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Wagner Moura faz sua estreia como diretor com o longa “Marighella”, que chega aos cinemas em novembro

por | nov 1, 2021 | Cultura, Entrevista, Pessoas, Pessoas & Ideias | 0 Comentários

Assim como o protagonista de seu filme, Wagner Moura se posiciona sem medo contra a injustiça e o autoritarismo.

Mais conhecido por seu trabalho como ator e por personagens como o Capitão Nascimento do filme “Tropa de Elite”, o traficante Pablo Escobar no seriado “Narcos” ou o inescrupuloso Olavo da novela “Paraíso Tropical”, Wagner Moura, aos 45 anos, faz sua estreia como diretor, com o filme “Marighella”, que reconstrói parte da trajetória do militante comunista, deputado federal e fundador do maior grupo armado de oposição à ditadura militar brasileira, a Ação Libertadora Nacional (ALN).

O longa chega aos cinemas do país neste dia 4 de novembro – data que marca os 52 anos do assassinato do guerrilheiro. A estreia mundial do filme ocorreu no Festival de Berlim de 2019. Lá, foi aplaudido de pé. Aqui, teve seu lançamento adiado por causa de obstáculos criados pela Agência Nacional do Cinema (Ancine).

Na entrevista que concedeu à 29HORAS, Wagner Moura fala não só do longa, como também de outros trabalhos que ele fez e pretende fazer no Brasil e no exterior. Confira a seguir os principais trechos dessa conversa:

 

Wagner Moura - Foto: Sandra Delgado
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Wagner Moura – Foto: Sandra Delgado

 

Depois de ler a biografia de Marighella escrita pelo jornalista Mário Magalhães, o que te motivou a transformar aquela história em filme?
Eu sempre fui fascinado pelas histórias de resistência no Brasil. Histórias intencionalmente mal contadas, estereotipadas ou mesmo apagadas pela narrativa oficial. Inconfidência Mineira, Alfaiates, Malês, Canudos… A geração dos que resistiram à ditadura militar é a de gente com apenas 20, 30 anos a mais que eu, uma geração muito próxima, mas ao mesmo tempo muito diferente da minha. Marighella foi um dos maiores nomes da resistência à ditadura militar, o livro de Mário é um trabalho extraordinário de jornalismo que abriu a possibilidade da história desse nome, condenado ao silêncio e à injuria por tantos anos, também ser contada com honestidade nos cinemas.

Você se identifica com o Marighella por ser baiano como ele?
Marighella era um baiano inconformado, que não tolerava injustiças, desigualdades e tiranias. Um homem que não tinha medo de se expor e de se dedicar profundamente a algo em que acreditava, como eu. Ele nasceu na Baixa do Sapateiro, em Salvador, região habitada até hoje por pessoas pobres, em sua maioria negras. O que ele vivenciou formatou seu caráter, seu inconformismo, seu senso de justiça, seu amor pela cultura popular. A Bahia acompanhou Marighella até o fim.

O que foi mais difícil para você, nessa sua estreia como diretor?
Como diretor, sinceramente, foi tudo um grande prazer. Havia uma energia criativa e combativa todos os dias de filmagem. Nós todos queríamos muito contar aquela história, apesar de todas as dificuldades. Meu foco como diretor era tirar o melhor de todo mundo, fazer com que todos se sentissem desafiados e, ao mesmo tempo, animados em acordar todo dia e ir filmar. Como produtor foi mais duro, porque nós fizemos um filme grande, com um orçamento muito enxuto. Foi difícil captar dinheiro para “Marighella”. Até hoje nenhum dos produtores ganhou um tostão, apesar de sermos constantemente acusados de “ladrões da Lei Rouanet” e outras canalhices do gênero. Agradeço muito à O2 Filmes por ter segurado essa onda junto comigo. Se fosse uma produtora menos robusta, não sei se teríamos conseguido fazer esse filme…

 

Wagner Moura e Seu Jorge no intervalo das gravações de "Marighella" - Foto: Ariela Bueno | Divulgação
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Wagner Moura e Seu Jorge no intervalo das gravações de “Marighella” – Foto: Ariela Bueno | Divulgação

 

E agora vem o lançamento do filme e a repercussão em meio à crítica e ao público. Você está preparado para as inevitáveis pauladas de malucos que odeiam Marighella e ainda deliram com “ameaças comunistas”?
Sempre estive. Nunca tive medo desse embate. Nosso filme não vai fugir ao enfrentamento do fascismo que tomou conta do país. Não entrar nesse confronto seria uma incoerência, inclusive com a memória de Marighella. Quando filmamos “Marighella”, a possibilidade de um sujeito como Bolsonaro se eleger presidente da República nos parecia a todos uma piada de mau gosto. Ainda havia uma confiança nas raízes democráticas que urdiram a Constituição de 88 e nos avanços que a democracia havia conquistado; uma falsa sensação de segurança. Mas, no fim das contas, a eleição de Bolsonaro foi pedagógica: nos ensinou que a democracia e a manutenção de conquistas sociais e de direitos civis são lutas diárias. O Brasil é um país com raízes racistas e autoritárias; Bolsonaro não é um alienígena, ele é um personagem de profunda conexão com o pior da nossa história. Que ele tenha sido eleito presidente do Brasil e a maioria dos brasileiros tenha ido às urnas dizer “esse é o homem que nos representa, que dirá ao mundo o que é o Brasil” é tristíssimo, mas também é uma realidade importante de ser enfrentada.

Algumas pessoas que assistiram ao filme sentiram falta de ver o processo que levou o protagonista a optar pela luta armada. Por que você optou por fazer esse recorte na história e começar com ele já atuando com a ALN (Aliança Libertadora Nacional)?
Um longa-metragem tem em média duas horas de duração. É impossível dar conta da vida de alguém nesse tempo. Marighella tem duas horas e 40 minutos, mas para mim, escolher um recorte sempre foi muito importante. Nós optamos por mostrar os anos finais de sua vida, pela fase do Marighella guerrilheiro, que durou apenas um ano dos seus 57 de vida. Ele fundou a ALN em 1968 e foi assassinado pela polícia em 1969. Carlos Marighella militou na legalidade pela justiça social e pelos direitos dos mais pobres por toda sua vida, inclusive como deputado federal. Foi preso e torturado pela ditadura de Getúlio Vargas e alvejado com um tiro pela ditadura militar, simplesmente por pertencer ao Partido Comunista. Não havia luta armada até então. De fato, esse Marighella de antes de 1964 eu não tive tempo de mostrar. Mas acredito que as razões que o levaram à guerrilha vão ficando claras com o passar do filme.

A luta armada foi uma saída radical, sem dúvida. Mas é aquela coisa: quando as coisas não se resolvem pela via política, até quando o povo tem de esperar para tomar uma atitude mais extrema? Você concorda com esse argumento do Marighella? Não teme que rememorar hoje esse episódio da história brasileira desperte ainda mais delírios na Direita, que adora associar a Esquerda a táticas violentas e antidemocráticas?
A luta armada foi para muitos a única saída. A ditadura era um regime brutal, não havia canais de comunicação, você podia ser convocado para um depoimento e nunca mais voltar para casa. A tortura era política de Estado. Comparar a luta armada contra uma ditadura militar nos anos 1960 e 1970 com os delírios milicianos de Trump e Bolsonaro é, no mínimo, falta de clareza histórica. O mundo inteiro estava consumido pelos ideais revolucionários de Cuba, da Guerra no Vietnam… Acho sempre uma covardia e uma ignorância quando leio analistas de hoje, sob a luz da história, julgando a decisão tomada nos anos 1960 por homens e mulheres que não se conformavam em viver sob a tirania de uma ditadura. Nosso filme vem de minha admiração por essas pessoas e as que as equivalem hoje.

 

Wagner Moura em "Narcos" - Foto: Diviulgação
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Wagner Moura em “Narcos” – Foto: Diviulgação

 

Você tem em seu currículo atuações em vários filmes e seriados em que tudo se resolve na base da bala, como “Tropa de Elite”, “Narcos”, “Serra Pelada” e, agora, “Marighella”. O Brasil e a América Latina são o novo faroeste? Na sua opinião, arma serve para resolver alguma coisa?
Não acho que “Tropa de Elite”, “Narcos”, “Serra Pelada” e “Marighella” estejam na mesma categoria de filmes, só porque há violência em todos eles. No entanto, não há dúvidas de que o Brasil seja um país violento e que isso naturalmente se reflita no cinema que fazemos. Nossa história começa com o extermínio dos povos indígenas e a escravidão de africanos. Ou seja: a própria fundação do país está ligada a sequestro, tortura, racismo e extermínio. É lógico que seguimos carregando as sequelas disso até hoje. Quem são as maiores vítimas de violência praticada pelo Estado? Pretos e favelados. Temos a polícia que mais mata e que mais morre do mundo. O Estado entra na favela do Jacarezinho, mata 29 pessoas e isso não vira um escândalo nacional, porque normatizamos essa violência, convivemos com ela por séculos, apesar dos progressos. Somos o país que mais mata LGBTQs no mundo, um dos campeões em violência contra as mulheres… Como esperar que essa violência não faça parte da nossa produção audiovisual? A ditadura militar matou e torturou centenas de pessoas. O presidente atual é admirador confesso dessa ditadura e do seu mais notável torturador, o coronel Carlos Brilhante Ustra. O presidente até hoje comemora o Golpe de 64, lamenta a ditadura não ter matado mais 30 mil pessoas, tem ligações com a milícia do Rio de Janeiro, quer liberar o porte de armas… Enfim: não, eu acho que armas, no contexto de uma democracia, não servem para resolver nada.

Você dirigiu dois episódios da próxima temporada de “Narcos”, para a Netflix. Pretende investir na sua carreira como diretor no exterior?
Eu só aceitei o convite para dirigir “Narcos” porque eu tenho uma relação muito profunda com a série e com as pessoas que a fazem. Eu conheço bem o universo de “Narcos”, reencontrei vários colegas da equipe que estavam nas primeiras temporadas comigo, pude levar meu parceiro Adrian Teijido, que fotografou “Marighella” e que também já havia feito “Narcos”… foi ótimo. Foi como voltar à família, mesmo que em outra posição. Tenho orgulho da série e fico feliz de ter estado na primeira e na última temporada. Ah, respondendo a sua pergunta, não tenho nenhum interesse em ser um diretor contratado. Mas tenho vontade de me dirigir um dia. Só que não tenho nenhum projeto em mente ainda para realizar esse desejo.

E a quantas anda o projeto de “Sweet Vengeance”, dirigido por Brian De Palma, produzido pelo brasileiro Rodrigo Teixeira e com você no papel principal?
Esse projeto infelizmente não vingou, mas me deu o privilégio de estabelecer uma relação com o Brian De Palma, que viu “Marighella” e me mandou um dos e-mails mais elogiosos que recebi sobre o filme.

Como tem sido o seu trabalho em “The Shinning Girls”, seriado da Apple TV que mistura ficção científica com drama policial?
Acabamos de terminar as filmagens em outubro. Eu fui muito feliz fazendo essa série. Elizabeth Moss virou uma parceira para o resto da vida. Eu tenho muito prazer em encontrar essas parcerias no cinema. Ela é uma atriz espetacular e se tornou uma amiga muito próxima. Começamos a filmar em maio, é uma série de 8 episódios. Eu faço um jornalista que se junta ao personagem dela para investigar um serial killer, feito maravilhosamente pelo Jamie Bell [de “Billy Elliot”].

 

Estreia de "Marighella" no Festival de Berlim, em 2019 - Foto: Divulgação
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Estreia de “Marighella” no Festival de Berlim, em 2019 – Foto: Divulgação

 

Que tipo de projetos você busca em sua carreira internacional?
Eu sinceramente não separo o meu trabalho entre nacional e internacional. Eu busco bons projetos. Alguns dos que mais me animam são no Brasil. Ano que vem, por exemplo, vou fazer um filme com Kleber Mendonça Filho e uma série que estou produzindo para a Disney sobre Maria Bonita, que será dirigida pelo Sérgio Machado. Tenho também um projeto, ainda sem data, que estou desenvolvendo há muitos anos com o Karim Aïnouz. Fazer cinema é a mesma coisa em qualquer lugar.

Como você lida com essa nova configuração profissional, sem um contrato fixo que lhe dê segurança (como os que a Globo oferece), mas com toda a liberdade para negociar trabalhos com os mais distintas produtoras e estúdios?
Eu nunca tive um contrato fixo com a Globo, só fiz trabalhos lá com contrato “por obra”. Sempre consegui trabalhar onde quis e com quem quis.

Por fim, quando você pretende retornar ao Brasil?
O filme do Kleber deve acontecer no segundo semestre de 2022. Quero muito estar no Brasil durante as eleições.

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