Casa Rockambole inaugura espaço híbrido no antigo e tradicional Centro Cultural Rio Verde

Casa Rockambole inaugura espaço híbrido no antigo e tradicional Centro Cultural Rio Verde

Com bar, estúdio de gravação e casa de shows, selo musical Rockambole abre espaço multicultural na Vila Madalena

Muito além de um clássico reduto para a boemia paulistana, a Vila Madalena tem se firmado como um dos principais points artísticos da cidade. Exemplo desse florescer cultural é a recém-inaugurada Casa Rockambole, um mix de casa de shows, bar e estúdio, instalado no número 119 da rua Belmiro Braga. Com programação eclética e ambientes versáteis, o espaço herda o imóvel que, por 14 anos, abrigou o tradicional Centro Cultural Rio Verde, conhecido por servir de palco para estrelas como Arnaldo Antunes e Nando Reis.

“Quando assumimos a casa, optamos por manter toda a estrutura original intacta, queríamos preservar a história desse centro que foi referência na noite paulistana”, conta o empresário e produtor Gabriel Dantas, que, ao lado dos sócios Fernando Cescon, Luiza Gonçalves, Ygor Alexis e Felipe Machado, tomou a frente do espaço em março de 2022 e o transformou em sede oficial do selo musical assinado pelo grupo.

 

Sócios Fernando Cescon, Luiza Gonçalves, Ygor Alexis e Felipe Machado | Foto Yvã Santos

Sócios Fernando Cescon, Luiza Gonçalves, Ygor Alexis e Felipe Machado | Foto Yvã Santos

 

Em maio, além de apresentações ao vivo das bandas assessoradas pelo núcleo – entre elas, O Grilo, Dingo Bells e Pluma –, a casa recebe artistas independentes de fora do selo e abriga, no dia 7, a Festa Punga!, com sets ao vivo dos DJs Minizu, Beans, Kler Milo, Nyack e Fábio Lafa a partir das 18h. “No futuro, o plano é receber, também, workshops de produção musical, rodas de conversa com profissionais da área e festivais de rock, samba e R&B.”

Para além do salão principal, com capacidade para acomodar 500 pessoas, a casa Rockambole conta ainda com um terraço com fumódromo, um jardim de inverno, um coreto para apresentações mais intimistas e um bar com drinques e petiscos, que fica aberto de quarta a domingo, mesmo em dias sem shows marcados.

Às vésperas de completar 80 anos, Gilberto Gil, celebra a música e a família com shows do Festival MITA

Às vésperas de completar 80 anos, Gilberto Gil, celebra a música e a família com shows do Festival MITA

Gilberto Gil está tendo um 2022 agitado, com as celebrações dos seus 80 anos, sua chegada à Academia Brasileira de Letras, shows nos festivais MITA e Rock in Rio, e uma nova turnê pela Europa, tocando e cantando acompanhado por seus filhos e netos

Começou a circular o expresso 2022! No mês que vem, mais precisamente no dia 26 de junho, Gilberto Gil completa 80 anos de vida. E as celebrações desse marco começam neste mês, com a participação desse gênio tropicalista no festival MITA (Music Is The Answer), que acontece nos dias 14 e 15 na Spark Arena, em São Paulo, e nos dias 21 e 22 no Jockey Club do Rio.

Após passar a maior parte da quarentena isolado com sua família em Araras, no interior do estado do Rio, o cantor e compositor se apresenta num esquema “Refamília”, cercado por sua prole: ele será acompanhado pelos filhos Bem Gil (guitarra e voz) e José Gil (bateria e percussão), e pelos netos João (guitarra) e Flor (teclados e vocais).

 

Divulgação | FernandoYoung;

Divulgação | FernandoYoung;

 

Com mais de 60 álbuns, 7 Grammys, quase 4 milhões de discos e CDs vendidos e uma carreira que extrapola a música – com sua atuação como Ministro da Cultura, como embaixador da Boa Vontade das Nações Unidas e como Artista da Paz da Unesco – Gil é um patrimônio nacional. E, grande letrista que é, tornou-se um imortal, ao assumir em abril a cadeira nº 20 da Academia Brasileira de Letras.

Dono de uma poética melodiosa e nem tão esotérica assim, em seu discurso na cerimônia de posse, Gil aproveitou para mandar um recado direto para uma certa pessoa nefasta. “A Academia Brasileira de Letras é a Casa da Palavra e da Memória Cultural do Brasil. E tem uma responsabilidade grande no sentido de fortalecer uma imagem intelectual do país que se imponha à maré do obscurantismo, da ignorância e da demagogia de feição antidemocrática. Poucas vezes na nossa história republicana o escritor, o artista, o produtor de cultura, foram tão hostilizados e depreciados como agora. Apesar dos tempos politicamente sombrios que vivemos, aposto na esperança. Contra a treva física e moral, que haja ao menos a chama de uma vela, até chegarmos a toda luz do luar. Permitam-me recordar: ‘Se a noite inventa a escuridão, a luz inventa o luar’. Essa é nossa aposta, na vida e na alegria”, disse.

 

Gilberto Gil - Foto Divulgação | Marcelo Hallit

Gilberto Gil – Foto Divulgação | Marcelo Hallit

 

Nesta entrevista que concedeu à 29HORAS, Gil fala de família, do “novo normal” e de paz. Confira a seguir os principais trechos dessa conversa:

 

Como será seu show no MITA Festival? O que podemos esperar dessas suas apresentações em São Paulo e no Rio?
O repertório do show é o que vem da turnê Gil in Concert, que fizemos na Europa no final de 2021. Tem umas duas músicas lá de trás, do meu primeiro LP, tem alguma coisa da época que voltei do exílio e outros sucessos de 1980 prá cá. É um repertório, do ponto de vista de fases, abrangendo mais ou menos três dessas quatro épocas da minha carreira.

 

Como vem sendo trabalhar em parceria com seus filhos nos palcos?
O primeiro filho que veio para o palco comigo foi Nara, fazendo backing vocal lá atrás, nos anos 1980. De lá prá cá, teve o Pedro, como baterista, num período curto até 1990, quando ele morreu. Depois vieram Bem e José: Bem numa função como músico integrante da banda e cuidando, ajudando na escolha de repertório, criando arranjos, arregimentando colegas para tocar conosco; e José, que herdou um pouco de Pedro a vocação para bateria e percussão. Recentemente, veio a Flor, uma neta, e depois o João, um neto, que se juntaram a nós. Esses têm sido os familiares que têm compartilhado comigo vários momentos de shows e de gravações nesses últimos tempos. É sempre gostoso trabalhar em família.

 

O cantor ao lado de seus filhos (Bem e José) e neto (João) - foto divulgação | Fernando Young

O cantor ao lado de seus filhos (Bem e José) e neto (João) – foto divulgação | Fernando Young

 

E como você enxerga o futuro de sua neta, a Flor, que tem apenas 13 anos, mas recentemente fez um show aqui em São Paulo? Podemos dizer que estamos acompanhando o surgimento de uma nova estrela?
É bem possível que sim, pois ela é multitalentosa, tem vários interesses no mundo das artes, em variadas manifestações. Ela gosta de cinema, de televisão, de novas mídias, da internet, das redes sociais. E um material muito bom, pois ela tem uma bela voz, tem talento no sentido de compreensão dos ingredientes que fazem a música, como ritmo, harmonia, e tem muito interesse em instrumentos – começou com o ukulelê, depois veio o teclado e agora está gostando do baixo. É possível que ela fique na música. Ela tem facilidade de cantar em outros idiomas (ela já cantou em italiano e inglês comigo). Enfim, na medida que ela sustente o interesse por música, porque pode ser que ela vá se concentrar em outro aspecto artístico, acho que a música vai ficar sempre com ela, que vai desenvolver um trabalho musical relevante à altura do talento e do gosto que ela tem por música.

 

Gilberto Gil no palco com a neta Flor Gil - foto divulgação | Rita Carmo

Gilberto Gil no palco com a neta Flor Gil – foto divulgação | Rita Carmo

 

O que faz bem para os seus ouvidos? Recentemente, você se apresentou com o pessoal do Baiana System. Quais intérpretes e bandas das novas gerações você tem ouvido e acompanhado com especial atenção?
Eu tenho um modo de audição de música que não é muito seletivo, pois hoje temos música espalhada por todos os ambientes, desde a casa até os outros lugares aonde vamos, como casas de show, restaurantes e lugares do entretenimento. Esse repertório é muito variado desde a produção da minha própria geração (Gal, Caetano, Chico, Elis, Milton, Djavan), passando pelos pops todos (Lulu Santos, Cazuza), as bandas de rock dos anos 1980 (como Titãs, Paralamas), toda a coisa do reggae. E tem essa turma nova – a Preta, a Iza, a Larissa Luz, a Ludmilla, a Anitta – que faz essa junção de vários estilos, mas se concentra mais no hip-hop. A variedade é muito grande. E tem ainda o Baiana System, com quem me apresentei há dois anos. Acompanho também com interesse os rappers todos, como Emicida, Criolo – que é outra mistura também – e os Gilsons!

 

Nos anos 1970-1980, você REvolucionou a música brasileira com obras-primas como “Refazenda”, “Refavela”, “Realce” e “Refestança”, fazendo um maravilhoso mix de ritmos brasileiros com uma pegada globalizada e bem dosadas pitadas de pop, rock e reggae. Você considera que esse período foi o auge da sua produção musical?
Acho que é, sim, a fase mais interessante, mais importante do meu trabalho. Foi um período de intenso trabalho, de aproveitamento de muitas referências que eu tinha tido ao longo dos anos, desde as coisas iniciais como a da Bossa Nova, da música tradicional brasileira dos anos 30/40/50, a influência da música que veio de fora, a música americana, a música caribenha. Enfim, os álbuns foram surgindo em função desses referenciais. Em sequência, vieram “Refazenda”, “Realce”, “Banda Um”, “Extra”, “Raça Humana” – foi o momento em que todos esses ingredientes da coisa original brasileira, da coisa internacional, do pop, do rock, do reggae – tudo isso se funde numa produção muito grande e a maioria das canções vão para os discos e chegam até o público e estabelecem esse lugar, essa impressão que o meu trabalho acaba causando junto ao público.

 

Foto divulgação | Tatiana Valença

Foto divulgação | Tatiana Valença

 

Este ano, outro álbum seminal de sua lavra, “Expresso 2222”, completa 50 anos. Está programada alguma celebração para festejar esse marco?
Ouvi falar do desejo de todos que me cercam em fazer uma celebração. Tem interesse da [gravadora] Universal em fazer uma caixa sobre os 50 anos do “Expresso 2222”. É uma data cheia e vamos marcar esse trabalho: já celebramos os 40 anos do “Refavela” e agora os 50 do “Expresso”. Foi o disco que marcou a volta do exílio, pós-Tropicalista. Há um desejo natural de marcar o aniversário desses trabalhos.

 

Por falar em aniversário, agora em junho você completa 80 anos. Como será a celebração? Como você se sente, às vésperas de ser um octagenário?
Como eu disse recentemente, em uma entrevista ao “Jornal Nacional”, minha alma ainda cheira a talco quando subo ao palco, como um bumbum de bebê. 80 anos é uma idade cheia, 8.0! Precisa ser celebrada, como os aniversários de “Expresso 222” e “Refavela”. As comemorações incluem uma nova turnê internacional, um show-homenagem no Rock in Rio e o lançamento de uma série-documentário dirigida por Andrucha Waddington, que em breve será exibida no streaming, pela Amazon Prime Video.

 

Mudando de assunto, há três anos você imaginava que o mundo e nossas vidas fossem paralisados por uma pandemia? Na sua opinião, qual a mudança mais importante que estamos vivenciando por causa da Covid: qual a maior diferença entre o “velho normal” e o “novo normal”?
A pandemia trouxe impactos muito fortes nas condições psíquicas de cada um de nós. Em nós, todos os receios, os medos, foram intensificados. Veio o medo de adoecer, de morrer, de inviabilizar uma vida plena saudável. O trabalho foi muito impactado – nós todos tivemos que nos confinar em nossas casas. O convívio amplo social ficou praticamente impedido durante quase dois anos. Só depois das vacinas a gente conseguiu voltar a um convívio restrito. Agora a gente começa a vislumbrar um retorno, mas já contaminado por todas as novidades a que fomos obrigados a ter nesses últimos anos. Aos poucos vamos voltando a uma vida normal, mas que não é mais o mesmo normal. Toda a vida online – a intensificação das redes sociais, a chegada muito forte das transmissões online com formação de plateias domésticas tendo acesso a shows, peças de teatro – muito disso vai desaparecer quando voltarmos ao normal, que não vai ser o normal que conhecíamos, mas um “novo”. Muitas dessas experiências vivenciadas durante a pandemia vão desaparecer, mas muitas vão ficar, e as que ficam vão estimular novas revisões no modo de tratar o consumo de arte, de cultura, convívio, elevando essas experiências a novos patamares.

 

Gilberto Gil - Foto divulgação - Cris Almeida

Gilberto Gil – Foto divulgação – Cris Almeida

 

Você sempre foi um entusiasta da internet e da conectividade entre as pessoas, mas ultimamente reviu alguns de seus conceitos. Vi até você dizer que “a internet virou um pandemônio, um estímulo a esse narcisismo individualista que se desdobra em política de ódio”. Como salvar a internet e fazer dela um instrumento do bem?
Quem vai fazer essa mudança é o tempo e o uso mais exaustivo da internet. Na medida em que o homem vá se acomodando a um desejo mais nítido de uma inclinação para o bem, na medida que ele vá se livrando das coisas do mal e vá se afeiçoando mais aos modos benignos de estar na vida. Cada vez mais compartilhador, mais gregário. É isso que vai fazer com que a internet melhore. Se o ser humano não melhorar, a internet não melhora.

 

Você considera a canção “A Paz”, que você compôs com João Donato em 1986, como um hino atual nesses novos tempos de guerra, com líderes políticos tentando novamente estabelecer impérios e usando exércitos para expandir seus domínios?
Essa é a questão: a gente ainda fica pasmo, surpreso, com essa insistência na coisa bélica, na guerra, na transformação de adversários em inimigos, de competidores serem desafiados a serem eliminados. Essa ideia de conquista de territórios é uma coisa que vem do mundo antigo e que acompanha o homem ao longo de toda sua trajetória, mas desejo que tudo isso reflua um pouco e que o homem se dedique mais ao usufruto de todos os avanços da ciência e da tecnologia. Que o ser humano possa viver se beneficiando de tudo de bom que foi conquistado. E vá se livrando desse ativismo do passado. Essa falta de amor social. É preciso que a gente acredite cada vez mais na melhora da sociedade humana. É preciso dar um fim ao “lamento de tantos ais”, é cada vez mais urgente que a paz invada os nossos corações, como diz a canção. Só assim a gente vai evitar a guerra, a violência coletiva e a violência social.

 

Festival MITA - Foto divulgação

Festival MITA – Foto divulgação

 

MITA é o festival da ponte-áerea
Evento – que acontece este mês no Jockey Club do Rio e na Spark Arena de São Paulo – tem em seu line-up artistas nacionais e bandas gringas como Gorillaz, Rüfüs du Sol e Two Door Cinema Club

A linguagem universal da música é a estrela e a inspiração da primeira edição do festival MITA – Music Is The Answer, produzido em parceria pelas empresas Bonus Track, de Luiz Oscar Niemeyer e Luiz Guilherme Niemeyer, e 30E – Thirty Entertainment.

Os shows acontecem em São Paulo nos dias 14 e 15 de maio, inaugurando a Spark Arena, na Vila Leopoldina, e nos dias 21 e 22 de maio no Rio, no Pião do Prado do Jockey Club Brasileiro, na Gávea. A programação começa às 12h e termina por volta das 22h.

O line-up do festival mescla atrações internacionais e nacionais, misturando nomes já consagrados do cenário musical e novos artistas e bandas que começam a despontar e conquistar públicos cada vez maiores. Os ingressos estão à venda pela plataforma Eventim e custam R$ 700.

Confira a programação completa neste link

Spark Arena
Avenida Manuel Bandeira, 360, Vila Leopoldina, São Paulo.

Jockey Club Brasileiro
Rua Jardim Botânico, s/ nº, Gávea, Rio de Janeiro.

 

Entre tantos temas ricos que abrangem a cultura africana, alguns músicos são indispensáveis para conhecer mais sobre o continente

Entre tantos temas ricos que abrangem a cultura africana, alguns músicos são indispensáveis para conhecer mais sobre o continente

Pouco se fala sobre a diversidade cultural do terceiro maior continente do mundo, com seus 54 países independentes. Assim, apresentamos cinco artistas que você precisa conhecer e expressam parte dessa pluralidade toda. Mas, antes disso, que tal descobrir algumas curiosidades sobre a música africana?

Para começar, o valor do som é indescritível para quem nasce no continente. Na música, encontra-se por lá uma forma de expressar a vida e unir a comunidade em rituais milenares. Para eles, a passagem do tempo é diretamente conectada com a passagem da música.

Em muitos estilos, os padrões rítmicos são descritos em movimentos diferentes, com o som do instrumento tocando contra o outro propositalmente para, assim, causar uma polirritmia – o uso simultâneo de dois ou mais ritmos diversos ao mesmo tempo.

A música africana é também a base de estilos musicais que ouvimos todos os dias – e amamos – por aqui, como o samba e o choro. Então, viaje e se inspire com as nossas indicações a seguir:

 

Moonchild Sanelly
Ela é a dona dos cabelos azuis mais famosos da África do Sul! A Moonchild é uma artista de voz única que te deixa encantado em poucos segundos, apresentando o gênero musical criado por ela mesma chamado ‘Future Ghetto Punk’, um mix de eletrônico, com pop e funk. Seu trabalho é muito reconhecido na África do Sul e a artista já colaborou com grandes nomes como Beyoncé, Gorillaz, Diplo e muitos outros.

 

Moonchild Sanelly - Foto divulgação

Moonchild Sanelly – Foto divulgação

 

Pongo
Conhecidos como “o casal cego do Mali”, a dupla musical se apresenta desde 1983 e ficou conhecida a partir dos anos 1990 com o estilo afro-blues, conectando sons tradicionais do Mali – país de origem dos dois – aos riffs de guitarra do blues-rock. A gente ama!

 

Fela Kuti
Multi-instrumentista nigeriano, Fela merece todo reconhecimento por ter sido um dos grandes artistas e pioneiros do gênero musical Afro Beat. O cantor e compositor nascido em 1938 encantou o povo africano durante sua vida, sendo chamado de ‘superstar’ e ‘lenda’ por, além da carreira musical, ter sido também um ativista político e defensor dos direitos humanos.

 

Ali Farka Touré
Ali foi um cantor e guitarrista malinês extremamente amado e, assim como Fela, reconhecido em todo continente africano. Nascido em 1939, ele conectou a música tradicional de Mali com o blues, sendo aclamado por diversas personalidades, como Martin Scorcese, que o denominava como “o DNA do blues” – além de ter sido classificado como um dos 100 melhores guitarristas de todos os tempos pela Rolling Stone.

Empresário Luiz Calainho traz de volta à Urca os antológicos shows do Noites Cariocas

Empresário Luiz Calainho traz de volta à Urca os antológicos shows do Noites Cariocas

Calainho é um dos responsáveis pela organização do Tim Music Noites Cariocas, festival que apresenta até o dia 9 shows com grandes nomes da música num palco armado em uma locação mágica – o topo do morro da Urca

Da janela de seu apartamento no Alto Leblon, Luiz Calainho admira o Morro dos Dois Irmãos e parte da Floresta da Tijuca. É em meio a essa natureza exuberante que ele formata seus projetos ligados à Economia Criativa. Apaixonado pela cultura e pelas artes, ele é um dos realizadores da edição 2022 do festival Tim Music Noites Cariocas, cuja programação mistura medalhões como Ney Matogrosso, Baby e Pepeu a revelações como Iza e Baiana System em extraordinárias apresentações no palco montado no alto do Morro da Urca – cenário de antológicos shows desde os anos 1980.

 

Luiz Calainho | Foto Vera Donato

 

Nesta entrevista à 29HORAS ele fala de sua ligação com a música, dos efeitos na pandemia no showbiz e das perspectivas para o futuro do setor de entretenimento. Veja a seguir os principais trechos dessa conversa:

Para “começar pelo começo”, você nasceu na Suíça, mas logo veio para o Rio. O que você tem de suíço? E qual o seu traço mais carioca?

Meu pai era comandante da Swissair e, durante alguns anos, ele morou com minha mãe em Zurique. Foi nesse período que eu nasci. Hoje não tenho mais nada de suíço, definitivamente. O único traço europeu que eu tenho é um remoto DNA italiano, pois meu bisavô era italiano. Vim para o Rio com 3 aninhos e, como todo bom carioca, sou um apaixonado pela natureza, pela música, pelas artes, pelo lado bom da vida. Esta é uma cidade que estimula isso. Outras também proporcionam essa comunhão, mas aqui eu sinto que existe uma energia especial, e por cauda disso o casamento de mar, sol, floresta e cultura é algo único.

 

Noites Cariocas no ano de 2009 em Píer Mauá | Fotos Acervo Pessoal

 

 

 

No início da sua carreira profissional, você trabalhou em agências de publicidade, no marketing da Brahma e na Sony Music. Qual foi o “turning point”da sua trajetória? Em qual momento você descobriu que tinha o talento e a capacidade necessários para se tornar um empresário em voo solo, um homem de comunicação?

Eu acredito em caminhos disruptivos, em maneiras diferentes de fazer o que já foi feito. Explico bem isso no livro “Reinventando a Si Mesmo – Uma Provocação Autobiográfica”, que eu lancei em 2013 pela Editora Agir. Comecei minha vida profissional na agência Standard e em meados dos anos 80 fui para Brahma. Lá, vivenciei uma fase muito efervescente da empresa, que passou a ser administrada pelo Jorge Paulo Lemann, pelo Marcel Telles e pelo Beto Sicupira. Um dia, recebi um convite para me transferir para a Sony Music e não consegui resistir. Minha paixão pelas artes falou mais alto e troquei na hora o negócio de cervejas e refrigerantes pelo universo da música e do showbiz. Em pouco tempo, me tornei vice-presidente da gravadora. Esse foi o primeiro “turning point’” da minha carreira, como você falou. O segundo veio logo depois, quando a indústria da música foi devastada pela revolução digital. As gravadoras ficaram para trás, vendo tudo desmoronar, sem fazer nada. Foi aí que eu encontrei um outro momento para me reinventar e partir para um voo solo, unindo a minha experiência no mundo corporativo com meu conhecimento do setor cultural. Assim nasceu, em 2000, a holding L21, que tem ramificações em vários segmentos da economia criativa, como o teatro, a música, o rádio e a internet.

Quando jovem, você frequentou a primeira edição do Noites Cariocas, nos anos 1980? Que lembrança tem daqueles tempos?

Fui lá sim, claro! Eu ainda tinha apenas uns 15 anos ou um pouco mais, mas vi shows inesquecíveis por lá: Barão Vermelho, Paralamas… Estive em todas edições do Noites Cariocas. Na primeira, que foi organizada pelo Nelson Motta, participei como espectador. Na segunda encarnação do Festival, entre 2004 e 2011 – de início, também na Urca e, posteriormente, na região do Porto, fui um dos organizadores do evento, assim como agora. Sinto que tenho uma ligação espiritual com o Noites Cariocas, que é simplesmente o mais longevo festival de música pop do país ainda em atividade. O Rock in Rio só surgiu em 1985 e teve em seu line-up vários artistas que foram revelados justamente naquelas loucas noites da Urca.

 

Noites Cariocas banda Skank, no ano de 2007 | Foto Acervo Pessoal

 

O que este revival terá de melhor do que as edições anteriores?

Trazer o festival de volta para o Morro da Urca já vai deixá-lo especial. Além da vista maravilhosa, aquela pedra é mágica, tem uma vibração poderosa e peculiar. Mas o mais importante é que o Tim Music Noites Cariocas está sendo um marco da retomada. É o primeiro festival de música que acontece após os lockdowns e quarentenas. O Lollapalooza rolou em São Paulo uma semana depois de nós darmos início à nossa programação. As pessoas estavam sem se encontrar há anos. As emoções estavam represadas, assim como a vontade de curtir um bom show, com uma galera animada e um a stral bacana.

 

Alexandre Accioly, Leo Jaime Luiz Calainho – Noites Cariocas no ano de 2022 | Fotos Acervo Pessoal

 

A programação deste ano está meio nostálgica…

O line-up é uma celebração dos 42 anos do Noites Cariocas. Temos shows de atrações que fizeram história no festival e seguem na ativa, como Ney Matogrosso, Paulo Ricardo, Paralamas, Leo Jaime, Capital Inicial e Baby & Pepeu; temos nomes da nova geração, como Iza, Baiana System, Fernando Rosa, Ana Vitória e Diogo Nogueira; e temos também pocket shows com tributos a grandes estrelas da música que brilharam nas edições anteriores do Noites Cariocas, mas infelizmente não estão mais entre nós, como Tim Maia, Cazuza e Cássia Eller.

Podemos esperar que o projeto se eternize e tenha outras edições nos próximos anos?

Essa é a ideia, mas esses tempos bicudos ainda não permitem que a gente garanta que isso vá acontecer, infelizmente. A edição 2022 tem o luxuoso apoio da Tim, que é uma empresa tradicionalmente muito ligada à música, ao entretenimento e à economia criativa.

 

Noites Cariocas show da banda Paralamas do Sucesso | Foto Divulgação

 

Por falar em entretenimento, como foi a sua vida nesses últimos anos, com a paralisação total do setor de shows e eventos?

Pois é, nós trabalhamos com aglomeração, com a reunião das pessoas. Nosso setor foi um dos primeiros a fechar e está sendo um dos últimos a voltar. A pandemia caiu como uma bomba em nosso negócio. Esses últimos dois anos foram um período de muita introspecção, de recolhimento – fiquei muito mais próximo da minha mulher e dos meus filhos, de desaceleração e de reflexão. Intensifiquei o meu mergulho na disrupção e pude pensar em novas formas de trabalhar. Pode parecer bizarro, mas acredito que, apesar e talvez por causa de todo o sofrimento que nos foi imposto, hoje estamos mais fortes do que antes da Covid.

O que mais a L21 está preparando para este 2022 de retomada?

Estamos com vários projetos saindo do forno neste momento. No meio do ano, a Aventura Entretenimento vai estrear na Cidade das Artes um espetáculo musical celebrando os 25 anos dos estúdios Pixar, com personagens de ‘Procurando Nemo’, ‘Toy Story’, ‘Monstros S.A.’, ‘Up’, ‘Carros’ e ‘Os Incríveis’. No segundo semestre, a Musickeria vai gravar o Samba Book com canções de Beth Carvalho interpretadas por outros artistas, assim como fizemos há alguns anos com a obra de Zeca Pagodinho, Dona Ivone Lara, Jorge Aragão e João Nogueira. E tem muito mais coisa vindo por aí…

O Blue Note Rio vai voltar? Já cogitou produzir um festival Blue Note lá no alto da Urca?

O Blue Note Rio vai voltar, sim! Nossa expectativa é que a casa seja reaberta no final deste ano. Não vai ser no antigo endereço, na Lagoa. Estamos negociando outro imóvel para abrigar esse templo do jazz e da música instrumental.

Por fim, quais são as suas perspectivas para o negócio do entretenimento?

As perspectivas são as melhores. Se teve uma coisa que ficou muito clara durante a pandemia é que a arte e a cultura são artigos de primeira necessidade. E o patrocínio de festivais, exposições, shows e espetáculos é uma maneira gentil, positiva e eficiente de estreitar a conexão entre marcas e pessoas, de explicitar seus posicionamentos. Tenho visto muita gente cheia de projetos e de entusiasmo nessa retomada. Produtores animados, artistas motivados, público sedento: o ecossistema do setor de entretenimento e eventos está carregado de energia. Vamo que vamo!

 

Programação de abril do Tim Music Noites Cariocas

DIA 1 (SEXTA)
22h – Pocket Musical Tributo a Cazuza
24h – BaianaSystem

DIA 2 (SÁBADO)
23h – Ney Matogrosso

DIA 8 (SEXTA)
22h – Pocket Musical Tributo a Cássia Eller
24h – Anavitória

DIA 9 (SÁBADO)
23h – Baby & Pepeu 140 Graus
Tim Music Noites Cariocas
Praça General Tibúrcio, Praia Vermelha.
Ingressos a partir de R$ 120.

Gloria Groove reverencia a periferia paulistana em álbum “Lady Leste” e se firma como uma das artistas brasileiras mais ouvidas no mundo

Gloria Groove reverencia a periferia paulistana em álbum “Lady Leste” e se firma como uma das artistas brasileiras mais ouvidas no mundo

No álbum “Lady Leste”, a cantora Gloria Groove reverencia a Zona Leste paulistana e celebra seus 20 anos de carreira

Foi em meio aos muros grafitados e às batalhas de rap da Vila Formosa que, aos 17 anos, Daniel Garcia se descobriu Gloria Groove. Pegou maquiagem e roupas emprestadas da mãe, Gina Garcia, e fez seu primeiro show como drag queen na Zona Leste de São Paulo. “Filho de cantora, eu entrei para o show business muito cedo. Aos 7 anos já cantava com a galera do Balão Mágico, fazia teatro musical e dublava profissionalmente. Mas minha revolução artística só veio com a Gloria”, conta o multiartista de personalidade híbrida e identidade fluida, que se refere a si mesmo ora no masculino, ora no feminino. “Gloria é uma extensão do Daniel, ela o potencializa de forma que não sei mais dizer onde termina um e começa outro.”

A consciência de si e a energia criativa talvez expliquem a ascensão recente e estrondosa daquela que já é considerada uma das maiores vozes de sua geração. Em outubro de 2021, Gloria ganhou a boca do povo quando armou um circo em um videoclipe para expor os horrores da cultura do cancelamento em “A Queda” – hit que já ultrapassa a marca de 100 milhões de visualizações no YouTube. Mais tarde, no mesmo ano, denunciou a gourmetização da arte popular na música “Leilão” e ainda saiu vencedora do Show dos Famosos, quadro performático do “Domingão com Huck”, no qual emprestou sua pele, seu corpo e sua voz a personalidades como Jennifer Lopez, Justin Timberlake e Marília Mendonça.

Agora aproveita os holofotes conquistados para trazer luz à cultura de sua quebrada. Nas 13 faixas carregadas de mensagens que compõem o álbum “Lady Leste” – lançado em fevereiro e já no Top 10 da Billboard –, ela homenageia o funk de MC Daleste e os ritmos e sotaques das ruas que a criaram. Em entrevista à 29HORAS, Gloria Groove celebra as conquistas dessa nova era, comenta seu passado e seu presente na “ZL” e reflete sobre a representatividade drag na cena pop atual.

 

Gloria Groove | Foto Rodolfo Magalhães

Gloria Groove | Foto Rodolfo Magalhães

 

Hoje, desfrutando do título de uma das maiores cantoras da sua geração, você continua morando na Vila Formosa, em uma casa próxima à que vivia, quando criança, com sua mãe, sua tia e seus primos. O que a fez permanecer ali?

A Vila Formosa é um grande símbolo. É minha infância, minha adolescência e minha vida adulta sintetizadas. Apesar de já ter vivido em vários cantos de São Paulo muitas vezes de favor, debaixo do braço da minha mãe, que tinha uma carreira instável como cantora da noite –, a Vila me abrigou dos zero aos quatro anos de idade e, a partir dos doze, me proporcionou meus melhores anos, em colégios como Sagrado Coração e o José Marques da Cruz. A ZL foi o palco dos meus primeiros rolezinhos de shopping, das minhas primeiras quermesses e festinhas, do meu primeiro beijo. Sinto que continuar aqui hoje é como decolar e ainda ter a possibilidade de manter os pés no chão.

 

Você acaba de lançar um álbum que é praticamente uma ode à periferia paulistana. Por que se intitular Lady Leste e por que em um álbum tão cheio de parcerias, convidados especiais e homenagens?

Esse álbum é um compilado das referências que colhi desde o início da minha carreira. Me nomeio “Lady” em homenagem a todas as mulheres que me criaram artista e me apresentaram ao poder do meu feminino (de Gaga à minha mãe), e “Leste” em honra às minhas raízes periféricas. Minha arte não se fez sozinha e, por isso, agrego tantos nessa nova era. Na presente Lady Leste, a ideia é apontar para o meu futuro dos sonhos, a partir de vozes que ajudam a contar o meu passado.

 

Gloria Groove | Foto Arthur Wolkovier

Gloria Groove | Foto Arthur Wolkovier

 

Existe toda uma aura de glamour no universo drag, mas você traz um contraponto a essa narrativa: tem um estilo muito próprio, que mescla o luxo ao visual urbano, despojado, da rua. Como você construiu essa identidade?

Sempre estive no meio dessa tensão visual. Vivi imerso em dois mundos muito diferentes, de noite assistia à minha mãe cantando um jazz no Terraço Itália e, na manhã seguinte, estava dançando um funk 34 CAPA proibidão no intervalo da escola. Ambas as experiências me levavam a uma sensação muito forte de pertencimento. Minha identidade é híbrida, e acho que isso fala muito alto a minha estética artística também.

 

Além de trazer uma urbanidade latente, sua música expõe questões sociais, da LBGTfobia aos linchamentos virtuais. O público ainda se surpreende quando o pop ou o funk carrega mensagens profundas?

Sem dúvida. Esse estereótipo da arte popular como uma arte menor ainda resiste. Mas a verdade é que, quanto mais mainstream uma obra for, maior a sua potência de propagar mensagens e gerar mudanças. É extremamente possível ser dançante e incisivo, chiclete e engajado, divertido e crítico, simultaneamente. Quando usamos a popularidade de um som para reivindicar transformações sociais, estamos fazendo arte popular na sua mais profunda essência.

 

Gloria Groove | Foto Rodolfo Magalhães

Gloria Groove | Foto Rodolfo Magalhães

 

Mas, muito além do funk, você desbrava diversos estilos musicais. Vai do gospel ao pagode, do trap ao R&B. De onde vêm todas essas referências? E, no meio de tantas possibilidades, como unificar o “fator Gloria Groove”?

Tive a sorte de me alimentar de referências musicais das mais variadas procedências. Me apropriei do blues que minha mãe ouvia, da Broadway que meus amigos do teatro amavam, do samba no karaokê com a minha tia… Gosto de explorar vários estilos porque isso garante que o processo nunca seja monótono. Além disso, para mim, uma das coisas que mais torna icônico o trabalho de um artista é o poder de se reinventar, sem perder sua essência e originalidade vocal. É nisso que eu miro. Quero que a marca da GG seja sua voz e sua potência. O estilo musical é apenas um veículo.

 

Outra característica marcante de suas produções é o primor pela estética audiovisual. São videoclipes muito bem produzidos, com roteiros refinados. Um exemplo é “A Queda”, com visual macabro digno de Hollywood. Quem está por trás desses filmes?

Como boa adolescente fã da MTV, eu era apaixonada por videoclipes. Sempre acreditei que o audiovisual é capaz de complementar a mensagem musical, torná-la mais potente e palpável, e é por isso que invisto tanto, financeira e simbolicamente, nesse tipo de produção. Quero que tudo na minha arte comunique e atravesse as pessoas. Para isso, tenho ao meu lado diretores geniais como João Monteiro, Felipe Sassi e Belle de Melo, mas sempre estou 100% envolvido no processo, do roteiro à seleção de cenas para o corte final.

 

Depois de 20 anos de carreira, dez deles como drag queen, você acredita que tenha atingido, só agora, o auge? Daí do alto, o que você vê? Qual é o próximo passo?

É engraçado porque, como trabalho com música desde sempre, não consigo processar a ideia de estar “no auge”. Eu ainda me sinto no meio do caminho, tanto quanto há quatro anos, ou dez. Tenho muito mais a trilhar, muito mais a dizer, muito mais gente a alcançar. Mesmo que meu trabalho agora ocupe uma vitrine mais abrangente, tenho certeza de que ainda posso ir além. Enquanto houver como me reinventar, seguirei inquieta e criando.

 

Antes de se lançar como drag queen, você estudou teatro musical e foi dubladora. O que, dessa bagagem, você traz para a sua arte hoje?

Dublagem e teatro são minhas eternas escolas. Emprestar minha voz e meu corpo a um personagem é uma espécie de estudo social para mim. Dublar, assim como atuar, é se colocar no lugar de outros. Acredito que isso me ajudou muito, por exemplo, no Show dos Famosos, uma competição que exige que você viva outro alguém em todas as suas nuances. Isso e, claro, a habilidade de conciliar canto, dança e atuação, sem ficar maluca (risos) – o que, com certeza, veio com o estudo de teatro musical.

 

Gloria Groove | Foto Arthur Wolkovier

Gloria Groove | Foto Arthur Wolkovier

 

Em tempos de Gloria Groove no topo do Spotify, de Pabllo Vittar fazendo sucesso internacional, e de ‘Ru Paul’s Drag Race’ agregando fãs brasileiros, é possível dizer que a arte drag encontrou terreno seguro para se difundir pelo Brasil?

Os últimos dez anos mudaram drasticamente o jeito como a arte drag é experienciada pelo grande público. Hoje existem referências globais do que é ser uma drag queen de sucesso. Criaram-se espelhos para nós e exemplos para eles. E isso tem impacto direto na forma como a sociedade aborda a cultura drag que reside nos palcos e nas boates mundo afora. Estamos atingindo um espaço de reconhecimento e respeito profissional que, há algum tempo, parecia inimaginável em um futuro tão próximo. No Brasil, essa evolução se escancara com o sucesso de drags como Pabllo, eu, e tantas outras.

 

Aliás, como explicar um país ainda tão preconceituoso capaz de tornar drag queens tão famosas?

O Brasil é mesmo paradoxal. Afinal, estamos falando do país que mais mata pessoas trans no mundo e, ao mesmo tempo, o que mais consome pornografia envolvendo pessoas trans, por exemplo. Só com esses dados já é possível identificar o comportamento hipócrita e nocivo que se estabelece quando um país naturalmente diverso e multicultural é vítima de uma moral retrógrada e conservadora. É um lugar perigoso para a gente, mas estamos chegando no topo mesmo assim. E eu acredito muito que isso acontece porque a cultura brasileira é poderosa, colorida e plural, assim como as nossas drag queens. No final, a cara do Brasil “é nóis” e não eles.