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As mil e uma formas de Marcelo D2

por | dez 1, 2020 | Entrevista, Música, Pessoas & Ideias | 0 Comentários

MARCELO MALDONADO PEIXOTO, o D2, está com 53 anos, apesar de não aparentar. Este ano, casou-se com a produtora Luiza Machado, vinte anos mais jovem. É o seu quarto matrimônio. Pai de Stefan, 29, Lourdes, 20, Luca, 18, e Maria Joana, 16, avô de Giovana, 7, e Calki, de dois meses, o músico carioca que ganhou fama à frente do Planet Hemp agregou mais números à sua história. Depois de encarar 150 horas de lives em seu canal da plataforma Twitch, trocando ideias com duas dezenas de artistas e milhares de anônimos, ele lançou “Assim Tocam os Meus Tambores”, seu oitavo trabalho solo. Gestado de forma colaborativa, ao vivo, como nunca houve na história da indústria fonográfica nacional, o álbum multimídia veio ao mundo no fim de setembro. “Todos me influenciaram, apontando ideias”, diz o cantor.

Foi no estúdio de sua casa, ao lado da esposa, diretora executiva do projeto todo – que envolve também um filme no YouTube – que D2 se libertou de uma prostração inicial causada pela pandemia e que o fez odiar, em um primeiro momento, o Rio de Janeiro, onde nasceu e foi criado. Bastou, porém, começar a rimar e sentir o abraço virtual de quem o quer bem que tudo se desenrolou. “Comecei a fazer música e aí percebi que, na real, estava com raiva de certas pessoas da cidade”, diz ele, direcionando a fala principalmente à classe política.

A experiência deu tão certo que o músico e sua esposa já estão trabalhando em um segundo volume do álbum. Além dessa revelação, o carioca conta, na entrevista a seguir, como o samba o influencia e o leva à sua ancestralidade, e reflete sobre sua porção avô.

 

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FOTO RONALDO LAND

 

Como foi a experiência de produzir o novo álbum por meio de lives a partir da participação de músicos e anônimos que acessavam o seu canal na Twitch?

Foi o (DJ) Zegon, do Tropikillaz, quem me chamou para fazer lives na Twitch, que eu não conhecia até então. Aí fui trocar uma ideia com o meu filho, Luca, quem me disse: “Pai, a Twitch é o futuro”. Ele me explicou como funcionava a coisa e foi avassalador. É um outro mundo, um universo de comunidade. Vivi algo parecido na época do My Space. Na Twitch, rola o sentimento de que todos estão fazendo algo juntos de verdade. Por isso o disco deu tão certo. Eu fiz um disco com mil, cinco mil pessoas, dentro de uma sala virtual. Todos me influenciaram, apontando ideias. Foi uma descoberta e muito confortável, porque eu estava
dentro do estúdio da minha casa e não me desloquei para outro fora dela. Eu tenho uma alma inquieta. A procura vale mais do que a batida perfeita e é isso que tem me movido. Levantar e procurar algo novo.

 

Quais foram os pitacos de anônimos que você mais se recorda durante o processo?

Eu não estava contente com a faixa “Malungoforte” e pensava em descartá-la. Aí uma garota, no chat, disse que a música era foda e outras pessoas insistiram que eu chamasse o Russo Passapusso, do BaianaSystem. Mandei o som para ele, que acabou encontrando a energia da música. Foi a galera quem o escolheu! E, olha só, essa é a música que está tocando nas rádios.

 

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FOTO RONALDO LAND

 

O samba é muito presente em seu repertório. Qual é a memória afetiva mais marcante em relação ao ritmo?

Meus pais ouvindo samba no terreiro, em casa. Meu pai era contra música gravada. Achava que música tinha de ser ouvida ao vivo. Minha família é do candomblé e todo final de semana, então, havia os cantos do candomblé. Não tinha churrasco para pobre, porque a carne era cara. Era, então, feijoada, rabada, mulherada na cozinha e a rapaziada tocando, aquele cheiro de comida em meio aos vizinhos. Lembro de correr para lá e para cá com as crianças enquanto o pessoal tocava percussão. Isso permeou a minha infância. Quando eu tinha 10 anos, meu pai comprou um (aparelho de som) 3 x 1 e aí a gente ouvia muito João Nogueira. Meu pai o amava. Ouvi tanto João Nogueira que digo que sou filho bastardo dele. Também escutávamos um pouco de música americana, James Brown, Aretha Franklin. Mas, cara, a gente era uma família de subúrbio e a música, também. Então, era samba, samba rock do Bebeto, Jorge Ben. Eu tenho orgulho de ser suburbano. Isso é importante demais para o quanto eu amo a minha história, a cidade de onde eu vim.

 

O que o samba entrega ao som que você faz?

A minha ancestralidade. Quando eu sambo dentro de mim, são os meus ancestrais, a história da minha vida se manifestando. Meus parentes têm uma história muito obscura. A minha avó materna veio do Maranhão trazida por uma família da zona sul do Rio com a promessa que estudaria aqui. Chegou com 13 anos e virou empregada doméstica e se casou com o meu avô, um cara super violento, malandrão. O samba traz esse lugar, cutuca essas coisas obscuras. Nesse disco, eu fui deixando ser levado. No próximo, irei atrás da ancestralidade, do meu Cacique de Ramos, do Jongo da Serrinha, Maracatu, Tambor de Crioula do Maranhão.

 

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FOTO ALEX CARVALHO

 

Você se criou no Andaraí e em Madureira. Mais tarde, mudou-se para a zona oeste. Que Rio de Janeiro é esse, hoje, que você enxerga?

Eu comecei a quarentena odiando a cidade do (prefeito Marcelo) Crivella. No Rio de Janeiro, existe um certo apartheid: do túnel para cá e do túnel para lá. Nesse sentido, é uma cidade meio suja, pesada, saquaé? Eu estava com raiva da cidade. Aí comecei a fazer música e percebi que, na real, estava com raiva de certas pessoas. Eu sou do Rio de Janeiro do Zeca Pagodinho e não do Bolsonaro. Sou do Rio de Janeiro do Paulinho da Viola. Do Luiz Antonio Simas. Da Teresa Cristina. Sou desse Rio de Janeiro. O Rio tinha uma coisa tão legal, da malandragem no bom sentido, do saber viver com pouco. O espírito carioca vem se perdendo.

 

Você já disse que pessoas sensíveis sofrem mais com a pandemia, o isolamento. Poderia explica melhor?

A Maria Joana, minha filha de 16 anos, fica tocada com tudo que acontece no mundo. Esse momento abala, mexe com ela, machuca. Eu sou um cara sensível e descarrego tudo na arte. É a minha maneira de balancear tudo e não sofrer tanto. Quando faço uma música, um filme, clipe, me livro um pouco das minhas frustações. Eu estava envolvido com o disco do Planet Hemp, que é crítica social, e ia a fundo nesse problema. E cair na realidade onde o país se encontra, na mão de milicianos, dessa galera que representa o que há de pior no ser humano, fez eu pensar que deveria sair do Brasil. Há muitos anos, tenho vontade de morar na California. Sempre que inicio um movimento de ir para lá, algo faz eu permanecer aqui. Ainda é difícil entender como o Brasil entrou nesse estágio. O que fez o país acreditar em um plano perverso? É falta de valores.

 

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FOTO ALEX CARVALHO

 

Como a arte tem resistido em meio à pandemia?

Curioso que o meu empresário, um dia, me disse que um governo como o nosso seria melhor para mim, argumentando que eu criaria coisa para caralho, sairia do conforto e iria para a batalha. E foi exatamente o que aconteceu. Em um primeiro momento, eu não entendi que o combate era por meio da arte. Porque o que esse tipo de política quer é levar o embate quase para o lado físico, igualar lá embaixo. Não existe ciência, cultura, intelecto nenhum (para o Governo Federal). E o papel da arte é, ao contrário, fugir desse baixo nível. Uma sociedade sem intelecto não é vida, transforma todos em zumbis. Olhando para trás – hoje, é mais fácil perceber –, eu estava há mais de um ano em um processo de briga, luta, raiva, contra esse governo. Ele representa tudo o que eu venho lutando contra no Rio de Janeiro, há vinte e cinco anos: políticos milicianos que constroem um clã familiar. Quando chegou a pandemia, eu comecei a entrar em pânico, porque o país estava pegando fogo e eu, preso dentro de casa. Até que chegou esse convite da Twitch para fazer lives. Isso me tirou daquele lugar e me colocou em outro, criativo. Aí surgiu a ideia do álbum, a cereja do bolo, para me resgatar daquele lugar de ódio e raiva e me transportar para o da empatia e do amor, que é onde me encontro.

 

Você escreveu e dirigiu a produção de “Assim Tocam os Meus Tambores”, inclusive o média-metragem, filmado em preto e branco, que acompanha o álbum. Quando essas outras facetas, além de rapper, passaram a se manifestar?

Eu sou oriundo do hip-hop, punk rock e skate. A cultura do do it yourself do punk rock é muito forte. E o hip hop é amparado em quatro elementos, a dança, o DJ (trilha sonora), o MC, que é a verbalização de tudo, e o grafite, que é o visual. Quando eu mergulhei na cultura hip-hop, abriu-se uma porta e vi que tudo era possível. Eu podia usar Picasso e Monet e transformá-los em uma arte minha, uma arte de apropriação. Como o Marcel Duchamp, que pegou um mictório e o expôs em uma galeria. No hip-hop, eu posso lançar mão de uma entrevista e transformá-la em um rap. Ou seja, a coisa sempre foi muito mais do que cantar rap para mim e não tem mais volta. Eu abri uma produtora coma Luiza, a Pupila Dilatada, e estamos embrenhados nisso. Já tinha feito um filme do álbum “Amar é para os fortes” (2018), que irá virar uma série comigo na direção. E, agora, tem esse do Assim Tocam os Meus Tambores, em PB. A minha filha, Maria Joana, deu a melhor definição de preto e branco. Ela diz que gosta de PB “porque a gente imagina as cores”. Eu não sabia, mas era isso que eu queria para o filme.

 

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FOTO WILMORE OLIVEIRA

 

Muita gente acha que se casar, hoje, é caretice. Você está no quarto matrimônio. Por que essa é a sua opção?

Terceiro! Peraí, terceiro? Não, quarto, perdi uma no caminho (risos). Casar tem muito a ver com a vontade e disposição de fazer outra pessoa feliz. Eu sou muito egocêntrico. Dividir a vida com alguém me ajuda muito a confrontar o meu lado egoísta. E a compartilhar, dizer que amo a pessoa com quem, então, irei dividir as coisas. E sou um sonhador, cara. Como diz o Raul Seixas, “quando você sonha sozinho, é só um sonho; quando sonhamos a dois, é a realidade”. Sonhar a dois é transformar tudo em realidade. Eu sou um cara romântico e apaixonado. Por tudo. Pela vida. Pela música. Pela minha mulher. Pelos filhos. Hoje, chamei a minha mulher para a gente tomar café em um lugarzinho aqui perto que a amamos. E isso, cara, é muito maneiro! Dividir a vida com alguém, ter alguém para dividir os sonhos é muito importante.

 

O que você aprende na condição de avô?

Quando os netos nascem – eu tenho dois agora – a gente não tem essa responsabilidade de criar. Só precisa amar! E isso é muito bom. Muita gente encontra isso em uma relação com os pets. Pessoa que tem amor por cachorro, cavalo, gato, que não precisam me dar nada. E com neto é meio parecido no sentido que você só quer amar aquela pessoinha. E tem o legado também. Quando vejo o meu filho sendo um bom pai, é o meu legado, é o que eu sou, o que eu fiz nessa vida. Minhas sementinhas estão em outras hortas.

 

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Marcelo D2 com a esposa, Luiza Machado; e a equipe Cochi Guimarães, Cauã Csi, Maria Trinidad Godoy, Luca Peixoto (filho), Marina Frejat, Ronaldo Land, Luan Maldonado

 

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