Com participação confirmada no festival João Rock, em Ribeirão Preto, Emicida volta aos palcos após dois anos de pandemia

por | maio 31, 2022 | Entrevista, Pessoas & Ideias | 0 Comentários

Na música, na TV, nos games e no palco do festival João Rock, o rapper paulistano Emicida aposta na diversidade. “Eu sou muitos”, diz

O jeito tranquilo, o riso fácil e a voz mansa de Emicida talvez não sejam as características mais intuitivamente associadas a um rapper. Nascido Leandro Roque de Oliveira, nas quebradas do Jardim Cachoeira, na Zona Norte paulistana, ele recusa rótulos. É cantor, mas também escritor, produtor e comentarista com cadeira cativa no “Papo de Segunda”, programa do canal GNT. Canta rap, samba, pop, reggae e o que mais vier, e coloca seus versos no mundo para ocuparem todos os espaços – sejam as batalhas de rima das calçadas, o pomposo Theatro Municipal, os palcos indie-eletrônicos do Lollapalooza, ou ainda o tradicional Rock In Rio.

Por tudo isso, talvez não surpreenda que tenha sido batizado como “embaixador das ruas”. “A linguagem da calçada é a diversidade, por isso sou vários”, explica o artista, que, no dia 11 de junho, se aventura também pelos palcos do interior paulista no festival João Rock, conhecido por, tradicionalmente, reunir em Ribeirão Preto grandes nomes do pop e do rock nacionais. “Estarei lá, cantando ao lado dos meus irmãos Criolo e Céu. É um grande momento de ocupação e pertencimento para o rap, e fico feliz de ser parte disso”, comenta. Neste ano, o line-up do evento inclui, ainda, shows de Pitty, Barão Vermelho, Erasmo Carlos e Gabriel, O Pensador.

Foto: Ênio Cesar; assistente de fotografia: Rafael Mattar; beleza: Regiane Alexandre (Juba Trançadeira); barba: Mara Afro Soull; produção: Raissa Fumagalli; assistente de produção: Laura Freitas; Emicida veste Haye Clothing

Foto: Ênio Cesar; assistente de fotografia: Rafael Mattar; beleza: Regiane Alexandre
(Juba Trançadeira); barba: Mara Afro Soull; produção: Raissa Fumagalli; assistente de produção: Laura Freitas; Emicida veste Haye Clothing

 

Capa de uma edição online da 29HORAS em junho de 2020, Emicida retorna às nossas páginas para falar sobre transformações e permanências. De lá para cá, ele foi muitos. Virou bonequinho de animação para um show exclusivo dentro do jogo Fortnite; integrou por seis meses o grupo de estudos sociais da Universidade de Coimbra; firmou parceria com os engravatados do Nubank em um projeto que visa levar educação financeira aos moleques da quebrada; e agora se lança produtor e está por trás do álbum “O Que Meus Calos Dizem Sobre Mim”, de Alaíde Costa – disponível desde maio nas plataformas digitais.

Nesta nova conversa, o cantor revisa seus feitos ao longo dos mais de 10 anos de carreira, celebra os diversos espaços conquistados e medita sobre seus muitos papéis, e fala sobre o poder transformador da arte e a dádiva da paternidade – o que diz ser sua mais grata permanência. Confira trechos da entrevista a seguir:

 

Na última vez que conversamos, em 2020, vivíamos a primeira onda pandêmica. Naquela época, você nos falou um pouco sobre quem era Emicida. De lá para cá, algo nessa definição mudou? Quem é o Emicida hoje, depois disso tudo?
Eu acho que nem conheço mais aquele Emicida (risos). Mudar é inevitável. Havendo ou não pandemia, o tempo da vida pede metamorfose. Eu me conectei muito com a natureza nos últimos anos e ela tem me ensinado a ouvir e respeitar o tempo das coisas. Depois de meses de incerteza, a gente também aprende a se olhar no espelho e refletir sobre o que realmente tem feito de bom no mundo. Questionei muito a minha arte e o que ela tem movido. Tudo isso me fez uma pessoa mais sensível, saca? Só não consigo afirmar ao certo quem eu sou, porque amanhã é capaz de eu já ter mudado de novo. No dia seguinte, eu me sinto outra pessoa, ‘tô’ sempre em manutenção.

É perceptível a sua relação com metamorfoses, afinal, tem se lançado em carreiras múltiplas. O que o motivou a assumir o posto de produtor do novo álbum de Alaíde Costa?
Aos 86 anos de idade, Alaíde é um fenômeno. Um poço de doçura, solidez e sensibilidade. Artista de uma época em que nem um estúdio chique salvava a pele de quem não sabia o que estava fazendo. Cantora íntegra que, apesar de ter cantado ao lado de nomes imensos, como Vinícius de Moraes e Tom Jobim, não alcançou o protagonismo que merecia e teve de se manter e divulgar sozinha, sem ajuda de gravadoras e agentes. Produzir o álbum de Alaíde, hoje, é dar vazão a uma força tremenda que por tempos foi escondida. Saio do estúdio com os olhos cheios de brilho e lágrimas, e com gana para continuar.

 

Emicida e Alaíde Costa - Foto Ênio Cesar

Emicida e Alaíde Costa – Foto Ênio Cesar

 

Você também acaba de fechar uma parceria com o Nubank, para produção de conteúdo sobre educação financeira. Conte um pouco sobre esse projeto e o que ele representa para você.
Sou descendente de camelô, então minha primeira noção de administração financeira veio das ruas. Aprendi que, se eu comprasse algo por um real, eu teria que vender por dois, senão no fim do dia minha família não ia ter o que jantar. Essa parceria foi a oportunidade que a gente encontrou de falar sobre grana com uma galera que, como eu, aprendeu tudo o que sabe na marra de sobreviver. Vamos criar conteúdo, transmitir informação sem tabus, “romper essa bolha” e dar subsídios para que essas pessoas possam transformar suas realidades com mais consciência e autonomia.

Bom, seja como parceiro do Nubank ou como professor na Universidade de Coimbra, você realmente tem rompido bolhas, fluindo pelos espaços sociais e conversando com públicos muito diversos, da galera da quebrada aos engravatados “faria limers”. Como você equilibra suas raízes com esses novos espaços ocupados?
Eu volto para a casa e lembro que sou só uma pessoa. O que bagunça a gente é quando a parada do ego começa a tomar conta, e eu não tenho isso. O ego me cabe muito bem quando eu estou no estúdio ou no palco, mas é como se, quando eu saísse de lá, eu pendurasse essa fantasia do lado de fora da porta de casa, calçasse meus chinelos e lembrasse que sou só um operário da música, oferecendo meus serviços. Acho que o que me permite trocar ideia com essa galera tão diversa é o respeito. As pessoas se sentem lisonjeadas quando são respeitadas, e aí elas param para te escutar. Abaixam a armadura, esquecem que a gente foi programado para discordar e ficam disponíveis. A arte tem uma capacidade muito bonita de criar pontes, e sinto que ela me ofereceu um pouco desse poder quando me fez artista.

 

Emicida ao lado dos colegas do programa "Papo de Segunda", do canal GNT - foto Camila Maia | GNT

Emicida ao lado dos colegas do programa “Papo de Segunda”, do canal GNT

 

São diversos, também, os palcos onde você tem cantado suas rimas. Do Theatro Municipal ao Lollapalooza e, agora, no João Rock, em Ribeirão Preto. Qual é o significado de levar o rap para esses ambientes que, originalmente, não eram “casas de rap”?
É engraçado porque, ao longo da minha trajetória, eu me apresentei em pouquíssimos palcos de rap. A expectativa que o Brasil tinha a respeito do gênero era muito diferente da música que eu apresentava. Sempre trouxe influências do jazz, do samba, do reggae, então minhas rimas eram tidas como filhas ilegítimas. Mas a verdade é que eu nunca fui apegado a rótulos, não tenho esse purismo. Se um dia a arte que eu fizer não for mais chamada de rap, está tudo certo. Só preciso que ela continue refletindo quem eu sou e o que quero dizer. Mas é impossível falar que não estou emocionado por ter alcançado esses espaços, sobretudo ao lado de irmãos do rap, como Djonga, Matuê, Filipe Ret, Cynthia Luz e tantos outros que batalharam demais pelo gênero. Palcos assim amplificam discursos, e isso é uma conquista para a música como um todo.

Recentemente, outro palco peculiar em que você pisou foi, aliás, em outra dimensão! Como foi a experiência de fazer um show virtual dentro do jogo Fortnite? Sabemos que você é vidrado em games…
Foi um momento histórico! Fui o primeiro artista brasileiro a fazer isso – na gringa, Travis Scott, Ariana Grande e Drake chegaram antes de mim (risos). Em parceria com a Epic Games e com a ajuda da equipe incrível do Lab Fantasma – hub de entretenimento que, desde 2009, mantenho ao lado do meu irmão, Evandro Fióti –, eu fui transformado em bonequinho de animação e pude cantar obras que marcaram minha carreira para pessoas do mundo inteiro, em tempo real, por meio de uma plataforma pela qual sempre fui fissurado. Além de ter sido um passo muito importante para a arte – que tem se adaptado de formas inimagináveis à dominação digital –, foi uma conquista pessoal e tanto. Tenho certeza de que o Emicida criança, que não tinha videogame, mas filava espaço no fliperama para jogar, deve ter ficado orgulhosão.

 

Emicida em show no Fortnite - Foto divulgação

Emicida em show no Fortnite – Foto divulgação

 

Por falar em games, tem sobrado tempo para jogar ou a agenda de shows está apertada demais para isso?
Têm sido meses realmente muito cheios, e ainda bem. Hoje, se eu jogo, é para passar mais tempo com as minhas filhas. Elas também amam, e eu uso esse momento para criar memórias com elas. Nossos preferidos são Fortnite, Cuphead e It Takes Two.

E qual conselho você mais gosta de dar para Estela e Teresa, suas filhas?
Conselho? Eu não me coloco nessa posição, não. Sou, no máximo, um curador. Ofereço a elas o que, dentro das minhas muitas limitações, são o melhor de mim. Quando uma criança chega ao mundo, nasce uma oportunidade de melhorar tudo por aqui. Na figura delas, eu ganhei duas chances de salvar o mundo, e me sinto super poderoso e frágil ao mesmo tempo por isso. Mas se eu tivesse que dizer alguma coisa, seria simplesmente: “Obrigado. Vocês salvaram a minha vida, e isso é o mundo para mim.”

 

Emicida no palco do Lollapalooza 2022, em março - Foto Camila Cara

Emicida no palco do Lollapalooza 2022, em março – Foto Camila Cara

 

Save the date!
Confira a agenda de shows de Emicida para este mês e para o segundo semestre.

  • 11/06 Emicida + Criolo + Céu no Festival João Rock (show inédito), Ribeirão Preto/SP
  • 18/06 Sesc Rap Festival, Brasília/DF
  • 02/07 Festival Turá, São Paulo/SP
  • 20/08 Festival Mov. Cidade, Vitória/ES
  • 27/08 Festival Sarará, Belo Horizonte/MG
  • 04/09 Rock In Rio
  • 23/09 Festival MADA, Natal/RN

 

Foto Ênio Cesar; assistente de fotografia: Rafael Mattar; beleza: Regiane Alexandre (Juba Trançadeira); barba: Mara Afro Soull; produção: Raissa Fumagalli; assistente de produção: Laura Freitas; Emicida veste Haye Clothing

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