Maitê Proença encara seus traumas e revisita alegrias em peça autobiográfica

Maitê Proença encara seus traumas e revisita alegrias em peça autobiográfica

De 13 a 25 de novembro Maitê Proença volta aos palcos dos teatros com a peça autobiográfica “O Pior de Mim”, que será encenada em Fortaleza, Belo Horizonte e Porto Alegre. No espetáculo, que estreou em setembro de 2020 em transmissões online e pela TV e reuniu uma plateia de mais de dois milhões de pessoas, a atriz revisita a sua vida, revelando ao público sua face mais escondida. “Aquela que nem eu mesma tinha coragem de bisbilhotar”, ela diz.

Dirigida por Rodrigo Portella, a montagem é um dos trabalhos mais corajosos dessa atriz premiada, conhecida por suas personagens no teatro, na TV e no cinema, em mais de quatro décadas de atuações.

Na peça, Maitê reflete sobre traumas e memórias desde a infância. Uma autoanálise em que expõe fragilidades e feridas profundas como a morte da mãe, assassinada pelo pai da atriz em 1970, quando ela tinha apenas doze anos. Nessa época, Maitê foi viver em um pensionato com o irmão caçula; o pai, absolvido em dois julgamentos, se internou em um manicômio. Tempos depois ele se matou e o irmão mais velho também tirou a própria vida.

Além de repassar a sua história, a atriz de 63 anos, mãe de Maria e recente avó de Manuela, fala de machismo, misoginia e preconceitos que enfrentamos no nosso país. Tudo com intensidade, mas também com humor, como é próprio de sua verve.

Ansiosa para viver esse reencontro direto com o público após meses de reclusão e distanciamento na pandemia, Maitê conta também nessa entrevista sobre seu momento e suas emoções.

 

Maitê Proença em “O Pior de Mim” – Foto: Dalton Valerio

 

A peça “O Pior de Mim” foi indicada ao prêmio APTR e considerada um dos melhores espetáculos desde o início da pandemia. O que a levou a mergulhar nesse trabalho e que resposta você teve do público com as apresentações online?
Eu estava confinada como toda gente e reduzida a poucos entretenimentos. O Instagram, antes secundário, virou uma ponte para o mundo. Só havia pessoas felizes ali, cheias de amigos, bem-sucedidas, com a pele fulgurante. Inevitável se sentir um lixo por comparação. Todos nós já tão combalidos, e nas redes o mundo dos moranguinhos. Pensei: por que não mostrar o que não deu certo, as grandes frustrações, os fracassos? O público respondeu fortemente porque, ao abrir minhas mazelas, batia no mesmo lugar dentro da vida de quem assistia. O teatro faz você se visitar, mas sem que seja tão penoso, porque você revive, mas passando pelo filtro das experiências do outro. E aí, não se sente só.

O que você espera dessa turnê ao vivo em três capitais?
Estou muito feliz e ansiosa com o contato direto com o público. A peça não é para baixo, pelo contrário, ela dá vontade de sacudir a poeira e abraçar a vida, tem bom humor, energia. Vai ser maravilhoso voltar aos palcos e sentir o calor das pessoas!

O que foi mais difícil nessa imersão em que você apresenta à plateia a sua parte mais trágica?
Não conto fatos pelos fatos, mas sempre para ilustrar algo que eu não vi quando estive presa naquelas situações, e que hoje eu já consigo olhar e entender, eu consigo sanar.

Foram muitas perdas para uma criança, um trauma doloroso. O que você falaria hoje para essa menina de doze anos que se viu sozinha da noite para o dia?
Eu estou aqui para te pegar no colo hoje. Nunca é tarde.

 

Maitê Proença na sala de aula da Escola Americana de Campinas, aos nove anos - Foto: Arquivo Pessoal

Maitê Proença na sala de aula da Escola Americana de Campinas, aos nove anos – Foto: Arquivo Pessoal

 

Mesmo diante de tantas adversidades, você sempre sacudiu a poeira e foi se reinventando. O que a inspira?
Eu olho para fora e vejo o outro, vejo os pássaros, as ondas do mar, isso me inspira. O olhar para dentro é bom se a gente vai “arrumar a casa”, mas depois tem que sair dali. O umbigo é pequeno e atrofia o espírito se for só ele que conseguimos ver.

Quais lembranças você tem de Campinas, onde passou a infância?
Nasci na cidade de São Paulo porque vivíamos em Ubatuba, que era uma aldeia, e minha mãe preferiu parir em um hospital. Mais tarde fui morar em Campinas, onde tive uma infância solta, livre, campestre. A vinte minutos do centro havia montanhas e as cachoeiras mais lindas. Meus pais trabalhavam muito e eu saía pelas redondezas, de carona, de bicicleta, e me comunicava com os amigos em tupi guarani, que nós aprendemos para nos sentirmos ainda mais integrados com as belezas a nossa volta.

O que o teatro trouxe para sua vida?
A capacidade de sentir. Depois de todos esses traumas, eu teria me fechado em copas, não fosse o ofício do teatro. Na juventude, comecei a viajar bastante e depois mergulhei na dramaturgia. Por precisar dos sentimentos para desempenhar, ser atriz me salvou de um deserto emocional.

Durante a pandemia você começou a se expressar mais pelas redes e a ganhar seguidores. O que esse relacionamento significa para você?
Uma ponte contra a solidão. Sou uma pessoa que lê e tem vida interior, me mexo, canto, danço. Mas o contato humano é insubstituível.

 

Maitê Proença - Foto: Divulgação

Maitê Proença – Foto: Divulgação

 

Quais são os planos para o futuro próximo?
Não sou de grandes decisões, sigo apenas, um dia após o outro. Temo que, de outra forma, não daria conta, ficaria tudo sufocante. Aos poucos, sem muitos planos, só os pequenos, vou assimilando cada mudança sutil e me adaptando, seguindo minhas setas internas, para onde elas apontam. Mas tem coisas acontecendo. Eu me tornei produtora orgânica, com amigos, estamos plantando para vender num esquema agroflorestal. A peça “O Pior de Mim” deve virar livro num formato ampliado. E haverá uma versão revisada do meu livro “Uma Vida Inventada”, cujas edições se esgotaram há muito.

E o coração? Em março, você escreveu que buscava um amor, alguém que soubesse velejar, e hoje está feliz ao lado da cantora e compositora Adriana Calcanhoto. Que ventos trouxeram esse novo amor?
Eu estava brincando quando disse que procurava alguém, nem seria possível fazer experiências amorosas no meio de uma pandemia, sem vacinas. E a Adriana é adorável, única, mas não sabe velejar. Nem eu. Estamos aprendendo sobre os ventos com barquinhos de papel.

Como começou esse projeto bacana que você faz no Instagram, falando de grandes mulheres da história?
Foi há três anos, e desde então eu posto três vezes por semana, no Instagram e no YouTube, histórias de mulheres desbravadoras, singulares e corajosas que abriram as portas para todas nós em um mundo que já foi muito mais masculino. Mulheres na ciência, nas artes, na literatura, na política e no ativismo. Aventureiras, piratas, tem de tudo. Muita gente gosta e eu adoro porque ao pesquisar acabo também aprendendo muito com nossas precursoras. Há filmes sobre algumas delas, outras caíram no esquecimento. Quem sabe um dia eu produza, dirija, escreva um roteiro ou ainda interprete alguma dessas grandes mulheres…

 

Maitê Proença - Foto: Divulgação

Maitê Proença – Foto: Divulgação

 

Você se posicionou algumas vezes sobre o atual governo e o desmonte cultural e ambiental que vem sufocando o Brasil. Como você vê o país e as eleições de 2022?
Tudo já foi dito. É uma tragédia criminosa o que acontece na saúde. Nossas florestas vão sendo derrubadas com as consequências que temos visto em forma de incêndios, pouca chuva etc., e o futuro ainda dirá se conseguiremos reverter os estragos da ignorância. E tem a educação, para qual nenhum governo – desde Dom Pedro – deu bola, essa é a verdade. Preferem um povo desinformado, manso, manipulável. Mas com a atual administração pelo avesso, tanto a educação como as artes, que são a forma de expressão de um povo, jamais foram tratadas com tamanho desprezo. Ficaremos ainda mais atrasados em relação ao resto do mundo. Temos o país mais belo e cheio de riquezas naturais, e ainda assim somos párias. Mas sonho com o melhor para todos, acredito nas pessoas, sou otimista. Precisamos de disposição, saúde e fé na caminhada. Sempre, todo dia.

Maestro Luiz Godoy, do interior de São Paulo, é um dos maiores nomes brasileiros da música de concerto

Maestro Luiz Godoy, do interior de São Paulo, é um dos maiores nomes brasileiros da música de concerto

Maestro de Mogi das Cruzes está à frente da Ópera de Hamburgo e deseja levar ritmos brasileiros para o público europeu.

Luiz Guilherme de Godoy se apaixonou pelos concertos quando tinha apenas cinco anos de idade. Incentivado pela mãe e pelo irmão, membros de um coral na cidade de Mogi das Cruzes, interior de São Paulo, não demorou muito para que seu caminho também se enveredasse pela música. Hoje radicado na Europa, ele é um dos maestros titulares da Ópera Estatal de Hamburgo, na Alemanha, e, aos 33 anos, já é um dos maiores nomes brasileiros da música de concerto.

 

Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

 

Formado em piano pela Universidade de São Paulo e mestre em Regências Coral e Orquestral pela Universidade de Música e Artes Performáticas de Viena, Luiz Guilherme já trabalhou em mais de vinte países. Mas apesar de antigo, o sonho de conhecer o mundo sempre pareceu distante. “A única pessoa da minha família que, até então, tinha conhecido outros países era minha tia, gerente de hotel. Esse era o máximo de intercâmbio internacional que eu vislumbrava na época.”

Em 2021, o músico assumiu a direção artística de um dos grupos vocais mais tradicionais do mundo, os Meninos Cantores de Hamburgo, e foi no trabalho com coros infantis que se reconectou a sua vocação. “Quando tinha a idade desses meninos, tudo que aprendia, eu ensinava. Queria que meus primos também tivessem acesso a esse conhecimento. Ser maestro foi a forma que encontrei de passar adiante tudo que tive o privilégio de aprender com a música”, explica.

 

Foto: Divulgação | http://lukasbeck.com/

Foto: Divulgação | http://lukasbeck.com/

 

Para nomear o gênero musical com que trabalha, Luiz Guilherme evita o termo “erudito”. “Essa palavra só é usada no Brasil e confirma nosso DNA colonial e escravocrata. Erudição pressupõe elitismo, distinção, desigualdade, e a música de concerto não precisa ser sobre isso.”

Quanto ao futuro, o maestro planeja levar à Europa os ritmos brasileiros, como congado, maracatu e samba de raiz. “Eu espero, um dia, de fato contribuir com a sociedade na qual eu vivo e a sociedade da qual eu venho, para que elas se libertem dos resquícios coloniais que ainda existem, e se conectem para além dos preconceitos enraizados. Ainda tem muito trabalho para fazer por aqui, e a música pode ser um agente dessa mudança.”

 

Foto: Divulgação | http://lukasbeck.com/

Foto: Divulgação | http://lukasbeck.com/

Para Rachel Maia, da RM Consulting, diversidade nas empresas é uma responsabilidade social

Para Rachel Maia, da RM Consulting, diversidade nas empresas é uma responsabilidade social

A empresária Rachel Maia ajuda corporações a apostarem na representatividade no ambiente de trabalho, fazendo com que inovem e ampliem seus negócios.

No início de 2021, segundo a Companhia de Estágios, empresa de RH, as contratações de estagiários negros triplicaram no Brasil. Foram 743 admissões no primeiro trimestre em relação às 250 nos primeiros três meses de 2020, um aumento de 197%. Conjunturas melhores e abertura para debates dentro das empresas estão no centro dessa mudança.

Para Rachel Maia, da RM Consulting, priorizar a representatividade nas companhias não é questão apenas de responsabilidade social, mas também de oportunidade. “O processo de letramento social consiste em entender que as empresas não operam no vazio, mas sim nas sociedades, em que as mudanças culturais, sociais, econômicas e políticas refletem nas práticas do universo corporativo. Ter pessoas diferentes em um mesmo ambiente proporciona ter vários pontos de vista para uma mesma situação; isso é essencial para o desenvolvimento de um negócio, porque amplia a capacidade de inovação e a pluralidade do debate.”

 

Rachel Maia, empresária - Foto: Divulgação

Rachel Maia, empresária – Foto: Divulgação

 

A empresária defende o conceito de letramento social para que os colaboradores passem a refletir criticamente sobre a sociedade e entender que a falta de pluralidade é um problema estruturalmente enraizado. “A partir daí é que haverá embasamento para a criação de ações afirmativas voltadas à empregabilidade de grupos historicamente minorizados, como PcD, negros, LGBTQIA+, mulheres, dentre outros”, explica Rachel, que dá consultoria a grandes empresas, como a XP e a JBS Brasil.

Uma das poucas mulheres negras a chegar ao topo do universo corporativo na América Latina – foi CEO da Lacoste, Pandora e Tiffany –, ela hoje se dedica a projetos próprios: além da consultoria RM, Rachel é fundadora do Capacita-me, voltado à educação e empregabilidade de pessoas em vulnerabilidade socioeconômica.

Por ter transitado em diferentes espaços e testemunhado a falta de representatividade em muitos deles, a empresária considera a diversidade e a inclusão parte importante da sua jornada. “Eu fui uma outlier! Nasci na periferia, estudei em escolas públicas e encarei preconceitos por ser negra e mulher. Mas tudo isso me fez acreditar nos meus valores e lutar pela inclusão”. Rachel Maia conta ainda que vislumbra um momento em que as pessoas se sentirão desconfortáveis em ambientes predominantemente compostos por um único grupo da sociedade: classe social, gênero ou cor. “Acredito que, em breve, por meio do letramento social e da educação, as pessoas serão genuinamente agentes da transformação social.”

 

Rachel Maia, empresária - Foto: Divulgação

Rachel Maia, empresária – Foto: Divulgação

Gil do Vigor se consolida como uma das vozes mais influentes da comunidade LGBTQIA+ no Brasil

Gil do Vigor se consolida como uma das vozes mais influentes da comunidade LGBTQIA+ no Brasil

Sem ainda acreditar em tudo o que conquistou desde que saiu do BBB21 e sempre com muita intensidade, Gil do Vigor é o cara mais amado do Brasil.

Hoje, ele é sinônimo de sucesso e identificação entre os brasileiros. Gilberto José Nogueira Junior, ou somente Gil do Vigor, foi um dos participantes mais queridos pelo público na edição de 2021 do Big Brother Brasil. Economista de formação – com passagem garantida para o PhD na Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, a partir de setembro deste ano – ele também é um verdadeiro comunicador por essência. Toda a autenticidade que o pernambucano transmitiu no reality show mais visto do país é mesmo natural dele. Cria bordões, fala o que pensa, vive momentos festivos com muito prazer e fica indignado com injustiças.

 

Foto: Thiago Bruno

Foto: Thiago Bruno

 

Para Gil, o Brasil está mesmo lascado, como repetiu algumas vezes dentro da casa do BBB. “Mas não está tudo perdido, estamos passando por um problema muito grande com a pandemia, tanto econômico quanto social, temos muitas pautas a serem levadas em conta, além do respeito a todas as formas de vida que ainda precisa sempre ser reafirmado, temos que lutar por tudo isso”, reflete. Diante de tantas complexidades que o país atravessa, ele quer usar seus estudos para mudar a vida das pessoas. “Adoro o sistema monetário, é muito interessante, e eu sonho em ser presidente do Banco Central, porque sei que as decisões desse cargo impactam a vida de todas as pessoas, o poder de compra de todos, dos mais pobres”. Vai para os EUA, mas garante que volta. “Tenho um compromisso com o Brasil”, afirma.

Além de explicar conceitos econômicos para outros participantes – e consequentemente para o país inteiro – ser da “cachorrada” é outro título que recebeu na casa mais vigiada. “Adoro me divertir, ir para festas, consegui assumir verdadeiramente quem eu sou lá dentro, beijar quem quisesse, foi um processo de libertação”, conta. Mas quando perguntado sobre o seu maior sonho ainda não realizado – depois de tantas conquistas agora vividas, como quitar dívidas, ajudar familiares e estruturar a continuidade dos estudos – responde na lata: “Quero casar e adotar filhos, construir uma família, sinto falta de um amor verdadeiro, sou romântico”.

 

Foto: Thiago Bruno

Foto: Thiago Bruno

 

Vigorar é um processo

Natural de Jaboatão dos Guararapes, Região Metropolitana do Recife, Gil viveu em Recife e passou parte da juventude também em São Paulo. “Fui missionário na igreja, sou evangélico, e visitei muitos bairros paulistanos nessa época, como Jaçanã, além de passar por Osasco e Barueri’, lembra. Foi também na igreja que aprendeu a deixar a timidez de lado e ser voz ativa. “Até a adolescência não falava muito, ainda sou tímido. Mas quando fui convidado para fazer uma oração no púlpito, me soltei. Falei ‘aleluia’ bem alto, vi que contagiei todo mundo ali, todos riam.”

A fé é uma herança que traz de sua terra e de sua casa, além da força e da intensidade. Os cálculos ficam apenas para os momentos de estudo, porque no dia a dia é muita entrega e intuição. “O pernambucano é batalhador, não tem medo de se expor e falar a verdade, é isso que denomino como vigor, a vida não é calculada, é bom se entregar.”

Gil do Vigor completa 30 anos neste mês. E as batalhas dos últimos anos começam a dar muitos frutos. Hoje, ele é garoto propaganda requisitado por marcas de peso, como iogurtes Vigor, o banco Santander e o Boticário. O economista também está na TV e foi contratado pela Globo. “Se não fosse o BBB, eu não conseguiria realizar tantos sonhos, e o maior deles é ir para Davis, na Califórnia! Sem os trabalhos que estou fazendo agora, eu não conseguiria comprovar renda para ir para lá, já tinha feito empréstimos para a aplicação do PhD”, conta.

 

Foto: Thiago Bruno

Foto: Thiago Bruno

 

Orgulho sem medo

A coragem precisa ser compartilhada e nisso Gil acredita fielmente. Lançou o livro “Tem que vigorar!” – a obra está entre as mais vendidas na Amazon, na seção Memórias e Biografias de líderes e pessoas notáveis, desbancado até “Uma terra prometida”, do ex-presidente dos EUA, Barack Obama – em que conta seus momentos preferidos no BBB, sua infância com muitos desafios em Pernambuco e revela as dificuldades que passou na vida, como quando teve que morar na rua. “Quando penso em infância, não consigo me lembrar de nada muito feliz. Nada. Estão gravados em minha mente muitas brigas, problemas, dor, sofrimento e fome”. No livro, ele escreve que passava dias inteiros na escola, para fugir da realidade em casa, quando, muitas vezes, testemunhava a violência do pai contra sua mãe.

 

Livro "Tem que vigorar!", lançado após a saída de Gil do BBB21, em que ele conta sobre sua trajetória de aceitação e muitos estudos - Foto: Cauê Moreno | Globo Livros

Livro “Tem que vigorar!”, lançado após a saída de Gil do BBB21, em que ele conta sobre sua trajetória de aceitação e muitos estudos – Foto: Cauê Moreno | Globo Livros

 

Com depoimentos de Jacira, mãe de Gil, Xuxa Meneghel e Deborah Secco, seu primeiro livro traz também muitos momentos de alegria, a exemplo de como a educação o salvou e a descoberta da sexualidade e seu processo de autoconhecimento e aceitação. E ao aconselhar alguém que ainda precisa de apoio para viver suas verdades, Gil é enfático e empático: “Não dá para ter medo, temos que viver, rir e nos apaixonar, é uma dívida com a gente mesmo, é importante ter apoio, as realidades podem ser muito difíceis, mas precisamos dar a mão um para o outro, passar a coragem adiante. Eu diria simplesmente ‘confia, você é bravo e especial e o respeito é um direito, não é uma escolha’.”

 

Foto: Thiago Bruno

Foto: Thiago Bruno

 

Faria tudo de novo

Gil é o ex-BBB homem mais seguido nas redes sociais. No Instagram, conta com mais de 14 milhões de seguidores. O seu momento é definitivamente agora. “Quem não quer mudar de vida da noite para o dia? Eu ainda nem acredito que tudo isso está acontecendo comigo, Deus realmente escolhe os momentos certos para vivermos as coisas”, diz.

Mesmo após uma edição com muito amor e ódio, em que alguns participantes foram muito exaltados pelo público, como a vencedora Juliette, mas outros foram verdadeiramente cancelados, se chamassem Gil para voltar ao reality show, iria sem pestanejar. “Mas é claro, amiga! Somos muito respeitados lá dentro, a produção cuida muito bem de tudo, e é lá que me encontrei, as lições que tirei são sobre julgar menos e confiar nas nossas intuições, temos que ser felizes, assim teremos amor e aceitação.”

Desde que saiu do BBB, o economista tem uma rotina intensa de gravações, participações em muitos programas e produções de comerciais. A agenda é tão cheia que a entrevista para a capa desta edição foi feita por videochamada às 20h30, depois de um longo dia, mas Gil estava com sorriso no rosto. E, assim como o pernambucano acredita, depois das batalhas vêm as conquistas. Junto com a produção desta matéria, no final de junho, ele pôde finalmente curtir férias, foi para Fernando de Noronha com a família. “Regozijando, a vida é boa”, postou.

 

Foto: Thiago Bruno

Foto: Thiago Bruno

Dupla do vôlei de praia, Ágatha e Duda, conta como foi a preparação para as Olimpíadas de Tóquio

Dupla do vôlei de praia, Ágatha e Duda, conta como foi a preparação para as Olimpíadas de Tóquio

Favorita em Tóquio, a dupla do vôlei de praia Ágatha e Duda teve bons resultados em circuitos nacionais e mundiais e segue focada para trazer mais medalhas para o Brasil.

A sergipana Eduarda dos Santos Lisboa é uma atleta prodígio no vôlei de praia. Cinco anos depois de iniciar na modalidade, aos 9 anos, na escola de vôlei de sua mãe, a ex-jogadora Cida Lisboa, ela se tornou a primeira a disputar, em um mesmo ano, os campeonatos mundiais de base de três idades diferentes. Conquistou um título sub-19 e um vice-campeonato sub-23. E não parou por aí. Em 2019, aos 20, Duda – como ela é conhecida no esporte – tornou-se a atleta mais jovem a levantar o troféu de campeã do Circuito Mundial.

Mais ainda: foi eleita a melhor atleta do mundo do vôlei de praia naquele ano. “O fato de sua mãe ter sido jogadora e de Duda, desde pequena, acompanhá-la nos torneios fez com que ela naturalizasse a competição”, opina Ágatha Bednarczuk, sua atual parceira na praia. “Aquele glamour que as meninas enxergam quando começam a jogar etapas do circuito brasileiro ou do mundial, sempre foi minimizado por Duda, porque ela já estava acostumada ao ambiente.”

 

Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

 

Paranaense de 38 anos, Ágatha – que, ao lado de Duda, 22, forma a dupla de vôlei de praia brasileira com maior chance de medalha em Tóquio – é também jogadora de altíssimo nível e chega para a sua segunda edição olímpica como favorita por ter conquistado a medalha de prata nos Jogos do Rio de Janeiro. Em 2020, Ágatha e Duda venceram nove etapas do Circuito Brasileiro de vôlei de praia. Este ano, outras três em cinco finais que disputaram.

A seguir, a dupla formada em 2017 – líder do ranking do Circuito Brasileiro de Vôlei de Praia e primeira colocada do ranking de entrada do Circuito Mundial de Vôlei – abre o jogo, divide suas trajetórias e relata como foi a preparação em tempos de pandemia.

 

Ágatha e Duda chegam à final do Mundial em Cancún e levam a prata - Foto: Alejandro Gutiérrez Mora

Ágatha e Duda chegam à final do Mundial em Cancún e levam a prata – Foto: Alejandro Gutiérrez Mora

 

Como o vôlei de praia entrou na sua vida?

Ágatha: Iniciei no vôlei aos 5 anos, jogando na quadra. Eu e muitas garotas da minha geração somos atletas de quadra que migraram para a praia. Ainda mais porque sou do Sul, onde não havia centros de treinamento de praia, como encontramos facilmente no Rio de Janeiro e no Nordeste do Brasil. Eu me tornei atleta de vôlei de praia somente aos 18 anos. A Duda, por outro lado, já nasceu no esporte como atleta da praia. A mãe dela tem uma quadra de vôlei do lado da casa onde mora, em Aracaju, e foi técnica da Duda desde quando a filha era pequena. Muitas atletas já haviam jogado contra a mãe dela, que já brincava de vôlei com a Duda.

Você impressiona pelos títulos individuais e os que conquistou com a Ágatha. Foi eleita a melhor atleta do mundo, aos 20 anos. Como encara isso tudo?

Duda: Os feitos que conquistei vieram rapidamente. Eu não percebia a minha idade. Perdi, naturalmente, um pouco da minha juventude. Por exemplo, eu estudava à distância. Por outro lado, crescer no esporte era um desejo meu. Não fui forçada por ninguém. Tenho psicólogo, faço terapia e sempre respeitei as minhas limitações e o desenvolvimento do meu corpo. Assim, fui encarando as dificuldades e aprendi a andar com as próprias pernas. O esporte também acelera o nosso amadurecimento.

 

Ágatha no Circuito Mundial de Vôlei de Praia, em Cancún, neste ano.   - Foto: Alejandro Gutiérrez Mora

Ágatha no Circuito Mundial de Vôlei de Praia, em Cancún, neste ano. – Foto: Alejandro Gutiérrez Mora

 

Como você lidou com o cancelamento e, posteriormente, o adiamento dos Jogos Olímpicos?

Ágatha: Foi impactante, primeiramente. Imaginava que aconteceria o adiamento, porque muitos eventos seguiam esse curso. Mas eu sou uma atleta que procura sempre o lado positivo das coisas. Passamos a procurar soluções para o time ficar melhor com um ano a mais pela frente de preparação. Eu e a Duda ficamos longe uma da outra durante três meses e voltamos a trabalhar juntas em junho de 2020. Foram surgindo um torneio, em setembro, na Holanda, o Circuito Brasileiro e, neste ano, o internacional. A pandemia veio para que a gente enxergasse o hoje. Não dava mais para fazer planos. Tiramos o foco da Olimpíada. Isso fez com que a gente não sentisse tanta ansiedade. Funcionou. Jogamos oito torneios, vencemos seis e ficamos com a prata em outros dois.

O fato de ser sua primeira Olimpíada e o torneio ser realizado em Tóquio exige de vocês uma atenção especial?

Duda: Jogamos em Tóquio, em 2019. Era um torneio que serviu de ensaio de como será a Olimpíada. Fomos campeãs. Deu para perceber o clima, que é muito seco e varia muito. Ou seja, vamos precisar nos hidratar o tempo todo. E o fuso é complicado também. Mas chegaremos doze dias antes do início do torneio. Teremos, portanto, um bom tempo de aclimatação. Os japoneses aproveitam muito o dia, são educados e sempre querem saber se estamos bem, se precisamos de alguma ajuda. Sobre os times adversários, o nosso esporte está muito pareio e é difícil apontar qual dupla será mais complicada para nós.

 

Duda no Circuito Mundial de Vôlei de Praia, em Cancún, neste ano. - Foto:  Alejandro Gutiérrez Mora

Duda no Circuito Mundial de Vôlei de Praia, em Cancún, neste ano. – Foto: Alejandro Gutiérrez Mora

 

Sua estreia em Olimpíada foi no Brasil, em 2016. Como foi debutar em casa?

Ágatha: Eu não tirava o sorriso do rosto. Quando estou emocionada, recorro à risada e não ao choro, na maioria das vezes. Fomos para a Vila Brasileira que ficava na Urca, mais próxima da Arena onde competíamos, em Copacabana. Chegamos nela três dias antes do início dos Jogos e eu queria conhecer todos os cantinhos da Vila. O primeiro momento de que lembro foi saindo da minha casa, em direção ao Comitê Olímpico para receber os uniformes. Foi muito emocionante provar os uniformes, pegar a mala… estava acontecendo! Eu sorria de felicidade.

Olimpíada é algo tão especial que, por exemplo, o nadador norte-americano Michael Phelps treinou, literalmente, todos os dias durante quatro anos para chegar à Olimpíada de Pequim, em 2008, e fazer história. Tornou-se o recordista de medalhas de ouro (oito) em uma única edição.

Ágatha: Eu li sobre essa história do Phelps. Muitas vezes, a gente tem essa dedicação sem mesmo saber se irá à Olimpíada. Eu e a Duda fechamos parceria em janeiro de 2017. As pessoas imaginam, mas, de verdade, não têm ideia o que é um ciclo olímpico, não têm clareza sobre o tanto de abdicações que uma atleta encara. A nossa família sabe, porque perde o convívio conosco. É muita renúncia em relação à vida social, ao convívio com muitas pessoas, a viajar com amigos… Pode esquecer tudo isso! Casamentos, aniversários: a mesma coisa. Ainda bem que o preparador físico da nossa equipe é o meu marido (risos).

 

Ágatha no Circuito Mundial de Vôlei de Praia, em Cancún. - Foto: Duda no Circuito Mundial de Vôlei de Praia, em Cancún, neste ano. - Foto:  Alejandro Gutiérrez Mora

Ágatha no Circuito Mundial de Vôlei de Praia, em Cancún. – Foto: Duda no Circuito Mundial de Vôlei de Praia, em Cancún, neste ano. – Foto: Alejandro Gutiérrez Mora

 

O que é peculiar em nosso jeito de jogar vôlei de praia? Como o Brasil se define nessa modalidade?

Ágatha: Ter um país com um litoral extenso ajuda muito. A temperatura faz com que a gente possa praticar o esporte o ano inteiro. Temos um número grande de atletas e assim fica mais fácil de colher frutos para o alto rendimento. Os gringos, no inverno, ou treinam em quadras construídas em lugares fechados, ou viajam para outro lugar para treinar. Treinar em quadra fechada representa uma perda na preparação. E nós sempre contamos com muitos bons profissionais. Nossos técnicos seguem como referência no mundo. Exportamos técnicos mundo afora, hoje em dia. Também contribui o fato de a gente desfrutar há muitos anos de um circuito nacional de vôlei de praia. Isso faz com que a gente jogue o ano inteiro, algo que os gringos não possuem. Lá fora, isso só acontece no verão. Mas é algo que está mudando. Os países de fora estão mais preparados, importando os nossos técnicos, o que faz com que eles entendam mais sobre a modalidade. Os atletas estão mais altos e fortes. Ou seja, é sinal de alerta.

Muita gente cita a sua maturidade, apesar dos 22 anos, como uma característica importante para a sua carreira.

Duda: Eu sempre fui muito apegada a minha família. Prezo muito por isso. Como comecei muito nova no vôlei, logo passei a enxergar a vida como uma pessoa adulta, que já viajava, tinha responsabilidades. Eu amadureci muito. Sinto, logicamente, falta da minha família. Também namoro à distância. E isso tudo, então, dificulta um pouco. Por mais que o Rio de Janeiro, onde moro e treino, seja lindo, sigo muito caseira. Como vim do interior, onde sempre ficava com a minha mãe dentro de casa, continuei assim. Hoje, de tardezinha, tirei um cochilo e pela primeira vez sonhei que eu estava jogando a Olimpíada. No sonho, eu entrava na quadra, era em Tóquio, e tinha público na arquibancada. Aleluia!

Qual é a grande qualidade da Ágatha, sua parceira?

Duda: Ela tem várias. Mas citarei o comprometimento, a dedicação e o foco.

 

Duda no Circuito Mundial de Vôlei de Praia, em Cancún. - Foto: Duda no Circuito Mundial de Vôlei de Praia, em Cancún, neste ano. - Foto:  Alejandro Gutiérrez Mora

Duda no Circuito Mundial de Vôlei de Praia, em Cancún. – Foto: Duda no Circuito Mundial de Vôlei de Praia, em Cancún, neste ano. – Foto: Alejandro Gutiérrez Mora

 

Você tem um projeto de vôlei em Paranaguá, no Paraná. Como surgiu a ideia?

Ágatha: Criei o projeto em 2008, é um centro de treinamento de esportes de areia. Nunca cobramos nada das crianças. Firmamos parcerias com o governo municipal e empresas da cidade. No começo, só ensinávamos vôlei de praia para crianças e adolescentes de 7 a 17 anos. Hoje, também ministramos treinamento funcional para adultos. A ideia, agora, é envolver a família inteira. Fazemos eventos durante o ano inteiro, pensando, principalmente, no que é importante para o crescimento das crianças, como levá-las ao cinema. Mais de 8 mil crianças e adolescentes já passaram por lá.

Onde você exibiria uma possível medalha olímpica?

Duda: Como moro de aluguel no Rio de Janeiro, queria ter um espaço em uma propriedade minha para exibir a medalha, seja qual for. Hoje, deixo com o meu pai, que guarda todos os meus prêmios no meu quarto, em Sergipe.

Onde está a sua medalha de prata olímpica? Como lida com a possibilidade real de ganhar o ouro dessa vez?

Ágatha: A prata está emoldurada em um quadro e fica exposta na parede do escritório de casa. Antigamente, eu a guardava em uma caixinha dentro do armário por medo de perdê-la. Mas aí o meu marido insistiu para deixá-la exposta na parede. E concordei. O nosso time, hoje, tem expectativa grande para essa Olimpíada. Mas para conquistar uma medalha, temos de chegar lá no nosso melhor. Se vier o ouro – enfim, a cor que for –, a medalha de Tóquio ganhará um lugar, em casa, ao lado da prata dos Jogos do Rio de Janeiro.

 

Foto: Divulgação

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