está lotada até o próximo semestre. Como a Bala Desejo, o repertório é autoral e a plateia canta tudo.

Fico com a impressão de que é esse desejo de ar que traz a nostalgia da liberdade, a vontade de cantar o amor geral em um acorde perfeito maior. A arte salva, regenera, nutre e cura.

E Gal Costa, musa desses anos incríveis, das dunas do barato, a maior cantora do Brasil para João Gilberto e Torquato Neto, está virando filme. Parte de sua história, da chegada ao Rio até o histórico e fundamental “Fa-Tal” (dirigido pelo também fundamental Waly Salomão) ganhou roteiro de Lô Politi. Fiquei encantada quando li. Estou louca para ver o longa! Lô divide a direção com Dandara Ferreira, que já fez um documentário incrível sobre Gal. Sophie Charlotte, que canta lindamente, aliás, é nossa personagem principal. “Nossa” porque Gal é patrimônio, certo? Já soube que as filmagens reproduzem o clima da época, inclusive nos bastidores.

Será que é um sinal de que a nostalgia vai trazer de volta a paz e o amor para esses nossos tempos brutos? Tomara! Porque eu prefiro mesmo é dançar para ficar odara e dizer que sou amor da cabeça aos pés. Como dizem por aí, vamos fazer poesia! Porque eles detestam…

Ouça a playlist by Patrícia Palumbo no 29HORAS Play e relembre o século passado: Clique aqui!

Atriz Laila Garin reverencia sua brasilidade em “A Hora da Estrela”, musical inspirado na obra de Clarice Lispector

Atriz Laila Garin reverencia sua brasilidade em “A Hora da Estrela”, musical inspirado na obra de Clarice Lispector

Metade baiana, metade francesa, Laila agora experimenta o frescor do desconhecido no musical com direção de Marcelo Caldi e trilha sonora de Chico César

Sobre um palco à meia luz, a atriz Laila Garin conta, nas palavras dela, “a história dos invisíveis”. Após quase 30 anos de carreira vivendo personagens ilustres nos palcos e nas telas – de Elis Regina a Edith Piaf, nas séries “Elis, A Musical” e “Hebe” –, ela agora experimenta o frescor do desconhecido no musical “A Hora da Estrela”. Com direção de Marcelo Caldi, trilha sonora de Chico César e enredo inspirado na obra homônima de Clarice Lispector, a peça narra a trajetória da migrante alagoana Macabéa, quando exposta a um Rio de Janeiro cruel e preconceituoso.

“Este é um canto que poderia ser meu, de minha mãe e de tantas outras nordestinas que caminham por aqui, despercebidas”, reflete a multiartista que, filha de mãe baiana e pai francês, revela ter emprestado muito desse seu DNA híbrido à personagem. “Eu me sinto, na mesma proporção, solar como a Bahia e melancólica como os dias na França. E Macabéa é exatamente isso: o equilíbrio singelo entre o penar e o sorrir.”

 

Laila Garin | Foto Nana Moraes

Laila Garin | Foto Nana Moraes

 

Na voz de Laila, essa tragédia clariceana ganha a musicalidade do samba, do xote, do rock e do maracatu, e extravasa dos palcos às plataformas digitais no álbum “O Canto de Macabéa”, lançado em março deste ano e já com mais de 50 mil visualizações no YouTube. “O sonho é, no futuro, transformar o CD em show ao vivo e percorrer o Brasil em turnê duo com o gênio e compositor da peça, Chico César.”

Neste mês, Laila viaja, na pele de Macabéa, em curtíssima temporada pelo sul e sudeste do país. “Vamos passar por Porto Alegre nos dias 14 e 15 de maio, e, depois, seguimos para apresentações únicas nas cidades de Taquara (RS), Belo Horizonte e Florianópolis. A ideia é espalhar essa joia literária que Clarice colocou em nossas mãos e que diz tanto sobre empatia e amor, ensinamentos tão necessários nestes tempos de intolerância.”

Casa Rockambole inaugura espaço híbrido no antigo e tradicional Centro Cultural Rio Verde

Casa Rockambole inaugura espaço híbrido no antigo e tradicional Centro Cultural Rio Verde

Com bar, estúdio de gravação e casa de shows, selo musical Rockambole abre espaço multicultural na Vila Madalena

Muito além de um clássico reduto para a boemia paulistana, a Vila Madalena tem se firmado como um dos principais points artísticos da cidade. Exemplo desse florescer cultural é a recém-inaugurada Casa Rockambole, um mix de casa de shows, bar e estúdio, instalado no número 119 da rua Belmiro Braga. Com programação eclética e ambientes versáteis, o espaço herda o imóvel que, por 14 anos, abrigou o tradicional Centro Cultural Rio Verde, conhecido por servir de palco para estrelas como Arnaldo Antunes e Nando Reis.

“Quando assumimos a casa, optamos por manter toda a estrutura original intacta, queríamos preservar a história desse centro que foi referência na noite paulistana”, conta o empresário e produtor Gabriel Dantas, que, ao lado dos sócios Fernando Cescon, Luiza Gonçalves, Ygor Alexis e Felipe Machado, tomou a frente do espaço em março de 2022 e o transformou em sede oficial do selo musical assinado pelo grupo.

 

Sócios Fernando Cescon, Luiza Gonçalves, Ygor Alexis e Felipe Machado | Foto Yvã Santos

Sócios Fernando Cescon, Luiza Gonçalves, Ygor Alexis e Felipe Machado | Foto Yvã Santos

 

Em maio, além de apresentações ao vivo das bandas assessoradas pelo núcleo – entre elas, O Grilo, Dingo Bells e Pluma –, a casa recebe artistas independentes de fora do selo e abriga, no dia 7, a Festa Punga!, com sets ao vivo dos DJs Minizu, Beans, Kler Milo, Nyack e Fábio Lafa a partir das 18h. “No futuro, o plano é receber, também, workshops de produção musical, rodas de conversa com profissionais da área e festivais de rock, samba e R&B.”

Para além do salão principal, com capacidade para acomodar 500 pessoas, a casa Rockambole conta ainda com um terraço com fumódromo, um jardim de inverno, um coreto para apresentações mais intimistas e um bar com drinques e petiscos, que fica aberto de quarta a domingo, mesmo em dias sem shows marcados.

Às vésperas de completar 80 anos, Gilberto Gil, celebra a música e a família com shows do Festival MITA

Às vésperas de completar 80 anos, Gilberto Gil, celebra a música e a família com shows do Festival MITA

Gilberto Gil está tendo um 2022 agitado, com as celebrações dos seus 80 anos, sua chegada à Academia Brasileira de Letras, shows nos festivais MITA e Rock in Rio, e uma nova turnê pela Europa, tocando e cantando acompanhado por seus filhos e netos

Começou a circular o expresso 2022! No mês que vem, mais precisamente no dia 26 de junho, Gilberto Gil completa 80 anos de vida. E as celebrações desse marco começam neste mês, com a participação desse gênio tropicalista no festival MITA (Music Is The Answer), que acontece nos dias 14 e 15 na Spark Arena, em São Paulo, e nos dias 21 e 22 no Jockey Club do Rio.

Após passar a maior parte da quarentena isolado com sua família em Araras, no interior do estado do Rio, o cantor e compositor se apresenta num esquema “Refamília”, cercado por sua prole: ele será acompanhado pelos filhos Bem Gil (guitarra e voz) e José Gil (bateria e percussão), e pelos netos João (guitarra) e Flor (teclados e vocais).

 

Divulgação | FernandoYoung;

Divulgação | FernandoYoung;

 

Com mais de 60 álbuns, 7 Grammys, quase 4 milhões de discos e CDs vendidos e uma carreira que extrapola a música – com sua atuação como Ministro da Cultura, como embaixador da Boa Vontade das Nações Unidas e como Artista da Paz da Unesco – Gil é um patrimônio nacional. E, grande letrista que é, tornou-se um imortal, ao assumir em abril a cadeira nº 20 da Academia Brasileira de Letras.

Dono de uma poética melodiosa e nem tão esotérica assim, em seu discurso na cerimônia de posse, Gil aproveitou para mandar um recado direto para uma certa pessoa nefasta. “A Academia Brasileira de Letras é a Casa da Palavra e da Memória Cultural do Brasil. E tem uma responsabilidade grande no sentido de fortalecer uma imagem intelectual do país que se imponha à maré do obscurantismo, da ignorância e da demagogia de feição antidemocrática. Poucas vezes na nossa história republicana o escritor, o artista, o produtor de cultura, foram tão hostilizados e depreciados como agora. Apesar dos tempos politicamente sombrios que vivemos, aposto na esperança. Contra a treva física e moral, que haja ao menos a chama de uma vela, até chegarmos a toda luz do luar. Permitam-me recordar: ‘Se a noite inventa a escuridão, a luz inventa o luar’. Essa é nossa aposta, na vida e na alegria”, disse.

 

Gilberto Gil - Foto Divulgação | Marcelo Hallit

Gilberto Gil – Foto Divulgação | Marcelo Hallit

 

Nesta entrevista que concedeu à 29HORAS, Gil fala de família, do “novo normal” e de paz. Confira a seguir os principais trechos dessa conversa:

 

Como será seu show no MITA Festival? O que podemos esperar dessas suas apresentações em São Paulo e no Rio?
O repertório do show é o que vem da turnê Gil in Concert, que fizemos na Europa no final de 2021. Tem umas duas músicas lá de trás, do meu primeiro LP, tem alguma coisa da época que voltei do exílio e outros sucessos de 1980 prá cá. É um repertório, do ponto de vista de fases, abrangendo mais ou menos três dessas quatro épocas da minha carreira.

 

Como vem sendo trabalhar em parceria com seus filhos nos palcos?
O primeiro filho que veio para o palco comigo foi Nara, fazendo backing vocal lá atrás, nos anos 1980. De lá prá cá, teve o Pedro, como baterista, num período curto até 1990, quando ele morreu. Depois vieram Bem e José: Bem numa função como músico integrante da banda e cuidando, ajudando na escolha de repertório, criando arranjos, arregimentando colegas para tocar conosco; e José, que herdou um pouco de Pedro a vocação para bateria e percussão. Recentemente, veio a Flor, uma neta, e depois o João, um neto, que se juntaram a nós. Esses têm sido os familiares que têm compartilhado comigo vários momentos de shows e de gravações nesses últimos tempos. É sempre gostoso trabalhar em família.

 

O cantor ao lado de seus filhos (Bem e José) e neto (João) - foto divulgação | Fernando Young

O cantor ao lado de seus filhos (Bem e José) e neto (João) – foto divulgação | Fernando Young

 

E como você enxerga o futuro de sua neta, a Flor, que tem apenas 13 anos, mas recentemente fez um show aqui em São Paulo? Podemos dizer que estamos acompanhando o surgimento de uma nova estrela?
É bem possível que sim, pois ela é multitalentosa, tem vários interesses no mundo das artes, em variadas manifestações. Ela gosta de cinema, de televisão, de novas mídias, da internet, das redes sociais. E um material muito bom, pois ela tem uma bela voz, tem talento no sentido de compreensão dos ingredientes que fazem a música, como ritmo, harmonia, e tem muito interesse em instrumentos – começou com o ukulelê, depois veio o teclado e agora está gostando do baixo. É possível que ela fique na música. Ela tem facilidade de cantar em outros idiomas (ela já cantou em italiano e inglês comigo). Enfim, na medida que ela sustente o interesse por música, porque pode ser que ela vá se concentrar em outro aspecto artístico, acho que a música vai ficar sempre com ela, que vai desenvolver um trabalho musical relevante à altura do talento e do gosto que ela tem por música.

 

Gilberto Gil no palco com a neta Flor Gil - foto divulgação | Rita Carmo

Gilberto Gil no palco com a neta Flor Gil – foto divulgação | Rita Carmo

 

O que faz bem para os seus ouvidos? Recentemente, você se apresentou com o pessoal do Baiana System. Quais intérpretes e bandas das novas gerações você tem ouvido e acompanhado com especial atenção?
Eu tenho um modo de audição de música que não é muito seletivo, pois hoje temos música espalhada por todos os ambientes, desde a casa até os outros lugares aonde vamos, como casas de show, restaurantes e lugares do entretenimento. Esse repertório é muito variado desde a produção da minha própria geração (Gal, Caetano, Chico, Elis, Milton, Djavan), passando pelos pops todos (Lulu Santos, Cazuza), as bandas de rock dos anos 1980 (como Titãs, Paralamas), toda a coisa do reggae. E tem essa turma nova – a Preta, a Iza, a Larissa Luz, a Ludmilla, a Anitta – que faz essa junção de vários estilos, mas se concentra mais no hip-hop. A variedade é muito grande. E tem ainda o Baiana System, com quem me apresentei há dois anos. Acompanho também com interesse os rappers todos, como Emicida, Criolo – que é outra mistura também – e os Gilsons!

 

Nos anos 1970-1980, você REvolucionou a música brasileira com obras-primas como “Refazenda”, “Refavela”, “Realce” e “Refestança”, fazendo um maravilhoso mix de ritmos brasileiros com uma pegada globalizada e bem dosadas pitadas de pop, rock e reggae. Você considera que esse período foi o auge da sua produção musical?
Acho que é, sim, a fase mais interessante, mais importante do meu trabalho. Foi um período de intenso trabalho, de aproveitamento de muitas referências que eu tinha tido ao longo dos anos, desde as coisas iniciais como a da Bossa Nova, da música tradicional brasileira dos anos 30/40/50, a influência da música que veio de fora, a música americana, a música caribenha. Enfim, os álbuns foram surgindo em função desses referenciais. Em sequência, vieram “Refazenda”, “Realce”, “Banda Um”, “Extra”, “Raça Humana” – foi o momento em que todos esses ingredientes da coisa original brasileira, da coisa internacional, do pop, do rock, do reggae – tudo isso se funde numa produção muito grande e a maioria das canções vão para os discos e chegam até o público e estabelecem esse lugar, essa impressão que o meu trabalho acaba causando junto ao público.

 

Foto divulgação | Tatiana Valença

Foto divulgação | Tatiana Valença

 

Este ano, outro álbum seminal de sua lavra, “Expresso 2222”, completa 50 anos. Está programada alguma celebração para festejar esse marco?
Ouvi falar do desejo de todos que me cercam em fazer uma celebração. Tem interesse da [gravadora] Universal em fazer uma caixa sobre os 50 anos do “Expresso 2222”. É uma data cheia e vamos marcar esse trabalho: já celebramos os 40 anos do “Refavela” e agora os 50 do “Expresso”. Foi o disco que marcou a volta do exílio, pós-Tropicalista. Há um desejo natural de marcar o aniversário desses trabalhos.

 

Por falar em aniversário, agora em junho você completa 80 anos. Como será a celebração? Como você se sente, às vésperas de ser um octagenário?
Como eu disse recentemente, em uma entrevista ao “Jornal Nacional”, minha alma ainda cheira a talco quando subo ao palco, como um bumbum de bebê. 80 anos é uma idade cheia, 8.0! Precisa ser celebrada, como os aniversários de “Expresso 222” e “Refavela”. As comemorações incluem uma nova turnê internacional, um show-homenagem no Rock in Rio e o lançamento de uma série-documentário dirigida por Andrucha Waddington, que em breve será exibida no streaming, pela Amazon Prime Video.

 

Mudando de assunto, há três anos você imaginava que o mundo e nossas vidas fossem paralisados por uma pandemia? Na sua opinião, qual a mudança mais importante que estamos vivenciando por causa da Covid: qual a maior diferença entre o “velho normal” e o “novo normal”?
A pandemia trouxe impactos muito fortes nas condições psíquicas de cada um de nós. Em nós, todos os receios, os medos, foram intensificados. Veio o medo de adoecer, de morrer, de inviabilizar uma vida plena saudável. O trabalho foi muito impactado – nós todos tivemos que nos confinar em nossas casas. O convívio amplo social ficou praticamente impedido durante quase dois anos. Só depois das vacinas a gente conseguiu voltar a um convívio restrito. Agora a gente começa a vislumbrar um retorno, mas já contaminado por todas as novidades a que fomos obrigados a ter nesses últimos anos. Aos poucos vamos voltando a uma vida normal, mas que não é mais o mesmo normal. Toda a vida online – a intensificação das redes sociais, a chegada muito forte das transmissões online com formação de plateias domésticas tendo acesso a shows, peças de teatro – muito disso vai desaparecer quando voltarmos ao normal, que não vai ser o normal que conhecíamos, mas um “novo”. Muitas dessas experiências vivenciadas durante a pandemia vão desaparecer, mas muitas vão ficar, e as que ficam vão estimular novas revisões no modo de tratar o consumo de arte, de cultura, convívio, elevando essas experiências a novos patamares.

 

Gilberto Gil - Foto divulgação - Cris Almeida

Gilberto Gil – Foto divulgação – Cris Almeida

 

Você sempre foi um entusiasta da internet e da conectividade entre as pessoas, mas ultimamente reviu alguns de seus conceitos. Vi até você dizer que “a internet virou um pandemônio, um estímulo a esse narcisismo individualista que se desdobra em política de ódio”. Como salvar a internet e fazer dela um instrumento do bem?
Quem vai fazer essa mudança é o tempo e o uso mais exaustivo da internet. Na medida em que o homem vá se acomodando a um desejo mais nítido de uma inclinação para o bem, na medida que ele vá se livrando das coisas do mal e vá se afeiçoando mais aos modos benignos de estar na vida. Cada vez mais compartilhador, mais gregário. É isso que vai fazer com que a internet melhore. Se o ser humano não melhorar, a internet não melhora.

 

Você considera a canção “A Paz”, que você compôs com João Donato em 1986, como um hino atual nesses novos tempos de guerra, com líderes políticos tentando novamente estabelecer impérios e usando exércitos para expandir seus domínios?
Essa é a questão: a gente ainda fica pasmo, surpreso, com essa insistência na coisa bélica, na guerra, na transformação de adversários em inimigos, de competidores serem desafiados a serem eliminados. Essa ideia de conquista de territórios é uma coisa que vem do mundo antigo e que acompanha o homem ao longo de toda sua trajetória, mas desejo que tudo isso reflua um pouco e que o homem se dedique mais ao usufruto de todos os avanços da ciência e da tecnologia. Que o ser humano possa viver se beneficiando de tudo de bom que foi conquistado. E vá se livrando desse ativismo do passado. Essa falta de amor social. É preciso que a gente acredite cada vez mais na melhora da sociedade humana. É preciso dar um fim ao “lamento de tantos ais”, é cada vez mais urgente que a paz invada os nossos corações, como diz a canção. Só assim a gente vai evitar a guerra, a violência coletiva e a violência social.

 

Festival MITA - Foto divulgação

Festival MITA – Foto divulgação

 

MITA é o festival da ponte-áerea
Evento – que acontece este mês no Jockey Club do Rio e na Spark Arena de São Paulo – tem em seu line-up artistas nacionais e bandas gringas como Gorillaz, Rüfüs du Sol e Two Door Cinema Club

A linguagem universal da música é a estrela e a inspiração da primeira edição do festival MITA – Music Is The Answer, produzido em parceria pelas empresas Bonus Track, de Luiz Oscar Niemeyer e Luiz Guilherme Niemeyer, e 30E – Thirty Entertainment.

Os shows acontecem em São Paulo nos dias 14 e 15 de maio, inaugurando a Spark Arena, na Vila Leopoldina, e nos dias 21 e 22 de maio no Rio, no Pião do Prado do Jockey Club Brasileiro, na Gávea. A programação começa às 12h e termina por volta das 22h.

O line-up do festival mescla atrações internacionais e nacionais, misturando nomes já consagrados do cenário musical e novos artistas e bandas que começam a despontar e conquistar públicos cada vez maiores. Os ingressos estão à venda pela plataforma Eventim e custam R$ 700.

Confira a programação completa neste link

Spark Arena
Avenida Manuel Bandeira, 360, Vila Leopoldina, São Paulo.

Jockey Club Brasileiro
Rua Jardim Botânico, s/ nº, Gávea, Rio de Janeiro.

 

Entre tantos temas ricos que abrangem a cultura africana, alguns músicos são indispensáveis para conhecer mais sobre o continente

Entre tantos temas ricos que abrangem a cultura africana, alguns músicos são indispensáveis para conhecer mais sobre o continente

Pouco se fala sobre a diversidade cultural do terceiro maior continente do mundo, com seus 54 países independentes. Assim, apresentamos cinco artistas que você precisa conhecer e expressam parte dessa pluralidade toda. Mas, antes disso, que tal descobrir algumas curiosidades sobre a música africana?

Para começar, o valor do som é indescritível para quem nasce no continente. Na música, encontra-se por lá uma forma de expressar a vida e unir a comunidade em rituais milenares. Para eles, a passagem do tempo é diretamente conectada com a passagem da música.

Em muitos estilos, os padrões rítmicos são descritos em movimentos diferentes, com o som do instrumento tocando contra o outro propositalmente para, assim, causar uma polirritmia – o uso simultâneo de dois ou mais ritmos diversos ao mesmo tempo.

A música africana é também a base de estilos musicais que ouvimos todos os dias – e amamos – por aqui, como o samba e o choro. Então, viaje e se inspire com as nossas indicações a seguir:

 

Moonchild Sanelly
Ela é a dona dos cabelos azuis mais famosos da África do Sul! A Moonchild é uma artista de voz única que te deixa encantado em poucos segundos, apresentando o gênero musical criado por ela mesma chamado ‘Future Ghetto Punk’, um mix de eletrônico, com pop e funk. Seu trabalho é muito reconhecido na África do Sul e a artista já colaborou com grandes nomes como Beyoncé, Gorillaz, Diplo e muitos outros.

 

Moonchild Sanelly - Foto divulgação

Moonchild Sanelly – Foto divulgação

 

Pongo
Conhecidos como “o casal cego do Mali”, a dupla musical se apresenta desde 1983 e ficou conhecida a partir dos anos 1990 com o estilo afro-blues, conectando sons tradicionais do Mali – país de origem dos dois – aos riffs de guitarra do blues-rock. A gente ama!

 

Fela Kuti
Multi-instrumentista nigeriano, Fela merece todo reconhecimento por ter sido um dos grandes artistas e pioneiros do gênero musical Afro Beat. O cantor e compositor nascido em 1938 encantou o povo africano durante sua vida, sendo chamado de ‘superstar’ e ‘lenda’ por, além da carreira musical, ter sido também um ativista político e defensor dos direitos humanos.

 

Ali Farka Touré
Ali foi um cantor e guitarrista malinês extremamente amado e, assim como Fela, reconhecido em todo continente africano. Nascido em 1939, ele conectou a música tradicional de Mali com o blues, sendo aclamado por diversas personalidades, como Martin Scorcese, que o denominava como “o DNA do blues” – além de ter sido classificado como um dos 100 melhores guitarristas de todos os tempos pela Rolling Stone.