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O campeão mundial de surf Italo Ferreira se prepara para a estreia da categoria nos Jogos Olímpicos

O campeão mundial de surf Italo Ferreira se prepara para a estreia da categoria nos Jogos Olímpicos

Mesmo com tantas adversidades azucrinando 2020, o potiguar Italo Ferreira não ficou a reclamar da vida. Sabiamente, o atual campeão mundial do esporte das pranchas tratou apenas de exercitar Grande Mandamento dos surfistas – ou seja, fugir de ondas ruinsPara isso, montou em casa uma academia não parou de surfar em praias desertas de Baía Formosa, balneário com nove mil habitantes a 90 quilômetros de Natal, no Rio Grande do Norte, onde nasceuAinda bem que deu certo, porque 2021 vai exigir muita saúde deletanto nos campeonatos de praxe como nos Jogos Olímpicos de Tóquio, no Japão 

FOTO SERGIO BOCHART

 

Venha o que vier por aíItalo Ferreira não parece muito tenso. Aos 26 anos, mostra gás de sobra para encarar qualquer desafioLigado em 220 volts e, sobretudo, sempre bem-humorado, o campeão esbanja carisma e alegria, fazendo crescer sua torcida. No Instagram, por exemplo, tem 800 mil seguidores. 

Não é de hoje que Italo Ferreira desperta admiração. Claro que a praia sempre esteve ao alcance de todos em Baía Formosa, mas o garoto logo mostrou que tinha mesmo talento com as pranchas – se é que podemos chamar de pranchas os pedaços de isopor que ele usava para deslizar sobre as ondas naquela época de dureza. Dentro do possível, Luiz e Katiana Ferreira, seus pais, deram força para o surfista-aspirante, e tudo deslanchou. 

Coruja assumida, Dona Katiana derrete-se: “Italo é um orgulho muito grande. No começou não foi nada fácil, mas ele é muito determinado no que quer, e a gente só podia incentivar. Não tenho nem como explicar. É muita emoção, é tudo de bom. Ele aqui para gente é tudo”. 

 

FOTO JÉRÔME ALBUGUES | FLICKR

 

É justamente o que diz o campeão, quando perguntado sobre o que a família significa para ele: “Tudo! Para chegar até aqui tive que batalhar muito, enfrentar diversos desafios, mas sempre tive a família ao meu lado, sou muito grato por isso”, conta ele, diretamente do Havaí, às vésperas do início da temporada 2021 da World Surf League, o maior campeonato do surf mundial. 

Todo esse afeto só rendeu bons frutosDesde garoto, sua carreira foi surpreendente. Conseguiu o primeiro patrocínio aos 12 anos e logo começou a viajar. Acumulou prêmios nas categorias de base, cresceu, foi conquistando espaço e fazendo seu nomeJá na sua primeira participação no torneio da elite profissional, em 2015, foi eleito o estreante do ano ao ficar em sétimo lugar no ranking. Não é pouca coisa. Entre ganhar a primeira prancha (baratinha, porém de verdade) e o campeonato mundial, em 2019, passaram-se apenas doze anos.  

 

FOTO WSL | POULLENOT

 

É por essas e por outras que o sujeito agitado por natureza certamente continuará a dar trabalho aos seus concorrentes. Concorrentes, sim, mas sobretudo parceiros de batalha como o paulista Gabriel Medina, bicampeão mundial, e o australiano Mick Fanningtricampeão mundial. Desde que se profissionalizou no surf, há cinco anos, é com essa turma que Italo Ferreira tem se encontrado em praias de todos os continentes. 

Eles são veteranos nos circuitos, são atletas que estão por aí há muito mais tempo que eu. Aprendo com todos, mas o Mick Fanning é minha referência dentro e fora d’água. Ele era um cara muito focado no que fazia, o primeiro a chegar na água para treinar, quase o último a sair. Tinha suas metas definidas e foi três vezes campeão mundial, deixando um legado muito grande, admira. É essa a linha de trabalho que Italo adota.  

Em um ano complicado como 2020, em que foram cancelados praticamente todoos campeonatos importantes do surf profissional, o potiguar conseguiu manter a rotina de pegar pesado no aprimoramento da forma física e da técnica. São pelo menos seis horas surfando dia após dia, divididas em três sessões. É uma preparação também psicológica, reforçando a experiência adquirida nos últimos anos. “Muitas das derrotas que eu tive foram aprendizados que me deixam mais forte para alcançar meus objetivos”, diz ele, no melhor estilo Nietzsche, antigo surfista das ideiasE o maior desafio a cada competição é ser melhor que na última. 

 

Fora d’água 

Enquanto os campeonatos não retomam sua força total, o potiguar ensaia voos mais altos que suas manobras radicais, que tanto têm surpreendido os amantes do surf. Agora em 2021, por exemplo, ele deve dar sinal verde para os projetos do Instituto Italo Ferreira. “A intenção é ajudar as crianças da minha cidade e desenvolver um projeto de proteção ambiental em Baia Formosa, promovendo atividades extracurriculares, educação ambiental para pais e filhos, reciclagem… Nossa equipe está cuidando para que esses projetos se concretizem e que possamos ajudar muitas pessoas e a minha cidade, que amo. Precisamos nos comprometer mais com a natureza, que tanto nos dá.” 

A natureza, de fato, está precisando de uma força, sobretudo de quem vive enfronhado nela, até mesmo quando está de folga. É bem o caso do Italo, que não sabe viver longe da água. Em novembro, por exemplo, ainda fora das competições, ele partiu para Portugal, onde se meteu nas lendárias ondas gigantes de Nazaré (casa da brasileira Maya Gabeira, que você conheceu na edição de março de 2020 da Revista 29HORAS). “Foi uma experiência incrível. Amo me desafiar no esporte. Peguei a maior onda da minha carreira e pude treinar em ondas que ainda não tinha surfado. 

Mas essa descoberta não o fez dar nova guinada na prancha e se bandear para as ondas gigantes. “É um outro estilo de surf, que curto fazer pelo desafio, mas não pra carreira profissional”, analisa. 

 

O surfista na conquista do Mundial, no Havaí, em 2019 – FOTO WSL | DIVULGAÇÃO

 

Sonho olímpico 

Entre milhões de problemas provocados pela Covid-19 em todo o mundo, o adiamento da Olimpíada de Tóquio 2020 pode nem parecer uma questão tão relevante para a maioria da humanidade. Porém a gente reconhece que, embora tenha sido uma medida necessária, empurrar os Jogos para julho e agosto de 2021 foi um banho de água fria em atletas e fãs do surf, que finalmente estrearia como esporte olímpico. Mas pelo menos, é bem verdade, surfistas não têm medo de água fria. 

Marolas à parte, a regra é clara: o chamado Festival Olímpico de Surf terá 40 competidores – 20 no feminino e 20 no masculino, sendo dois representantes por país em cada categoria. Pelo Brasil, entrarão nas ondas de Tsurigasaki, a 40 quilômetros de Tóquio, os preparadíssimos Silvana Lima, Tatiana Weston-Webb, Gabriel Medina e, claro, Ítalo Ferreira. Os gringos que tremam na base. 

Para o surfista potiguar, o negócio é treinar com a seriedade de sempre, manter a tranquilidade e cortejar o ouro olímpico. Será a primeira vez do surf na competição”, diz o campeão brasileiro, lembrando de uma questão primordial para o fortalecimento do esporte: “O surf no Brasil veio para ficar, e agora, como esporte olímpico, precisamos de empresas que apoiem as categorias de base pensando no futuro. Já temos empresas no país que estão visando o surf, mas precisamos de mais. 

E é verdade. A Olimpíada é uma vitrine gigantesca para patrocinadores inteligentes em busca de consumidores. Ajudar os quatro brasileiros a aumentarem a popularidade das pranchas no país é uma boa sacada. Há que se considerar que existem por aqui cerca de três milhões de praticantes do esporte, que movimenta 2 bilhões de reais ao ano e emprega, direta ou indiretamente, cerca de 140 mil pessoas, segundo estudo divulgado pelo Instituto Brasileiro de Surf. E lembremos que o que não nos falta é litoral a ser explorado. 

Vamos, então, torcer pelas medalhas. A depender do cronograma divulgado pelo Comitê Organizador da Olimpíada, e se as condições do mar em Tsurigasaki permitirem, a estreia do surf nos Jogos Olímpicos será em 25 de julho, domingão, com duas competições. No dia seguinte será disputado o round três; no dia 27, quartas-de-finais e semifinais. A decisão fica para o dia 28, com as baterias da disputa do bronze e a grande final. “Seria incrível trazer essa medalha para o nosso país”, finaliza E nós estaremos lá, ansiosos e torcendo, mesmo que à distância. 

 

FOTO WSL DIVULGAÇÃO

 

 


 

Destaque no surf mundial, Maya Gabeira luta pela preservação dos recursos hídricos

A água é a casa, o lazer e o ganha-pão de Maya Gabeira. Ou seu templo, onde interage com forças da natureza e o imponderável. Surfista profissional premiadíssima, Maya viaja pelo mundo há 18 anos, sempre atrás das melhores ondas. Melhores e maiores. Sua especialidade é domar as ondas gigantes.

Entre uma rodada e outra da atual temporada, fomos localizar nossa big rider em Nazaré, Portugal, onde mora há cinco anos. Na última década, a pacata vila de pescadores virou parada obrigatória para os surfistas mais radicais. Hoje, do alto do forte da cidade, construído no século XVII, é possível acompanhar atletas valentes desafiando ondas selvagens de até 30 metros de altura.

Maya Gabeira é porta-voz da luta pela preservação dos recursos hídricos. Foto: Divulgação

Maya Gabeira é porta-voz da luta pela preservação dos recursos hídricos. Foto: Divulgação

“Aqui é ótimo”, elogia Maya em conversa com a 29HORAS. “É um lugar bastante  com a verde, com praia e muita natureza. E temos um estilo de vida calmo e simples”.

Criada no Rio, onde aprendeu a surfar aos 12 anos, ela parece não ter planos de deixar Nazaré. Foi lá, na Praia do Norte, que a carioca bateu um recorde com direito a registro no Guinness Book. Em janeiro de 2018, encarou uma muralha d’água de 20,72 metros de altura. Imagina isso: um vagalhão de cinco andares, furioso, um vento danado de ruim, água gelada, e a Maya deslizando tudo desde lá do alto, reinando sozinha durante uma eternidade medida em segundos. Tenso, mas lindo de ver.

A façanha teve gosto ainda mais especial porque foi justamente na mesma praia, em 2013, que Maya sofreu um grave acidente na tentativa de vencer as alturas das ondas.

Atingida por uma massa de água descomunal, ela foi derrubada da prancha, ficou submersa um bom tempo e saiu da água desacordada e com um tornozelo quebrado.

Foram momentos escabrosos, mas ela foi resgatada pelo surfista Carlos Burle, seu companheiro de equipe, reanimada e levada para o hospital. Maya passou por duas cirurgias na coluna, caiu dentro do apoio psicológico, ficou de molho durante alguns meses e correu atrás da recuperação plena.

O susto gigante virou lição de vida a ser considerada até por quem nunca chegou perto de uma praia. Vem daí, aliás, uma reflexão muito válida:

Maya Gabeira com seu recorde registrado no Guinness Book. Foto: Arquivo Pessoal

Maya Gabeira com seu recorde registrado no Guinness Book. Foto: Arquivo Pessoal

“Vivo com essa filosofia: não desistir, usar os erros e barreiras para evoluir, crescer e levar à frente os desafios. Você deve estar sempre buscando se superar, não desistir”, ensina Maya.

A propósito, foi com essa mesma raça – que naturalmente contou com o reforço de Iemanjá, Netuno e outras entidades das águas – que Maya se manteve em pé novamente sobre as ondas, com cada vez mais habilidade. E foi nessa fé que, em 2018, voltou à mesma praia do acidente para tornar-se a primeira mulher a surfar uma muralha daquele tamanho.

Esse episódio já rendeu inúmeras reportagens em todo o mundo e, não por acaso, a gente aqui considera a surfista carioca uma heroína – que, de fato, é. Ela se diz muito feliz nesse momento em que está de volta às águas do mar, com saúde e autoconfiança. É lindo de ver.

O que entristece a surfista é a crescente poluição nas praias – em todas por onde andou, nos cinco continentes. E elas não foram poucas em seus 32 anos de vida.

Maya Gabeira começou a competir aos 15. Dois anos depois, foi morar na Austrália e, em seguida, no Havaí, capital interplanetária do surfe. Foi nesse tempo que a carioca tomou contato e apaixonou-se pelas ondas gigantes. Desde então, a prancha voadora não sossegou mais: África do Sul, Indonésia, Polinésia Francesa, Taiti etc. Até no mar do Alasca ela fez seu nome.

Justamente a intimidade com esse mundão que permite seu veredicto: “A degradação ambiental é problema mundial, talvez o maior desafio da humanidade neste momento, e ainda vai dar muito trabalho para todos nós”, diz a surfista. “Não dá para apontar para um lugar ou outro que esteja livre dessa questão”.

Maya com seus colegas no mar. Foto: Reprodução/Instagram

O que é mais evidente, no seu dia a dia, é a quantidade de lixo despejado nos litorais. Sobretudo, plástico. E é mesmo um volume assustador. Segundo relatório publicado em 2019 pela organização World Wide Fund for Nature (WWF), com dados do Banco Mundial, oito milhões de toneladas de lixo plástico vão parar nos oceanos, ano após ano. Nesse ritmo, diz a ONU, em 2050 haverá mais plásticos do que peixes nos mares do planeta.

Maya relata sua experiência pessoal, que é comum à de muitos de seus parceiros de esporte e de ofício: “Cada vez mais a gente sente falta de peixes e da fauna marinha em geral. Em alguns pontos, onde havia abundância de espécies, elas começam a ficar escassas mesmo, ou pela pesca em maior escala, ou porque deixam seu ambiente pela falta de alimentos”, afirma ela, já sem a tranquilidade natural da sua voz. “São muitas questões envolvidas, mas há cada vez menos vida no mar, que está mais sujo. Essa é uma combinação bem nítida. Lugares onde havia pesca submarina fácil agora têm cada vez menos peixes”.

Sempre que pode, dá sua opinião e dicas sobre como contribuir com a causa ecológica.

“Há milhões de coisas que a gente pode fazer no dia a dia, tipo não usar garrafa plástica ou os sacos do supermercado, nem tomar banhos tão longos para evitar desperdício… Qualquer tipo de economia é importante”, sugere ela, sem deixar de fora uma mensagem deveras instigante. “Temos que fazer um consumo consciente tanto da energia quanto da água e dos bens materiais. Vamos aprender a consumir menos e, assim, produzir menos lixo por pessoa”.

A surfista em Nazaré, em Portugal. Foto: Luiza de Moraes/Divulgação

Muito bom, considerando que o consumismo é mesmo uma doença de larga escala e de longa data. No que toca ao meio ambiente, as ações individuais são necessárias, claro, mas Maya também reforça que a solução para a degradação acelerada passa sobretudo por decisões e políticas veementes de governos, entidades e, claro, empresas de todos os tamanhos.

“Do jeito que estamos, a gente vai ter que se mexer muito para mudar essa maré de poluição e de problemas ambientais. A crise é cada vez mais séria. Da parte dos governos, precisamos de novas leis. E as grandes empresas já começaram a olhar para isso de forma mais ativa, agindo para reverter esse quadro insustentável”.

Eis aí um recado direto, sem marola, de quem vê bem de perto os efeitos desastrosos dessa lixarada assassina.

Sangue verde

Pelo menos no caso da cidadã Maya Reis Gabeira, podemos garantir que brigar pelo meio ambiente é coisa que vem de berço. Ela é filha da estilista Yamê Reis, fundadora do Rio Ethical Fashion, reconhecida por seu trabalho na moda sustentável, e do jornalista Fernando Gabeira (foto), um dos fundadores do Partido Verde do Brasil, em janeiro de 1986.

Naquela época, a ideia de haver um partido pre ocupado com as questões ecológicas e sociais era bastante respeitada na Europa, e só. Aqui ainda dominava a visão ambiental atrasada, de que somos detentores de riquezas naturais ilimitadas, e que, por isso, essa pauta não é fundamental.

O tempo mostrou que a sustentabilidade deixou de ser uma preocupação regional e se tornou uma questão planetária, crucial para o bem-estar das próximas gerações.

Fernando Gabeira, pai de Maya. Foto: Reprodução/Facebook

Eleito deputado federal do PV em 1994, Gabeira completou quatro mandatos em Brasília e, desde 2012, se dedica ao jornalismo e às palestras. Em suas viagens pelo Brasil, para o seu programa no GloboNews, ele se concentra em temas ambientais e sociais e, principalmente, na questão da água.

“A água é vida, tem uma importância fundamental, e o Brasil, por falta de saneamento básico e outros fatores, destrói permanentemente o seu patrimônio hídrico. A ausência de saneamento não é um problema de falta de educação, mas sim de política pública. É o grande fracasso da atual geração de políticos no Brasil”, afirma Gabeira, ressaltando que o consumo de serviços públicos, como saneamento, deve vir antes do consumo de eletrônicos.

Orgulhoso da filha Maya (ele também é pai de Tami, psicóloga), Gabeira acompanha carinhosa e atentamente a carreira da filha no mar. Tanto é que os dois têm um combinado: assim que a jovem sai da água, em campeonatos, liga para ele.

Logo após o acidente de 2013, quando Maya já estava devidamente longe de riscos, o pai zeloso não escondeu, numa entrevista ao jornal O Globo, uma opinião curiosa sobre as surpresas da filha:

“Preferia que a Maya fosse tenista, mas ela não seria a mesma pessoa. Então está ótimo assim”.

Pois é. Longe do surfe, Maya Gabeira não seria a mesma pessoa. Então está ótimo assim.

Destaque no surf mundial, Maya Gabeira luta pela preservação dos recursos hídricos

Destaque no surf mundial, Maya Gabeira luta pela preservação dos recursos hídricos

A água é a casa, o lazer e o ganha-pão de Maya Gabeira. Ou seu templo, onde interage com forças da natureza e o imponderável. Surfista profissional premiadíssima, Maya viaja pelo mundo há 18 anos, sempre atrás das melhores ondas. Melhores e maiores. Sua especialidade é domar as ondas gigantes.

Entre uma rodada e outra da atual temporada, fomos localizar nossa big rider em Nazaré, Portugal, onde mora há cinco anos. Na última década, a pacata vila de pescadores virou parada obrigatória para os surfistas mais radicais. Hoje, do alto do forte da cidade, construído no século XVII, é possível acompanhar atletas valentes desafiando ondas selvagens de até 30 metros de altura.

Maya Gabeira é porta-voz da luta pela preservação dos recursos hídricos. Foto: Divulgação

Maya Gabeira é porta-voz da luta pela preservação dos recursos hídricos. Foto: Divulgação

“Aqui é ótimo”, elogia Maya em conversa com a 29HORAS. “É um lugar bastante  com a verde, com praia e muita natureza. E temos um estilo de vida calmo e simples”.

Criada no Rio, onde aprendeu a surfar aos 12 anos, ela parece não ter planos de deixar Nazaré. Foi lá, na Praia do Norte, que a carioca bateu um recorde com direito a registro no Guinness Book. Em janeiro de 2018, encarou uma muralha d’água de 20,72 metros de altura. Imagina isso: um vagalhão de cinco andares, furioso, um vento danado de ruim, água gelada, e a Maya deslizando tudo desde lá do alto, reinando sozinha durante uma eternidade medida em segundos. Tenso, mas lindo de ver.

A façanha teve gosto ainda mais especial porque foi justamente na mesma praia, em 2013, que Maya sofreu um grave acidente na tentativa de vencer as alturas das ondas.

Veja a matéria completa em nosso site do Rio.

Maria Ribeiro está sempre buscando novas formas de expandir sua obra

Maria Ribeiro está sempre buscando novas formas de expandir sua obra

Maria Ribeiro gosta de falar – e deixa isso claro logo no início da conversa com o repórter. Diz até que tem que se controlar porque fala alto. Nem é bem assim, mas uma coisa é certa: parece já ter refletido sobre qualquer assunto que apareça. Seja sobre a insana política brasileira ou os doces dramas do cotidiano, a atriz sempre tem algo a comentar. Ela está de olho em tudo.

Não foi à toa que, depois de quase duas décadas como profissional das artes cênicas, nos últimos anos Maria se descolou um pouco dos textos alheios e abriu caminhos para suas próprias palavras. Como quem não quer nada, em dois tempos tornou-se comentarista do programa “Saia Justa”, na TV a cabo, cronista na grande imprensa, escritora, diretora e autora de peças teatrais e de documentários. Mas mantém-se, sobretudo, atriz.

Única artista da da família, Maria Ribeiro apresenta seu olhar de repórter a todo momento. Fotos: Jorge Bispo

“Eu AMO trabalhar”, diz ela, cariocamente enfática. “Acordo às seis já cheia de ideias, chamo amigos para os projetos. Não paro quieta nem um minuto. Amo”.

A julgar pela sua agenda próxima, eis aí o tipo de amor (ou paixão) fértil. Entre o finzinho de 2019 e 2020, Maria Ribeiro enfileira muitas estreias: tem o documentário “Outubro”; “Isso Não é Aqui”, longa de Felipe Nepomuceno com o ator Alexandre Nero; a segunda temporada de “Desalma” e a série “Todas as Mulheres do Mundo”, ambas no GloboPlay. Tem também o monólogo “Pós F”, baseado na obra da escritora, roteirista e atriz Fernanda Young, grande amiga que morreu em agosto deste ano. Nessa correria, promete revirar a gaveta dos afetos e trabalhar no documentário “Leonídio”, sobre o próprio pai, morto em 2013.

Veja a matéria completa em nosso site do Rio.

Maria Ribeiro se reinventa a cada dia, encontrando novos caminhos para expandir sua obra

Maria Ribeiro se reinventa a cada dia, encontrando novos caminhos para expandir sua obra

Maria Ribeiro gosta de falar – e deixa isso claro logo no início da conversa com o repórter. Diz até que tem que se controlar porque fala alto. Nem é bem assim, mas uma coisa é certa: parece já ter refletido sobre qualquer assunto que apareça. Seja sobre a insana política brasileira ou os doces dramas do cotidiano, a atriz sempre tem algo a comentar. Ela está de olho em tudo.

Não foi à toa que, depois de quase duas décadas como profissional das artes cênicas, nos últimos anos Maria se descolou um pouco dos textos alheios e abriu caminhos para suas próprias palavras. Como quem não quer nada, em dois tempos tornou-se comentarista do programa “Saia Justa”, na TV a cabo, cronista na grande imprensa, escritora, diretora e autora de peças teatrais e de documentários. Mas mantém-se, sobretudo, atriz.

Maria Ribeiro

Única artista da da família, Maria Ribeiro apresenta seu olhar de repórter a todo momento. Fotos: Jorge Bispo

“Eu AMO trabalhar”, diz ela, cariocamente enfática. “Acordo às seis já cheia de ideias, chamo amigos para os projetos. Não paro quieta nem um minuto. Amo”.

A julgar pela sua agenda próxima, eis aí o tipo de amor (ou paixão) fértil. Entre o finzinho de 2019 e 2020, Maria Ribeiro enfileira muitas estreias: tem o documentário “Outubro”; “Isso Não é Aqui”, longa de Felipe Nepomuceno com o ator Alexandre Nero; a segunda temporada de “Desalma” e a série “Todas as Mulheres do Mundo”, ambas no GloboPlay. Tem também o monólogo “Pós F”, baseado na obra da escritora, roteirista e atriz Fernanda Young, grande amiga que morreu em agosto deste ano. Nessa correria, promete revirar a gaveta dos afetos e trabalhar no documentário “Leonídio”, sobre o próprio pai, morto em 2013.

Com produtividade em alta, falta um romance para o currículo de Maria. Ou talvez não, porque assunto ela tem de sobra – e já tem até editora, o que costuma ser o mais difícil. Difícil mesmo, no caso, é ela se quietar para escrever.

“Sou superindisciplinada”, diz ela. “E preciso ver se tenho realmente algo a dizer”. Certamente não há razão para esse receio, como se vê pelas crônicas semanais que publica no jornal O Globo desde 2016. Quem a acompanha já percebeu que a – escritora tem pelo menos uma característica essencial para quem vive da palavra: a curiosidade.

“Sou daquelas que perguntam mesmo. Não tenho medo de perguntar”, explica. “Tenho muito interesse nos outros, tenho alma de repórter, quero saber da vida das pessoas. E, como pergunto sem maldade, até coisas íntimas vêm à tona”.

Elenco de “Todas as Mulheres do Mundo”

Essa alma de repórter não sossega. Tomando seu café pingado em um bistrô carioca, com um olho atento ao redor, outro olho no interlocutor, nada do que é humano lhe escapa; parece mesmo que está fazendo anotações mentais. E está, porque tudo pode virar material de trabalho.

É assim que Maria exercita o pensa mento ágil e abre o verbo, sem medo (nem – intenção) de chocar. Quer apenas se expressar, como todos. E, vá lá, se chocar, é só um pouquinho, o bastante para chacoalhar as ideias que pairam sobre a mesa. Faz bem; reforça sua presença. Mas nem sempre foi tão fácil. A depender da família, de um estilo tão tradicional como há tempos já não se vê por aqui, o papel de Maria no planeta seria mais discreto.

“Tive uma infância bem burguesa, nada artística, até porque não havia artistas na família. Como sempre fui boa de falar, meu pai dizia que seria capaz de convencer todo mundo se eu fosse advogada”.

Aos 14, a menina entrou na companhia “Atores de Laura” e caiu naquela vida acelerada de ensaios intermináveis. Encontrou sua turma. Pela família, tudo bem, contanto que essa coisa de teatro não virasse profissão. Como se sabe, a família perdeu essa batalha, mas a caçula da Marina e do Leonídio teve que comprar muito barulho para seguir nos palcos. Teve até que encarar uma faculdade e tirar um diploma – e foi por isso que se formou em jornalismo pela PUC do Rio, embora tenha tido a sensatez de não exercer o ofício.

Maria Ribeiro e o ator Alexandre Nero no longa “Isso Não é Aqui”

Quando a família viu, Maria do Amaral Ribeiro já estava lá metida com teatro – principalmente depois de conhecer Domingos Oliveira (1936-2019), cineasta genial que retratou como poucos as pequenezas e as grandiosidades dos relacionamentos contemporâneos:

“O Domingos foi arrebatador, mostrando o tipo de dramaturgia que eu queria”.

Não é por acaso que outro projeto da atriz para 2020 é publicar parte dos 25 anos da sua troca de correspondências com Domingos. Já tem até parceiro para organizar a relíquia. No dia a dia, nos palcos ou nas telas, a influência do amigo sobre a obra de Maria Ribeiro é notável. Pode-se dizer, sem medo, que ela herdou do cineasta esse dom, ou tom, de espalhar afetos.

As colunas no jornal tratam disso. Bem, tratam de qualquer coisa, mas relacionamentos são um tema-chave, assim como a política. Ela chega ao ponto de misturar esses dois assuntos numa sacada que Domingos certamente assinaria:

“Nossa democracia é assim como o casamento: você percebe que já acabou, mas ainda fica torcendo para dar uma virada”.

Frases assim – tão domingueiras – chamam a atenção de leitores de todas as faixas etárias ou socioeconômicas. Tanto que o pequeno “Crônicas para Ler em Qualquer Lugar” (Editora Todavia, 2019), que reproduz textos seus e dos amigos-irmãos Gregório Duvivier e Xico Sá, tem recebido elogios entusiasmados Brasil afora.

Ao lado de Gregório Duvivier e Xico Sá, em viagem pelo sertão do Brasil

Maria conta que, na esteira de lançamento do livro, os três percorreram cidades incríveis de um país que a gente ignora.

“Pirei com o sertão”, confessa. “É deslumbrante. Brasileiro não conhece o sertão. Vai para o Marrocos, mas não vai pro sertão. Não pode”.

Nas estradas, ao lado dos outros dois coautores, ela esteve com milhares de pessoas e, melhor de tudo, ouviu muitas histórias. Amou:

“Sou do tipo que se emociona com as coisas, as situações, e sempre vejo o que tem de arte atrás daquilo. É meio uma deformação profissional. Então tento ir fundo e tornar aquele momento uma dramaturgia”.

Pelo jeito, ela sempre consegue.

Outubro inesquecível

Aos 44 anos de idade, Maria Ribeiro está animadíssima com a série “Todas as Mulheres do Mundo”. Serão cinco episódios baseados em histórias do amigo Domingos Oliveira e escritas por Jorge Furtado. Idealizadora da série, ela acredita que é preciso falar de amor. “Neste momento da primavera feminista, todo mundo está à flor da pele, então é importante falar disso”.

Diferente da maioria dos seus pares, ela não gosta de se esconder quando o assunto é política. Pelo contrário. Sempre foi presença certa em palanques e eventos da esquerda. Prova disso está no documentário “Outubro”, que dirigiu com Loiro Cunha e será exibido no Festival de Cinema do Rio, em dezembro.

Maria Ribeiro em cena de seu documentário, “Outubro”

De tênis e vestida de noiva (mas sem véu nem buquê), ela acompanhou, nas ruas de São Paulo, a semana que antecedeu o segundo turno das eleições de 2018. “Agora entendemos que Bolsonaro foi eleito e que ele é mais parecido com o Brasil do que a gente gostaria. Ele representa uma indelicadeza institucionalizada, que acha OK ser grosseiro, desumano, racista, desigual. Mas essa coisa “eles e eu” não adianta. É o nosso país”.

Para Maria, agora é hora de gestar “Leonídio”. Tendo o pai como personagem central da história, o filme será montado a partir de cenas gravadas há quinze anos, numa casa de praia da família. As imagens ficaram intocadas durante todo esse tempo e devem render boa poesia. A casa foi vendida, outras viriam; o pai partiu, os filhos crescem. São dois: João, de 16 anos, fruto do casamento com o ator Paulo Betti, e Bento, de 9, filho dela e do também ator Caio Blat.