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Imersão provocadora dos Irmãos Campana

Imersão provocadora dos Irmãos Campana

A intrigante beleza dos móveis dos Irmãos Campana pode ser contemplada na exposição 35 Revoluções na reabertura do MAM

 

 

A estreia de “Irmãos Campana – 35 Revoluções” aconteceu em 14 de março, mas não foi possível prosseguir. A pandemia deixou o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM) de portas fechadas por cinco meses. O confinamento não deixou os irmãos do design, Fernando e Humberto, parados. Participaram de exposições virtuais: a “Viewing Room “Nightscapes”, da Galeria Luisa Strina, e da primeira exposição digital do Museu Maxxi de Roma, “Casa Mondo”, exibida no Instagram (@maxxicasamondo), com colagens feitas por artistas durante a quarentena.

 

 

Agora eles estão de volta com a megaexposição que sintetiza os 35 anos de carreira. Reaberto desde 12 de setembro, de quinta a domingo, o MAM traz uma série de novidades: um cuidadoso protocolo de segurança sanitária para os visitantes, com diretrizes do Conselho Internacional de Museus (ICOM); novos horários e não há cobrança obrigatória de ingresso, que é garantido apenas online.

Em março, os irmãos Campana conversaram com a 29HORAS, falaram sobre suas diferenças e o trabalho conjunto, as inspirações na cultura e na biodiversidade brasileiras, as atividades sociais do instituto que dirigem, as criações no estúdio em São Paulo, além dos destaques da exposição.

 

O DNA da arte

 

Quando todos vão se acomodar para começar a entrevista, alguém percebe que não há cadeiras suficientes no escritório. É necessário ir a outra sala do prédio buscar mais uma. É muito engraçado pensar que, por um breve instante que seja, possa faltar cadeira ali, o lugar em que surgiram algumas das cadeiras mais famosas do mundo.

 

“É que está meio vazio por aqui, muita coisa já foi para o Rio”, desculpa-se Humberto. Parece até ironia, porque o imenso estúdio situado no bairro paulistano de Santa Cecília, a poucos metros do mastodôntico Minhocão, está abarrotado de materiais diversos. Em vários ambientes do grande espaço, muitos funcionários. Alguns deles trabalham ali há mais de dez ou vinte anos. Dependendo do estágio das montagens aos cuidados de cada um, pode ser até difícil entender que estão construindo móveis. Até mesmo depois de prontas, algumas peças vão desafiar os limites do que se convencionou chamar de móveis.

 

O Estúdio Campana é o quartel-general dos irmãos Humberto e Fernando Campana, dupla que revolucionou o design no país. E continua revolucionando. Quando explica que “muita coisa foi para o Rio”, Humberto se refere à imensa exposição aberta no Museu de Arte Moderna, que exibe a forte inovação e a intrigante beleza produzidas em 35 anos de atividade da dupla.

 

O maior evento dedicado a eles traz o olhar de uma curadora italiana, a ensaísta Francesca Alfano Miglietti. “É uma exposição jubileu, uma coisa de afeto. Nós somos netos de italianos. Queríamos uma curadora de arte. Todas as exposições que fizemos antes foram com curadores de design. Eu faço pontes entre design e arte, acho que a criação nesse século é plural”, explica Humberto.

 

A proposta é uma instalação. O visitante adentra uma floresta com colunas de palha de piaçava (fibras usadas na fabricação de vassouras e cabanas) e percorre seis salas temáticas: Pensamento, Amor, Sonho, Metamorfose, Segredos e Tempo. Ali estão peças icônicas e algumas inéditas. Contemplam muitos materiais e técnicas diferentes. Para Humberto, é uma imensa metáfora. “Vejo como um convite a olhar o meio ambiente com mais respeito.”

 

A dupla começou em uma época em que ninguém falava de sustentabilidade. “Eu nasci no interior, sou neto de fazendeiro, vivia na natureza. Meu pai era agrônomo, ele nos ensinou o amor à terra”, conta Humberto, o irmão mais velho, de 67 anos. Fernando completou 59 anos em maio.

 

“Há 15 anos nós plantamos 15 mil mudas de árvores nativas no nosso sítio”, prossegue. “Nesse verão eu plantei 800 para reposição. Sempre pensamos nisso. Começamos a fazer móveis para encontrar outras possibilidades. Na época se falava muito em madeira de mogno. Queria alternativas, montar cadeiras usando plástico bolha, bichinhos de pelúcia ou mangueiras de jardim.” Basta percorrer os galpões do estúdio para perceber como a variedade de materiais é vital. “O material, lembrando Pirandello, é como um personagem esperando um ator. Veja como tem coisas espalhadas aqui. Trago o que me interessa e vou convivendo com isso, esperando a ideia. Demora um pouco até a ficha cair. Às vezes demora um ano, às vezes dez anos.”

O início dessa viagem criativa veio do desejo de Humberto de largar a carreira no direito, em 1984. “Eu via as exposições que a Lina Bo Bardi fazia quando eu era advogado e aquilo me contaminava. Via os projetos do Burle Marx, aquele uso da flora do Brasil, e queria fazer algo assim.” Seu irmão, arquiteto, decidiu ajudá-lo. “O Fernando veio para ficar um tempo e está ficando até hoje”, brinca Humberto.

“Somos muito diferentes um do outro, mas essa diferença nos complementa. O Fernando fica na casa dele, é mais conceitual. Eu adoro o processo, fico com o artesão fazendo junto. E, com essa distância, às vezes o Fernando enxerga o novo onde eu não consigo”, diz Humberto, que vai ao estúdio todos os dias. Segundo ele, algo necessário para sua saúde mental.

 

Fernando não gosta de rotina. “Isso acaba comigo. Meu processo criativo é caótico e uma necessidade de estar em algum lugar diariamente destrói esse processo. Eu funciono de uma maneira mais livre, mais conceitual. Viajo bastante, assisto a filmes, vou a shows e todas essas experiências me trazem ideias. Então Humberto me conta sobre as experimentações que tem feito com materiais novos e aí acontece nossa alquimia. Gosto de chegar de surpresa no estúdio, ver as peças sendo produzidas e conversar com a equipe.”

 

Em 1989, a série de cadeiras Desconfortáveis fez barulho. Eram peças irregulares a ponto de indicar uma espécie de olhar punk para o design. Humberto diz que não queriam seguir os rumos ditados pela Bauhaus, escola de arte vanguardista alemã da primeira metade do século 20 e a maior expressão do que é considerado modernismo no design.

 

“Era um momento difícil, da saída da ditadura, veio tudo como um vômito. Detestei a faculdade de direito, fiquei cinco anos na São Francisco. Tinha dificuldade de me impor como designer. Eu comecei do nada, era artesão, sou artesão até hoje, com orgulho. Quando pensava na influência da Bauhaus, sabia que não poderia ser o único caminho. Somos escandinavos? Alemães? Então fomos buscar o que é o Brasil.”

Foi uma busca por imperfeição e extravagância. Estão na exposição no MAM duas peças antológicas da dupla, a Cadeira Vermelha e Poltrona Favela, fundamentais para a conquista de atenção mundial. “A Vermelha é acervo do MoMA (Museu de Arte Moderna de Nova York). As duas estão em vários museus pelo mundo. Creio que mostraram uma nova forma de projetar, com mais liberdade. Deixei de ser advogado para ser livre e ainda busco isso.”

 

Fica evidente que a obra dos Campana critica uma sociedade massificada, industrial. Há uma ponte clara entre o artesanal e o tecnológico. “Tudo o que fizemos é experimental, então é visto como novidade”, afirma Fernando. “Algumas coisas podem ter fugido ao nosso contexto de visão de design, mas olhando nossa trajetória, acho que temos coerência, sem seguir tendências. Seguindo mais nosso coração do que exigências do mercado.”

 

E o mercado acolheu muito bem o caminho inusitado dos Campana. Algumas unidades da Cadeira Vermelha chegaram a custar R$ 30 mil. A demanda do Estúdio Campana há muito tempo ultrapassa o mobiliário, trabalhando com moda, design de interiores, landscape. Eles têm parcerias com Alessi, Edra, Lacoste e Louis Vuitton, entre outras marcas. Fizeram coleções para a Tok Stok e ganharam extrema popularidade criando sapatilhas de plástico Melissa para a Grandene.

 

“Sempre que começo um projeto nunca penso em quanto ele vai custar. Posso ficar bloqueado. Temos peças feitas em edição limitada, de três, cinco, ou vinte unidades. Feitas manualmente, algumas levam de um a dois meses para a finalização. São vendidas em galerias de arte. Fazendo isso eu sustento meu estúdio, tenho orgulho de empregar 20 pessoas”, conta Humberto.

As peças atingem o lado infantil das pessoas. Poltronas e sofás feitos com bichos de pelúcia, plástico bolha ou isopor despertam a vontade de tocar. Humberto credita isso à infância no interior paulista. Ele nasceu em Rio Claro, e o irmão, em Brotas. “Eu fazia casas em árvores com bambu, o Fernando montava naves espaciais com mandacaru. Misturar o feito à mão com a tecnologia está em nós, o DNA Campana é essa coisa híbrida.”

Algumas pessoas brincam, questionando se é possível ficar sentado em todas as cadeiras e poltronas exuberantes dos Campana. Humberto diz que algumas coisas dão certo funcionalmente, enquanto outras não. Para Fernando, o funcional pode ser uma obra de arte. “Ao mesmo tempo, faço trabalhos sem preocupação nenhuma com funcionalidade, como as esculturas da coleção Cidadão, que estão na exposição no Rio”.

 

 

Em 2009, eles criaram o Instituto Campana, sustentado apenas pelo trabalho da dupla. A intenção foi preservar o grande acervo de obras e fazer trabalho social. Entre outras atividades, atuam com grupos de sem teto e dão aulas a crianças da favela do Moinho, de São Paulo.

“As crianças vêm aqui e ficam no galpão principal. Ali está cheio de material, papelão, plástico bolha, damos tudo isso”, conta Humberto, empolgado. “Antes nós íamos na comunidade. As crianças vivem uma realidade claustrofóbica. Então passamos a trazê-las para cá, levamos a exposições, fomos à mostra do Leonardo Da Vinci. O instituto é a grande aposta dos Campana para o futuro. “O design é uma ferramenta generosa. Posso falar com um estudante europeu, com uma bordadeira de Alagoas ou com um artesão de uma comunidade de São Paulo e transformar a vida de todos ao mostrar uma nova aplicação para coisas que eles já sabem fazer”, acredita Fernando.

 

“Eu quero deixar um legado, fazer uma escola dentro do instituto. Uma escola de marcenaria, de resgate de tradições manuais, de cestaria, bordado, serralheria”, diz Humberto. “E quero ser jardineiro. Eu adoro plantar!”

 


EXPOSIÇÃO IRMÃOS CAMPANA – 35 REVOLUÇÕES

MAM Rio – Av. Infante Dom Henrique, 85, Parque do Flamengo

Quinta e sexta, das 13h às 18h. Sábado e domingo, das 10h às 18h., até 10 de janeiro

Venda online com valores sugeridos de R$ 20 para adultos e R$ 10 para estudantes e idosos

 

 

 

Oscar 2020 conta com surpresas fora das categorias principais

Oscar 2020 conta com surpresas fora das categorias principais

A pergunta até 9 de fevereiro, dia da 92ª cerimônia do Oscar, é descobrir quais as chances do brasileiro “Democracia em Vertigem” levar o prêmio na categoria Melhor Documentário. Ao que parece, são poucas. O ótimo “For Sama” seria uma barbada. O filme sírio mostra o dia a dia de uma mãe com filho pequeno nos conflitos em Aleppo, durante a Guerra Civil Síria. Não chorar está fora de cogitação.

Cena do documentário “Democracia em Vertigem” da Netflix

Mas suas chances diminuem muito diante de “Indústria Americana”, documentário que traz a reflexão sobre o impacto da tecnologia de empresas chinesas nos Estados Unidos. Bem realizado e com uma visão otimista, é a primeira indicação ao Oscar de um filme da produtora de Michelle e Barack Obama. Isso deve pesar. O filme pode ser visto na Netflix.

Se “Parasita” tem até alguma chance de levar como Melhor Filme, o prêmio de Melhor Filme Internacional parece garantido para essa produção sul-coreana de terror e humor negro. Mas a vitória do impecável espanhol “Dor e Glória” seria justa e uma festa para os fãs de Pedro Almodóvar.

Para Melhor Filme de Animação, resta saber se a Academia terá coragem de peitar os grandes estúdios e premiar o ótimo “Link Perdido”, produção menor sobre a descoberta de um ancestral dos seres humanos. O filme pode desbancar “Como Treinar o Seu Dragão 3” e “Toy Story 4”. Mas surpresa mesmo seria o Oscar ir para o francês “Perdi Meu Corpo”, bizarra animação sobre as aventuras de uma mão decepada! Essa excentricidade também está disponível na Netflix.

A animação “Perdi Meu Corpo” tenta destronar a Disney

Uma irresistível e pouco comentada opção para seis minutos muito fofos é o americano “Hair Love”, que pode levar o Oscar de Curta de Animação. É a história de um pai que tem de pentear o cabelo da filha pela primeira vez. Um filme doce e envolvente, encontrável no YouTube.

E para o Oscar de Melhor Canção, Elton John e Bernie Taupin, que formam uma das parcerias de compositores mais queridas do mundo, escreveram “(I’m Gonna) Love Me Again” especialmente para a cinebiografia “Rocketman”. A Academia não vai deixar de valorizar essa deferência da dupla em compor algo inédito para um filme.

Atração do Rock in Rio, Alok rompe os limites da música eletrônica e surpreende por sua história

Atração do Rock in Rio, Alok rompe os limites da música eletrônica e surpreende por sua história

Alok foi uma das atrações do festival de música eletrônica

Alok no festival Sunrise em Colberga, na Polônia, em julho deste ano. Fotos: Alisson Demetrio

Na noite de 27 de setembro, abertura da sétima edição do Rock in Rio, o goiano Alok irá se apresentar no gigantesco festival. Frequentador do ranking de melhores DJs do planeta elaborado pela revista britânica “DJ Mag”, bíblia da música eletrônica, ele estará no Palco Mundo, o maior do evento, diante de quase 100 mil pessoas. Alok não se assusta com multidões.

Em julho, foi uma das atrações do Tomorrowland, na Bélgica, o mais badalado festival de música eletrônica do mundo, que recebeu 400 mil pessoas em seis dias. Aos 28 anos, ele acumula uma década e meia de precoce experiência nessa cena musical. Além de bem-sucedido, Alok não é, definitivamente, um DJ como outros.

Apesar de muita gente acreditar que Alok seja pseudônimo artístico, o nome que aparece nos seis passaportes que já teve, lotados de carimbos, é Alok Achkar Peres Petrillo. Na escola, brincadeiras foram inevitáveis, mas hoje ele acredita que não conseguiria escolher nome melhor. “É forte, só quatro letras, fácil, gosto muito. E não conheço outro Alok”, diz, rindo. Filho de DJs que ele chama carinhosamente de “meio hippies, malucões”, seu nome veio de experiências do casal na Índia. Alok, que em sânscrito significa “luz”, tem um irmão gêmeo, não idêntico, chamado Bhaskar, e uma irmã, Jaya.

O nome incomum é hoje apenas um detalhe divertido numa carreira incomparável. Por que ele foi convidado para figurar num Rock in Rio que terá uma constelação pop que inclui Foo Fighters, Drake, Bon Jovi e Iron Maiden? Porque Alok carrega o título de “o brasileiro mais ouvido no mundo”.

Seu som se espalha em performances nos maiores eventos do gênero e pelas músicas que produz e lança de modo incessante. Apenas este ano, ele já soltou dez singles. Os números de visualizações e audições desses hits nas plataformas digitais são medidos na casa das dezenas de milhões de execuções.

Alok rompe os limites da música eletrônica, apresenta um som que mistura gêneros pop sem pudor e com ótimos resultados, aumentando a cada dia sua legião de seguidores. Um bom DJ precisa ter experiência. É necessário passar por vários lugares diferentes para, no jargão desses artistas, saber “ler a pista”, perceber o que o público quer ouvir.

Alok tocou para milhares no maior evento de música eletrônica

Alok se apresentou no festival Tomorrowland, na Bélgica, em julho último

“A escolha das músicas que funciona em um lugar pode fracassar totalmente em outro”, explica. “Já aconteceu de estar tocando e abrir um buraco na pista, a galera perder o interesse. Na minha primeira vez em Portugal, saí vaiado. Eu aprendi. Hoje vou lá e tudo fica lotado. Fui muito à China, lá muda tudo. Não dá para impor o que a gente acha certo para outra cultura, tem que ter versatilidade e ler a pista”.

Ele também sente as diferenças dentro do Brasil. Diz que há influência do nível social das festas e do perfil da casa. Depois de produzir e gravar com estrelas como Matheus & Kauan e Simone & Simaria, ele já lotou muitas vezes o VillaMix, maior reduto paulistano do sertanejo moderno. “Quando eu vou tocar ali, sei que não é o público eletrônico. O ambiente da festa faz com que eles entendam como vou tocar. Quando é uma festa eletrônica, não posso fazer um set igual ao do VillaMix”.

A versatilidade é um ponto fundamental na sua carreira. Ainda pré-adolescente, formou com o irmão o projeto Lógica. Por muitos anos, a dupla criou e apresentou música eletrônica. Em 2010, quando partiu para a carreira solo, abriu a cabeça, como ele mesmo define. Pegou gosto por mashups, as misturas reverenciadas no eletrônico. “Pego a música de um artista, o vocal de outro, a batida de um terceiro. Fazer isso dar certo é precioso para um DJ”.

Seu set tem hoje Pink Floyd, Queen, até Legião Urbana, com músicas como “Pais e Filhos”. “Quando me perguntam, principalmente lá fora, qual é o meu estilo musical, respondo que sou um espírito livre. Faço o que eu acho que é legal”. As parcerias com nomes da cena eletrônica já seriam suficientes para diversificar seu som, mas ele assumiu riscos grandes.

“Fazer som com Matheus & Kauan foi importante naquela aproximação do eletrônico com o sertanejo, eles estavam bombando. Poderia ser um tiro no pé, mas eu acreditava que o meu mercado também poderia ser o sertanejo, então estaria me sabotando se recuasse. Deu supercerto!”

Alok não é apenas um DJ, é um produtor musical e compositor. “Gravo, faço toda a produção. Só não canto, esse dom eu realmente não tenho”. Ele revela que pede ajuda a alguns compositores nas letras, porque acredita ainda não ter a sensibilidade para escrever tão bem em inglês. Cita um exemplo. Pensou no verso “let’s live forever together” (vamos viver juntos para sempre). Depois de um trabalho em parceria, ficou “let’s write our names in the trees” (vamos escrever nossos nomes nas árvores), maneira bem mais lírica para uma jura de amor eterno.

O inglês de Alok é muito bom. Chega a ser engraçado descobrir que ele abandonou a faculdade de relações internacionais. Afinal, aos 17 anos tinha feito turnê com o irmão por 19 países. Já era um adolescente cidadão do mundo. Até agora sua música o levou a 51 países. “Talvez 52, fiz a conta outro dia, mas é difícil ter certeza”.

Alok tem sua própria gravadora e negocia com companhias maiores a distribuição de suas músicas. Tudo é digital, sem lançar CD ou vinil. O ritmo é frenético. Nos últimos meses, soltou dois singles com uma semana de diferença. “Ninguém tem tempo para consumir um álbum”.

As parcerias, em sua maioria, são feitas à distância, trocando arquivos sonoros pela internet. “Já terminei música sem encontrar o parceiro, que acabo conhecendo pessoalmente depois. Alguns eu nunca encontrei. Escrevo alguma coisa, gravo, recebo um vocal, então não gosto e peço outro. E assim vai”.

Claro que existem os parceiros favoritos. Seu maior sucesso chegou com dois amigos. Em 2016, ele, o DJ Bruno Martini e o cantor Marcos Zeeba fizeram uma versão de “Hear Me Now”, composta por Zeeba. Com ela, Alok se tornou o primeiro brasileiro a ter uma música que ultrapassou 100 milhões de audições no Spotify. Sua popularidade permite que trabalhe com nomes poderosos da cena eletrônica mundial e, no Brasil, amplie parcerias com estrelas como Luan Santana e Anitta.

“Eu me vejo hoje como um artista pop que se expressa pelas pick-ups. Quando recebi o convite do Rock in Rio, vi que tinha feito a escolha certa lá atrás. Fiz o certo ao não colocar limites, ao buscar o público sertanejo, as crianças, aceitar tocar em grandes festas de São João no Nordeste. Planejar isso é impossível. Acho que existe uma magia, coisas que você não consegue explicar. Seguir o coração, estar no lugar certo na hora certa. Se disser que tem fórmula para isso, vou estar mentindo.”

Alok diz acreditar que sua vida pessoal, com atuação em projetos sociais, afeta positivamente sua vida profissional. “Se parar de trabalhar por um bem coletivo, acho que minha carreira desanda na hora. É assim que tenho equilíbrio, é com isso que eu faço sentido, sabe?”

Quando já era um sucesso mundial, Alok foi diagnosticado com depressão profunda. Questionava se a vida era apenas ter dinheiro. Mas, aos poucos, foi deixando de se revoltar com o que considerava “gente fútil, preocupada com preços de vinho e relógios”. Pensou em criar um Instituto Alok para filantropia, mas desistiu quando percebeu que embarcaria numa trip de vaidade. “Tinha começado a fazer, tomei um prejuízo enorme, mas vi que o melhor era apoiar causas já estruturadas”.

Com crianças do projeto Fraternidade sem Fronteiras em Moçambique, na África

Ele atua no projeto Fraternidade Sem Fronteiras. Ajudou a construir escolas e hospitais em regiões de extrema pobreza na África. Depois, ao ver pessoas nas mesmas condições no sertão baiano, colocou de pé o projeto Vila da Esperança, em Canudos. Dar uma olhada no WhatsApp de Alok, exibido ao repórter pelo próprio DJ, é perceber que ele faz muito mais do que dar dinheiro. São incontáveis mensagens trocadas com os voluntários dos projetos, trazendo atualizações sobre os trabalhos e discussões sobre as ações.

“Gosto de participar. O lado DJ é uma ferramenta para fazer essa outra parte. Não falo isso numa dimensão religiosa. Falo de equilíbrio, de plantar e colher. O universo tem um caminho a seguir.”

Em qualquer negociação que envolva sua música, ele busca colaboradores. Negocia agora com uma grande empresa do país um contrato que vai além do entretenimento. O dinheiro servirá para levar água a regiões do semiárido do Nordeste.

Esse lado “bom moço” surpreende ainda mais quando fica evidente que ele permanece “careta” num universo de excessos. “Agradeço a Deus ter nascido nessa família bem hippie, alternativa. Essa bagagem é uma das grandes razões por eu ter chegado até aqui. Desde menino sempre tive acesso a tudo, sem tabus”.

Ele considera hipocrisia negar as drogas na cena eletrônica. “Tive a chance de escolher e escolhi. Nunca precisei cheirar pó, aprendi vendo os outros. Já bebi, mas não curto, não gosto de perder a noção. Mas não julgo. A droga é uma fuga, pode ser uma necessidade para se manter são. As pessoas dão duro sem ganhar o que merecem, tomam esculacho do patrão, sofrem violência. Então no fim de semana querem uma anestesia, na droga ou na bebida. Eu não julgo ninguém”. Na rotina alucinante de estúdios e palcos, Alok tem praticamente a agenda de 2020 fechada. Mas sua vida ganhará um novo e muito aguardado integrante. Sua mulher, a baiana Romana Novais, espera o primeiro filho do casal.

Ele acha graça quando é indagado sobre os efeitos que um bebê poderá ter em sua rotina de viagens pelo mundo. “Tenho um time muito bom para cuidar das coisas no trabalho e um time melhor ainda dentro de casa. Estou tranquilo porque sei que a minha mulher será uma mãe incrível”.

No começo de 2020, a chegada da criança coincide com um bom período de Alok no Brasil. “Este ano ainda vou para Estados Unidos e Japão, mas depois o Brasil pega fogo no verão. Tem Réveillon, festivais nas praias, Carnaval, depois as grandes festas de São João. Amo ficar por aqui”.