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Após meses de isolamento, Ney Matogrosso volta aos palcos para celebrar seus 80 anos de vida e quase cinco décadas de música

Após meses de isolamento, Ney Matogrosso volta aos palcos para celebrar seus 80 anos de vida e quase cinco décadas de música

Neste improvável e difícil ano, Ney Matogrosso lançou novo álbum, fez 80 anos e agora encara, tranquila e sabiamente, a sua intensa finitude.

Ney é um artista que elegeu o contato direto com o público nos shows como sua grande força. Embora tenha gravado álbuns fundamentais para a MPB, as turnês movem a sua carreira. Enquanto outros gravam um disco e então tratam de organizar o show para divulgá-lo, Ney Matogrosso pensa primeiro no espetáculo, nas roupas, no cenário, no repertório. O estúdio fica para depois.

Assim, o cancelamento de todos os shows no planeta durante a pandemia de Covid-19 foi um grande revés para o cantor. Logo ele, que estava em turnê do disco “Atento aos Sinais”, com cinco anos de viagens pelo Brasil, e já mostrava ao público desde 2019 o show de “Bloco na Rua”, lançado no mesmo ano. E, pior, uma coisa dessas acontecendo em 2021, quando ele comemorou 80 anos no dia primeiro de agosto.

 

Ney Matogrosso - Foto: Marcos Hermes | Divulgação

Ney Matogrosso – Foto: Marcos Hermes | Divulgação

 

Para ultrapassar esse período ruim, veio a ideia de gravar. Chega “Nu com Minha Música”, álbum irretocável com 12 poderosas canções, lançado em novembro. “Inventei de fazer um disco para me tirar mesmo daquilo, era minha única alternativa. Mas foi difícil, porque foram condições bem adversas. Tirando tom por telefone, ouvindo arranjo por telefone, tudo muito complicado”, conta Ney, que tomou uma decisão incomum. Ele dividiu as gravações com quatro produtores, todos também músicos de primeiro time: o tecladista Sacha Amback, o pianista Leandro Braga, o guitarrista Ricardo Silveira e o violonista Marcello Gonçalves.

“São pessoas com quem eu trabalhei muitas vezes. Eles tocaram no palco comigo, já me dirigiram musicalmente em vários shows, gente que está comigo há muitos anos. Os quatro me conhecem muito bem. Selecionei 12 músicas e distribuí três para cada um, o que também deu uma facilitada na coisa, porque se fosse uma pessoa só para fazer 12 músicas ficaria mais complicado e demorado. E eu queria mesmo para o meu aniversário. Então deu tudo certo. Lançamos quatro músicas em agosto, num EP, uma produzida por cada um”, lembra.

 

Ney Matogrosso - Leo Aversa

Ney Matogrosso – Leo Aversa

 

O quarteto de canções mostra o cantor com compositores que são queridos por ele, nomes que comparecem em inúmeros álbuns da carreira: “Nu com Minha Música”, de Caetano Veloso, “Se Não For Amor Eu Cegue”, de Lula Queiroga e Lenine, “Mi Unicornio Azul”, do cubano Silvio Rodriguez, e “Gita”, de Raul Seixas e Paulo Coelho. Agora, nas outras faixas que completam o álbum recém-lançado, há mais gente habitual no repertório, como Roberto e Erasmo (“Sua Estupidez”), Vitor Ramil (“Noturno”), Herbert Vianna (“Quase um Segundo”) e Alice Ruiz e Itamar Assumpção (“Sei dos Caminhos”). Ney admite não ser um disco de músicas destinadas ao sucesso, mas o considera profundo.

De volta aos palcos, o cantor fará um show na Marina da Glória, no Rio de Janeiro, em 8 de janeiro. Em 7 de maio estará em Campinas e, no dia 17 de julho, no Central Park, em Nova York.

 

Longe da despedida

Fazer 80 anos pode ser algo que provoque reflexão, talvez um balanço do que a pessoa já realizou, levando a exercícios como listar aquilo que poderá ser considerado seu legado. Não para Ney Matogrosso, que rebate com veemência a ideia. “Nem penso nisso! Nada de balanço da vida.” Lembra que alguém perguntou se ele estava se despedindo da carreira. A resposta foi imediata: “Que me despedindo o quê, mané! Que coisa!”, repete Ney, rindo.

Quando é chamado a comentar sua discografia, iniciada em 1975 depois do sucesso estrondoso nos dois anos anteriores como vocalista do fenômeno Secos & Molhados, ele não gosta de tudo que gravou. Mas considera que não errou, as gravadoras é que erraram, ao exigir a gravação de discos anuais.

“Falo daqueles discos até os anos 1980, nos quais às vezes gravei sobras de um show, simplesmente porque fui obrigado. Eu não podia dizer não. Mas briguei muito, passei por sete gravadoras. Ninguém pedia demissão de gravadora. Eu pedia. Não podia continuar ali. Percebo que tem alguns discos que não me satisfazem. Gosto de três ou quatro músicas, mas do resto não gosto. E eles não tinham a preocupação de me colocar no estúdio com uma boa banda. Pego um disco meu e escuto umas coisas estranhas, de menor qualidade. Mas não era culpa minha. Era obrigado a fazer.”

 

Ney Matogrosso - Foto: Marcos Hermes | Divulgação

Ney Matogrosso – Foto: Marcos Hermes | Divulgação

 

Ney conta ainda que guarda em casa relações de músicas que um dia quer gravar. “Por exemplo, ‘Mi Unicornio Azul’ eu ouvi pela primeira vez na década de 1970 com o Silvio Rodriguez, no Canecão. Tentei colocar em outros discos, mas não cabia. Agora neste novo álbum, que é completamente desvinculado de qualquer proposta além de cantar só o que eu quisesse, coube.” Jovens compositores o procuram bastante. Mas sair de casa para ver show de algum artista novo, que começa a despontar, curiosamente é mais difícil. “Não sou uma pessoa que vive a noite. Não gosto nem de sair de casa. Gosto de receber pessoas, receber amigos dentro de casa. Eu não sou muito da rua nem da noite. Mas esporadicamente vejo algum show, sim.”

O cantor tem no currículo colaborações em discos e shows com algumas bandas, como Pedro Luís e a Parede e Nação Zumbi. Mas nunca pensou, desde o Secos & Molhados, na ideia de pertencer novamente a uma banda. “Mas eu monto grupos que duram muito, como o atual. Eu fiz com essa banda o show de ‘Atento aos Sinais’, que ficou cinco anos em cartaz, e estávamos nessa turnê que vai para o segundo ano. A gente tinha feito um e parou por causa da pandemia.”

E confessa que pode recorrer a músicos diferentes. “Se, de repente, eu quiser fazer um disco todo romântico, aí posso achar que a atual não é a banda para isso. Porque essa é mais pesada, é pop, rock. Quando eu fui fazer o disco ‘Beijo Bandido’ (2009), gravei com Leandro Braga. Era cello, violino, percussão e piano. E gostei muito do resultado.”

 

Estrela reservada

Em agosto, Ney Matogrosso ganhou um espaço enorme na mídia, por causa de seu aniversário. Além do lançamento do EP de quatro novas gravações, o jornalista Júlio Maria publicou uma biografia do cantor, o que atraiu ainda mais atenção. E ficou incomodado com o excesso de exposição. “Sou muito comedido, mas no aniversário perdi completamente o controle.” Mas há limites de privacidade dos quais ele não abre mão. “Minha casa eu não mostro nunca. Não vou à Ilha de Caras nem que me paguem. O máximo que possa preservar, eu preservo. É um paradoxo, né? Porque sou a pessoa que mais se expõe no palco, mas gosto da vida reservada.”

Falando do palco, ninguém esperava, nem ele mesmo, que alguém com 80 anos tivesse tanta disposição física. “Sempre utilizei meu físico e continuo usando. Não sei explicar como sou capaz disso, mas faço ginástica diariamente, mantenho o tônus muscular. Não sou uma pessoa que gosta de comer muito, eu me cuido, não bebo, não fumo. Então isso ajuda a me manter até agora podendo usar o meu corpo desse jeito.”

 

Ney Matogrosso - Foto: Marcos Hermes | Divulgação

Ney Matogrosso – Foto: Marcos Hermes | Divulgação

 

Ney levou algum tempo para que essas atitudes saudáveis entrassem em sua vida. “Nos anos 1970, não tinha cuidado nenhum, né? Eu me levantava da minha cama, colocava uma gema na boca, tomava um copo de leite e ia para a praia, passava o dia inteiro na praia. Era assim. A partir de um momento, mudei. Eu tenho muitos amigos médicos, conversava com eles, que diziam que eu estava errado. Tomava só Coca-Cola. Não tomava água. Mas mudei por minha própria decisão. Eu fui entendendo que tinha de comer mais fruta, mais verdura, mais folhas. Antes praticamente não me alimentava. Comia uma vez por dia quando chegava da praia. Eu tinha 30 aninhos, né?”

Mas não adianta procurar por Ney e seus conselhos nas redes sociais. Ele diz não gostar, de jeito nenhum, dessas mídias. Não alimenta perfil e nem contrata gente para fazer isso, mesmo que apenas nos aspectos profissionais. “Não quero cair no caldeirão da bruxa, porque é o caldeirão da bruxa, né? Falam absurdos, todos têm opiniões, todo mundo fala mal de todo mundo. Para que eu vou me meter numa coisa que só vai me aborrecer? Não quero, não tenho necessidade disso.”

Sobre política, assunto tão recorrente nas redes, ele não foge. Ney concorda que a eleição de 2022 pode ser uma das mais agressivas da história. E acha que desta vez não pode ficar de fora. “Eu já anulei voto, mas agora não dá para anular. Anular é você não querer nenhum dos dois, nenhum te satisfaz, mas estamos em um momento no qual não cabe esse luxo.”

 

Finito e eterno

Ney Matogrosso convive com a ideia de sua finitude tranquilamente. “Com 80 anos, tive tempo de elaborar isso. Penso em amigos e amores, e perdi quase todos. Então tive muito tempo para refletir. Essa é a única certeza de que nós, humanos, temos. Uma hora nós vamos embora. Olho para isso com muita naturalidade, e a única coisa que eu peço para mim mesmo é tranquilidade nessa hora.”

Conhecido em todo o Brasil desde o Secos & Molhados, Ney fica impressionado que as pessoas nas ruas o reconhecem de máscara. “Pensei que na pandemia poderia andar sem ser reconhecido na rua, mas que nada! Isso não me incomoda. Só odeio que me agarrem, que me impeçam de continuar andando. Na beira do palco, podem botar a mão em mim à vontade. Mas não me segurem. Passar a mão em mim eu deixo. Se eu ficasse incomodado com isso, minha vida seria uma chatice.”

 

Ney Matogrosso – Foto Marcos Hermes | Divulgação

 

Elza Soares completa 90 anos em meio à pandemia, com intensa e inquieta produção musical

Elza Soares completa 90 anos em meio à pandemia, com intensa e inquieta produção musical

Quando uma pessoa comemora 90 anos, com saúde e disposição, é hora de festejar muito. No caso de Elza Soares, é conveniente trocar o verbo “festejar” por “trabalhar”. E trabalhar muito. Em 2020, com boa parte do mundo imobilizada pelas restrições impostas pela pandemia de Covid-19, a cantora chegou às nove décadas de vida e lançou três singles, com direito a fazer videoclipes e divulgar as novidades em suas redes sociais.

Neste ano, Elza não pensa em parar. Já soltou música nova, “Nós”, com letra na qual dedica um samba a quem a fez sorrir, chorar, sonhar, ser feliz e amar. Uma canção com a cara e o espírito da cantora, que atravessou uma vida de alegrias e sofrimentos, sem que essa gangorra de emoções fizesse esmorecer a vontade de distribuir amor.

 

FOTO RODOLFO MAGALHÃES

FOTO RODOLFO MAGALHÃES

 

“Amor.” É a curta resposta de Elza diante da pergunta sobre o que a faz nunca se acomodar e pedir que todas as pessoas façam o mesmo. “Se você ama o próximo, você se preocupa com tudo. Isso se chama amor. Tem que dar a mão a quem precisa. Tem que seguir seu caminho dando as mãos.”

“Nós” teve seu lançamento em homenagem ao Dia Internacional da Mulher, no último 8 de março. A associação de sua figura à luta das mulheres é recorrente, porque Elza carrega uma história de enfrentamento constante às adversidades de uma sociedade machista e violenta. Nascida de família pobre, no bairro de Padre Miguel, cresceu em outra localidade desfavorecida do Rio de Janeiro, Água Santa.

Quando compara os caminhos possíveis para uma menina pobre e preta nos anos 1930 e 1940 com as condições enfrentadas hoje por uma garota na mesma classe social, a cantora vê dificuldades semelhantes, porém com meios para amplificar sua voz. “Hoje nós temos meio de comunicação, temos que botar a cara, mostrar a cara. As redes sociais vieram para isso, para estarmos unidas. Eu acho que nós, mulheres, não temos que abaixar a cabeça para mais nada, somos nós que movimentamos o mundo.”

 

Self-made woman

Elza, ainda menina, saía de casa disposta a conseguir mais dinheiro para a família. Trabalhava, pedia ajuda na rua, ia atrás do que precisava, com tenacidade incomum em uma garotinha. Após nove décadas, segue combativa. Nas canções que grava ou no dia a dia com a mídia, segue cutucando feridas, falando de racismo, de violência doméstica, de diferenças sociais.

Casada aos 13 anos, por causa de uma tentativa de abuso sexual, foi mãe ainda adolescente. Na vida, teve oito filhos. Dois deles morreram por desnutrição, um foi entregue à adoção, uma menina foi sequestrada com um ano de idade (só reencontrada pela cantora 30 anos depois) e o caçula, filho do jogador Garrincha, morreu em 1986, aos nove anos. Em 2015, Gilson, de 59 anos, foi outra perda para seu coração de mãe.

 

Família de Elza e Mané Garrincha em casa, na Ilha do Governador, em 1963 - FOTO JOSÉ CARLOS VIEIRA | EM/D.A.PRESS | DIVULGAÇÃO LEYA

Família de Elza e Mané Garrincha em casa, na Ilha do Governador, em 1963 – FOTO JOSÉ CARLOS VIEIRA | EM/D.A.PRESS | DIVULGAÇÃO LEYA

 

A música veio para levar a vida para a frente, dando a ela uma paixão a seguir. “A música sempre foi meu caminho. Eu cresci com meus pais tocando violão e cantando. Então a música, para mim, é tudo.”

A trajetória musical, que não foi suficiente para dar tranquilidade a uma vida pessoal conturbada, não seguiu um desses roteiros de sucesso da noite para o dia. Em 1953, sem que a família soubesse, decidiu tentar a sorte no programa de rádio “Calouros em Desfile”, que era apresentado por Ary Barroso, o lendário compositor de hinos da música brasileira como “Na Baixa do Sapateiro” e “Aquarela do Brasil”, que tratava seus candidatos com humor de implacável ironia.

Elza foi se apresentar com uma roupa da mãe, que era muito maior do que ela. A tentativa de ajustá-la com alfinetes deixou seu visual esquisito, e Ary Barroso não iria deixar passar a chance de fazer graça. “De que planeta você veio, minha filha?”. E a cantora disparou: “Do mesmo planeta que o senhor, seu Ary. Do planeta fome”.

Hoje, em meio a uma pandemia que expõe milhares de pessoas passando fome, Elza é incisiva: “A gente tem fome de amor próprio, por mais humanidade e o fim de toda essa fome que temos. O resto a gente tira de letra. A pandemia veio para nos ensinar. A gente sabe que é difícil, mas a gente tem que abrir espaço para melhorar.”

Voltando a 1953, Elza cantou para Ary Barroso a música “Lama”, de Paulo Marques e Aylce Chaves, conquistando a nota máxima do programa. Os versos da canção, que poderiam soar estranhos a uma cantora tão jovem, já se encaixavam como um canto de luta contra os problemas que Elza já tinha enfrentado e ainda enfrentaria: “Se eu quiser fumar, eu fumo/ Se eu quiser beber, eu bebo/ Não me interessa mais ninguém/ Se o meu passado foi lama/ Hoje quem me difama/ Vive na lama também”.

O bom desempenho não abriu tantas portas. Pelo resto da década de 1950, ela cantou aqui e ali. As coisas melhoraram quando ganhou lugar na orquestra do professor de música de seu irmão. Com o grupo, passou a se apresentar em festas, bailes e outros eventos. Também sentiu o racismo forte, que a impedia de integrar a orquestra em alguns clubes que não permitiam negros no palco.

Elza só viu sua carreira deslanchar com o primeiro álbum, “Se Acaso Você Chegasse”, em 1960, o início de uma discografia com 35 lançamentos. O sucesso dos três primeiros discos foi posteriormente ofuscado quando ela conheceu Garrincha, em 1962. O jogador deixou a mulher e filhas para ficar com ela, e fãs e imprensa não perdoaram a cantora. O casal teve muitos problemas, com Garrincha começando o declínio no futebol e Elza com poucos contratos para cantar, por causa da rejeição popular.

Shows bem recebidos nos Estados Unidos e no México mostraram o exterior como caminho mais seguro, já que até a casa da família sofria ataques de vândalos. Eles foram morar na Itália, e Elza passou a ter uma carreira internacional, lançando discos e colecionando prêmios.

 

A cantora se apresenta em Nova York, em 1968. - FOTO PAULO LORGUS | EM/D.A. PRESS | DIVULGAÇÃO LEYA

A cantora se apresenta em Nova York, em 1968. – FOTO PAULO LORGUS | EM/D.A. PRESS | DIVULGAÇÃO LEYA

 

Depois de outros períodos conturbados, ela foi recuperando seu prestígio no Brasil. Foi importante o resgate de Elza pelo amigo Caetano Veloso, nos anos 1980. Novamente estabelecida como estrela na MPB, ela encontrou um pouco de tranquilidade para a dedicação total à arte. “Na música é onde eu expresso o que tenho vontade. Foi e sempre será a música livre, espontânea, uma expressão do que eu quero. A música era tão forte que acalmava nossa fome. A música tem sido para mim o ato de liberdade, o ato de viver.”

 

Elza Soares em show com Caetano Veloso, em 1986 - FOTO ARQUIVO | AGÊNCIA | DIVULGAÇÃO LEYA

Elza Soares em show com Caetano Veloso, em 1986 – FOTO ARQUIVO | AGÊNCIA | DIVULGAÇÃO LEYA

 

 

Antropofagia e jovialidade

Ficou sem gravar um disco de músicas inéditas entre 1988 e 1997. A partir de então, sua produção fonográfica é intensa e cada vez mais mostra uma cantora com a cabeça aberta a todos os gêneros. Nos estúdios, teve colaborações de um verdadeiro A a Z de bambas, em uma lista que inclui Caetano, Chico Buarque, Carlinhos Brown, Lenine e muitos outros.

Esse ecletismo parece motivado pelo grande interesse dela por samba, jazz, rock, bossa nova e música eletrônica. “Eu acho que cantar é liberdade. Você tem liberdade para cantar o que gosta, o que fique bem na voz. Eu sempre tive liberdade para escolher o meu repertório. Chet Baker, Caetano e Chico são meus preferidos. Mas eu escuto todo mundo.” Em 2014, chegou a apresentar o show “A Voz e a Máquina” acompanhada apenas por DJs.

Seus álbuns mais recentes têm letras contundentes e uma miscelânea sonora arquitetada por ótimos músicos da nova geração. A entrega de sua voz tão particular a essa MPB moderna tornou clássicos instantâneos os álbuns “A Mulher do Fim do Mundo” (2015), “Deus É Mulher” (2018) e “Planeta Fome” (2019).

 

Elza Soares com a cantora Mc Rebecca, no lançamento da música "A Coisa Tá Preta" - FOTO RODOLFO MAGALHÃES

Elza Soares com a cantora Mc Rebecca, no lançamento da música “A Coisa Tá Preta” – FOTO RODOLFO MAGALHÃES

 

Elza teve recentemente uma oportunidade de contar sua história e elucidar muitas passagens conturbadas de sua vida, até mesmo o ano correto de seu nascimento. É 1930, mas como trocou de documentos ao se emancipar para se casar ainda adolescente, fontes variadas davam a ela idades diferentes.

Esse e outros casos foram contados a Zeca Camargo, que transformou o material em uma completa e carinhosa biografia, “Elza” (editora LeYa, R$ 69,00), ainda em catálogo. Os relatos no livro mostram a jovialidade de Elza, o que acaba se refletindo em seu trabalho, sempre disposta a gravar com músicos jovens. “A gente sempre busca gente jovem, que está começando uma carreira. Eu os alimento, eles também me alimentam. Isso me mantém viva, acho importante.”

Alguns temas já são aceitos no discurso de uma mulher negra e madura, como o racismo e o feminismo, mas algumas questões parecem ainda incomodar, como falar de sexualidade. Ela exalta a liberdade sexual em músicas como “Eu Quero Dar para Você” ou “Pra Fuder”. “Eu me sinto livre. Você tem liberdade para ser e fazer o que bem quiser. Acho que você ser livre é isso aí.”

Vacinada, mas ainda confinada para seguir se protegendo, Elza sente saudade do carinho da plateia. Na pandemia, procura a aproximação virtual com os fãs. “Eu me mantenho ativa nas redes sociais. Converso com eles, recebo carinho, é algo recíproco.” E a questão política é o que mais a preocupa, mas é contundente e firme em seu diagnóstico: “O problema depois é votar. É necessário. Se não souber votar, fica ruim.”

 

Elza Soares no lançamento da música "A Coisa Tá Preta" - FOTO RODOLFO MAGALHÃES

Elza Soares no lançamento da música “A Coisa Tá Preta” – FOTO RODOLFO MAGALHÃES

 

Imersão provocadora dos Irmãos Campana

Imersão provocadora dos Irmãos Campana

A intrigante beleza dos móveis dos Irmãos Campana pode ser contemplada na exposição 35 Revoluções na reabertura do MAM

 

 

A estreia de “Irmãos Campana – 35 Revoluções” aconteceu em 14 de março, mas não foi possível prosseguir. A pandemia deixou o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM) de portas fechadas por cinco meses. O confinamento não deixou os irmãos do design, Fernando e Humberto, parados. Participaram de exposições virtuais: a “Viewing Room “Nightscapes”, da Galeria Luisa Strina, e da primeira exposição digital do Museu Maxxi de Roma, “Casa Mondo”, exibida no Instagram (@maxxicasamondo), com colagens feitas por artistas durante a quarentena.

 

 

Agora eles estão de volta com a megaexposição que sintetiza os 35 anos de carreira. Reaberto desde 12 de setembro, de quinta a domingo, o MAM traz uma série de novidades: um cuidadoso protocolo de segurança sanitária para os visitantes, com diretrizes do Conselho Internacional de Museus (ICOM); novos horários e não há cobrança obrigatória de ingresso, que é garantido apenas online.

Em março, os irmãos Campana conversaram com a 29HORAS, falaram sobre suas diferenças e o trabalho conjunto, as inspirações na cultura e na biodiversidade brasileiras, as atividades sociais do instituto que dirigem, as criações no estúdio em São Paulo, além dos destaques da exposição.

 

O DNA da arte

 

Quando todos vão se acomodar para começar a entrevista, alguém percebe que não há cadeiras suficientes no escritório. É necessário ir a outra sala do prédio buscar mais uma. É muito engraçado pensar que, por um breve instante que seja, possa faltar cadeira ali, o lugar em que surgiram algumas das cadeiras mais famosas do mundo.

 

“É que está meio vazio por aqui, muita coisa já foi para o Rio”, desculpa-se Humberto. Parece até ironia, porque o imenso estúdio situado no bairro paulistano de Santa Cecília, a poucos metros do mastodôntico Minhocão, está abarrotado de materiais diversos. Em vários ambientes do grande espaço, muitos funcionários. Alguns deles trabalham ali há mais de dez ou vinte anos. Dependendo do estágio das montagens aos cuidados de cada um, pode ser até difícil entender que estão construindo móveis. Até mesmo depois de prontas, algumas peças vão desafiar os limites do que se convencionou chamar de móveis.

 

O Estúdio Campana é o quartel-general dos irmãos Humberto e Fernando Campana, dupla que revolucionou o design no país. E continua revolucionando. Quando explica que “muita coisa foi para o Rio”, Humberto se refere à imensa exposição aberta no Museu de Arte Moderna, que exibe a forte inovação e a intrigante beleza produzidas em 35 anos de atividade da dupla.

 

O maior evento dedicado a eles traz o olhar de uma curadora italiana, a ensaísta Francesca Alfano Miglietti. “É uma exposição jubileu, uma coisa de afeto. Nós somos netos de italianos. Queríamos uma curadora de arte. Todas as exposições que fizemos antes foram com curadores de design. Eu faço pontes entre design e arte, acho que a criação nesse século é plural”, explica Humberto.

 

A proposta é uma instalação. O visitante adentra uma floresta com colunas de palha de piaçava (fibras usadas na fabricação de vassouras e cabanas) e percorre seis salas temáticas: Pensamento, Amor, Sonho, Metamorfose, Segredos e Tempo. Ali estão peças icônicas e algumas inéditas. Contemplam muitos materiais e técnicas diferentes. Para Humberto, é uma imensa metáfora. “Vejo como um convite a olhar o meio ambiente com mais respeito.”

 

A dupla começou em uma época em que ninguém falava de sustentabilidade. “Eu nasci no interior, sou neto de fazendeiro, vivia na natureza. Meu pai era agrônomo, ele nos ensinou o amor à terra”, conta Humberto, o irmão mais velho, de 67 anos. Fernando completou 59 anos em maio.

 

“Há 15 anos nós plantamos 15 mil mudas de árvores nativas no nosso sítio”, prossegue. “Nesse verão eu plantei 800 para reposição. Sempre pensamos nisso. Começamos a fazer móveis para encontrar outras possibilidades. Na época se falava muito em madeira de mogno. Queria alternativas, montar cadeiras usando plástico bolha, bichinhos de pelúcia ou mangueiras de jardim.” Basta percorrer os galpões do estúdio para perceber como a variedade de materiais é vital. “O material, lembrando Pirandello, é como um personagem esperando um ator. Veja como tem coisas espalhadas aqui. Trago o que me interessa e vou convivendo com isso, esperando a ideia. Demora um pouco até a ficha cair. Às vezes demora um ano, às vezes dez anos.”

O início dessa viagem criativa veio do desejo de Humberto de largar a carreira no direito, em 1984. “Eu via as exposições que a Lina Bo Bardi fazia quando eu era advogado e aquilo me contaminava. Via os projetos do Burle Marx, aquele uso da flora do Brasil, e queria fazer algo assim.” Seu irmão, arquiteto, decidiu ajudá-lo. “O Fernando veio para ficar um tempo e está ficando até hoje”, brinca Humberto.

“Somos muito diferentes um do outro, mas essa diferença nos complementa. O Fernando fica na casa dele, é mais conceitual. Eu adoro o processo, fico com o artesão fazendo junto. E, com essa distância, às vezes o Fernando enxerga o novo onde eu não consigo”, diz Humberto, que vai ao estúdio todos os dias. Segundo ele, algo necessário para sua saúde mental.

 

Fernando não gosta de rotina. “Isso acaba comigo. Meu processo criativo é caótico e uma necessidade de estar em algum lugar diariamente destrói esse processo. Eu funciono de uma maneira mais livre, mais conceitual. Viajo bastante, assisto a filmes, vou a shows e todas essas experiências me trazem ideias. Então Humberto me conta sobre as experimentações que tem feito com materiais novos e aí acontece nossa alquimia. Gosto de chegar de surpresa no estúdio, ver as peças sendo produzidas e conversar com a equipe.”

 

Em 1989, a série de cadeiras Desconfortáveis fez barulho. Eram peças irregulares a ponto de indicar uma espécie de olhar punk para o design. Humberto diz que não queriam seguir os rumos ditados pela Bauhaus, escola de arte vanguardista alemã da primeira metade do século 20 e a maior expressão do que é considerado modernismo no design.

 

“Era um momento difícil, da saída da ditadura, veio tudo como um vômito. Detestei a faculdade de direito, fiquei cinco anos na São Francisco. Tinha dificuldade de me impor como designer. Eu comecei do nada, era artesão, sou artesão até hoje, com orgulho. Quando pensava na influência da Bauhaus, sabia que não poderia ser o único caminho. Somos escandinavos? Alemães? Então fomos buscar o que é o Brasil.”

Foi uma busca por imperfeição e extravagância. Estão na exposição no MAM duas peças antológicas da dupla, a Cadeira Vermelha e Poltrona Favela, fundamentais para a conquista de atenção mundial. “A Vermelha é acervo do MoMA (Museu de Arte Moderna de Nova York). As duas estão em vários museus pelo mundo. Creio que mostraram uma nova forma de projetar, com mais liberdade. Deixei de ser advogado para ser livre e ainda busco isso.”

 

Fica evidente que a obra dos Campana critica uma sociedade massificada, industrial. Há uma ponte clara entre o artesanal e o tecnológico. “Tudo o que fizemos é experimental, então é visto como novidade”, afirma Fernando. “Algumas coisas podem ter fugido ao nosso contexto de visão de design, mas olhando nossa trajetória, acho que temos coerência, sem seguir tendências. Seguindo mais nosso coração do que exigências do mercado.”

 

E o mercado acolheu muito bem o caminho inusitado dos Campana. Algumas unidades da Cadeira Vermelha chegaram a custar R$ 30 mil. A demanda do Estúdio Campana há muito tempo ultrapassa o mobiliário, trabalhando com moda, design de interiores, landscape. Eles têm parcerias com Alessi, Edra, Lacoste e Louis Vuitton, entre outras marcas. Fizeram coleções para a Tok Stok e ganharam extrema popularidade criando sapatilhas de plástico Melissa para a Grandene.

 

“Sempre que começo um projeto nunca penso em quanto ele vai custar. Posso ficar bloqueado. Temos peças feitas em edição limitada, de três, cinco, ou vinte unidades. Feitas manualmente, algumas levam de um a dois meses para a finalização. São vendidas em galerias de arte. Fazendo isso eu sustento meu estúdio, tenho orgulho de empregar 20 pessoas”, conta Humberto.

As peças atingem o lado infantil das pessoas. Poltronas e sofás feitos com bichos de pelúcia, plástico bolha ou isopor despertam a vontade de tocar. Humberto credita isso à infância no interior paulista. Ele nasceu em Rio Claro, e o irmão, em Brotas. “Eu fazia casas em árvores com bambu, o Fernando montava naves espaciais com mandacaru. Misturar o feito à mão com a tecnologia está em nós, o DNA Campana é essa coisa híbrida.”

Algumas pessoas brincam, questionando se é possível ficar sentado em todas as cadeiras e poltronas exuberantes dos Campana. Humberto diz que algumas coisas dão certo funcionalmente, enquanto outras não. Para Fernando, o funcional pode ser uma obra de arte. “Ao mesmo tempo, faço trabalhos sem preocupação nenhuma com funcionalidade, como as esculturas da coleção Cidadão, que estão na exposição no Rio”.

 

 

Em 2009, eles criaram o Instituto Campana, sustentado apenas pelo trabalho da dupla. A intenção foi preservar o grande acervo de obras e fazer trabalho social. Entre outras atividades, atuam com grupos de sem teto e dão aulas a crianças da favela do Moinho, de São Paulo.

“As crianças vêm aqui e ficam no galpão principal. Ali está cheio de material, papelão, plástico bolha, damos tudo isso”, conta Humberto, empolgado. “Antes nós íamos na comunidade. As crianças vivem uma realidade claustrofóbica. Então passamos a trazê-las para cá, levamos a exposições, fomos à mostra do Leonardo Da Vinci. O instituto é a grande aposta dos Campana para o futuro. “O design é uma ferramenta generosa. Posso falar com um estudante europeu, com uma bordadeira de Alagoas ou com um artesão de uma comunidade de São Paulo e transformar a vida de todos ao mostrar uma nova aplicação para coisas que eles já sabem fazer”, acredita Fernando.

 

“Eu quero deixar um legado, fazer uma escola dentro do instituto. Uma escola de marcenaria, de resgate de tradições manuais, de cestaria, bordado, serralheria”, diz Humberto. “E quero ser jardineiro. Eu adoro plantar!”

 


EXPOSIÇÃO IRMÃOS CAMPANA – 35 REVOLUÇÕES

MAM Rio – Av. Infante Dom Henrique, 85, Parque do Flamengo

Quinta e sexta, das 13h às 18h. Sábado e domingo, das 10h às 18h., até 10 de janeiro

Venda online com valores sugeridos de R$ 20 para adultos e R$ 10 para estudantes e idosos

 

 

 

Oscar 2020 conta com surpresas fora das categorias principais

Oscar 2020 conta com surpresas fora das categorias principais

A pergunta até 9 de fevereiro, dia da 92ª cerimônia do Oscar, é descobrir quais as chances do brasileiro “Democracia em Vertigem” levar o prêmio na categoria Melhor Documentário. Ao que parece, são poucas. O ótimo “For Sama” seria uma barbada. O filme sírio mostra o dia a dia de uma mãe com filho pequeno nos conflitos em Aleppo, durante a Guerra Civil Síria. Não chorar está fora de cogitação.

Cena do documentário “Democracia em Vertigem” da Netflix

Mas suas chances diminuem muito diante de “Indústria Americana”, documentário que traz a reflexão sobre o impacto da tecnologia de empresas chinesas nos Estados Unidos. Bem realizado e com uma visão otimista, é a primeira indicação ao Oscar de um filme da produtora de Michelle e Barack Obama. Isso deve pesar. O filme pode ser visto na Netflix.

Se “Parasita” tem até alguma chance de levar como Melhor Filme, o prêmio de Melhor Filme Internacional parece garantido para essa produção sul-coreana de terror e humor negro. Mas a vitória do impecável espanhol “Dor e Glória” seria justa e uma festa para os fãs de Pedro Almodóvar.

Para Melhor Filme de Animação, resta saber se a Academia terá coragem de peitar os grandes estúdios e premiar o ótimo “Link Perdido”, produção menor sobre a descoberta de um ancestral dos seres humanos. O filme pode desbancar “Como Treinar o Seu Dragão 3” e “Toy Story 4”. Mas surpresa mesmo seria o Oscar ir para o francês “Perdi Meu Corpo”, bizarra animação sobre as aventuras de uma mão decepada! Essa excentricidade também está disponível na Netflix.

A animação “Perdi Meu Corpo” tenta destronar a Disney

Uma irresistível e pouco comentada opção para seis minutos muito fofos é o americano “Hair Love”, que pode levar o Oscar de Curta de Animação. É a história de um pai que tem de pentear o cabelo da filha pela primeira vez. Um filme doce e envolvente, encontrável no YouTube.

E para o Oscar de Melhor Canção, Elton John e Bernie Taupin, que formam uma das parcerias de compositores mais queridas do mundo, escreveram “(I’m Gonna) Love Me Again” especialmente para a cinebiografia “Rocketman”. A Academia não vai deixar de valorizar essa deferência da dupla em compor algo inédito para um filme.

Atração do Rock in Rio, Alok rompe os limites da música eletrônica e surpreende por sua história

Atração do Rock in Rio, Alok rompe os limites da música eletrônica e surpreende por sua história

Alok foi uma das atrações do festival de música eletrônica

Alok no festival Sunrise em Colberga, na Polônia, em julho deste ano. Fotos: Alisson Demetrio

Na noite de 27 de setembro, abertura da sétima edição do Rock in Rio, o goiano Alok irá se apresentar no gigantesco festival. Frequentador do ranking de melhores DJs do planeta elaborado pela revista britânica “DJ Mag”, bíblia da música eletrônica, ele estará no Palco Mundo, o maior do evento, diante de quase 100 mil pessoas. Alok não se assusta com multidões.

Em julho, foi uma das atrações do Tomorrowland, na Bélgica, o mais badalado festival de música eletrônica do mundo, que recebeu 400 mil pessoas em seis dias. Aos 28 anos, ele acumula uma década e meia de precoce experiência nessa cena musical. Além de bem-sucedido, Alok não é, definitivamente, um DJ como outros.

Apesar de muita gente acreditar que Alok seja pseudônimo artístico, o nome que aparece nos seis passaportes que já teve, lotados de carimbos, é Alok Achkar Peres Petrillo. Na escola, brincadeiras foram inevitáveis, mas hoje ele acredita que não conseguiria escolher nome melhor. “É forte, só quatro letras, fácil, gosto muito. E não conheço outro Alok”, diz, rindo. Filho de DJs que ele chama carinhosamente de “meio hippies, malucões”, seu nome veio de experiências do casal na Índia. Alok, que em sânscrito significa “luz”, tem um irmão gêmeo, não idêntico, chamado Bhaskar, e uma irmã, Jaya.

O nome incomum é hoje apenas um detalhe divertido numa carreira incomparável. Por que ele foi convidado para figurar num Rock in Rio que terá uma constelação pop que inclui Foo Fighters, Drake, Bon Jovi e Iron Maiden? Porque Alok carrega o título de “o brasileiro mais ouvido no mundo”.

Seu som se espalha em performances nos maiores eventos do gênero e pelas músicas que produz e lança de modo incessante. Apenas este ano, ele já soltou dez singles. Os números de visualizações e audições desses hits nas plataformas digitais são medidos na casa das dezenas de milhões de execuções.

Alok rompe os limites da música eletrônica, apresenta um som que mistura gêneros pop sem pudor e com ótimos resultados, aumentando a cada dia sua legião de seguidores. Um bom DJ precisa ter experiência. É necessário passar por vários lugares diferentes para, no jargão desses artistas, saber “ler a pista”, perceber o que o público quer ouvir.

Alok tocou para milhares no maior evento de música eletrônica

Alok se apresentou no festival Tomorrowland, na Bélgica, em julho último

“A escolha das músicas que funciona em um lugar pode fracassar totalmente em outro”, explica. “Já aconteceu de estar tocando e abrir um buraco na pista, a galera perder o interesse. Na minha primeira vez em Portugal, saí vaiado. Eu aprendi. Hoje vou lá e tudo fica lotado. Fui muito à China, lá muda tudo. Não dá para impor o que a gente acha certo para outra cultura, tem que ter versatilidade e ler a pista”.

Ele também sente as diferenças dentro do Brasil. Diz que há influência do nível social das festas e do perfil da casa. Depois de produzir e gravar com estrelas como Matheus & Kauan e Simone & Simaria, ele já lotou muitas vezes o VillaMix, maior reduto paulistano do sertanejo moderno. “Quando eu vou tocar ali, sei que não é o público eletrônico. O ambiente da festa faz com que eles entendam como vou tocar. Quando é uma festa eletrônica, não posso fazer um set igual ao do VillaMix”.

A versatilidade é um ponto fundamental na sua carreira. Ainda pré-adolescente, formou com o irmão o projeto Lógica. Por muitos anos, a dupla criou e apresentou música eletrônica. Em 2010, quando partiu para a carreira solo, abriu a cabeça, como ele mesmo define. Pegou gosto por mashups, as misturas reverenciadas no eletrônico. “Pego a música de um artista, o vocal de outro, a batida de um terceiro. Fazer isso dar certo é precioso para um DJ”.

Seu set tem hoje Pink Floyd, Queen, até Legião Urbana, com músicas como “Pais e Filhos”. “Quando me perguntam, principalmente lá fora, qual é o meu estilo musical, respondo que sou um espírito livre. Faço o que eu acho que é legal”. As parcerias com nomes da cena eletrônica já seriam suficientes para diversificar seu som, mas ele assumiu riscos grandes.

“Fazer som com Matheus & Kauan foi importante naquela aproximação do eletrônico com o sertanejo, eles estavam bombando. Poderia ser um tiro no pé, mas eu acreditava que o meu mercado também poderia ser o sertanejo, então estaria me sabotando se recuasse. Deu supercerto!”

Alok não é apenas um DJ, é um produtor musical e compositor. “Gravo, faço toda a produção. Só não canto, esse dom eu realmente não tenho”. Ele revela que pede ajuda a alguns compositores nas letras, porque acredita ainda não ter a sensibilidade para escrever tão bem em inglês. Cita um exemplo. Pensou no verso “let’s live forever together” (vamos viver juntos para sempre). Depois de um trabalho em parceria, ficou “let’s write our names in the trees” (vamos escrever nossos nomes nas árvores), maneira bem mais lírica para uma jura de amor eterno.

O inglês de Alok é muito bom. Chega a ser engraçado descobrir que ele abandonou a faculdade de relações internacionais. Afinal, aos 17 anos tinha feito turnê com o irmão por 19 países. Já era um adolescente cidadão do mundo. Até agora sua música o levou a 51 países. “Talvez 52, fiz a conta outro dia, mas é difícil ter certeza”.

Alok tem sua própria gravadora e negocia com companhias maiores a distribuição de suas músicas. Tudo é digital, sem lançar CD ou vinil. O ritmo é frenético. Nos últimos meses, soltou dois singles com uma semana de diferença. “Ninguém tem tempo para consumir um álbum”.

As parcerias, em sua maioria, são feitas à distância, trocando arquivos sonoros pela internet. “Já terminei música sem encontrar o parceiro, que acabo conhecendo pessoalmente depois. Alguns eu nunca encontrei. Escrevo alguma coisa, gravo, recebo um vocal, então não gosto e peço outro. E assim vai”.

Claro que existem os parceiros favoritos. Seu maior sucesso chegou com dois amigos. Em 2016, ele, o DJ Bruno Martini e o cantor Marcos Zeeba fizeram uma versão de “Hear Me Now”, composta por Zeeba. Com ela, Alok se tornou o primeiro brasileiro a ter uma música que ultrapassou 100 milhões de audições no Spotify. Sua popularidade permite que trabalhe com nomes poderosos da cena eletrônica mundial e, no Brasil, amplie parcerias com estrelas como Luan Santana e Anitta.

“Eu me vejo hoje como um artista pop que se expressa pelas pick-ups. Quando recebi o convite do Rock in Rio, vi que tinha feito a escolha certa lá atrás. Fiz o certo ao não colocar limites, ao buscar o público sertanejo, as crianças, aceitar tocar em grandes festas de São João no Nordeste. Planejar isso é impossível. Acho que existe uma magia, coisas que você não consegue explicar. Seguir o coração, estar no lugar certo na hora certa. Se disser que tem fórmula para isso, vou estar mentindo.”

Alok diz acreditar que sua vida pessoal, com atuação em projetos sociais, afeta positivamente sua vida profissional. “Se parar de trabalhar por um bem coletivo, acho que minha carreira desanda na hora. É assim que tenho equilíbrio, é com isso que eu faço sentido, sabe?”

Quando já era um sucesso mundial, Alok foi diagnosticado com depressão profunda. Questionava se a vida era apenas ter dinheiro. Mas, aos poucos, foi deixando de se revoltar com o que considerava “gente fútil, preocupada com preços de vinho e relógios”. Pensou em criar um Instituto Alok para filantropia, mas desistiu quando percebeu que embarcaria numa trip de vaidade. “Tinha começado a fazer, tomei um prejuízo enorme, mas vi que o melhor era apoiar causas já estruturadas”.

Com crianças do projeto Fraternidade sem Fronteiras em Moçambique, na África

Ele atua no projeto Fraternidade Sem Fronteiras. Ajudou a construir escolas e hospitais em regiões de extrema pobreza na África. Depois, ao ver pessoas nas mesmas condições no sertão baiano, colocou de pé o projeto Vila da Esperança, em Canudos. Dar uma olhada no WhatsApp de Alok, exibido ao repórter pelo próprio DJ, é perceber que ele faz muito mais do que dar dinheiro. São incontáveis mensagens trocadas com os voluntários dos projetos, trazendo atualizações sobre os trabalhos e discussões sobre as ações.

“Gosto de participar. O lado DJ é uma ferramenta para fazer essa outra parte. Não falo isso numa dimensão religiosa. Falo de equilíbrio, de plantar e colher. O universo tem um caminho a seguir.”

Em qualquer negociação que envolva sua música, ele busca colaboradores. Negocia agora com uma grande empresa do país um contrato que vai além do entretenimento. O dinheiro servirá para levar água a regiões do semiárido do Nordeste.

Esse lado “bom moço” surpreende ainda mais quando fica evidente que ele permanece “careta” num universo de excessos. “Agradeço a Deus ter nascido nessa família bem hippie, alternativa. Essa bagagem é uma das grandes razões por eu ter chegado até aqui. Desde menino sempre tive acesso a tudo, sem tabus”.

Ele considera hipocrisia negar as drogas na cena eletrônica. “Tive a chance de escolher e escolhi. Nunca precisei cheirar pó, aprendi vendo os outros. Já bebi, mas não curto, não gosto de perder a noção. Mas não julgo. A droga é uma fuga, pode ser uma necessidade para se manter são. As pessoas dão duro sem ganhar o que merecem, tomam esculacho do patrão, sofrem violência. Então no fim de semana querem uma anestesia, na droga ou na bebida. Eu não julgo ninguém”. Na rotina alucinante de estúdios e palcos, Alok tem praticamente a agenda de 2020 fechada. Mas sua vida ganhará um novo e muito aguardado integrante. Sua mulher, a baiana Romana Novais, espera o primeiro filho do casal.

Ele acha graça quando é indagado sobre os efeitos que um bebê poderá ter em sua rotina de viagens pelo mundo. “Tenho um time muito bom para cuidar das coisas no trabalho e um time melhor ainda dentro de casa. Estou tranquilo porque sei que a minha mulher será uma mãe incrível”.

No começo de 2020, a chegada da criança coincide com um bom período de Alok no Brasil. “Este ano ainda vou para Estados Unidos e Japão, mas depois o Brasil pega fogo no verão. Tem Réveillon, festivais nas praias, Carnaval, depois as grandes festas de São João. Amo ficar por aqui”.