Entrevista com o diretor-presidente da Aena Brasil: “O crescimento do setor aéreo impulsiona a economia”

por | ago 6, 2025 | Aviação, Congonhas, Entrevista, Negócios, Pessoas & Ideias, São Paulo, Turismo, Viagens | 0 Comentários

Maior operadora aeroportuária do mundo, responsável pela gestão de 79 aeroportos e 2 heliportos em seis países, a Aena também é líder no Brasil

Para Santiago Yus, diretor-presidente da Aena Brasil, que detém a concessão de 17 aeroportos no país, quando o setor aéreo se desenvolve, a economia cresce. No primeiro semestre de 2025, a operadora recebeu 21,9 milhões de passageiros. Somente no último mês de junho, registrou um crescimento de 7,6% em relação ao mesmo mês de 2024. “O Brasil tem um potencial enorme, mas precisamos crescer a dígitos duplos para não perder competitividade”, define. De acordo com o executivo, é preciso maior número de companhias aéreas, equipamentos turísticos de qualidade e mais segurança pública, além de aeroportos modernos, seguros e eficientes.

A Aena Brasil lidera um dos maiores pacotes de investimentos em infraestrutura do setor: são R$ 12 bilhões previstos, somando outorgas, obras e obrigações contratuais, distribuídos entre os seis terminais do Nordeste e os 11 aeroportos assumidos em 2023 nos estados de São Paulo, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais e Pará.

 

Santiago Yus, diretor-presidente da Aena Brasil – foto divulgação

 

O Aeroporto de Congonhas está no centro da transformação promovida pela companhia. Segundo mais movimentado do país, com mais de 23 milhões de passageiros em 2024, o terminal passa por uma ampla modernização, com investimentos que somam R$ 2,4 bilhões até 2028. As mudanças incluem novo terminal integrado, expansão de área e avanços estruturais em conforto, segurança e eficiência.

Em entrevista exclusiva à 29HORAS, Santiago detalha as obras em andamento e fala das perspectivas da aviação nacional. Confira!

A Aena está realizando um dos maiores investimentos em infraestrutura aeroportuária no Brasil, com cerca de R$ 4,5 bilhões previstos para os próximos anos. De que forma esse aporte impacta a experiência do passageiro nos aeroportos operados pela empresa?
A Aena assumiu a gestão dos primeiros aeroportos no Brasil em 2020, com os seis terminais do Nordeste, que já receberam R$ 1,9 bilhão em investimentos e foram totalmente transformados. Em 2023, incorporamos mais 11 aeroportos do bloco SP/MS/PA/MG e estão previstos mais R$ 4,5 bilhões de investimentos. Somando os valores de outorgas e outras obrigações, o investimento total da Aena no Brasil chega a R$ 12 bilhões. Assim como já aconteceu nos aeroportos do Nordeste, a transformação dos novos terminais será gigante, com melhorias expressivas que serão sentidas tanto pelas companhias aéreas quanto, e principalmente, pelo passageiro.

Em Campo Grande, por exemplo, serão instaladas pontes de embarque, um grande desejo de quem viaja por lá. Também no Mato Grosso do Sul, Ponta Porã terá a área construída ampliada dos atuais 800 m² para 2.600 m², e Corumbá vai dobrar a capacidade operacional. São regiões estratégicas, por fazerem fronteira com a Bolívia e o Paraguai, respectivamente. 

Já em Uberlândia (MG), além de instalar pontes de embarque, vamos construir um terminal completamente novo do outro lado da pista. Por sua vez, Uberaba, um aeroporto muito importante para o setor agropecuário, terá o seu terminal ampliado de 1.500 m² para 3.000 m². Ainda em Minas Gerais, Montes Claros, que tem um parque geológico de grande relevância ambiental, histórica e turística, passará a contar com superfície da área pública 3,5 vezes maior. 

No Pará, temos aeroportos em Santarém, Altamira, Marabá e Carajás. Trata-se de um estado de dimensões territoriais imensas, onde a aviação é ainda mais fundamental para promover conectividade da população, especialmente no interior. Também há um potencial turístico incrível que precisa ser mais bem aproveitado. Os terminais de Carajás e de Santarém irão triplicar de tamanho, enquanto os de Marabá e Altamira ficarão duas vezes maiores. 

Em síntese, a Aena está realizando obras estruturais de grande porte pensadas para transformar os aeroportos em equipamentos de infraestrutura mais modernos, seguros e confortáveis, o que impacta de forma direta e significativa a experiência dos passageiros.

No caso específico do Aeroporto de Congonhas, que melhorias serão apresentadas ainda em 2025?
Os investimentos previstos para Congonhas somam R$ 2,4 bilhões. Todos os serviços oferecidos ao passageiro passarão por mudanças expressivas – e, claro, para melhor. Haverá um novo terminal integrado ao atual, com ampliação da área total de 40 mil m² para 105 mil m². O número de pontes de embarque aumentará para 19 e as áreas comerciais ultrapassarão 20 mil m². Também serão construídos 215 mil m² de novo pátio para o estacionamento de aeronaves. Com tantas transformações, teremos, de fato, um novo aeroporto.

Muitas melhorias já estão em andamento. Recebemos um aeroporto com diversos desafios operacionais e, desde então, temos concentrado esforços em ações de infraestrutura que, embora pouco visíveis ao passageiro, são fundamentais para garantir estabilidade e segurança. Entre elas, estão as intervenções nos sistemas de ar-condicionado, nas instalações elétricas e hidráulicas, além da recuperação dos pavimentos das taxiways e da pista. 

 

Projeto da Aena para o novo terminal – foto divulgação

 

Paralelamente, implementamos uma gestão mais eficiente. Quando assumimos a operação, a pontualidade média era de 64%. Hoje, atingimos índices de 87%, 88% e até 90%. Essa evolução é resultado não apenas da administração da Aena, mas também da colaboração das companhias aéreas, da Aeronáutica e de outros parceiros estratégicos, que passaram a atuar de forma integrada, com base em análise de dados.

Mapeamos pontos de melhoria em cada elo da cadeia operacional, orientamos ajustes, promovemos o compartilhamento de informações e criamos um ambiente colaborativo voltado à excelência. Com isso, otimizamos o uso dos recursos disponíveis, reduzimos trocas de portão e tornamos o fluxo de passageiros mais racional, fluido e eficiente.

Do ponto de vista comercial, criamos um marketplace e abrimos mais de 20 lojas e restaurantes. Também inauguramos a nova sala VIP do Bradesco, com 1.000 m², e vamos abrir outra da Ambaar, em setembro, de 1.300 m². No início deste mês, ainda inauguramos a ampliação da sala de embarque remoto, com mais que o dobro do tamanho da atual.

Existem projetos para voos internacionais em Congonhas? Envolveriam novas empresas aéreas atuando no país?
A demanda existe e as companhias aéreas demonstram grande interesse nessa possibilidade. Há muita expectativa nesse sentido. Mas esse é um projeto para depois de 2029, quando o novo terminal já estiver pronto e operando.

Como o senhor avalia o cenário atual da aviação no Brasil?
O Brasil tem um potencial gigantesco. Atualmente, a taxa de voos per capita é a mais baixa da região – estamos falando de 0,6 voos por pessoa ao ano. Em comparação, o segundo pior índice é o da Colômbia, com 0,8. Já em regiões como os Estados Unidos, a taxa chega a 4, e na Europa, a 5. O Brasil é um país continental, com 220 milhões de habitantes, grandes distâncias e uma geografia peculiar. O país precisa urgentemente de maior conectividade. 

Isso é uma questão de competitividade. O Brasil precisa crescer a dígitos duplos no setor aéreo para não perder espaço em relação a outros países, que estão crescendo acima de 10%, enquanto aqui a taxa fica em 5% ou 6%. Considerando toda a indústria – companhias aéreas, aeroportos e os serviços associados –, a aviação é um dos indicadores mais sensíveis da dinâmica econômica, porque gera impacto direto e indireto na geração de empregos, no turismo e na integração nacional. Se o setor aéreo cresce de forma consistente, a economia como um todo também se fortalece. 

Para isso, um dos grandes desafios a superar é a alta concentração. Precisamos de mais companhias aéreas operando no país e, consequentemente, de concorrência para baixar o valor da passagem e estimular a demanda. Mas é preciso reconhecer também que há barreiras: as receitas são em real, mas os custos – leasing, combustível, aeronaves – são em dólar. Qualquer variação no câmbio causa impactos negativos. O combustível no país representa até 50% do custo, enquanto em outras regiões é de 30%. E tem a judicialização: 80% dos processos contra companhias aéreas no mundo acontecem no Brasil. Isso tudo entra no preço final da tarifa.

A Aena Brasil tem planos de expansão e pretende adquirir a concessão de outros aeroportos?
O país é um dos principais mercados estratégicos da Aena. Estamos sempre avaliando as possibilidades de expansão.  

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