Com sua carreira até alguns anos ainda marcada pelo seu primeiro papel na TV, a minissérie “Presença de Anita”, exibida em 2001, Mel Lisboa estreia este mês no Teatro Casa Grande o espetáculo “Rita Lee – Uma Autobiografia Musical”, incorporando com impressionante fidedignidade essa extraordinária personagem, fazendo o público acreditar piamente que a roqueira paulistana ainda está entre nós
Depois de ser assistido por quase 90 mil espectadores em São Paulo, o espetáculo musical “Rita Lee – Uma Autobiografia Musical” chega ao Rio, com estreia no dia 26 de junho no Teatro Casa Grande. Nessa montagem, a atriz gaúcha Mel Lisboa interpreta com espantosa verossimilhança a inesquecível roqueira paulistana, numa encenação que mistura história e hits como “Menino Bonito”, “Ovelha Negra”, “Todas as Mulheres do Mundo” e “Mania de Você”.
No palco, Mel impressiona a plateia com sua personificação de Rita — personagem que ela já havia encarnado na TV (na minissérie “Elis: Viver É Melhor que Sonhar”, de 2019) e em outra peça teatral – “Rita Lee Mora ao Lado” – que foi assistida pela própria cantora em 2014. Sua atuação no musical que agora estreia no Rio lhe rendeu o Prêmio Shell de melhor atriz em 2025.
foto Mauricio Nahas
Com 43 anos e dois filhos adolescentes, a atriz tem uma carreira muito profícua e eclética no cinema (com filmes como “Cães Famintos”, “Atena” e “Conspiração Condor”, que deve estrear só em 2026), no teatro (com interpretações marcantes em peças como “Misery”, “Peer Gynt” e “Dogville”) e no streaming (com participações em produções como “Maníaco do Parque”, da Amazon Prime Video, “Coisa Mais Linda”, da Netflix, e “A Vida Secreta dos Casais”, da HBO Max).
Em conversa com a reportagem da 29HORAS realizada bem no dia em que fãs lembravam os dois anos da morte de Rita, a emocionada Mel Lisboa falou sobre sua afinidade com Rita, seus projetos como produtora e outros trabalhos no teatro, como “Madame Blavatsky – Amores Ocultos” –, monólogo que ela também vai encenar durante esse seu breve retorno ao Rio, onde viveu entre os anos de 2000 e 2004. Confira nas páginas a seguir os principais trechos da entrevista.
Qual a sua explicação para esse sucesso todo de “Rita Lee – Uma Autobiografia Musical”?
Não existe uma explicação. Um sucesso dessa magnitude se dá por causa de muitos acertos simultâneos. Não é só em razão do texto afiado, da direção precisa, da trilha sonora fantástica, do elenco entrosado. O sucesso se deve ao inexplicável. Não existe uma fórmula para agradar crianças, adultos, idosos, fãs da Rita e gente que nunca se ligou muito no trabalho dela.
A montagem carioca vai ser idêntica à paulistana?
Absolutamente idêntica. Tudo igualzinho.
A atriz Mel Lisboa na pele da eterna Rita Lee, no espetáculo “Rita Lee – Uma Autobiografia Musical”, que chega ao Rio este mês – foto Priscila Prade
E o que mudou desde a estreia, em abril do ano passado em São Paulo, até hoje? Dá para dizer que é um espetáculo mutante?
Todo espetáculo é mutante e evolui com o tempo. O teatro é vivo, é orgânico. Quando a gente estreia, o espetáculo está ensaiado, mas não está pronto. Ele só fica pronto mesmo quando entra em cartaz e conta com a energia dos espectadores. A plateia é um agente ativo na evolução da montagem. Com os feedbacks que recebemos, fazemos pequenas mudanças e adaptações na luz, no figurino, na movimentação e até no texto. E, com o tempo, os atores também vão ficando mais à vontade. Hoje, por exemplo, eu brinco muito mais com a plateia do que nas primeiras apresentações. E eu sei muito bem o que funciona e o que não funciona nessa interação.
A própria Rita não teve a oportunidade de ver o espetáculo, mas o que o Roberto de Carvalho achou da montagem?
Ele ficou muito feliz. Se emocionou muito. Ele já havia acompanhado um dos nossos últimos ensaios e, na nossa estreia, ele foi com a família inteira. Gostei muito quando ele me disse que a nossa montagem estava do jeitinho que a Rita gostaria que sua autobiografia fosse encenada.
O que você e a Rita têm em comum? E o que você absorveu da Rita e incorporou ao seu jeito de ser, ao longo desse último ano de “convívio” tão intenso com ela?
Nós duas somos capricornianas e temos em comum várias características típicas das pessoas desse signo. A Rita me ensinou e me ensina um monte de coisas todo dia. Eu queria ser mais como a Rita, mas não é fácil ser parecida com uma pessoa tão ‘fora da curva’. Ele era uma mulher muito inteligente, rápida, irreverente e debochada. Eu tento ser como ela, é uma grande inspiração para mim, mas eu tenho meus limites…
foto Priscila Prade
O que foi mais difícil na hora de criar a sua Rita? Cantar foi um desafio ou você ficou à vontade, já que atuou em outros musicais?
Nunca fico à vontade cantando! O ideal seria se eu cantasse igual à Rita, mas nossas vozes são diferentes. Então eu tento reproduzir a música da voz dela, o jeito dela falar, o sotaque diferente do meu. Uma vez, recebemos na plateia um grupo de pessoas com deficiências visuais que são fãs da Rita. Eu fiquei preocupada, pois muito da minha composição vem do figurino, da caracterização, mas isso eles não enxergam. Aí, no final, uma garota desse grupo me disse uma coisa linda, que me deixou comovida. “Eu não via a Rita, mas eu ouvi a Rita”, disse ela. Voltei para casa com aquela sensação de missão cumprida.
Depois de interpretar a Rita Lee no palco e no cinema, não tem receio de ficar estigmatizada como “aquela atriz que é cover da Rita Lee”?
Minha trajetória foi marcada por duas personagens muito fortes – a Anita de “Presença de Anita” e a Rita Lee. Eu tive algo que muitos passam uma vida inteira sem ter. Me sinto uma privilegiada! E, a propósito, para mim não é problema nenhum ter a minha imagem associada à da Rita. Muito pelo contrário. Me sinto muito honrada!
Por falar nessa outra personagem forte da sua trajetória, durante anos você foi conhecida como a moça de “Presença de Anita”, mesmo depois de vários outros trabalhos. Isso te incomodava?
Quando eu te digo que me sinto privilegiada e honrada de ver a minha imagem e o meu nome associados à Rita e à Anita, essa é uma visão que tenho hoje. Até alguns anos, isso era de fato um problema, eu me questionava muito se isso era bom ou ruim, se eu havia cometido algum erro ao aceitar esses papeis. Não foi um processo fácil e suave essa mudança de pensamento, mas o fato é que hoje isso não é mais uma questão na minha cabeça. Estou muito bem resolvida com minhas escolhas.
foto Priscila Prade
Quando foi que você deixou de priorizar a TV e veio para São Paulo fazer teatro e se tornar uma musa da cena alternativa, com peças de baixo orçamento, mas muito bem recebidas pela crítica, como “Após a Chuva”, “A Boca do Lixo”, “Luz Negra” e “Cenas de uma Execução”?
Morei no Rio até 2004, onde fiz várias novelas. Em 2003 fui fazer uma peça em São Paulo e logo me identifiquei com a cidade e me encantei pelas pessoas e pelo jeito que as coisas funcionavam por lá. Aí me mudei definitivamente em 2004 e, aos poucos, fui tendo a oportunidade de trabalhar e aprender com grandes diretores e atores. Um dia, percebi que não era mais uma forasteira, eu já me sentia perfeitamente inserida na cena teatral paulistana. Hoje, de fato, sinto que pertenço a esse lugar.
Ultimamente você vem assumindo a função de produtora. Como é produzir cultura em um país que não a valoriza.
É sempre difícil, né? Precisa ter muito amor pelo teatro para entrar nessa atividade. Para mim esse foi um caminho natural. Assim como outros tantos atores e atrizes, também quero ser dona dos meus projetos. Mas isso não significa que eu não quero mais trabalhar para outros produtores, realizadores. Eu só quero que essa seja mais uma alternativa para mim, sem impedir ou anular a minha participação em projetos capitaneados ou produzidos por outras pessoas. A ideia é ampliar o leque de possibilidades, não restringi-lo.
Me fale de “Madame Blavatsky – Amores Ocultos”, peça que você produziu e vai encenar no Rio paralelamente ao musical sobre a Rita Lee?
No Rio, “Madame Blavatsky” terá apenas quatro apresentações, em noites de quarta-feira, no Teatro Prio, no Jockey Club. Se der certo, depois a gente pode voltar à cidade para uma temporada de verdade. É uma peça que brinca com os limites da ficção, investigando convenções da representação teatral e simulando, através do texto, uma incorporação mediúnica. Em cena, o espírito de Helena Blavatsky, fundadora da Sociedade Teosófica, exige retornar a um teatro, utilizando-se do corpo de uma atriz, para colocar a sua controversa história em pratos limpos.
A atriz em cena do monólogo “Madame Blavatsky – Amores Ocultos” – foto Gatú Filmes
Helena Petrovna Blavatsky foi uma mulher bem menos solar e bem mais introspectiva que a Rita Lee. Tem sido difícil incorporá-la no palco? E, neste caso, o termo “incorporar” está em seu sentido bem literal, já que você encarna o espírito dela na peça, não?
A Rita e a Blavatsky são diferentes, mas conectadas em muitos aspectos. Ambas são meio bruxas, e as duas, por serem capricornianas, têm em comum muitas das características típicas das pessoas desse signo. E as duas morreram no mesmo dia, 8 de maio, olha só! A peça tem muito metateatro, o tempo todo a gente fala do ato de fazer teatro. E, ao contrário do que acontece com o musical da Rita Lee, eu não preciso tentar falar ou me mexer como a Blavatsky. Ninguém sabe como era a voz dela, como se movia, qual era o seu gestual. Ela morreu em 1891, tudo o que temos dela são seus escritos e algumas fotos. Eu me sinto muito livre para interpretá-la. Aliás, eu não a interpreto, no palco eu sou a Mel encarnando o espírito dela.
Trazer uma mulher ucraniana aos palcos nesse momento foi uma escolha intencional por causa da situação do país, invadido pela Rússia desde 2022?
Não. A primeira vez que encenei essa peça foi como solo on-line, na pandemia, quando os teatros estavam fechados. Foi antes do início dessa guerra.
Quais outras mulheres poderosas você gostaria de viver no palco?
Várias outras, felizmente! É difícil enumerá-las. Mas digo que Medéia [de Eurípedes] é um personagem que me cativa.
Para encerrar, a Rita Lee fechou sua autobiografia dizendo se orgulhar de ter feito muita gente feliz. E você? Se orgulha de quê? De ter feito muita gente refletir? Recordar? Se divertir?
A arte tem o poder de tocar e transformar as pessoas. Eu me orgulho de, ao longo desses vinte e tantos anos de trabalho na TV e no teatro, ter auxiliado de alguma maneira na transformação de muita gente. A vida presta. É um trabalho árduo, mas que vale a pena.
Mel Lisboa com sua musa Rita Lee – foto reprodução Instagram
De volta às novelas e estreando no Rio o espetáculo que produziu originalmente só para ser encenado em ruas e praças de cidades do interior do país, Cláudia Abreu festeja este momento especial de sua carreira fazendo teatro da maneira mais genuína ao lado de queridos colegas de profissão e interpretando uma personagem que leva à TV o debate sobre um tema importante como a saúde mental
Com 54 anos, quatro filhos e dezenas de prêmios conquistados por seus trabalhos na TV, no teatro e no cinema, Cláudia Abreu é uma mulher bem-sucedida e realizada profissionalmente e também no plano pessoal. Capaz de interpretar com a mesma desenvoltura a cantora de eletroforró de uma novela como “Cheias de Charme” ou uma escritora à beira do suicídio em uma peça teatral densa como o monólogo “Virginia”, ela acaba de retornar à TV aberta para ser uma das protagonistas da nova novela da faixa das 19h da TV Globo, “Dona de Mim”, e estreia no Rio o espetáculo “Os Mambembes”, originalmente concebido para ser encenado em praças de pequenas cidades do Brasil Profundo.
Soberana dos rumos de sua trajetória, Cláudia é também a produtora dessa adaptação da comédia clássica escrita em 1904 por Artur Azevedo, que conta as aventuras de uma trupe mambembe viajando pelo Brasil. A vida imita a arte para o elenco composto por atores consagrados como Cláudia, Deborah Evelyn, Julia Lemmertz, Leandro Santanna, Orã Figueiredo e Paulo Betti, que literalmente caíram na estrada em novembro de 2024, para apresentações no interior de Minas, Pará, Maranhão e Espírito Santo. No dia 15 de maio, a montagem chega ao Rio, ficando em cartaz no Teatro Casa Grande até 22 de junho, com apresentações de quinta a domingo.
Cláudia Abreu – foto Manoella Mello
“Montar ‘O Mambembe’ com amigos queridos era um sonho antigo. Uma celebração ao teatro e à alegria de atuar. Essa peça é um clássico brasileiro. Fizemos um espetáculo pensando para todo tipo de público, seja ele popular, sofisticado, jovem, idoso, de uma cidadezinha do interior ou da Zona Sul carioca”, sintetiza Cláudia.
Em conversa com a reportagem da 29HORAS, a atriz fala sobre Filipa, a mulher sonhadora e emocionalmente instável que ela interpreta na novela “Dona de Mim”, analisa os desafios que pais e mães têm de enfrentar para criar seus filhos em um mundo cheio de perigos virtuais/digitais e reflete também sobre as dificuldades crônicas vivenciadas por quem se propõe a produzir Cultura neste país. Confira nas páginas a seguir os principais trechos da entrevista.
Seu último trabalho na TV foi na novela “A Lei do Amor”, em 2016. Além da pandemia, quais as outras razões desse seu afastamento? Quando terminei a novela “A Lei do Amor”, ficou acertado com a Globo que meu próximo trabalho seria uma série. Daí fiz duas temporadas de “Desalma”, sendo que a segunda foi gravada durante a pandemia. Depois, fui morar por um ano em Lisboa. Na volta, produzi e escrevi meu monólogo “Virginia”, sobre a escritora Virginia Woolf, que estou fazendo há dois anos e meio por todo o Brasil. Uma alegria! Já levei a peça até para o México e Portugal. Fiz ainda os filmes “Silêncio da Chuva” e “Tempos de Barbárie” e fui convidada para protagonizar meu primeiro trabalho na Amazon Prime, a série médica “Sutura”. E no final do ano passado estreamos o espetáculo “Os Mambembes”, no qual atuo e também produzo. Eu tenho uma produtora, a Zola Filmes, para a qual escrevi, atuei na série infanto-juvenil “Valentins”, que criei junto com a Flávia Lins e Silva para o canal Gloob.
Sempre gostei de fazer muitas outras coisas além de novela, mas estou feliz em voltar. Quando chegou o convite do diretor artístico Allan [Fiterman] e da autora Rosane [Svartman], foi irresistível, um combo impossível de recusar. Ele é um parceiro antigo e eu já tinha um desejo de trabalhar com a Rosane. Além disso, tinha uma cobrança muito forte do público de TV aberta me pedindo para voltar às novelas. Percebi isso claramente ao rodar o Brasil com a trupe de “Mambembes”. Comecei na TV com 16 anos, esse trabalho é um reencontro com o público que me acompanha há tantos anos, muita gente que não tem acesso ao streaming, ao cinema ou aos teatros e encontra na novela o seu principal entretenimento.
Cláudia Abreu na peça teatral “Virginia” – foto divulgação
Fale um pouco para a gente sobre a Filipa, de “Dona de Mim”. A proposta é discutir saúde mental, já que é uma personagem instável emocionalmente, com picos de euforia e tristeza. Ela tem muitas questões profundas, como o fato de nunca ter se realizado como mãe, nem como artista. Mesmo assim, ela é luminosa, forte. Achei uma boa oportunidade de voltar à TV aberta falando de um tema tão relevante e que pode ser de grande ajuda para muitas pessoas. Mas obviamente não deixa de ser uma novela das sete — divertida, com cenas mais curtas e ritmo frenético. As novelas dessa faixa têm uma linguagem própria, mais leve e lúdica, e isso é muito bom. A Rosane é uma autora com uma antena fantástica para captar tudo o que está acontecendo na sociedade, a diversidade, a cultura, em segmentos diferentes.
A relação de Filipa com a filhinha adotiva de seu marido na trama, Abel (Tony Ramos), é ruim? É isso que leva a garotinha a se ligar tanto à babá Leona (Clara Moneke)? A Filipa é uma personagem alegre e solar, mas que convive com várias frustrações do seu passado. Não deu certo como artista quando nova, depois não foi capaz de criar a própria filha, que vai morar em Portugal com a avó, e, por fim, não conseguiu se fazer aceitar pela própria enteada. A Sofia é uma criança que se sente muito sozinha naquela casa, onde todos são muito diferentes dela. A relação entre as duas não encontra um ponto de afinidade ou identificação, o que acaba frustrando a Filipa nas suas tentativas de aproximação. No entanto, Filipa mantém a esperança dentro de si. Ela sempre encontra uma novidade para se agarrar, na esperança de que finalmente conseguirá realizar algo. Sempre inventando novos sonhos e propósitos. Eu acredito que, apesar da enorme fragilidade e instabilidade emocional que a caracterizam, ela nunca perdeu a fé na vida.
Você trouxe para a Filipa alguma coisa da sua relação com os seus filhos na vida real, Maria, José Joaquim, Pedro Henrique e… Felipa? Tenho uma relação completamente diferente com meus filhos, somos muito próximos, ligados. Já a experiência da Filipa como mãe não foi feliz.
A atriz ao lado de Tony Ramos, seu marido na novela “Dona de Mim”, que acaba de estrear na faixa das 19h da TV Globo, com texto escrito por Rosane Svartman – foto TVGlobo / Manoella Mello
Criar uma criança e um adolescente hoje em dia é uma tarefa cada vez mais complexa e desafiadora. Você assistiu à série “Adolescência”, da Netflix? Qual a sua “receita” para uma boa formação e um bom relacionamento entre pais e filhos? Nada é mais difícil do que educar sem ser autoritária e, ao mesmo tempo, ter autoridade para poder dar limites. Sempre converso com os meus filhos, mas nunca sabemos até onde vai a escuta deles. O ideal é ter uma relação de confiança. Assisti à série e fiquei ainda mais ligada nesse assunto. É preciso ter muito cuidado com a internet. Mesmo com os seus filhos dentro de casa, ninguém está protegido, nem livre de fazer uma besteira achando que não vai ter consequências. Todo cuidado é pouco.
E como vai ser dividir o seu tempo entre as gravações da novela durante a semana e, de quinta a domingo, as apresentações do espetáculo “Os Mambembes”, no Teatro Casa Grande? E ainda estou fazendo uma pequena turnê com “Virgínia”, que acaba na semana anterior à estreia de “Mambembes”! (risos) Sem dúvida, é um momento profissional especial. Estava programada para fazer as peças e montar o documentário que dirigi sobre a turnê de “Mambembes” pelas praças do país, mas fui surpreendida pelo convite da novela. Achei que seria uma boa oportunidade para voltar ao lado de pessoas de que gosto muito e falar desse tema de humor instável que atinge tantas pessoas. Mas agora é respirar fundo e dar conta de tudo com energia, dedicação e alegria.
Como foram as apresentações em cidadezinhas do Maranhão, do Pará, de Minas e do Espírito Santo? Conta para a gente algum fato inusitado ou imprevisto que rolou nessas performances de rua…. Inesquecíveis! Era o teatro feito da forma mais genuína, de graça e para plateias de duas, três mil pessoas. Passamos por muitos perrengues, com o ônibus da peça quebrando na estrada, chuva caindo de repente durante a apresentação etc. O documentário vai mostrar tudo isso. Foi muito lindo.
Na série “Sutura” da Amazon Prime Video – foto divulgação
Na Globo e nos filmes que você fez para o cinema, a produção é sempre caprichada e altamente profissional. Como foi fazer a turnê por esses locais sem infraestrutura, sem mimos e sem assistentes? Em primeiro lugar, não gosto dessa coisa de mimos e assistentes. Nunca foi a minha. E fazer teatro dessa maneira me reconectou ao desejo primeiro e mais profundo da minha escolha de atuar profissionalmente como atriz. No entanto, apesar de ter sido concebida para ser apresentada na rua, a peça tem uma produção super caprichada. A maior diferença foi estarmos todos disponíveis para o inesperado que podia rolar durante as apresentações.
Além de produtora, você é uma das idealizadoras do espetáculo. Como surgiu a ideia de fazer essa recriação quase literal da peça sobre uma trupe de artistas mambembes? A idealização foi minha e do diretor, o Emílio de Mello, e se traduz no desejo antigo de montar “O Mambembe” de maneira mambembe. Sair pelo Brasil com um ônibus que seria meio de transporte, camarim e cenário, com um grupo de atores amigos, parar nas praças e fazer teatro de graça. Nada mais divertido, mas bem trabalhoso também.
E o que mudou agora, nessa transposição de um espetáculo concebido para praças do interior para uma montagem num teatro de shopping no Leblon? O ideal seria continuar fazendo na rua, mas para isso dependemos de patrocínio, como o que tivemos na turnê. A solução foi adaptar a peça para um teatro, pois como muitas pessoas estão envolvidas no projeto e contam com esse trabalho, não fazia sentido parar até aparecer outro financiador. Agora passamos a ter duas versões: para a rua e para o teatro!
Cláudia Abreu com Paulo Betti em cena de “Os Mambembes” – foto Annelize Tozetto
Depois de rodar o interiorzão do país, o chamado Brasil Profundo, se apresentando para pessoas que, em muitos dos casos, estavam assistindo pela primeira vez a um espetáculo teatral, podemos dizer que a cultura é uma atividade mambembe aqui no país, por ainda ser acessível a apenas uma pequena parcela da população? Infelizmente, nem todos têm acesso à cultura, por isso foi tão importante levar teatro a lugares onde nem sempre tem um e, mesmo quando tem, nem todos podem pagar. Isso é um problema desde que “O Mambembe” foi escrito. Ter condições básicas para fazer teatro é o tema da peça, os artistas sempre estão com pires na mão. A cultura é tratada como algo menor ou como artigo de luxo que não merece um investimento permanente. Mas é justamente para poder ter condições de ser acessível a todos que a cultura precisa de investimento e de leis adequadas. É preciso também reforçar o entendimento de que cultura é a identidade de um país. Jamais poderíamos ter ido fazer teatro na beira do rio Tocantins, em Marabá, no Pará, se não tivéssemos um patrocínio.
Para finalizar, quais projetos você já tem engatilhados para depois do final da novela Após “Dona de Mim”, levaremos “Os Mambembes” a São Paulo, para uma temporada no Tuca. E pretendo montar e lançar o documentário sobre essa aventura que foi fazer a turnê da peça. Vai ser minha estreia como diretora.
Cláudia com a trupe toda do espetáculo “Os Mambembes” após a apresentação em Açailândia (Maranhão) – foto reprodução Instagram
A atriz Isis Valverde ultrapassa as fronteiras do Brasil com o lançamento de seu primeiro filme hollywoodiano, ao lado de Sylvester Stallone. Já neste mês, ela estreia no Disney+ a série “Maria e o Cangaço” e ainda promete outras surpresas para 2025
Em 2006, um véu caía e apresentava ao Brasil Isis Valverde. Na pele da misteriosa personagem Ana do Véu, na novela “Sinhá Moça”, a atriz iniciante de apenas 19 anos fazia sua estreia na TV. O que era para ser uma trama secundária, acabou atiçando a curiosidade dos telespectadores ao longo dos capítulos, até finalmente o rosto de Ana – e de Isis – ser revelado.
Com uma beleza única e um ar inocente, a conexão com o público foi imediata e não demorou muito para que a mineira de Aiuruoca conquistasse papéis de maior destaque na TV Globo, como a divertida manicure Rakelli, em “Beleza Pura” (2008), que sonhava em ser dançarina do programa “Caldeirão do Huck” e arrancava gargalhadas com seus erros de português; a romântica Camila, em “Caminho das Índias”(2009), que largava tudo no Brasil para viver um amor quase impossível na Índia; a musa Suelen do bairro do Divino, na icônica “Avenida Brasil” (2012); a rainha do axé Sereia, protagonista da minissérie-thriller “O Canto da Sereia” (2013); e a sedutora e narcisista Ritinha, em “A Força do Querer” (2017).
“A Ana do Véu e a Rakelli são papéis especiais para mim, foram o pontapé em um universo artístico pelo qual sempre fui tão encantada. Aprendi muita coisa sobre atuação e ter a oportunidade de contracenar com tantos artistas que foram um espelho foi a realização de um sonho”, relembra Isis.
foto Ivan Erick
No cinema, ela também deu vida à protagonista Maria Lúcia em “Faroeste Caboclo” (2013), inspirado na canção homônima de Renato Russo, e encarnou Tereza, esposa do cantor e compositor Wilson Simonal, no filme “Simonal”, de 2019.
Hoje, com muito talento e carisma, Isis faz parte de um seleto grupo de atores que conseguiu ultrapassar os limites das telas brasileiras e fincar os pés em Hollywood. Com 38 anos de idade e 20 de carreira, a atriz estreia agora em abril seu primeiro filme internacional, “Código Alarum”, e lança a série “Maria e o Cangaço”, no Disney+, em que dá vida à icônica cangaceira Maria Bonita. Além disso, ela está envolvida nas gravações do longa “Corrida dos Bichos” e do telefilme “Quarto do Pânico”.
“Nos últimos anos, tivemos grandes mudanças no audiovisual atreladas às novas tecnologias e é muito importante expandirmos nosso trabalho e levarmos arte e cultura ao máximo de pessoas. Cada formato pode contribuir de uma forma diferente, seja para nós como artistas ou para o público”, analisa a atriz sobre estar afastada da TV desde 2021, quando interpretou Betina em “Amor de Mãe”, e estar focada nos streamings e no cinema.
Para completar, deve lançar ainda este ano seu segundo livro de poesias – o primeiro, intitulado “Camélias de Mim”, chegou às livrarias em 2019 e reúne 48 poemas escritos por ela. “Desde muito jovem sou encantada pelo universo literário, amava ler e escrever, mas nunca tive pretensão de ser poeta e me aprofundar nisso. O que eu quis foi dividir os meus sentimentos e me expressar na escrita, foi tudo muito orgânico”, reflete. O novo “Vermelho Rubro” trará uma coletânea de poesias que abordam reflexões sobre a vida e as nossas humanidades. O projeto conta com direção criativa de Giovanni Bianco, fotos de Hick Duarte e prefácio de Nelson Motta.
Isis na pele da histórica Maria Bonita, nas gravações da série “Maria e o Cangaço”, do Disney+ – foto divulgação
“Este ano tem sido muito especial para mim, pois tenho começado a traçar novas metas e objetivos e quero sair também da minha zona de conforto. Apesar de ser desafiador, sinto que é o momento ideal. Estou pronta e madura para encarar novos desafios e aprender cada dia mais”, afirma.
One, two, three… action!
Suspense, ação e muita adrenalina, em uma superprodução hollywoodiana e com elenco encabeçado por ninguém menos que Sylvester Stallone. É assim que Isis dá os primeiros passos na indústria cinematográfica mundial. “Eu costumo dizer que a minha carreira é ‘apenas uma’, em que naturalmente a nacional e internacional se complementam. Meu grande objetivo é levar meu trabalho para o maior número de pessoas possível, independentemente do local”, reflete.
Em “Código Alarum” – em cartaz a partir do dia 3 de abril –, Joe (Scott Eastwood) e Lara (Willa Fitzgerald) são agentes secretos que vivem fora do radar, mas quando saem de férias com amigos, se tornam alvos de uma caçada brutal por um agente da CIA (Sylvester Stallone). Suspeitos de estarem ligados à Alarum, uma rede secreta de espiões, são forçados a fugir, sem saber em quem confiar. No longa, Isis Valverde interpreta Bridgette, amiga de Joe e Lara. “A Bridgette é uma francesa que se torna amiga do casal principal da história, mas acaba sendo confundida com uma grande espiã e pagando um preço alto no fim. Amei fazer e espero que o público curta também!”
Bastidores do filme “Código Alarum” – foto arquivo pessoal
Para ela, um dos maiores desafios foi atuar em outras línguas com naturalidade e se expressar com agilidade. “Apesar de já falar inglês, sair da nossa língua nativa é muito diferente e contracenamos também em francês. Mas foi muito bacana e, claro, trabalhar com tanta gente talentosa foi um imenso prazer, uma troca única”, diz.
Além dessa estreia, 2025 está recheado de novos trabalhos importantes em fase de produção aqui no Brasil. É o caso de “Quarto do Pânico”, uma adaptação de “Panic Room” (2002), do cineasta norte-americano David Fincher, com Jodie Foster no papel principal. Com produção da Floresta – uma empresa Sony Pictures Television no Brasil –, o telefilme terá no elenco Marco Pigossi, André Ramiro e Caco Ciocler.
Na trama, uma mulher e sua filha pré-adolescente se mudam para uma casa com um quarto blindado. Quando supostos ladrões invadem a casa, elas se refugiam no quarto, até descobrir que é justamente lá que está escondido o que eles desejam. “É um filme de prestígio e que fez muito sucesso. Então, quando surgiu a oportunidade, eu não pensei duas vezes em me aventurar no projeto”, lembra a atriz, que adianta que a história será adaptada para os tempos atuais e com um toque das produções brasileiras. “As filmagens foram muito impactantes, algo que nunca tinha vivido em outras produções. Vocês vão se surpreender!”
A atriz em momento descontraído nas gravações de “Quarto do Pânico” – foto Kelly Fuzaro
Brasil do passado e do futuro
Completando o ano de sucesso, a atriz chega ao Disney+ neste mês com “Maria e o Cangaço”, série de seis episódios inspirada no livro “Maria Bonita: Sexo, Violência e Mulheres no Cangaço”, de Adriana Negreiros, que apresenta a história de Maria Bonita sob uma nova perspectiva, com foco em sua jornada como mulher e mãe durante o movimento cangaceiro no Brasil, entre o final do século 19 e início do século 20.
Com direção geral de Sérgio Machado e direção de Thalita Rubio e Adrian Teijido – que também é o diretor de fotografia da série e do indicado ao Oscar “Ainda Estou Aqui” (2023) –, a produção da Cinefilm conta ainda com nomes como Júlio Andrade (no papel de Lampião, líder cangaceiro e companheiro de Maria Bonita), Rômulo Braga, Mohana Uchôa, Clebia Sousa, Thainá Duarte e Geyson Luiz.
Intérprete da protagonista, Isis afirma que o projeto já está entre os seus favoritos da carreira e que exigiu muito trabalho de todos os profissionais envolvidos, especialmente por causa da caracterização dos personagens, que foi feita com todos os detalhes minuciosos. “É uma personagem que mexeu muito comigo, como mulher e como mãe. É assim com muitas mulheres que hoje representam e mostram sua força, mesmo com tantas adversidades numa sociedade que ainda está longe de ser igualitária entre homens e mulheres”, reforça.
Na série “Maria e o Cangaço” – foto divulgação
Por fim, outro longa que está em desenvolvimento é o ambicioso “Corrida dos Bichos” – dirigido por Fernando Meirelles, Ernesto Solis (autor da história) e Rodrigo Pesavento –, que apresentará o Rio de Janeiro em um futuro distópico após uma catástrofe climática. Para sobreviver às condições precárias de vida, os habitantes participam de uma versão mortal do jogo do bicho, que garante um prêmio milionário.
Apesar de não poder dar muitos spoilers, Isis garante que o filme de ficção científica será um verdadeiro acontecimento, fechando metaforicamente o ano de muito trabalho. “Fernando é um profissional ímpar com quem sempre tive vontade de trabalhar. Trazer esse universo distópico num filme brasileiro vai causar muita curiosidade no público. E a abordagem é muito interessante, é uma oportunidade para refletirmos sobre os caminhos que a humanidade vem seguindo e os rumos que certos comportamentos podem nos levar”, antecipa. Ao lado de Isis nesse projeto estão Rodrigo Santoro, Grazi Massafera, Bruno Gagliasso, Matheus Abreu, Thainá Duarte e até a popstar Anitta.
Susana Vieira interpreta uma grande dama do teatro que se põe a repensar sua vida momentos antes de entrar em cena
Em cartaz no Teatro Casa Grande desde o dia 13 de março, a comédia “Lady” é um monólogo escrito especialmente para a diva Susana Vieira. No palco, a atriz de 82 anos interpreta uma grande dama do teatro que se põe a repensar sua vida momentos antes de entrar em cena para mais uma vez interpretar Lady Macbeth, uma das personagens mais clássicas e emblemáticas criadas pelo dramaturgo inglês William Shakespeare.
“O que há de Susana Vieira na personagem que interpreto? Aí o público vai ter que assistir e descobrir”, diverte-se a atriz. Ao longo da peça, são abordados temas como envelhecimento, sexo, amor, família e etarismo, de forma poética e bem-humorada. O texto é de autoria de Vana Medeiros, e a direção é de Leona Cavalli. A curta temporada de “Lady” está prevista para terminar no dia 28 de março.
foto divulgação
Teatro Casa Grande Avenida Afrânio de Melo Franco, 290 (Shopping Leblon).
Ingressos de R$ 60 a R$ 180.
Beth Goulart remonta espetáculo que cria um diálogo entre a escritora paranaense Clarice Lispector e quatro personagens de seus livros e contos
Originalmente concebido e encenado em 2009 sob supervisão do diretor Amir Haddad e visto por mais de 1 milhão de espectadores, o espetáculo “Simplesmente Eu, Clarice” volta aos palcos. Em cartaz até o dia 30 de março no Teatro Prio, a premiada peça celebra os 50 anos de carreira da atriz Beth Goulart, que assina a adaptação e a direção, além de interpretar no palco a escritora paranaense que nos últimos meses vem sendo “descoberta” em círculos literários na Europa e nos Estados Unidos.
A encenação cria um diálogo entre Clarice Lispector (1920-1977) e quatro de suas personagens, numa conversa sobre vida e morte, criação, religião, cotidiano, silêncio, solidão, entrega, inspiração, aceitação e entendimento. O texto foi montado a partir de depoimentos, entrevistas, correspondências de Clarice e trechos de obras como “Perto do Coração Selvagem”, “Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres” e os contos “Amor” e “Perdoando Deus”.
Beth Goulart como Clarice Lispector – foto divulgação
Teatro Prio
Rua Bartolomeu Mitre, 1.110, Gávea.
Ingressos de R$ 60 a R$ 120.
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