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Leticia Bufoni, representante do skate nas Olimpíadas, fala sobre o espaço das mulheres no esporte

por | jun 30, 2021 | Entrevista, Pessoas & Ideias | 0 Comentários

Recordista do circuito mundial de skate, Leticia Bufoni estreia a categoria na Olimpíada de Tóquio e é a grande aposta do Brasil na modalidade.

Leticia Bufoni sempre soube muito bem quem era e o que queria. Nascida em Vila Matilde, na zona leste de São Paulo, foi a primeira menina da vizinhança a substituir as bonecas pelas manobras de skate. “Moleca”, crescida entre os meninos nas calçadas paulistanas, teve que ralar e se ralar muito para confrontar o machismo que até hoje predomina no esporte e se firmar entre os maiores nomes do circuito mundial.

 

Foto: Atiba Jefferson | Red Bull
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Foto: Atiba Jefferson | Red Bull

 

Skatista profissional desde os quatorze anos de idade, quando foi convidada a ir para os Estados Unidos para competir, pela primeira vez, no X-Games (torneio conhecido como as “Olímpiadas dos esportes radicais”), Leticia se tornou um símbolo da luta feminina no esporte. Seja pelo cabelo rosa – que, mais do que sua marca registrada, virou carimbo da presença das mulheres na modalidade –, seja pelo prestígio ao redor do mundo. E não é à toa que ela é considerada uma das maiores da história: aos 28 anos, Leticia ocupa o quarto lugar no ranking de melhores do globo e tem seu nome estampado no Guinness World of Records, como maior campeã do circuito mundial – são onze medalhas ao todo, conquistadas ao longo de nove anos de competições.

Para completar a já extensa coleção de conquistas, a skatista se prepara para tentar o ouro olímpico em Tóquio. Pela primeira vez, o skate integrará a lista de modalidades dos Jogos. Neste ano, as competições ainda não rendem medalhas oficiais, mas a paulistana já é a grande aposta brasileira na categoria.

Em entrevista para a 29HORAS, Leticia Bufoni reflete sobre sua trajetória profissional, comemora a “invasão feminina” na modalidade e fala sobre suas expectativas para a Olimpíada de Tóquio.

 

A paulistana treinando em pistas em Los Angeles, nos EUA - Foto: Steven Lippman | Red Bull
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A paulistana treinando em pistas em Los Angeles, nos EUA – Foto: Steven Lippman | Red Bull

 

Você tem lembrança do dia em que subiu em um skate pela primeira vez? Como e quando foi?

Minha relação com o skate é tão intensa e íntima que, inclusive, tenho a sensação de que essa paixão sempre foi parte de mim. É difícil lembrar de um momento em que isso não era parte do meu estilo de vida. Mas posso dizer que as primeiras lembranças que eu tenho do esporte são de meus amigos do bairro manobrando e eu ali, assistindo. Eu, na verdade, era a menina da bola, queria ser jogadora de futebol. Mas, chegou a era do skate, todos os meus amigos compraram um e me deixaram jogando bola sozinha. Foi aí que decidi entrar na onda também, só para não perder a brincadeira, e acabei ficando melhor que eles. Foi amor à primeira manobra.

Naquela época, você já imaginava que o skate faria parte do seu futuro profissional?

Eu nunca imaginei que o skate pudesse ser uma profissão. Naquela época, não tinha YouTube, Facebook e, muito menos, acesso a informações sobre o esporte. O que eu via era o que passava, muito de vez em quando, na televisão. Minhas primeiras referências foram o Bob Burnquist e o Sandro Dias, mas até então não tinha visto nenhuma mulher no esporte, em quem pudesse me inspirar ou que me instigasse a me imaginar trabalhando nisso um dia.

O skate não costuma ser um esporte usual para despertar a paixão de uma criança – não como o futebol, ou o vôlei, por exemplo. Como foi a reação da sua família quando você começou a pensar em seguir essa carreira?

No começo foi bem difícil. Meu pai não gostava nem um pouco da ideia e me proibia de andar. Ele ficava muito incomodado, porque eu era a única menina do bairro “fazendo coisa de menino”. Teve um dia que ele ficou tão irritado que pegou uma serra e cortou meu skate ao meio. Eu chorei por horas, mas no dia seguinte consegui um shape (prancha de madeira) emprestado e rodinhas, e montei um skate novo. Depois disso ele percebeu que não tinha como me separar do esporte, e virou meu maior apoiador. Foi ele quem me acompanhou na minha primeira competição internacional, em 2007.

 

Letícia Bufoni conquista o segundo lugar no Street League de Skate, realizado no Parque Olímpico da Barra, no Rio de Janeiro, em 2019 - Foto: Breno Barros | rededoesporte.gov.br
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Letícia Bufoni conquista o segundo lugar no Street League de Skate, realizado no Parque Olímpico da Barra, no Rio de Janeiro, em 2019 – Foto: Breno Barros | rededoesporte.gov.br

 

O skate ainda é um esporte majoritariamente masculino? Ou a participação das mulheres já avançou nessa modalidade? Você, de certa forma, foi uma pioneira…

O skate feminino tem crescido muito nos últimos anos, e sou muito grata em saber que contribuí para isso. Não fui a primeira mulher a me arriscar na modalidade, muitas outras vieram antes de mim, mas eu sei que a minha presença foi importante nesse movimento. A primeira vez que eu vi mulheres competindo foi em um DVD, que ganhei de um amigo meu. Era um compilado de várias manobras incríveis feitas por mulheres. De todas que apareciam no vídeo, só uma era brasileira. Foi justamente ela, a Tatiane Marques, que virou minha inspiração. É importante ver pessoas como você alcançando coisas grandes e eu fico muito feliz por ter virado esse tipo de inspiração para muitas outras meninas.

Neste ano, você completa metade da sua vida morando nos EUA. Como é manter o espírito brasileiro morando fora do país?

Eu amo Los Angeles e não pretendo me mudar daqui tão cedo. Mas, por mais que eu more aqui há muito tempo, a minha alma é sempre brasileira. A Califórnia é a minha base agora, mas a Vila Matilde é minha raiz. Minha família inteira ainda está no Brasil, e ela me traz a memória de onde eu vim. Além disso, é muito reconfortante poder viajar com a seleção e estar em contato direto com pessoas que fazem um trabalho tão lindo no esporte, levantando a bandeira da minha origem. Competir pelo Brasil é, com certeza, uma forma de me sentir sempre em casa.

Você se divide entre treinar em pistas brasileiras e competir em Los Angeles. Como é a relação do Brasil com o skate? É diferente ser skatista no Brasil e no exterior? O que muda?

Essa diferença já foi muito mais gritante. Hoje em dia, o Brasil tem mudado bastante a forma de enxergar o esporte. Mas, ainda assim, aqui nos Estados Unidos é muito mais fácil encontrar pistas públicas, patrocínio e apoio. Eu penso que, se eu não tivesse me mudado para Los Angeles, talvez eu não estivesse ainda trabalhando com skate, seria muito mais difícil levar esse sonho adiante. Todas as competições ainda são no exterior e, aqui, o skate aparece muito mais na mídia. No Brasil, falta muito investimento em estrutura, temos poucas pistas e, mesmo as que existem, não têm qualidade suficiente para abrigar competições.

 

Foto: Atiba Jefferson | Red Bull
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Foto: Atiba Jefferson | Red Bull

 

Esta é a 33ª edição dos Jogos Olímpicos e a primeira vez que o skate entra como modalidade oficial. Por que demorou tanto para que o skate fosse formalizado como um esporte olímpico, na sua opinião?

Já faz quase quinze anos que o Comitê Olímpico planeja colocar o skate na lista olímpica, mas nunca acontecia. Acho que essa demora se deve muito ao fato de que o skate não tinha, até então, uma federação que representasse internacionalmente o esporte ou um circuito mundial consolidado, como acontece com o surfe ou o futebol. Nós tínhamos grandes prêmios mundiais, mas todas essas competições eram independentes e não se organizavam em um circuito grande e sólido. Por isso acredito que demorou tanto para nossa reivindicação ser ouvida. Mas eu penso que esse é o momento certo para começar. Hoje temos competidores muito fortes e experientes, e muito mais mulheres no esporte.

Você é recordista no X-Games, é veterana das competições internacionais e agora estreará nas Olimpíadas. Depois de tantas vitórias no esporte, o que você espera sentir de novidade nos Jogos de Tóquio?

Tóquio vai ser uma experiência única. Sinto que vai ser um marco para a história do skate, que ainda é visto como um esporte marginal e menor por muita gente ao redor do mundo. Além disso, essa vai ser a primeira vez que vou ter uma nação inteira me assistindo e torcendo por mim.

E podemos esperá-la em Paris em 2024?

Com certeza! Quero passar por pelo menos mais uma experiência olímpica, dessa vez valendo ouro e pódio. Acho que seria um jeito lindo de fechar minha carreira. E, bom, talvez eu esteja um pouco velha para isso, com 35 anos, mas em 2028 o plano é que os Jogos ocorram em Los Angeles. Já estarei por aqui… Quem sabe eu não vou para mais uma?

 

Foto: Atiba Jefferson | Red Bull
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Foto: Atiba Jefferson | Red Bull

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