Aclamada por suas transformações físicas para interpretar papéis marcantes na TV e no cinema, Deborah Secco se reinventa profissionalmente e aposta também em outras facetas, como apresentadora de reality show e empresária de sucesso
Deborah Secco tem uma habilidade única de se transformar. Em 37 anos de carreira, já deu vida a dezenas de personagens marcantes e é conhecida por se entregar de corpo e alma aos seus trabalhos na TV e no cinema. Desde mudar a cor e o corte do cabelo, até emagrecer ou engordar significativamente, ela já fez de tudo.
Em 2014, por exemplo, foi elogiada por seu papel como a soropositiva Judite, no longa “Boa Sorte”, para o qual perdeu mais de 10 quilos. “Acho que o ator é uma tela em branco e tem que estar disponível para possíveis transformações”, afirma a carioca de 45 anos, que agora se prepara para viver novamente Bruna Surfistinha nas telonas e a caminhoneira Maura, no filme “Sob o Céu do Tocantins”, para o qual pretende retirar as próteses de silicone dos seios para trazer mais verdade à personagem assexuada.

foto Lucas Mennezes
Por falar em transformações, a mais recente é a sua estreia como apresentadora no reality de relacionamento “Terceira Metade”, do Globoplay. Sob a temática inédita da poligamia, o programa confinou em uma casa à beira-mar na Bahia quatro casais dispostos a incluir um terceiro parceiro na relação – e pessoas solteiras que desejam se envolver com eles, formando “trisais”. Com a participação da psicanalista e escritora Regina Navarro Lins, o objetivo é ampliar o conhecimento das pessoas sobre outras possíveis relações amorosas. “Nunca tivemos um reality para todas as formas de amar, tanto na homossexualidade quanto na bissexualidade. Falar sobre isso é necessário, porque se mostra cada vez mais presente na nossa sociedade”, explica Deborah.
Sempre se reinventando, ela é também uma empresária de sucesso, sendo sócia das marcas Espaço Facial, Mais Cabello, Aceleraí, Is Bikini, Peça Rara e da recém-lançada Deb Cosméticos. Em entrevista exclusiva à 29HORAS, Deborah Secco compartilha sua visão sobre relacionamentos, conta como lida com as transformações radicais para dar vida a personagens únicas e ressalta seu lado empresária. Confira os principais trechos desta conversa nas próximas páginas.
Você estreou agora em julho como apresentadora do programa “Terceira Metade”, do Globoplay. Que tal essa nova tarefa de comandar um reality?
Eu venho flertando com essa faceta de apresentadora há alguns anos e é uma área que me interessa. Depois de 37 anos atuando, a dramaturgia já é algo muito controlado e familiar para mim. Então, quando eu me proponho a fazer algo diferente, me agrada muito. Na gravidez da Maria Flor, fiz um programa para o Gshow chamado ‘Deborah Secco Apresenta’, com perguntas sobre maternidade. Depois, na Copa do Mundo de 2022, fiz o ‘Tá Na Copa’ no SportTV, que também foi incrível. Eu sou uma espectadora assídua de reality há muitos anos, quando ainda não era moda assistir ao BBB. Sou uma apaixonada por esse formato! Ter um reality para chamar de meu é realmente uma grande realização!
E o que você achou da ideia de abordar a poligamia?
Achei fenomenal! Nós já temos alguns realities de relacionamento com essa temática da pegação e uma temperatura mais quente. Mas nunca tivemos um para essas formas alternativas de amar, tanto a homossexualidade como a bissexualidade. O formato da poligamia não é padrão, existem muitos modelos. Falar sobre isso é necessário, porque se mostra cada vez mais presente na nossa sociedade.

Deborah Secco com Regina Navarro Lins, no programa “Terceira Metade” – foto Maurício Fidalgo
Qual é a expectativa de retorno do público em conversas e debates?
Penso que é esse olhar para a aceitação de uma sociedade mais plural, em que existem muitas formas de amar e que elas não são feias nem erradas, são apenas diferentes e todas merecem respeito. Evoluímos muito, viemos daquele modelo monogâmico não-fiel, em que os casamentos eram arranjados pelos pais, as mulheres ficavam em casa, os homens trabalhavam e geralmente não eram fiéis. Aí chegamos no amor romântico, que a Regina Navarro Lins, minha companheira no programa, tanto fala, no qual socialmente se criou essa estrutura ficcional em que as relações entre duas pessoas se bastam por completo, uma pessoa será a salvação da outra. E a gente foi vendo na prática que não é tão perfeito quanto parece nos filmes. Na vida real, esse amor romântico tem questões geradas pela nossa vida cotidiana. E aí surge essa possibilidade da não-monogamia, de relacionamentos conversados e combinados de formas diferentes.
Qual foi seu maior aprendizado com o “Terceira Metade”? Mudou a sua percepção sobre relacionamentos?
Confesso que cheguei lá achando que eu era uma pessoa supermoderna, e saí achando que sou super careta, porque existem muitas possibilidades dentro da não-monogamia. Toda vez que me perguntam ‘você tem um relacionamento aberto?’, eu respondo ‘não, eu tenho um relacionamento vivo’. Hoje vivo um relacionamento monogâmico, mas ele é vivo. A pessoa que eu era dez anos atrás é completamente diferente da mulher que eu sou hoje, e será completamente diferente da que serei amanhã. Eu acredito em relacionamentos com combinados. E o que o programa me apresentou é que relacionamentos não-monogâmicos ou poligâmicos vivem de combinados. E acho que assim se constroem relações muito mais honestas e potentes.
Há planos de uma segunda temporada?
A gente adoraria! Tem muitos casais e solteiros disponíveis a essa estrutura, que me param e me perguntam sobre a segunda temporada. Desejo há, de todas as partes. Enquanto isso, em breve teremos também a ‘lavação de roupa suja’, que será um reencontro com todos os participantes para saber como eles estão um ano depois.
Ainda este ano, você deve começar a gravar “Bruna Surfistinha 2”. Qual será a história desse segundo filme?
Eu não posso adiantar muito, pois ainda não finalizamos o roteiro. Como no primeiro filme, é uma história ficcional, mas devemos trazê-la mais para o tempo atual, a Bruna já com as duas filhas. Se filmarmos no fim deste ano, talvez a estreia seja no fim de 2026.

Deborah no filme “Bruna Surfistinha” – foto divulgação
Além da Bruna, você está se preparando para interpretar uma caminhoneira no longa “Sob o Céu do Tocantins”, e declarou recentemente que pretende retirar o silicone dos seios para dar vida à personagem Maura. Em 2014, no filme “Boa Sorte”, você também passou por uma mudança física, em que perdeu mais de 10 quilos para viver uma soropositiva. Vale tudo pelo personagem?
Adoro fazer transformações, é uma parte do trabalho de atriz que eu gosto muito. Acho que o ator é uma tela em branco e tem que estar disponível para possíveis mudanças. A Judite, de ‘Boa Sorte’, era uma personagem à beira da morte, mas com muita vida. Eu precisava, em algum lugar, trazer essa fragilidade dela, e consegui fazer isso através do físico. Logo depois, fiz um filme [‘Entrando numa Roubada’, de 2015] em que eu engordei 20 kg para interpretar uma atriz em fim de carreira. Sobre a Maura, de ‘Sob o Céu do Tocantins’, eu acho que o meu seio entrega muito que é de silicone, não parece natural e acredito que a personagem não teria. Então, faria essa intervenção só pela falta de naturalidade mesmo.
Olhando para a sua trajetória nesses 37 anos de carreira, quais foram os momentos mais memoráveis?
O primeiro momento muito memorável foi o ‘Confissões de Adolescente’, na TV Cultura, que eu fiz aos 12 anos. Com ele, ganhei o Prêmio APCA de Atriz Revelação e tenho um fã clube fiel até hoje. Na Globo, o primeiro trabalho muito bom que eu fiz foi em ‘Laços de Família’, com a Íris. A Darlene, de ‘Celebridade’, também foi uma grande personagem e marcou o início da minha parceria com Gilberto Braga, que eu falo que é o meu autor, fizemos muitas coisas incríveis juntos. Ele me credibilizava tanto como atriz, que eu acabava acreditando (risos). Em ‘América’, fiz minha primeira protagonista de novela das oito, a Sol. E destaco também meus papéis no cinema, como a Bruna Surfistinha e a Judite. E, claro, agora esse papel de apresentadora!
Além de atriz e apresentadora, você também é empresária e está à frente de vários CNPJs. Como despertou para esse universo?
Eu comecei a me ver empresária nos filmes ‘Bruna Surfistinha’ e ‘Boa Sorte’, em que eu fui coprodutora. Fui entendendo que Deborah Secco era mais que uma pessoa, era uma marca, e virei a CEO da minha empresa. Fui gostando dessa parte burocrática da administração de empresas e abri meu primeiro negócio, a Singu, de serviços de beleza e bem-estar em casa. Com o tempo, estudei possibilidades que faziam sentido para mim. Eu gosto de coisas reais, sou uma pessoa muito sincera para vender o que não uso.
Hoje, sou sócia de empresas como a Espaço Facial, uma clínica de procedimentos estéticos; a Mais Cabello, de transplante e tratamento capilar, que eu já era cliente por causa da minha alopecia androgenética; e a Aceleraí, uma plataforma de democratização da publicidade – que tem como sócios também Cauã Reymond, Rodrigo Faro, Glória Pires, Murilo Benício e Giovanna Antonelli –, em que vendemos publicidades de grandes artistas para negócios fora das capitais. Temos um banco de imagens com frases gravadas como, por exemplo, ‘o menor preço’ e ‘vem pra cá’, que uma hamburgueria ou uma floricultura do interior pode usar para alavancar os negócios.

Deborah como a soropositiva Judite, no filme “Boa Sorte” – foto Imagem Filmes / divulgação
Outra empresa da qual é sócia é o Peça Rara, um brechó que vende desde roupas até itens para pet e objetos para casa. Ela mudou a sua forma de consumo?
Mudou muito, hoje o meu armário é quase 90% de peças de segunda mão e entendo o consumo de forma mais consciente. É uma empresa em que eu acredito muito, porque ajudamos a salvar o planeta, trazemos para as pessoas possibilidades de usarem marcas que não conseguiriam comprar nas lojas de origem, e oferecemos uma renda extra para quem precisa. Nós temos um processo de curadoria enorme. As peças que não passam na nossa avaliação podem ser doadas para os bazares que fazemos em nossas lojas, em que todo o valor arrecadado é destinado ao nosso Instituto Eu sou Peça Rara, que realiza ações sociais.
Você tem muita afinidade com o universo de beleza e bem-estar. É parceira da Intt – loja de cosméticos sensuais e produtos eróticos – e acaba de lançar a Deb Cosméticos…
Sim, tenho uma linha de produtos íntimos – com gel lubrificante, sabonete, clareador, desodorante e perfume – e vibradores em parceria com a Intt, em que também participei de todo o processo de desenvolvimento, desde os cheiros até as embalagens. Fico muito feliz com essa parceria, porque eu sempre fui consumidora desse tipo de produto fora do Brasil e aqui ainda não existia esse mercado. E agora acabamos de introduzir nas farmácias a Deb Cosméticos, voltada para o público mais jovem, e o nosso primeiro lançamento são os Body Splashes.
Com tantos negócios consolidados em diversas áreas e filmes engatilhados, existem planos de voltar às novelas?
Hoje, para eu fazer uma novela, teria que ser uma personagem que valha muito a pena, como a Tieta, que é o meu grande sonho. A Maria, minha filha, está crescendo e estou começando a valorizar o tempo. Novela realmente é um trabalho que não caberia na minha rotina, com tudo isso que eu tenho para administrar. Se for para fazer, terei que reformular toda a minha vida, então tem que ser muito especial.

A atriz com Lázaro Ramos em “Elas por Elas”, sua última novela – foto divulgação / Globo


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