Zezé Motta estreia no Rio seu primeiro monólogo, planeja lançamentos na música e volta a encarnar personagens femininas marcantes no cinema
Incansável, Zezé Motta celebra um ano muito especial. A artista está em cartaz no CCBB Rio de Janeiro com seu primeiro monólogo, “Eu Vou Fazer de Mim um Mundo” – adaptação para o teatro do livro “Eu Sei Porque o Pássaro Canta na Gaiola”, de Maya Angelou, que se tornou um clássico por apresentar um tocante retrato da comunidade negra dos Estados Unidos durante a segregação racial dos anos 1930-1940. A autora foi a primeira mulher negra a ser roteirista e diretora em Hollywood. O monólogo já passou por Brasília e Belo Horizonte e depois da temporada carioca seguirá para São Paulo.
A atriz também gravou neste ano os filmes “Mãe Bonifácia” e “Somos Tereza”, ambos como protagonista e interpretando líderes importantes para a história do Brasil. “Sou sempre chamada para viver mulheres fortes, eu sinto que é uma missão”, resume. Os próximos planos incluem ainda uma turnê e um novo álbum, que devem chegar ao público em 2026.

foto Marcus Leoni
Aos 81 anos de vida, Zezé Motta percorreu uma trajetória inspiradora em suas quase seis décadas de carreira. Gravou diversos discos, fez mais de 100 personagens na TV e no cinema. Já esteve nos mais icônicos palcos do mundo, apresentou-se no Carnegie Hall de Nova York e no Olympia de Paris. E é uma das fundadoras do Movimento Negro Unificado (MNU), denunciando corajosamente casos de racismo. “Sou muito preocupada com a justiça”, afirma.
Em entrevista à 29HORAS, a artista conta como despertou para o ativismo antirracista, compartilha suas impressões sobre envelhecer nas artes, detalha os próximos papeis que viverá nas telonas e comemora o momento festivo e promissor do audiovisual brasileiro, que ela mesma ajudou a fomentar. Confira os principais trechos da conversa nas páginas a seguir.
“Eu Vou Fazer de Mim um Mundo”, inspirado na obra da norte-americana Maya Angelou, carrega uma força poética e política profunda. O que essa montagem significa para você como artista e como mulher? Que diálogo você quis abrir com o público ao levar essa história aos palcos?
Primeiro representa um desafio grande. Fazer um monólogo baseado nesse bestseller da Maya é uma responsabilidade enorme. A história dela é intensa, dura, complicada, ela foi uma mulher que sofreu abusos na infância, tinha problemas com aceitação, é uma história difícil, mexeu comigo e fiquei com muitas dúvidas se iria dar conta de fazer. Também fiquei angustiada se o público iria gostar, mas o resultado está sendo incrível! Tanto em Brasília como em Belo Horizonte, os ingressos esgotaram em poucos minutos. E no final, o público ama, me agradece, sai chorando…
É que as histórias das mulheres, principalmente das mulheres negras, sejam da Europa, da América, todas, sem exceção, são parecidas umas com as outras – todo mundo se sente um pouco naquele lugar. Mas também é uma história de superação, Maya se tornou uma das escritoras mais aclamadas, guru de inúmeras pessoas influentes, como a Oprah… Queremos mostrar essa narrativa que foi dura, mas com muita superação.
Como cantora, por vezes você também está sozinha nos palcos. Qual é a diferença de experienciar essa solitude no teatro?
A música te traz liberdade, você circula no palco, fecha os olhos, entrega-se para ela, sente o barulho e o som dos instrumentos, vive aquela melodia… Interpretação, leitura, é algo bem diferente, você é realmente o centro das atenções. Na música, você divide o palco com os músicos, a banda, mas em ‘Vou Fazer de Mim um Mundo’, eu consigo mostrar meu lado atriz e o de cantora. Como a peça é pesada, fala de assuntos delicados, a gente colocou algumas canções nessa adaptação. No palco, tenho dois músicos, o Pedro Leal David e a Mila Moura, que me acompanham nas canções.

Aos 81 anos, a atriz e cantora estreia seu primeiro monólogo, que roda o país este ano – foto Bel Corção / Audible
Maya Angelou foi próxima de figuras como Martin Luther King Jr. e Malcolm X, e participou ativamente do movimento pelos direitos civis nos EUA. Quais paralelos você traça entre a trajetória de ativismo dela e a sua aqui no Brasil? Quais figuras brasileiras foram importantes, com você dividindo suas lutas e apoiando suas vozes?
Quando as coisas começaram a dar certo para mim e estourei fazendo o papel de Xica da Silva, percebi que tinha alguma coisa errada, eu não tinha um discurso articulado, não conhecia a nossa história. Foi então que, ao fazer um curso de cultura negra com minha saudosa Lélia Gonzalez, eu acordei para a vida e entendi que precisava fazer alguma coisa, tinha que usar o espaço na mídia para denunciar, brigar, cobrar mesmo. Comecei a cobrar dos autores, dos diretores, o porquê dessa quase invisibilidade do artista negro. E deu certo! Você olha a televisão hoje e vê quanta gente negra está em cena… Isso foi uma luta que começou lá atrás. Tenho muito orgulho também de ter criado o Cidan (Centro Brasileiro de Informação e Documentação do Artista Negro), em 1984. Sou muito preocupada com a justiça. Eu sempre digo que mesmo que eu não fosse negra, faria parte do movimento. Todo ator negro que encontrava ou que tinha o telefone, eu pedia: ‘traz foto e currículo!’.
Como uma mulher octogenária, você viveu grande parte de sua vida nas artes e presenciou mudanças profundas em formatos, plataformas e representatividade. Você sente que a arte ainda é uma forma de resistência e transformação social?
Com certeza! É só você olhar para a minha vida, a minha história. Eu fui transformada pela arte. Pela arte eu consegui me tornar uma mulher que é respeitada.
Vivemos um momento especial para o cinema nacional, com filmes premiados em festivais internacionais e artistas aclamados mundo afora. Como você enxerga a força da cultura brasileira hoje?
Em 1976, por causa de ‘Xica da Silva’, conseguimos levar mais de 3 milhões de brasileiros para as salas de cinema. Uma época que não tinha internet e muita divulgação! Esse filme foi um divisor de águas. Fiz, inclusive, shows nos Estados Unidos, onde eles punham no cartaz ‘Show com Zezé Motta, atriz do filme Xica da Silva’. Quando estourou, eu estava fazendo uma comédia com a Eva Todor, ‘Rendez-Vous’, no Teatro Maison de France. Era um papel minúsculo. De empregada, claro. Tirava o pó dos móveis e provocava o patrão, naquela tradição de mucama que dá mole para o senhor. Entrava muda, saía calada. Antes do filme, as pessoas iam ao teatro para ver a Eva. Depois, passaram a ir para me ver também. A Eva, então, aumentou meu nome no cartaz. Estamos falando de um filme que mudou a minha vida, me levou para 16 países, e levamos o Brasil lá para fora, falando de um produto nosso. Isso me orgulha muito! Temos muita coisa boa feita aqui e tem repercutido positivamente lá fora. Isso foi e ainda é emocionante.

Zezé Motta como Xica da Silva, no filme de Cacá Diegues – foto divulgação
Você será protagonista do filme “Mãe Bonifácia”, interpretando justamente essa figura histórica, que é símbolo da luta de pessoas escravizadas na região de Cuiabá. Você pode falar um pouco mais sobre esse projeto?
Eu me sinto muito honrada em poder contar a história de mais uma mulher guerreira, à frente do tempo e resiliente como foi a Mãe Bonifácia. Ainda em 2025 e no Mato Grosso, rodei outro filme chamado ‘Somos Tereza’, que conta a história de Tereza de Benguela, outra mulher guerreira. Ela foi uma líder quilombola que viveu em um lugar incerto, mas se sabe que o Quilombo do Piolho, o qual liderou, estava às margens do rio Guaporé, localizado na cidade de Vila Bela da Santíssima Trindade, atual estado do Mato Grosso. Há pouco tempo fiz também outra protagonista, que fala sobre Esperança Garcia, a primeira advogada negra do Brasil, no Piauí. Enfim, sou sempre chamada para viver mulheres fortes e marcantes, eu sinto que é uma missão!
Você é uma das artistas mais versáteis do Brasil. O que te move a continuar criando e se reinventando? Tem algum papel que ainda gostaria de interpretar?
O que me move? Amar o que eu faço, me sentir viva e lúcida, como estou agora. Personagem? Talvez uma vilã… Eu faço tantas coisas ao mesmo tempo que, sempre que me fazem essa pergunta, eu fico sem saber muito bem o que responder. Eu acredito que conquistei tudo que eu gostaria como artista. Penso em um futuro assinar algumas direções, de shows, eu já dirigi algumas vezes e gosto disso. Já tive oportunidade de dirigir Leci Brandão, Jamelão, a Ana Carolina, bem no comecinho da carreira dela. Talvez mais para a frente eu volte a explorar esse lado.

Zezé no longa “A Serpente”, de Nelson Rodrigues, em 1992 – foto Nelson Di Rago
E falando em música, no álbum “Pérolas Negras Ao Vivo”, lançado no ano passado, você canta sucessos como “Tigresa” (Caetano Veloso), “Estácio, Holly Estácio” (Luiz Melodia) e “Dengue” (Leci Brandão). Em um volume 2, quais músicas você cantaria?
Tem tanta música maravilhosa que nunca tive a oportunidade de gravar. No momento estou apaixonada por ‘Amor de Índio’, do Beto Guedes, que ficou famosa na voz do Milton Nascimento. Eu canto essa música na peça, é uma obra-prima! Mas pretendo gravar meu próximo disco até o final deste ano, é sempre difícil a escolha do repertório, mas adoro, sou canceriana, romântica…
Sobre “Tigresa”, Caetano declarou há pouco tempo que escreveu a canção nos anos 70 pensando em você, encantado por sua beleza, personalidade forte, independência e presença magnética. Como foi se ouvir ali, naquelas palavras dele? E como é cantar essa música hoje, tantos anos depois, agora com sua própria voz marcando essa história?
Foi um presente lindo saber que fui a musa inspiradora de ‘Tigresa’, no início de 2015. Sempre ouvi esse boato, e ficava tímida com o assunto. Realmente as unhas negras da ‘Tigresa’ sempre imaginei que fossem minhas, eu pintava com um esmalte preto comprado na boutique Biba, em Ipanema, quando esmaltes coloridos ainda eram raridade, em meados dos anos 1970. Eu fazia o estilo exótico, com os cabelos curtinhos e batom também preto. Só não trabalhei no ‘Hair’, nem namorei Caetano. Caetano disse para o Nelsinho, meu compadre – sou madrinha da Nina, filha dele com a minha saudosa amiga Marília Pêra – que eu fui uma de suas inspirações nessa música. Até então se dizia que a Sônia Braga tinha sido a fonte inspiradora dos versos. Quase tive um treco! Foi um presente lindo. Não posso reclamar da vida, tenho música feita para mim por Rita Lee, Moraes Moreira, Rosinha de Valença e Bethânia. Que sorte!

Zezé no palco em “Ciranda Cirandinha”, de 1978 – foto divulgação
Como é a vida aos 80 anos? O que essa fase tem de melhor e de pior? Como você definiria o seu envelhecimento?
Eu acabei de completar 81, são 60 de carreira, graças a Deus eu tive a sorte de receber quase todos os prêmios mais importantes que uma atriz poderia receber. Eu sempre digo que essas homenagens são fundamentais para nós artistas, porque nos ajudam a seguir, nos dão força para continuarmos o trabalho nas artes. Eu realmente não penso que tenho 80 anos, é engraçado isso, as pessoas que ficam me lembrando, principalmente quando vou fazer algo sozinha, em casa, na rua, e fica todo mundo meio preocupado. Outro dia perguntaram para a minha produção se eu subia dois lances de escada, eu morri de rir! Antigamente, uma mulher de 60 anos não fazia mais nada, só bordava, costurava, e olhe lá! Hoje em dia estamos mais vivos do que nunca. Eu acho que o envelhecer está dentro da mente de cada um, nós somos aquilo que a gente imagina que é. Depois dos 60, 70, 80 eu desencanei de um monte de coisa, parei de sofrer, cansei de me cobrar, fiquei solidária comigo mesma.
Depois de tantos trabalhos marcantes no cinema, na música e no teatro, o que mais vem pela frente?
Não faço muitos planos, vou seguindo o fluxo! Hoje, tenho uma equipe jovem, criativa, dinâmica, que faz planos por mim e eu adoro (risos)! Ano que vem, quero me dedicar ao meu novo show, de comemoração dos 80 anos. Com o disco também novo, por aí vai…


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