O musical “A Vedete do Brasil” revela a intimidade de Virgínia Lane, no Teatro Copacabana Palace

O musical “A Vedete do Brasil” revela a intimidade de Virgínia Lane, no Teatro Copacabana Palace

Grande nome do teatro de revista, Virgínia Lane teve uma trajetória cheia de lantejoulas, amores e polêmicas

A vedete Virgínia Lane (1920-2014) começou sua carreira como cantora ainda adolescente nos anos 1930, atuou no Cassino da Urca, foi amiga de personalidades como Carmen Miranda, Oscarito e Grande Otelo, fez cinema e consolidou-se como um dos maiores ícones do teatro de revista brasileiro. Até recebeu o título de “A Vedete do Brasil” pelas mãos de Getúlio Vargas, com quem diz ter mantido um relacionamento por mais de dez anos. Sua vida é o tema do espetáculo que fica em cartaz até 28 de janeiro no Teatro Copacabana Palace. “A Vedete do Brasil” é uma comédia musical que pretende mostrar a mulher por trás de tantas plumas, paetês e polêmicas. O texto da peça é de Cacau Hygino e Renata Mizhari, e a direção é de Claudia Netto. No palco, Suely Franco interpreta Virgínia já em seus últimos anos, enquanto prepara uma ceia de Natal com a filha, Marta (Flávia Monteiro). Ao longo do dia, ela relembra episódios que marcaram sua trajetória. Na trilha, canções como “Sassaricando” e “Ninguém me Controla”.

 

foto divulgação

 

Teatro Copacabana Palace
Avenida Nossa Senhora de Copacabana, 261, Copacabana.
Tel. 21 2548-7070.
Ingressos de R$ 25 a R$ 160.

Na peça “Muito Pelo Contrário”, Emilio Orciollo Netto vivencia os desafios da extinção do macho tosco

Na peça “Muito Pelo Contrário”, Emilio Orciollo Netto vivencia os desafios da extinção do macho tosco

Em cartaz no Teatro dos Quatro até 14 de dezembro, a peça “Muito Pelo Contrário” mostra a  construção de um novo homem, afetuoso e bem-resolvido

Emilio Orciollo Netto é o protagonista da comédia dramática “Muito Pelo Contrário”, em cartaz no Teatro dos Quatro até 14 de dezembro. Com texto de Antonio Prata, a peça conta a história de um homem (Rodrigo) que se torna pai de primeira viagem durante a pandemia e vivencia incontáveis momentos tensos desencadeados pelo confinamento forçado entre quatro paredes com a mulher e o bebê.

Com humor, afeto e ironia, a comédia reflete sobre a falência do “macho heteronormativo” e da urgência na reconstrução de um “novo homem”, verdadeiramente parceiro, que não se vitimize nem se sinta heroico ao assumir suas novas funções.

 

foto Caio Galucci

Com a libido em baixa, Rodrigo conhece no trabalho uma mulher que lhe reacende. Culpado, ele se pergunta: qual seria a gravidade de um sexo casual com a colega? Quando está prestes a ceder a seu instinto básico, algo inesperado acontece e o obriga a rever todos os seus velhos conceitos. Rodrigo atende ao chamado do desejo, sim, mas de forma surpreendente.

Teatro dos Quatro
Rua Marquês de São Vicente, 52 (Shopping da Gávea), Gávea.
Tel. 21 2239-1095.
Ingressos a R$ 100.

Marco Nanini encena peça “Traidor”, de Gerald Thomas, e reflete sobre seus 50 anos de carreira

Marco Nanini encena peça “Traidor”, de Gerald Thomas, e reflete sobre seus 50 anos de carreira

Em cartaz no Teatro Antunes Filho, no Sesc Vila Mariana, com o espetáculo “Traidor”, dirigido por Gerald Thomas, Marco Nanini reflete – no palco e nesta entrevista – sobre esse momento pré-apocalíptico que vivemos, mas sempre com a leveza, a emoção e o humor que lhe são peculiares

Na estreia do espetáculo “Traidor”, em novembro, Marco Nanini tropeçou em uma das pedras do cenário, caiu e machucou o nariz, que pôs-se a sangrar abundantemente. A apresentação no teatro do Sesc Vila Mariana foi suspensa e, depois de 20 minutos de atendimento médico, o ator voltou ao palco para terminar a peça. Ao final, foi ovacionado de pé não só por seu talento, mas também por causa de sua garra e sua devoção à sagrada arte do teatro. Um reles calhau cenográfico jamais seria capaz de deter esse gigante ator, que em 2023 está completando 75 anos de vida e 50 de carreira!

 

foto Carlos Cabéra

 

E a plateia paulistana mostrou que se emociona, sim. Ainda mais quando está diante desse fera nascido no Recife e radicado no Rio desde o final da década de 1960, dono de um currículo eclético e recheado de sucessos – seja na TV (onde atuou em dezenas de novelas e, entre 2001 e 2014, brilhou como o Lineu da sitcom “A Grande Família”), no cinema (em produções como “Carlota Joaquina” e “O Bem Amado”) ou no teatro, em comédias como “Doce Deleite” (com Marília Pêra) e “O Mistério de Irma Vap” (contracenando com Ney Latorraca e dirigido por Marília Pêra, ela de novo!) ou em dramas como “ O Burguês Ridículo”, de Molière, e “A Morte do Caixeiro Viajante”, de Arthur Miller .

“O Nanini é o ator mais intenso que eu conheço. Como dirijo em pé, a um metro de distância, sinto cada respiração dele. Depois, chego no hotel e continuo ouvindo a sua voz. Que prazer é escrever para ele e dirigi-lo. Ter Marco Nanini pela frente é tudo”, celebra o diretor. Em entrevista à 29HORAS, Nanini fala de seu ofício, das redes sociais, da miséria e de aquecimento global. Confira essa conversa nas páginas a seguir!

Em maio, você completou 75 anos de idade e mais de cinco décadas de carreira como ator, mas nem a pandemia te impediu de lançar uma biografia (“O Avesso do Bordado”), fazer cinema (“Greta”), TV (a série “João Sem Deus” e uma participação em “Sob Pressão”), teatro filmado (“Cadeiras”) e agora um espetáculo presencial. Você cuida da sua saúde para trabalhar ou o trabalho que é a sua “receita de longevidade”?
A pandemia realmente foi um período difícil para todo mundo. Depois daquele pesadelo inicial, fiz o “Sob Pressão” e o “João de Deus”, que estão disponíveis no streaming. E conseguimos filmar “As Cadeiras” naquele momento em que tudo estava sem horizonte algum para a cultura, sem vacinas… E fomos filmar, seguimos todos os protocolos, o Nando (Fernando Libonati, diretor de ‘As Cadeiras’, meu sócio na produtora Pequena Central e produtor de todos os meus espetáculos) organizou uma maneira de ensaiar e filmar de uma forma em que ficamos completamente isolados, em uma espécie de bolha. Tudo isso foi também um jeito de conseguir seguir trabalhando e fazendo teatro da forma que era possível naquele momento. O trabalho nos dá esse oxigênio, mas é claro que comecei a cuidar mais da saúde, fazer exercícios, parei de fumar há sete anos e hoje cuido da alimentação, não como mais carne de origem alguma. E o processo do teatro, com ensaios, temporada, nos faz ter uma rotina, é preciso estar preparado para enfrentar tudo isso aos 75 anos.

 

Em uma cena da minissérie “João Sem Deus” – foto Mariana Cladas

 

O que te dá mais prazer no teatro, no cinema e na TV? Você tem preferência por alguma dessas formas de expressão? Você acredita que as mídias sociais “estragam” os espectadores e os afastam das salas de espetáculo ao viciá-los em histórias curtas e sem profundidade? Tem gente hoje que acha longuíssimo um episódio de série com 50 minutos…
Cada veículo tem os seus códigos, a sua graça e o seu jeito de fazer bem específico. O “Greta”, que você mencionou, foi rodado em Fortaleza, com uma equipe pequena e amorosa, enquanto outros trabalhos de TV são feitos em grandes estúdios, com um time enorme, um elenco imenso, como o de uma novela. O teatro já traz um processo artesanal, em que a gente consegue se dedicar a estudar cada intenção, cada frase. Meses de ensaio. Com “As Cadeiras”, tivemos um processo de teatro, mas que foi filmado. Foi uma experiência muito interessante! Eu gosto de transitar entre todas essas mídias e descobrir o prazer de atuar em cada uma. Sobre as redes sociais: hoje em dia tenho um Instagram, mas gosto de ver vídeos de natureza, animais e crianças. Gosto de YouTube e faço muita pesquisa por lá. Cada meio tem o seu público também. Acredito que trabalhos de duração mais longa encontrem o seu público, tem filmes e peças de longa duração que fazem sucesso mesmo nesse mundo tão veloz e hiperconectado de hoje.

Com Gerald Thomas, você já fez “Um Circo de Rins e Fígados” e agora se uniu novamente a ele para criar “Traidor”. Dá para dizer que a Marília Pêra foi a sua grande parceira nos tempos em que você focava mais nas comédias e que o Gerald é o seu maior parceiro agora que você se dedica mais a textos dramáticos?
O texto do Gerald tem muito humor, já tinha no “Circo” e agora no “Traidor” também tem. A Marília foi realmente uma parceira em espetáculos de comédia inesquecíveis e na TV, assim como outras atrizes com quem trabalhei muito, como a Marieta, minha companheira nos quatorze anos de “Grande Família” e com quem já dividi o palco diversas vezes. E o Guel Arraes é outro parceirão, com quem já fiz teatro, TV e cinema. Quando me dei conta, o espetáculo anterior com o Gerald já tinha 18 anos –eu achava que tinha sido ontem! Nesse intervalo, a gente continuou se falando, se encontrando e até planejando outros trabalhos juntos, mas que acabaram não saindo, como um filme e uma outra peça. Dessa vez, o processo foi parecido com o do “Circo”, ele mandava e-mails diários com o texto que ia escrevendo e trocávamos impressões, foi uma construção longa, entre o final do ano passado e o início deste.

 

Com Marília Pêra no pôster da comédia “Doce Deleite” – foto reprodução

 

Em “O Traidor”, seu personagem é um camarada atormentado e cheio de angústias, medos e crises de identidade. É a vida contemporânea que enche o planeta de gente assim?
Na peça, meu personagem está inquieto, emenda assuntos e frases que aparentemente não fazem sentido, quase como um esquizofrênico ou alguém que está enlouquecendo nesse mundo de hoje. O personagem tem meu nome e, para o Gerald, representa uma soma de todos os atores do mundo, mas também dialoga com coisas que eu já fiz, como o próprio “Circo”. E tudo naquele exercício de estilo do Gerald, que mistura assuntos contemporâneos, tem uma série de citações e referências. É um espetáculo que fala muito mais da vida do que da morte. Ainda que a seja sobre a vida nesse mundo de hoje, repleto de problemas. O texto diz que pelo menos não estamos queimando nas fogueiras – o aquecimento global está aí, mas com a “vantagem” de que o calor é para todos. Tem uma visão apocalíptica de que estamos em um momento muito complexo para o mundo e para a humanidade, mas com algum humor, com um olhar que não é trágico.

 

Nanini com Gerald Thomas nos ensaios de “Traidor” – foto Instagram

 

E como você, Marco Nanini, é afetado por esses tempos apocalípticos – com fenômenos climáticos extremos, milícias e traficantes brincando com suas armas poderosas nas cidades, terríveis viroses se espalhando pelo ar e ainda guerras na Ucrânia e na Palestina?
Não tem como não se afetar pelo que acontece. A guerra é uma temeridade, algo que nos pegou durante o processo de ensaios. Já o aquecimento global é uma realidade. Quando estreamos, as temperaturas beiravam os 40°C. Voltei a São Paulo após anos e vi dezenas de pessoas morando e dormindo no Trianon, na Paulista, pelo Centro. A miséria é algo que me sufoca e me entristece. Estamos dentro de um momento histórico meio apocalíptico e o Gerald usa muito isso no texto também. O espetáculo tem esse perfume dos dias em que vivemos.

 

No documentário “Mise en Scène”, sobre o ofício do ator – foto divulgação | TV Globo

 

Traidor
Em cartaz até o dia 17 de dezembro no Teatro Antunes Filho, no Sesc Vila Mariana.
Rua Pelotas, 141, Vila Mariana,
Tel. 5080-3000.
Ingressos de R$ 18 a R$ 60.

Espetáculo sobre o médium Chico Xavier mistura humor, leveza e muitas reflexões sobre o sentido da vida

Espetáculo sobre o médium Chico Xavier mistura humor, leveza e muitas reflexões sobre o sentido da vida

A peça “Os mundos de Chico Xavier” mostra o desencarne de Chico e o seu despertar no plano espiritual, sendo recebido por seu mentor Bezerra de Menezes

Chico, como era carinhosamente chamado, foi autor de mais de 450 livros que geraram a venda de 50 milhões de exemplares em todo o mundo. Ele sempre atribuiu a autoria de seus livros aos espíritos e doou todos os direitos para instituições de caridade. Costumava dizer que seu “desencarne” iria acontecer em um dia de festa no Brasil, para que sua morte não fosse lembrada com tristeza. E isso aconteceu justamente em um domingo, no dia 30 de junho de 2002, enquanto o Brasil conquistava o pentacampeonato da Copa do Mundo.

A peça “Os mundos de Chico Xavier” começa mostrando esse momento único: o desencarne de Chico e o seu despertar no plano espiritual, sendo recebido por seu mentor Bezerra de Menezes. Um encontro inusitado, cheio de alegria e descontração. De forma simples e informal, Chico e Bezerra falam de amor, mostram as dificuldades que temos em lidar com o afeto e lembram a importância da autoescuta, de ouvirmos as nossas intuições e inspirações, muitas vezes não percebidas pela dureza do dia a dia.

 

Carlos Meceni e João Signorelli, nos papéis de Bezerra de Menezes e Chico Xavier, respectivamente – foto Marcelo Navarro

 

É o mineiro de Cambuquira João Signorelli quem vive com propriedade o médium também mineiro, nascido na cidade de Pedro Leopoldo em 1910. Já o ator Carlos Meceni interpreta o iluminado espírito Bezerra de Menezes (1831-1900), médico que dedicou sua vida ao atendimento dos mais necessitados.

Signorelli, que desde 2003 encarna o líder pacifista Mahatma Gandhi em um monólogo teatral, com apresentações em todo o Brasil, além de turnês na Europa e na Índia, conta que está muito feliz por estar unindo a arte e a espiritualidade. “É algo que sempre quis fazer e aconteceu; comecei com o Gandhi, depois apareceu o Chico Xavier e, em 2024, eu estreio um espetáculo vivendo o poeta Fernando Pessoa. Fazer o Chico é um sentimento de muita alegria, quase um êxtase, e ao mesmo tempo uma responsabilidade grande, porque ele é um personagem que existiu, que muita gente conheceu, com uma história admirável.”

Para o ator, a possibilidade de emprestar seu corpo, sua voz e sua sensibilidade para dar passagem para essas pessoas tão inspiradoras é uma experiência maravilhosa: “Fui me entregando nesse fluxo e é um caminho muito realizador e que não tem mais volta”.

A peça fica em cartaz no Teatro Ruth Escobar, em São Paulo, até 14 de dezembro. Signorelli lembra que todo o figurino que ele usa no palco – roupas, perucas, boinas e óculos – foi do próprio Chico, cedido gentilmente pela família do médium.

 

foto Marcelo Navarro

Eduardo Sterblitch mostra que é um ator completo no musical “Beetlejuice” e em personagens mais dramáticos

Eduardo Sterblitch mostra que é um ator completo no musical “Beetlejuice” e em personagens mais dramáticos

Encabeçando o elenco de um musical inspirado na comédia “Os Fantasmas se Divertem”, Eduardo Sterblitch mostra que é um ator completo. Versátil e multitalentoso, fora do palco ele investe em personagens menos cômicos e mais dramáticos, como o policial Sérgio na série “Os Outros” e o bandido Hermógenes, em uma inovadora versão para o cinema da obra de Guimarães Rosa

Em 1988, Michael Keaton interpretou o aloprado fantasma Beetlejuice no filme “Os Fantasmas se Divertem”, dirigido pelo excêntrico Tim Burton. Trinta anos depois, em 2019, o filme inspirou um musical da Broadway, indicado a oito Tony Awards. Até o dia 10 de dezembro, no teatro da Cidade das Artes, quem dá nova vida ao personagem é Eduardo Sterblitch, ator de 36 anos que – não por coincidência – é uma figura excêntrica. No palco, ele atua, canta, dança, emociona e faz rir. Tudo ao mesmo tempo, em uma versão abrasileirada da história do fantasma fanfarrão que “baixa” em um casarão assombrado toda vez que alguém grita o seu nome três vezes.

 

Eduardo Sterblitch como Beetlejuice – foto Leo Aversa

 

Nascido no Rio de Janeiro e conhecido nacionalmente desde que estreou no “Pânico na TV”, em 2009, de lá para cá Edu já mostrou sua verve em várias comédias no cinema e na TV, além de ter feito participações hilariantes e memoráveis em programas como “Amor & Sexo”, “Popstar” e “The Masked Singer Brazil”. Atuou também em uma novela (“Éramos Seis”) e, mais recentemente, começou a interpretar personagens mais sérios, como o policial Sérgio da tensa série “Os Outros” (Globoplay) e o bandido Hermógenes do longa “Grande Sertão: Veredas”, dirigido por Guel Arraes e com estreia prevista para o primeiro semestre de 2024.

Em entrevista à 29HORAS, Eduardo Sterblitch fala sobre sua preparação e seu trabalho de criação para o musical “Beetlejuice”, sobre seus personagens mais “sérios” e sobre a sua estreia como o papai do pequeno Caetano – fruto de seu relacionamento com a artista plástica e atriz Louise D’Tuani. Confira os principais trechos dessa conversa nas páginas a seguir.

 

Com Tatá Werneck na série “Shippados” – foto Estevam Avellar | TVGlobo

 

Você se define como comediante, ator, apresentador, performer, gênio ou apenas um cara meio abestado?
Eu prefiro não me definir, mas me identifico como um criativo. No fundo, o que eu quero ser é um artista brasileiro. Penso que os artistas brasileiros são os melhores do mundo, porque eles têm uma habilidade muito grande de lidar com o erro e possuem uma enorme capacidade criativa.

Reza a lenda que o seu interesse pelo humor e pela atuação surgiu quando você se encantou com o show da dupla de palhaços Xuxu & Xuxuzinho, contratada para animar a festinha do seu 3º aniversário – pelo menos é isso que consta no seu verbete na Wikipedia! Você tem alma de palhaço?
Eu sou um palhaço, com certeza – estudei para ser palhaço! Sou um palhaço quando exploro o humor físico, que não é tão falado. Eu recorro a essa formação em todos os meus trabalhos, todos os meus personagens têm um pouco desse palhaço que tenho dentro de mim. Até os dramáticos.

 

Eduardo na competição musical “Popstar” – foto RaphaelDias | TVGlobo

 

Agora no musical “Beetlejuice”, o que você traz da sua personalidade para o personagem? O diretor do espetáculo, Tadeu Aguiar, disse que “a montagem tem um olhar brasileiro, um humor nosso, de artistas com características histriônicas”. De que forma a sua excentricidade e sua loucura enriquecem o personagem?
O conceito da composição do meu Beetlejuice tem como base a mistura de todos os personagens que existem dentro de mim, que podem existir dentro de mim. Meu fantasma nesse musical é a mistura de todas essas vozes, timbres, gestos, energias, ritmos e dinâmicas. Foi essa a sacada que eu tive para criar o meu Beetlejuice, um personagem cheio de camadas. O do filme é uma coisa, o da Broadway é outra e o daqui da montagem brasileira é uma terceira versão – cada uma com suas peculiaridades.

Foi difícil para você chegar a um bom resultado ao misturar interpretação, canto e dança no palco, tudo ao mesmo tempo?
Sou de uma geração formada no Tablado. Minha tia era professora e dava aulas lá. Ela sempre repetia que ‘o artista completo tem de saber cantar, dançar e interpretar’. Tento muito fazer tudo isso – que nem os palhaços, que têm de saber fazer cascata, acrobacias e tocar um instrumento. No palco, eu me esforço ao máximo para fazer de tudo, para ser um artista o mais completo possível e encher de orgulho os meus ancestrais. A preparação para esse espetáculo foi como a de um verdadeiro atleta, bem puxada – até para que tenha fôlego, não faleça ou me lesione e possa cumprir a missão durante toda a temporada.

Em “The Masked Singer”, “Amor & Sexo” ou mesmo em “Shippados” e “Éramos Seis” deu para perceber que você é um mestre no improviso e nos chamados “cacos”. Você gosta de atuar sempre com essa liberdade total? E como está se saindo em um musical, em que tudo é cheio de marcações e praticamente não dá para sair do script?
Acho importante você estar muito dentro do roteiro, do script, da direção e de tudo o que está acontecendo para que o “caco” surja naturalmente. Eu me esforço para estar sempre absolutamente seguro do texto para que o improviso faça sentido e não seja só uma brincadeira aleatória, mas ajude a dar um respiro e enriqueça a história que está sendo contada. E “caco” não é necessariamente alguma palavra ou algo a ser dito. Pode ser uma forma diferente de se movimentar, de parar, de encostar no cenário. Para mim, é um recurso importante para evidenciar que o ator está vivo em cena, não é um ser que trabalha de forma repetitiva e mecânica.

 

Eduardo Sterblitch no programa “The Masked Singer” – foto Mauricio Fidalgo | TVGlobo

 

Já na série “Os Outros”, da Globoplay, você interpretou o ex-policial Sérgio, um personagem-chave nessa trama que é bem séria, sem espaço para o humor. Foi difícil segurar a onda, ainda mais para você, que é um cara engraçado?
Ao contrário do que muita gente pensa – assim como você –, eu não sou um cara naturalmente engraçado. Sou uma pessoa extremamente infantil, e talvez essa minha criança interior bem presente passe aos outros a falsa impressão de que sou divertido e brincalhão desde o momento em que acordo e até a hora em que vou dormir. Eu apenas sou livre, faço o que estou a fim, sem muitos bloqueios. Não ligo para o que a sociedade pensa de mim. Aliás, acho a sociedade absurda e só trabalho para ela! A trama de “Os Outros”, naquele condomínio surreal, é uma amostra perfeita desse absurdo todo. Mas, voltando à sua pergunta, para mim é mais fácil fazer um personagem dramático do que um na chave do humor. Afinal, o drama está muito mais presente nas nossas vidas, não é?

 

Na série “Os Outros” – foto Joao Miguel Junior | TVGlobo

 

Esse mesmo tom dramático também é a tônica da versão moderna de “Grande Sertão: Veredas”, que você acaba de rodar com Caio Blat, Luiza Arraes e Luis Miranda, não? O que podemos esperar da sua atuação como o bandido Hermógenes e desse filmaço dirigido por Guel Arraes, ambientado nas periferias urbanas da atualidade?
Em “Grande Sertão” a proposta é mais operística, é uma saga, uma coisa mais “hiper”. É supersônica, é uma linguagem diferente e muito instigante. É difícil de achar o tom certo, e para mim foi um desafio muito maneiro de encarar, quase uma guerra mesmo. Essa ideia de transpor a trama – que originalmente é ambientada no sertão mineiro – para uma comunidade periférica chamada Grande Sertão, que é supervigiada e militarizada, foi simplesmente genial! Meu personagem, o Hermógenes, que também é conhecido como “Demo”, é um diabo que toca o terror na área. Tive que mudar meu corpo, fiquei fortão para dar vida e veracidade a esse vilão da história.

 

No filme “Grande Sertão” – foto divulgação

 

Em março deste ano, você e sua esposa [a atriz e artista plástica Louise D’Tuani trouxeram ao mundo o pequeno Caetano. Como você está se saindo no papel de pai?
É muito bom ser pai e estou fazendo o possível para me sair bem, estou dando tudo de mim. Acho que não estou indo mal, mas a verdade é que só vai dar para saber se estou desempenhando bem esse papel quando o Caetano crescer. Apenas ele está habilitado para avaliar a minha performance. A opinião dele é a que interessa. A minha não vale nada, não importa.

 

Louise D’Tuani, sua esposa, com o filhinho do casal, Caetano – foto Reprodução Instagram

 

Olhando para trás, você tem mais orgulho ou arrependimento de ter participado do “Pânico na TV”? Quais são as melhores lembranças que você tem daquele período e como você avalia os posicionamentos reacionários que aquela turma acabou assumindo nesses últimos anos?
Eu amo ter o “Pânico na TV” no meu currículo, tenho muito orgulho de ter feito parte daquele fenômeno. Foi a minha faculdade na televisão, entrei com 17 anos e foi lá que comecei a editar, escrever roteiro, dirigir, produzir e atuar, sempre com total liberdade. No ar, a gente não contava uma piada, a gente “sangrava” ela, muitas vezes extrapolava e passava dos limites, mas depois pedia desculpas no ar e seguia em frente. Tenho muitas lembranças maravilhosas daquele período, e alguns traumas – mas eu coleciono traumas de todo lugar: da faculdade, da vida amorosa, do trabalho… Enfim, sou muito grato por tudo que eu aprendi e vivi lá. Quanto aos recentes posicionamentos políticos da turma, prefiro não opinar.

 

Como Freddie Mercury Prateado, do “Pânico” – foto Mauricio Fidalgo | TVGlobo

 

E agora, olhando para a frente, onde você imagina que o Eduardo Sterblitch estará em 2033? Ele será visto recebendo um prêmio na cerimônia do Oscar, vai comandar um talk-show dadaísta no Metaverso ou estará morando em um sítio em Lumiar, se divertindo com seus sete filhos?
Cara, adorei essa ideia de fazer um talk-show dadaísta no Metaverso! Mas acho que ficaria ainda mais interessante se ele fosse transmitido direto de um sítio em Lumiar inserido dentro do ambiente do GTA [Grand Theft Auto] e com todos os meus nove filhos ao redor. Na verdade, o que eu quero é estar trabalhando, realizando sonhos que ainda nem cheguei a sonhar. Quero ser surpreendido e surpreender. E para isso preciso ter ideias, trabalhar para seguir em frente, sem perder a pedalada do mundo. Quero estar criativo e conseguindo me comunicar com a galera. Quero fazer todo mundo se divertir, se sentir provocado, se emocionar, se inspirar… A vida é muito pouco revolucionária, então cabe a nós, artistas, criar algumas cenas e canções para – de alguma forma – driblar o inexorável tédio.

“Beetlejuice, o Musical” na Cidade das Artes
Avenida das Américas, 5.300, Barra da Tijuca, tel. 21 3328-5300.
Sessões de quinta a domingo até 10 de dezembro. Ingressos de R$ 100 a R$ 300.