Gloria Groove reverencia a periferia paulistana em álbum “Lady Leste” e se firma como uma das artistas brasileiras mais ouvidas no mundo

por | mar 31, 2022 | Entrevista, Pessoas & Ideias | 0 Comentários

No álbum “Lady Leste”, a cantora Gloria Groove reverencia a Zona Leste paulistana e celebra seus 20 anos de carreira

Foi em meio aos muros grafitados e às batalhas de rap da Vila Formosa que, aos 17 anos, Daniel Garcia se descobriu Gloria Groove. Pegou maquiagem e roupas emprestadas da mãe, Gina Garcia, e fez seu primeiro show como drag queen na Zona Leste de São Paulo. “Filho de cantora, eu entrei para o show business muito cedo. Aos 7 anos já cantava com a galera do Balão Mágico, fazia teatro musical e dublava profissionalmente. Mas minha revolução artística só veio com a Gloria”, conta o multiartista de personalidade híbrida e identidade fluida, que se refere a si mesmo ora no masculino, ora no feminino. “Gloria é uma extensão do Daniel, ela o potencializa de forma que não sei mais dizer onde termina um e começa outro.”

A consciência de si e a energia criativa talvez expliquem a ascensão recente e estrondosa daquela que já é considerada uma das maiores vozes de sua geração. Em outubro de 2021, Gloria ganhou a boca do povo quando armou um circo em um videoclipe para expor os horrores da cultura do cancelamento em “A Queda” – hit que já ultrapassa a marca de 100 milhões de visualizações no YouTube. Mais tarde, no mesmo ano, denunciou a gourmetização da arte popular na música “Leilão” e ainda saiu vencedora do Show dos Famosos, quadro performático do “Domingão com Huck”, no qual emprestou sua pele, seu corpo e sua voz a personalidades como Jennifer Lopez, Justin Timberlake e Marília Mendonça.

Agora aproveita os holofotes conquistados para trazer luz à cultura de sua quebrada. Nas 13 faixas carregadas de mensagens que compõem o álbum “Lady Leste” – lançado em fevereiro e já no Top 10 da Billboard –, ela homenageia o funk de MC Daleste e os ritmos e sotaques das ruas que a criaram. Em entrevista à 29HORAS, Gloria Groove celebra as conquistas dessa nova era, comenta seu passado e seu presente na “ZL” e reflete sobre a representatividade drag na cena pop atual.

 

Gloria Groove | Foto Rodolfo Magalhães

Gloria Groove | Foto Rodolfo Magalhães

 

Hoje, desfrutando do título de uma das maiores cantoras da sua geração, você continua morando na Vila Formosa, em uma casa próxima à que vivia, quando criança, com sua mãe, sua tia e seus primos. O que a fez permanecer ali?

A Vila Formosa é um grande símbolo. É minha infância, minha adolescência e minha vida adulta sintetizadas. Apesar de já ter vivido em vários cantos de São Paulo muitas vezes de favor, debaixo do braço da minha mãe, que tinha uma carreira instável como cantora da noite –, a Vila me abrigou dos zero aos quatro anos de idade e, a partir dos doze, me proporcionou meus melhores anos, em colégios como Sagrado Coração e o José Marques da Cruz. A ZL foi o palco dos meus primeiros rolezinhos de shopping, das minhas primeiras quermesses e festinhas, do meu primeiro beijo. Sinto que continuar aqui hoje é como decolar e ainda ter a possibilidade de manter os pés no chão.

 

Você acaba de lançar um álbum que é praticamente uma ode à periferia paulistana. Por que se intitular Lady Leste e por que em um álbum tão cheio de parcerias, convidados especiais e homenagens?

Esse álbum é um compilado das referências que colhi desde o início da minha carreira. Me nomeio “Lady” em homenagem a todas as mulheres que me criaram artista e me apresentaram ao poder do meu feminino (de Gaga à minha mãe), e “Leste” em honra às minhas raízes periféricas. Minha arte não se fez sozinha e, por isso, agrego tantos nessa nova era. Na presente Lady Leste, a ideia é apontar para o meu futuro dos sonhos, a partir de vozes que ajudam a contar o meu passado.

 

Gloria Groove | Foto Arthur Wolkovier

Gloria Groove | Foto Arthur Wolkovier

 

Existe toda uma aura de glamour no universo drag, mas você traz um contraponto a essa narrativa: tem um estilo muito próprio, que mescla o luxo ao visual urbano, despojado, da rua. Como você construiu essa identidade?

Sempre estive no meio dessa tensão visual. Vivi imerso em dois mundos muito diferentes, de noite assistia à minha mãe cantando um jazz no Terraço Itália e, na manhã seguinte, estava dançando um funk 34 CAPA proibidão no intervalo da escola. Ambas as experiências me levavam a uma sensação muito forte de pertencimento. Minha identidade é híbrida, e acho que isso fala muito alto a minha estética artística também.

 

Além de trazer uma urbanidade latente, sua música expõe questões sociais, da LBGTfobia aos linchamentos virtuais. O público ainda se surpreende quando o pop ou o funk carrega mensagens profundas?

Sem dúvida. Esse estereótipo da arte popular como uma arte menor ainda resiste. Mas a verdade é que, quanto mais mainstream uma obra for, maior a sua potência de propagar mensagens e gerar mudanças. É extremamente possível ser dançante e incisivo, chiclete e engajado, divertido e crítico, simultaneamente. Quando usamos a popularidade de um som para reivindicar transformações sociais, estamos fazendo arte popular na sua mais profunda essência.

 

Gloria Groove | Foto Rodolfo Magalhães

Gloria Groove | Foto Rodolfo Magalhães

 

Mas, muito além do funk, você desbrava diversos estilos musicais. Vai do gospel ao pagode, do trap ao R&B. De onde vêm todas essas referências? E, no meio de tantas possibilidades, como unificar o “fator Gloria Groove”?

Tive a sorte de me alimentar de referências musicais das mais variadas procedências. Me apropriei do blues que minha mãe ouvia, da Broadway que meus amigos do teatro amavam, do samba no karaokê com a minha tia… Gosto de explorar vários estilos porque isso garante que o processo nunca seja monótono. Além disso, para mim, uma das coisas que mais torna icônico o trabalho de um artista é o poder de se reinventar, sem perder sua essência e originalidade vocal. É nisso que eu miro. Quero que a marca da GG seja sua voz e sua potência. O estilo musical é apenas um veículo.

 

Outra característica marcante de suas produções é o primor pela estética audiovisual. São videoclipes muito bem produzidos, com roteiros refinados. Um exemplo é “A Queda”, com visual macabro digno de Hollywood. Quem está por trás desses filmes?

Como boa adolescente fã da MTV, eu era apaixonada por videoclipes. Sempre acreditei que o audiovisual é capaz de complementar a mensagem musical, torná-la mais potente e palpável, e é por isso que invisto tanto, financeira e simbolicamente, nesse tipo de produção. Quero que tudo na minha arte comunique e atravesse as pessoas. Para isso, tenho ao meu lado diretores geniais como João Monteiro, Felipe Sassi e Belle de Melo, mas sempre estou 100% envolvido no processo, do roteiro à seleção de cenas para o corte final.

 

Depois de 20 anos de carreira, dez deles como drag queen, você acredita que tenha atingido, só agora, o auge? Daí do alto, o que você vê? Qual é o próximo passo?

É engraçado porque, como trabalho com música desde sempre, não consigo processar a ideia de estar “no auge”. Eu ainda me sinto no meio do caminho, tanto quanto há quatro anos, ou dez. Tenho muito mais a trilhar, muito mais a dizer, muito mais gente a alcançar. Mesmo que meu trabalho agora ocupe uma vitrine mais abrangente, tenho certeza de que ainda posso ir além. Enquanto houver como me reinventar, seguirei inquieta e criando.

 

Antes de se lançar como drag queen, você estudou teatro musical e foi dubladora. O que, dessa bagagem, você traz para a sua arte hoje?

Dublagem e teatro são minhas eternas escolas. Emprestar minha voz e meu corpo a um personagem é uma espécie de estudo social para mim. Dublar, assim como atuar, é se colocar no lugar de outros. Acredito que isso me ajudou muito, por exemplo, no Show dos Famosos, uma competição que exige que você viva outro alguém em todas as suas nuances. Isso e, claro, a habilidade de conciliar canto, dança e atuação, sem ficar maluca (risos) – o que, com certeza, veio com o estudo de teatro musical.

 

Gloria Groove | Foto Arthur Wolkovier

Gloria Groove | Foto Arthur Wolkovier

 

Em tempos de Gloria Groove no topo do Spotify, de Pabllo Vittar fazendo sucesso internacional, e de ‘Ru Paul’s Drag Race’ agregando fãs brasileiros, é possível dizer que a arte drag encontrou terreno seguro para se difundir pelo Brasil?

Os últimos dez anos mudaram drasticamente o jeito como a arte drag é experienciada pelo grande público. Hoje existem referências globais do que é ser uma drag queen de sucesso. Criaram-se espelhos para nós e exemplos para eles. E isso tem impacto direto na forma como a sociedade aborda a cultura drag que reside nos palcos e nas boates mundo afora. Estamos atingindo um espaço de reconhecimento e respeito profissional que, há algum tempo, parecia inimaginável em um futuro tão próximo. No Brasil, essa evolução se escancara com o sucesso de drags como Pabllo, eu, e tantas outras.

 

Aliás, como explicar um país ainda tão preconceituoso capaz de tornar drag queens tão famosas?

O Brasil é mesmo paradoxal. Afinal, estamos falando do país que mais mata pessoas trans no mundo e, ao mesmo tempo, o que mais consome pornografia envolvendo pessoas trans, por exemplo. Só com esses dados já é possível identificar o comportamento hipócrita e nocivo que se estabelece quando um país naturalmente diverso e multicultural é vítima de uma moral retrógrada e conservadora. É um lugar perigoso para a gente, mas estamos chegando no topo mesmo assim. E eu acredito muito que isso acontece porque a cultura brasileira é poderosa, colorida e plural, assim como as nossas drag queens. No final, a cara do Brasil “é nóis” e não eles.

 

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