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Fazenda Terra Preta se destaca pelo seu café de origem, reconhecido no exterior

Fazenda Terra Preta se destaca pelo seu café de origem, reconhecido no exterior

Para Fernanda Silveira Maciel Raucci, o café não é apenas uma bebida incrível, com seu aroma e sabor inigualáveis. O café é a história de suas raízes. Seu pai e seu avô paterno eram cafeicultores; seu avô materno, comerciante de café; e o bisavô materno corretor de café no Brasil e na Europa. Proprietária da Fazenda Terra Preta, parte remanescente de uma centenária fazenda de café situada em Pedregulho, na região da Alta Mogiana paulista, ela vê com orgulho a quarta geração, com seus filhos Felipe e Regina, dar continuidade a esse forte vínculo familiar com o grão.

“O café corre nas minhas veias, é meu projeto de vida”, diz Fernanda, que começou a tocar a fazenda em 1990, quando eram raras as mulheres produtoras na região. “Hoje queremos aumentar a presença feminina em todos os processos do negócio, por isso criamos o grupo Cerejas do Café, que une cafeicultoras de São Paulo e Minas Gerais.”

 

Fernanda Raucci na plantação de café em sua Fazenda Terra Preta - Foto: Divulgação

Fernanda Raucci na plantação de café em sua Fazenda Terra Preta – Foto: Divulgação

 

O café Terra Preta foi destaque no concurso Florada Premiada, da marca Três Corações, focado nas cafeicultoras; conquistou o título máximo no Concurso Nacional de Cafés da ABIC; e a classificação no Cup of Excellence de 2016 e 2017. Fernanda exporta o café verde, sem torrefação, e o produto industrializado para China, Estados Unidos, Espanha e Reino Unido.

Levemente frutado, com sabor caramelo e corpo licoroso, o Terra Preta está na categoria dos cafés especiais, determinados por características sensoriais. Livres de defeitos e com pontuação acima de 80 em uma escala de 0 a 100, os especiais têm torra mais clara e sabores e aromas distintos. Fernanda explica que o café tradicional acaba sendo mais escuro porque é excessivamente torrado para esconder impurezas como grãos brocados e fragmentos.

 

O terreiro de café na fazenda Terra Preta - Foto: Divulgação

O terreiro de café na fazenda Terra Preta – Foto: Divulgação

 

Durante a pandemia, ela se surpreendeu com o alto consumo do café especial, o nicho que mais cresceu nesse período: “Mais em casa, as pessoas começaram a experimentar cafés diferenciados e aprender sobre métodos de preparo.”

Preocupada com a sustentabilidade, a fazenda alia novas tecnologias agrícolas ao respeito e cuidado com o meio ambiente, e tem vários certificados, como o Rainforest Alliance. “Trabalhamos com dedicação para oferecer nossos melhores grãos. Na torrefação, o mestre é meu filho Felipe, que conhece como ninguém cada característica, cada detalhe dos cafés, do plantio à xícara”, diz Fernanda, apaixonada por essa bebida.

Hair Concept por Roberta Gomes inaugura novo espaço em Campinas

Hair Concept por Roberta Gomes inaugura novo espaço em Campinas

A empresária Roberta Gomes acaba de chegar em Campinas com sua marca internacional, focada em cuidados capilares personalizados.

Ela é carioca, mas vive como cidadã do mundo. Roberta Gomes tem 43 anos, mora em três países – Brasil, Estados Unidos e Emirados Árabes – e passa boa parte do seu tempo nos ares, ainda que seja muito pé no chão. “Vivo nos aeroportos, entre voos, para monitorar as fábricas e os salões”, conta. A Hair Concept, sua rede especializada em produtos e tratamento para saúde capilar, emprega 200 funcionários em doze unidades espalhadas por cinco países. Além dos três acima, Qatar e Bahrein.

 

Roberta Gomes aplicando sua tecnologia de análise de fios - Foto: Divulgação

Roberta Gomes aplicando sua tecnologia de análise de fios – Foto: Divulgação

 

Nas últimas semanas, Roberta tem circulado mais pelo Aeroporto de Viracopos, já que acaba de inaugurar um novo espaço em Campinas, no hotel Royal Palm Plaza. Aberto para hóspedes e clientes da região, o salão oferece, além dos serviços básicos de beleza, a detalhada análise diferencial dos fios e do couro cabeludo, com cuidados personalizados e uso de tecnologia de ponta. Todos os procedimentos seguem protocolos e cumprem as regras estabelecidas pela OMS e pela Prefeitura de Campinas.

“É um conceito inovador que permite recriar o cabelo saudável e perfeito com o qual você nasceu”, explica. A empresária começou cedo nessa área. E mergulhou de cabeça por necessidade própria: “Fui mãe aos 14 anos e, apesar de não recomendar essa experiência para ninguém, a maternidade precoce me fez entender que eles dependiam inteiramente de mim. Criei meus quatro filhos sozinha, por ser separada do pai deles. Isso foi um grande incentivo para entrar no ramo da beleza e me especializar em cosmetologia e tricologia.”

 

Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

 

Depois de ter lançado várias marcas de produtos para cabelos nos Estados Unidos, onde mora desde 2008, Roberta acordou um dia com um sonho. “O Hair Concept surgiu em um sonho. Nele, a gente personalizava os produtos e cada profissional estava setorizado com uma responsabilidade, exatamente como é hoje. Foram quatorze meses para projetar esse conceito, não existia nada parecido no mundo”, conta.

A primeira unidade foi montada em 2016, na Flórida. A segunda em São Paulo e a terceira no Qatar, pois ela já atua no Oriente Médio há doze anos com a marca RG Cosmetics. “Costumo dizer que meu coração é dividido em três: Brasil, EUA e Oriente Médio”, define Roberta, que quando não está ocupada gerenciando as empresas da RG Holding, não abre mão de ficar em casa curtindo a família e aprendendo a nova arte de ser avó com Sophia, sua primeira neta, de um ano e meio.

 

Entrada do Hair Concept, em Campinas - Foto: Divulgação

Entrada do Hair Concept, em Campinas – Foto: Divulgação

Marfrig adquire uma significativa participação na BRF

Marfrig adquire uma significativa participação na BRF

Marfrig, potência das carnes bovinas, adquire uma significativa participação na BRF, líder no mercado de aves e suínos. Se a fusão for concluída, vai dar origem a uma poderosa empresa com faturamento anual de mais de US$ 20 bilhões.

Em um movimento que surpreendeu muita gente, a processadora de carnes Marfrig, do empresário Marcos Molina, abocanhou mais de 30% das ações da empresa de alimentos BRF. A Marfrig é 100% focada em carne bovina e é dona de marcas como Montana e Bassi. Já a BRF trabalha apenas com carne de frango (entre 70% e 80% da receita) e carne suína (entre 20% e 30%).

 

Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

 

Uma empresa complementa o portfólio da outra, e uma eventual união entre as duas geraria pouca sobreposição geográfica, uma vez que as operações da Marfrig se concentram na América do Norte (70% da receita) e América do Sul (30%), enquanto a BRF — controladora das marcas Sadia e Perdigão — tem sua atuação mais limitada ao Brasil (80% da receita) e ao Oriente Médio.

A nova empresa formada pela fusão já nasceria como uma das cinco maiores empresas de proteína do planeta, com um faturamento anual de mais de R$ 100 bilhões (ou cerca de US$ 20 bilhões), mais de 50 unidades produtivas e mais de 120 mil colaboradores. A Marfrig informa que — ao menos no curto prazo — não pretende interferir diretamente nos rumos da BRF ou eleger membros para o Conselho de Administração. A aquisição dessa significativa participação na empresa seria apenas um “investimento estratégico”. Mas a posse de mais de 30% das ações garante à Marfrig um enorme poder de fogo nas assembleias e nas tomadas de decisão do Conselho da BRF.

A aquisição, fusão ou seja lá qual nome tiver essa operação, ainda não está concluída. O desfecho deve acontecer neste segundo semestre de 2021. E certamente vai colocar mais uma gigante do agronegócio brasileiro em destaque no cenário mundial.

 

Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

 

Prosa rápida

  • Mango hype

Enquanto a Marfrig avança sobre a BRF, sua arquirrival JBS anuncia a compra da Rivalea, líder na criação e processamento de carne de porco na Austrália, responsável por 26% dos suínos processados no mercado local. Com essa aquisição, a JBS diversificará seus produtos no país e no Sudeste Asiático.

  • Sem apagão

Neste momento em que os reservatórios das usinas hidrelétricas estão esvaziados e em situação periclitante, as usinas de processamento de cana-de-açúcar podem ajudar a reduzir a chance de apagões e racionamento de energia elétrica no Brasil. A eletricidade de biomassa, gerada a partir do bagaço de cana, custa menos da metade daquela produzida nas centrais térmicas movidas a gás, diesel e carvão. As usinas sucroalcooleiras, concentradas no Centro-Sul, podem entregar energia por algo entre R$ 300 e R$ 400 por mega watt-hora, enquanto hoje há usinas térmicas com custo superior a R$ 1.000 por MWh.

  • Lanche venenoso

O uso de agrotóxicos no país é tão descontrolado que eles aparecem até em vários alimentos processados. Análise feita pelo Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (IDEC) detectou a presença de resíduos de herbicidas de alta toxicidade em produtos como as bebidas de soja da Batavo, os cereais matinais Nesfit, os snacks Baconzitos (da Pepsico), os biscoitos Triunfo (da Arcor) e Oreo (da Mondeléz) e nas bisnaguinhas Panco, Seven Boys (da Wickbold) e Pulmann (da Bimbo).

Para Rachel Maia, da RM Consulting, diversidade nas empresas é uma responsabilidade social

Para Rachel Maia, da RM Consulting, diversidade nas empresas é uma responsabilidade social

A empresária Rachel Maia ajuda corporações a apostarem na representatividade no ambiente de trabalho, fazendo com que inovem e ampliem seus negócios.

No início de 2021, segundo a Companhia de Estágios, empresa de RH, as contratações de estagiários negros triplicaram no Brasil. Foram 743 admissões no primeiro trimestre em relação às 250 nos primeiros três meses de 2020, um aumento de 197%. Conjunturas melhores e abertura para debates dentro das empresas estão no centro dessa mudança.

Para Rachel Maia, da RM Consulting, priorizar a representatividade nas companhias não é questão apenas de responsabilidade social, mas também de oportunidade. “O processo de letramento social consiste em entender que as empresas não operam no vazio, mas sim nas sociedades, em que as mudanças culturais, sociais, econômicas e políticas refletem nas práticas do universo corporativo. Ter pessoas diferentes em um mesmo ambiente proporciona ter vários pontos de vista para uma mesma situação; isso é essencial para o desenvolvimento de um negócio, porque amplia a capacidade de inovação e a pluralidade do debate.”

 

Rachel Maia, empresária - Foto: Divulgação

Rachel Maia, empresária – Foto: Divulgação

 

A empresária defende o conceito de letramento social para que os colaboradores passem a refletir criticamente sobre a sociedade e entender que a falta de pluralidade é um problema estruturalmente enraizado. “A partir daí é que haverá embasamento para a criação de ações afirmativas voltadas à empregabilidade de grupos historicamente minorizados, como PcD, negros, LGBTQIA+, mulheres, dentre outros”, explica Rachel, que dá consultoria a grandes empresas, como a XP e a JBS Brasil.

Uma das poucas mulheres negras a chegar ao topo do universo corporativo na América Latina – foi CEO da Lacoste, Pandora e Tiffany –, ela hoje se dedica a projetos próprios: além da consultoria RM, Rachel é fundadora do Capacita-me, voltado à educação e empregabilidade de pessoas em vulnerabilidade socioeconômica.

Por ter transitado em diferentes espaços e testemunhado a falta de representatividade em muitos deles, a empresária considera a diversidade e a inclusão parte importante da sua jornada. “Eu fui uma outlier! Nasci na periferia, estudei em escolas públicas e encarei preconceitos por ser negra e mulher. Mas tudo isso me fez acreditar nos meus valores e lutar pela inclusão”. Rachel Maia conta ainda que vislumbra um momento em que as pessoas se sentirão desconfortáveis em ambientes predominantemente compostos por um único grupo da sociedade: classe social, gênero ou cor. “Acredito que, em breve, por meio do letramento social e da educação, as pessoas serão genuinamente agentes da transformação social.”

 

Rachel Maia, empresária - Foto: Divulgação

Rachel Maia, empresária – Foto: Divulgação

Kátia Barbosa, jurada do “Mestre do Sabor”, traz em sua culinária o sabor da comida popular e a força da mulher brasileira

Kátia Barbosa, jurada do “Mestre do Sabor”, traz em sua culinária o sabor da comida popular e a força da mulher brasileira

Criadora dos famosos bolinhos de feijoada, dona do botequim Aconchego Carioca e jurada do reality “Mestre do Sabor”, a sempre bem-humorada Kátia Barbosa é a síntese da mulher brasileira, que sabe viver em meio a adversidades e, disso, trazer prosperidade.

Feijão preto, paio, linguiça, carne seca, costelinha, lombo, bacon e alho. Para dar liga, farinha de copioba, que é mais fininha e torradinha do que a farinha de mandioca comum. Para rechear, tirinhas de couve com mais bacon. A arquitetura de uma obra de arte é engenhosa, combina um monte de ingredientes e um bocado de processos. É preciso dessalgar, cozinhar, temperar, refogar, empanar e fritar. Foi preciso também evocar memórias afetivas para se chegar ao bolinho de feijoada. A dona desse feito tem nome: Kátia Barbosa

 

Foto - Divulgação

Foto – Divulgação

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Chefs estrelados de diversas partes do mundo, sambistas de cada canto do Rio de Janeiro, foodies do Brasil todo já enfrentaram fila para provar a iguaria. Embora se diga melhor vendedora do que cozinheira, Katita nunca gastou o gogó para levar multidões à Praça da Bandeira, na zona norte carioca. Naturalmente, suas generosas bolinhas de feijão viraram atrações da Grande Tijuca, junto à quadra do Salgueiro e à terceira maior floresta do mundo. Mais: eternizaram o Aconchego Carioca como um dos maiores botequins do país.

Um menu de tesouros fritos e criativos faz, sim, parte do legado. Porém, é o vestir a camisa da comida popular brasileira e o inegável carisma de Kátia que colocaram o bar na história da Gastronomia nacional. Mais do que a jurada mãezona e atual campeã do programa “Mestre do Sabor”, exibido nas noites de quinta-feira na TV Globo, ela é a defensora dos pratos com alma e técnica, do arroz com feijão de excelência, da rabada com habilidade, do escondidinho com perspicácia.
Mais desbocada e espirituosa do que se poderia imaginar para um reality show de culinária da TV, ela trilhou esse caminho como todos os outros de sua vida – espontaneamente. Há coisa de uma década, por exemplo, ela flechou o coração de Claude Troisgros: “Eu vi a Katita começar no primeiro restaurante, bem pequenininho. Vi ela entrar no mercado, crescer e se desenvolver. É uma cozinheira como ninguém, conhece a cozinha da terra, do povo e de família com muita sabedoria. É uma pessoa iluminada”.

 

Kátia Barbosa com os colegas jurados do reality "Mestre do Sabor", Leo Paixão e Rafa Costa e Silva - Foto: Divulgação

Kátia Barbosa com os colegas jurados do reality “Mestre do Sabor”, Leo Paixão e Rafa Costa e Silva – Foto: Divulgação

 

À lista de elogios que o chef francês costuma tecer faz ainda do bolinho de feijoada “uma das maiores maravilhas do mundo” e algo que não se expressa com palavras – foi ao Aconchego que Claude fez questão de levar o pai em sua passagem pelo Brasil. Para quem acha que o filho é que é celebridade, Pierre Troisgros foi um dos pioneiros da Nouvelle Cuisine, movimento que nos anos 1970 revolucionou não somente a trajetória da culinária francesa, mas mundial.

“Primeiro a Clarice, esposa de Claude, disse que ia trazer o namorado dela ao Aconchego. Quase morri quando vi quem era! Depois, no dia seguinte, ele apareceu com o cachorro e, como não tinha lugar, ficou em um degrauzinho tomando cerveja e comendo bolinho. Acabou voltando umas duas ou três vezes até me pedir a receita”, lembra-se Kátia.

Detalhe: mesmo com o passo a passo anotado, o preparo não deu certo. Resultado? Claude arrastou seu fiel escudeiro, Batista, até a cozinha tijucana e, entre a degustação de um quitute e outro, aprendeu o processo, mas não o segredo. “Como o bolinho de arroz com o arroz que sobra, o bolinho de feijoada me pareceu óbvio”, desdenha a autora. Mas ali, naquela massa, tem as lembranças da mãe engrossando o feijão com farinha, uma criatividade nata e a capacidade de sublimar as combinações mais corriqueiras.

 

A chef com Claude Troisgros - Foto: Divulgação

A chef com Claude Troisgros – Foto: Divulgação

 

Alma brasileira

Tudo dito até agora poderia ser pura ladainha, não fosse o tal bolinho uma alegoria de sua própria inventora. Cascudinha por fora, Kátia desmancha por dentro. Mais do que a forma, sabe que é o recheio que importa. Entre atender mesas e buscar os pratos na cozinha liderada pelo irmão, formou-se chef pelo olhar atento, pela sensibilidade. O aprimoramento, todavia, veio com a dedicação.

“Meu repertório era curto e eu não tinha grana, então passava horas em livrarias. Não lia receitas, porque não queria aprender a reproduzir, queria entender o comportamento dos ingredientes, as questões químicas”. Em outras palavras, a carioca devorou enciclopédias e livros de hoje colegas como Ferran Adrià e Alex Atala. Viajou o quanto pode e, por tentativa e erro, deu forma a uma metodologia instintiva, empreendedora por necessidade, brasileira até dizer chega.

Sua comida traduz sua história, nasce da vulnerabilidade e transborda abundância. Afinal, ao pé do primeiro fogão, além do irmão cozinheiro, eram mais sete crianças. Uma mãe lavadeira e um pai camelô. “Imagina fazer comida para nove filhos todo santo dia? A cozinha da minha mãe era sobrevivência. Era usar o aipim quando não tinha dinheiro para o pão, misturar o fubá com leite de coco e açúcar pra dar sustância. E quando não tinha nada, pegar o mamão verde no quintal para fazer picadinho”, conta Kátia.

O pai, por sua vez, cozinhava quando a esposa saía: “Aí todo mundo podia entrar na cozinha. Ele também levava a gente à Feira de São Cristóvão para comer rabada, mocotó e carne de sol. Para ele, comer era muito importante, porque ele passou fome, mas o mais importante era mostrar que comer aquelas coisas era um jeito de preservar a cultura nordestina”.

 

A cozinheira com sua filha, a também chef Bianca Barbosa - Foto: Berg Silva

A cozinheira com sua filha, a também chef Bianca Barbosa – Foto: Berg Silva

 

Valorizar o simples

Em vez de panelas, fuets e facas, a herança paraibana, o orgulho das origens e a infância nas vizinhanças do Complexo do Alemão são suas tatuagens. São traços sentidos no corpo, como ter doado o rim à sobrinha ou dado luz às filhas. A primogênita, Bianca, por sinal, além de cozinheira talentosa, comandará o novo restaurante da mãe, o Kalango, que abre este mês em Botafogo. Copa lombo com cuscuz nordestino, rubacão, sonho de bobó de camarão e vaca atolada estão entre os destaques do menu criado a quatro mãos.

A par da novidade, David Hertz, fundador da Gastromotiva, parceiro de Jamie Oliver e um dos maiores empreendedores da gastronomia social do mundo, repete a torto e a direito que “não bastasse fazer a melhor comida brasileira, a Kátia representa a mulher brasileira, sabe o que é viver em meio a adversidades e disso trazer prosperidade”.

Não à toa, sempre que pode ela leva essa trajetória consigo. Nessas, o percurso da chef já foi base de aulas emocionantes e jantares em Londres, Nova York e Copenhague. “Às vezes a gente precisa ir longe para ver o que está na nossa cara. Anos atrás, na Inglaterra, o Daniel Boulud serviu uma sobremesa bem cremosa, com tapioca e leite de coco, uns cubinhos bem pequenininhos de manga e um praliné de castanha de caju. Pensei: como é que um francês que mora em Nova York fez isso aqui melhor do que brasileiro? Na hora saquei que a questão era valorizar o simples, porque não adianta nada viajar o mundo inteiro e não saber fazer uma carne de panela”. Misto de reflexão e desabafo, a recordação é cotidiana durante as gravações do “Mestre do Sabor”.

Por incrível que pareça, o amigo Claude deu o maior apoio, mas foi Boninho quem escolheu a cozinheira como jurada. Desde então, há três anos, ao longo de pelo menos duas semanas, dez horas por dia, Katita se esforça para combater o “complexo tupiniquim” que pesa sobre a comida popular brasileira, para afirmar-se enquanto mulher preta e periférica e para inspirar em rede nacional: “Mais do que criar bolinho e ser copiada, o legal é motivar os botequins a melhorarem. O Aconchego foi um divisor de águas, hoje todo bar tem uma linha de bolinhos e isso me enche de orgulho. Quero passar isso também para os candidatos e para quem assiste ao programa”.

Kátia chora, briga, brinca e se emociona. Na frente e detrás das câmeras. Em casa, evita miúdos, ama vegetais, come tudo com pimenta e abre mão de qualquer coisa para ficar com Madá, a netinha de quatro anos. Nas redes sociais, esquece de postar a linha de congelados “Kátia Barbosa em Casa“, mas jamais o produto de um colega de profissão. Na cozinha, faz questão de trabalhar com jovens para remoçar e de se embrenhar no próprio DNA. E, no fim do dia, a conclusão é sempre a mesma: “Não é que essa merda de fazer bobó direitinho deu certo?”.

 

Os famosos bolinhos de feijoada, criação de Kátia. - Foto: Eduardo Almeida | Estudio Semente

Os famosos bolinhos de feijoada, criação de Kátia. – Foto: Eduardo Almeida | Estudio Semente