Renata Silveira será a primeira mulher a narrar jogos da Copa do Mundo na TV aberta do Brasil

por | jun 30, 2022 | Entrevista, Pessoas, Pessoas & Ideias | 0 Comentários

Primeira mulher a integrar o time de narradores esportivos da Rede Globo, Renata se prepara para emprestar seu timbre e sua experiência à cobertura da Copa do Mundo no Catar, em novembro

Da infância muito bem vivida no bairro de Bonsucesso, na Zona Norte do Rio de Janeiro, a jornalista Renata Silveira carrega memórias sinestésicas. Da dor aguda nos joelhos, constantemente ralados em partidas de pelada na rua, aos ruídos estáticos das narrações de futebol que o pai ouvia em seu radinho de pilhas, foi nesse ambiente lúdico que descobriu que o esporte seria parte irrevogável de seu futuro.

Formou-se em Educação Física, fez pós-graduação em Jornalismo Esportivo, especializou-se em locução radiofônica e, acostumada a ser uma das pouquíssimas mulheres nos campos, nas salas de aula e nas bancadas jornalísticas da área, seguiu a contracorrente de um cenário historicamente dominado por homens. “Mas nunca me intimidei. Nada disso me impediu de acreditar que ali seria meu lugar”, conta a narradora que, agora, consagra-se pioneira. A partir de novembro, ela passa a integrar o estrelado – e cada vez mais diminuto – time de profissionais da Rede Globo escalado para acompanhar de perto os jogos da Copa do Mundo no Catar. “Serei a primeira voz feminina a narrar o maior evento do futebol mundial em TV aberta. Essa é a maior conquista profissional da minha vida”, comemora.

 

Renata Silveira - Foto João Cotta | Globo

Renata Silveira – Foto João Cotta | Globo

 

Atualmente detentora de cadeira cativa nas transmissões dos jogos da Liga das Nações pelos canais SporTV, Renata concedeu entrevista exclusiva à 29HORAS. Nos trechos selecionados para estampar as páginas a seguir, ela relembra suas primeiras experiências profissionais, discorre sobre os reflexos da misoginia no cenário esportivo nacional e fornece mais detalhes sobre a cobertura da TV Globo para a primeira Copa do Mundo pós-pandemia. Confira!

 

Como e quando o universo da narração esportiva entrou na sua vida?
Minha grande paixão, na verdade, sempre foi o esporte. Meu pai é fissurado por futebol, vivia com seu radinho de pilhas a tiracolo, e transmitiu essa herança de amor para mim e para a minha irmã desde muito cedo. Sempre fez questão de nos levar a todas as arquibancadas possíveis, fossem elas as do pomposo Estádio do Maracanã – cuja arquitetura se tornou uma das mais vívidas e simbólicas memórias da minha infância – ou as das partidas de pelada que ele disputava com os amigos aos finais de semana.

Ao longo da adolescência, joguei futebol na rua e na quadra, basquete, handebol e me enveredei, também, pela dança. Hoje, até mantenho uma academia, a La Vie Danse, em Bonsucesso, onde são ministradas aulas de ballet, jazz, sapateado e outras modalidades. Mas a verdade é que eu nunca havia cogitado me tornar narradora. Era algo tão distante, que nem se apresentava como uma possibilidade. Minha escolha profissional intuitiva foi a Educação Física. O jornalismo esportivo só me “aliciou” de vez em meados de 2014…

Renata Silveira - Foto Globo | Juliana Coutinho

Renata Silveira – Foto Globo | Juliana Coutinho

 

Esse “aliciamento” veio, então, só durante sua passagem pela Rádio Globo, certo? Em 2014, você participou do concurso “Garota da Voz”, seletiva organizada pela emissora para encontrar vozes femininas para narrações esporádicas. Conte um pouco sobre essa experiência. Você ainda sente os ecos desse momento na sua carreira hoje?
Sem dúvida. O que eu trago de mais bonito dessa experiência é o caráter desbravador da tentativa. O “Garota da Voz” oferecia um prêmio que, por décadas, foi praticamente inimaginável. Estar ao lado de tantas mulheres, lutando por um espaço para suas vozes foi muito especial para minha trajetória profissional e, sobretudo, humana. Foi ali, inclusive, que descobri que havia mulheres narradoras em quem me inspirar, e que aquele espaço poderia ser meu. Participei do concurso muito despretensiosamente. Precisava de um estágio na área e meus amigos diziam que minha voz era potente, então gravei um áudio narrando o gol do Ronaldo na final da Copa do Mundo de 2002, enviei à rádio e algumas semanas depois já estava entre as vinte selecionadas para ganhar essa oportunidade de carreira. Foi ali que eu imergi na comunicação e nunca mais parei.

 

A jornalista na final do concurso "Garota da Voz"; - Foto reprodução | Instagram

A jornalista na final do concurso “Garota da Voz”; – Foto reprodução | Instagram

 

De lá para cá, você entrou para o hall de pioneiras no meio esportivo. Tornou-se a primeira mulher a narrar oficialmente um jogo da seleção em uma rádio nacional, firmou-se na bancada de comentaristas dos Jogos Olímpicos de Tóquio e agora faz história mais uma vez como a primeira narradora da Copa do Mundo em TV aberta. O que essas conquistas representam para você e para o cenário futebolístico nacional?
Eu me sinto honrada pelo título de “pioneira”, mas eu nunca quis que fosse assim. É triste pensar que demorou tanto para estarmos aqui. Meu mais sincero desejo era que eu fosse apenas mais uma entre tantas mulheres que já tivessem conseguido alcançar esse espaço. Mas, enquanto ainda engatinhamos, creio que seja um marco crucial para desestruturar estigmas e preconceitos no esporte.

 

Aliás, é no mínimo curioso que, após 21 edições da Copa do Mundo, essa seja a primeira que contará com uma narradora em TV aberta. Para você, por que demorou tanto tempo para mulheres atingirem esse posto? Ainda convivemos com um cenário esportivo de forte misoginia?
Em realidade, esse é um traço cultural que ultrapassa o esporte. Nossa sociedade foi estruturada sobre bases machistas. Enquanto público, não estamos preparados para assistir, ouvir, admirar e consumir conteúdos produzidos por mulheres. Mas é claro que, quando falamos sobre futebol, a situação se agrava. Até meados de 1940, nós éramos proibidas de jogar, de assistir e até de comentar sobre o esporte. Desaceleraram nossos passos e, por isso, estamos chegando tão tardiamente. Primeiro, as repórteres vieram desbravando o terreno; depois, as comentaristas fincaram suas opiniões nas bancadas; e, agora, finalmente chega a vez das narradoras. Espero que seja o último passo para um cenário de maior equidade.

 

Quais são as suas expectativas para a próxima Copa? Como a equipe brasileira chega à competição após todo esse período pandêmico e de retornos tímidos?
Essa, sem dúvidas, será uma Copa atípica, começando pelo fato de ser uma das raríssimas edições marcadas para o final do ano – e não para julho, como tradicionalmente acontece. Somados a essa mudança de agenda, ainda estão todos os traumas que com certeza traremos após esses dois anos de pandemia. Os jogadores vêm mais cautelosos, mas também com muita sede de jogo. Ainda é cedo para prever, mas acredito que o Brasil tenha grandes chances de terminar a primeira fase em primeiro dentro de sua chave. Como narradora da Liga das Nações, posso afirmar que não estamos em um grupo fácil. Sérvia e Suíça (esta, agora com novo técnico) têm se saído muito bem nos campeonatos europeus e devem brigar bastante pela segunda posição, enquanto Camarões provavelmente ocupará a última colocação do grupo. Em relação às seleções sul-americanas e asiáticas, a preocupação é um pouco menor, estamos mais preparados para esses embates. Em geral, será um desafio interessante…

 

Renata em set de gravação dos Estúdios Globo - Foto Globo | João Cotta

Renata em set de gravação dos Estúdios Globo – Foto Globo | João Cotta

 

E como está sendo a sua preparação para a Copa? De que fontes tem bebido nesse momento preliminar?
As narrações europeias têm sido meu maior estudo. Tenho aproveitado a Liga das Nações para conhecer a fundo a tática das seleções europeias, analisar as qualidades e as vulnerabilidades de cada grupo, e aquecer minha voz para emoções ainda mais intensas. Também tenho lido muito sobre o país, sua história e seus estádios. Esse mergulho na cultura local é essencial.

 

Então você irá ao Catar? O que já pode adiantar sobre a cobertura que a Rede Globo está preparando para essa edição?
Ainda não há nada confirmado. Assim como nos Jogos Olímpicos de Tóquio, contaremos com uma cobertura híbrida e a equipe in loco será reduzida, ainda devido aos protocolos sanitários mundiais. Serão aproximadamente 80 profissionais no Catar e uma grande equipe no Brasil, em um super set tecnológico montado nos Estúdios Globo, estabelecendo essa conexão direta entre os continentes. Mais de 300 horas de conteúdo poderão ser acompanhadas pelo SporTV 2 e diretamente no Globoplay, inclusive por não-assinantes. Outra novidade é que as transmissões nos canais por assinatura da rede poderão ser assistidas em resolução 4K, proporcionando uma vivência imersiva ainda mais impressionante.

 

Por fim, após anos tão difíceis, qual será a principal mensagem dessa Copa do Mundo?
Apostando no clichê? Esperança. Vamos viver a Copa da superação, da emoção e da empatia. Acredito muito que aquele sentimento familiar que tanto nos unia a cada quatro anos em frente à TV deva voltar ainda mais latente, após tantos anos adormecido. Para a jornalista e esportista Renata Silveira, essa será a Copa da realização de um sonho. Para o mundo, será a Copa do recomeço.

 

Em abril de 2022, Renata no Estádio Mané Garrincha, onde protagonizou a primeira narração feminina de um jogo de futebol em TV aberta - foto reprodução | Instagram

Em abril de 2022, Renata no Estádio Mané Garrincha, onde protagonizou a primeira narração feminina de um jogo de futebol em TV aberta – foto reprodução | Instagram

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