Sem negar sua terra, chef Lorena Dayse serve pratos de inspirações variadas no restaurante Piancó, na capital piauiense

Sem negar sua terra, chef Lorena Dayse serve pratos de inspirações variadas no restaurante Piancó, na capital piauiense

Na beira do Rio Canindé, no Piauí, agricultores para espantar o sono e possíveis animais vorazes faziam a dança do cavalo manco, ou melhor, do piancó. Até hoje há quem imite esses passos para agradecer a boa colheita. E há quem use o nome brincalhão para batizar o próprio restaurante. No caso, Lorena Dayse, 38 anos, enfermeira e vice-campeã do MasterChef, em Teresina.

“Antigamente, eu via um risoto e já recorria ao Youtube. Quando entrei no programa comecei realmente a estudar, porque eu não tinha técnica de nada, mas como dava aula preparatória para concurso, técnica de estudo era comigo mesmo!”, revela a proprietária do Piancó e de um delivery comfort que infusiona raízes locais com desejos e memórias gustativas da cozinheira, o Made in Piauí.

 

Chef Lorena Dayse - Foto divulgação

Chef Lorena Dayse – Foto divulgação

 

“Ao mesmo tempo que fazemos arrumadinho e arroz maria isabel, dois dos maiores clássicos piauienses, temos um poke bem fresco, que mata nosso anseio de praia nesse nosso calor”, explica ela. Cria da pandemia, o serviço antecedeu seu restaurante que, agora, completa um ano.

Até a abertura do Piancó, vale dizer, a cidade não tinha sequer menus degustação. Vai daí que o pioneiro adotou um modelo igualmente precursor: para introduzir os comensais, aposta numa sequência generosa, em um passeio pela energia de ingredientes da terra da chef.

Por pouco menos de R$ 200 (por mais R$ 50 faz-se a harmonização), em seis tempos e 12 receitas, Lorena traz bode, galinha caipira, cajuína, feijão verde, tamarindo, carne de sol, polvo e camarão do Delta do Parnaíba de maneira envolvente e, surpreendentemente, leve.

 

Seus pratos de origem piauiense servidos em 12 tempos - Foto divulgação

Seus pratos de origem piauiense servidos em 12 tempos – Foto divulgação

 

Apesar disso, um pouco pela apresentação inovadora, outro tanto pela falta de hábito, “o pessoal ainda tem medo”. O que não tem, porém, é temor de lotar imóvel imenso no bairro do Planalto, que acomoda espaçosamente 80 pessoas de uma só vez. Mais: 100% dos comensais prova o caldinho afrodisíaco de boas-vindas, o que significam quase 2 mil “shots” ao mês. Do que ele é feito? Em grande parte, de bode, a mesma proteína que protagoniza os dois maiores hits da casa: o pastel e o “picolé”. “No começo eu tinha quase que dar comida para o povo ter coragem de provar, mas eles viraram marcas do Piancó”, diverte-se a autora.

“Quando eu era pequeninha, minha diversão era ir para o Mercado da Piçarra. A minha brincadeira preferida não era boneca, era pegar feijão preto e branco, meter a mão e misturar. Hoje, minha brincadeira é misturar os meus sabores preferidos e fazer com que as pessoas se encantem”, confessa a ainda enfermeira praticante que, seja no hospital ou no restaurante, gosta mesmo é de acalentar gente.

 

Restaurante Piancó
Rua Juiz João Almeida, 2287, Planalto, Teresina, tel (86) 99970 – 1641

À frente do Babbo, restaurante italiano em Ipanema, chef Elia Schramm se destaca pela simpatia e por suas receitas ítalo-cariocas

À frente do Babbo, restaurante italiano em Ipanema, chef Elia Schramm se destaca pela simpatia e por suas receitas ítalo-cariocas

Chef Elia Schramm é quem comanda o Babbo, restaurante que faz um enorme sucesso em ipanema com sua comida pop e seu serviço feliz

Uma tonelada e meia de gnocchi, outra tonelada e centenas de quilos de filé mignon, 280 quilos de pappardelle e mais 450 de tagliollini (ou paglia e fieno verde e amarelo) frescos. Quase cem quilos de arroz exclusivamente cozinhados para virarem arancini, mais de mil carne crudas, de dois mil pratos com burrata e de 10 mil clientes por mês. O Babbo Osteria só tem nove meses de vida, mas já fala e anda sozinho. No comando, o chef Elia Schramm sorri à toa.

Efeito colateral da pandemia, há pouco mais de um ano, Elia se deparou com um casarão da virada do século 19 para o 20. Detalhe: em plena Ipanema e, não só vago, como “pagável”. O espaço já tinha abrigado um restaurante, o Salitre, e pedia um bom “trato”, nada mais. Como todo “trato” que envolve empreiteiros, pedreiros e arquitetos, o lugar levou mais tempo do que o imaginado, mas hoje abriga o maior case gastronômico do bairro da garota mais famosa da Bossa Nova.

 

Elia Schramm - Foto Rodrigo Azevedo

Elia Schramm – Foto Rodrigo Azevedo / divulgação

 

“Quando a obra começou, eu sabia que ia dar certo, que ia encher, mas está 50% acima de todas as expectativas”, revela o chef. O grande mérito? Comida pop porn comfort e hospitalidade incondicional. Em seu restaurante ítalo-carioca, o cozinheiro de 39 anos sente-se mais acolhedor do que nunca: “Você pode sair da praia e ir sem camisa, a pessoa não se intimida de ir ao Babbo, apesar de ele concentrar o PIB do Rio, porque ele tem uma ambiance especial, um clima feliz”.

Bauletti de cordeiro com cogumelos, polpettone recheado com mozzarella de búfala e tagliolini na manteiga de sálvia e “uova pepenara” (um tagliolini de cacio e pepe com bacon e ovo mollet) à parte, Elia está convencido que “o serviço do Babbo é o melhor da cidade. “Para você ver como mudei. Quando que um chef de cozinha vai falar que a melhor coisa do seu restaurante é o serviço?”.

 

CHEF ELIA SCHRAMM - Foto Rodrigo Azevedo

CHEF ELIA SCHRAMM – Foto Rodrigo Azevedo

 

Fase ainda melhor

Suíço de nascimento, com passagens pelos franceses Le Pré Catelan e Terèze, no Rio, e pelos estrelados Le Taillevent e Le Violon d’Ingres, em Paris, o chef conquistou sua própria estrela no Laguiole: “Ali foram três anos, fiquei conhecido no meio, ganhei prêmios, estrela, foi uma fase maravilhosa”. Até então, sua melhor fase. Ao que tudo indica, sua osteria é o anúncio de uma etapa igualmente, senão mais, impactante.
Para começo de conversa, funciona às mil maravilhas como business, a comida lhe dá orgulho e o RH também. “O Babbo é muito mais do que um restaurante, é a síntese de 18 anos de profissão, é onde tento reproduzir tudo aquilo que aprendi da maneira mais simples e genuína, principalmente em termos de relações humanas”, justifica ele.

Para comprovar a tese, divide as arquibancadas do Maracanã com o sócio, o sub-chef e a parte flamenguista da brigada, compartilha pizza ao final do serviço de sábado com toda a equipe e, vira e mexe, paga as rodadas subsequentes de cerveja madrugada adentro no Galeto Sat’s, instituição da boemia carioca.

“Restaurante é um lugar de assédio brabo, moral, sexual, de todo tipo. É cheio de escândalo: o cara que bateu em não sei quem, na Alemanha, na China, no Japão. No mundo inteiro cozinha é treta, além de se trabalhar muito e de se ganhar mal”, avalia Elia. “Quero virar a persona da gastronomia que vai contra isso, que cuida de gente e para quem o RH é mais importante do que a estrela Michelin”, complementa.

 

Fachada do restaurante Babbo, instalado num casarão em Ipanema - Foto Rodrigo Azevedo

Fachada do restaurante Babbo, instalado num casarão em Ipanema – Foto Rodrigo Azevedo

 

Uma mão lava a outra

Socialismo gastronômico em alta conta, sim, mas empreendedorismo também. Enquanto assiste às filas de espera formando-se de segunda a segunda na porta do Babbo, seu patrono já “desenrola” um restaurante mediterrâneo e outro asiático. O primeiro deve dar as caras antes do final do ano, o segundo deve chegar no começo de 2023. Fosse pouco, agora em agosto mesmo, ele abre uma escola de formação e um serviço de catering.

Verdade seja dita, ao longo de quatro anos no posto de chef executivo do Grupo 14zero3 – com sete restaurantes, entre eles os italianos Pici e Posì –, o cozinheiro exercitou a própria capacidade de gestão e, sim, despertou um gostinho todo especial pela abertura de novos negócios, talento que ele nem desconfiava ter.

 

Interior do restaurante Babbo, instalado num casarão em Ipanema – Foto Rodrigo Azevedo

 

No que tange à Scuola, o projeto ocupará um casarão na Rua General Polidoro, em Botafogo, e oferecerá durante o dia cursos de capacitação para a área de serviços em restaurantes de forma gratuita para moradores das comunidades próximas, como a Ladeira dos Tabajaras e o Morro Dona Marta. A formação básica levará seis semanas e as turmas terão até 15 alunos, que passarão pelas quatro grandes áreas: cozinha, administrativo, salão e bar.

“A ideia é que os alunos sejam absorvidos rapidamente pelo mercado, porque não faz sentido termos mais de 25 milhões de desempregados e ficar escutando meus colegas de profissão reclamarem que não encontram mão de obra. É um contrassenso bizarro”, constata Elia. Vai daí que, como sua escola-startup, buscará atender necessidades reais – tanto de um restaurante, quanto de um funcionário.

O corpo docente contará com ele, sim, mas também com Mari Buriti (sua head mixologista “super didática”), com Lucas Lemos (seu sub-chef, que fará a introdução às massas) e com Paulo Henrique Paiva (seu maître, responsável pelo treinamento da hospitalidade), e adentrará a seara comportamental para apoiar os formandos a enfrentarem entrevistas de emprego, o ritmo de trabalho e situações extremas, como incêndio ou de falta d’água, por exemplo.

Para bancar essas classes, durante o período noturno, a Scuola sediará aulas livres com degustação, que contarão com chefs famosos do Rio, entre os quais Katia Barbosa, Thomas Troisgros e João Diamante, assim como de outras partes do Brasil, caso de Fabrício Lemos (do Origem, Ori e Omí, em Salvador) e de Onildo Rocha (paraibano à frente do Notiê e do Abaru, no Espaço Priceless, em São Paulo).

Além disso, visto a efervescência do mercado de eventos, o mesmo centro cultural de saberes gastronômico abrigará um buffet, de maneira que casamentos de todos os tamanhos e encontros corporativos serão essenciais no financiamento dos cursos de capacitação. É uma mão que lava a outra, é a confirmação de um storytelling.

 

Cozinha madura

Elia cresceu chamando de babbo o seu pai, um professor da Universidade de Genebra, e ganhando livro de aniversário. Natural que aprendizados e ensinamentos ganhem destaque em sua trajetória. Dentre eles, o de controlar a própria ansiedade: “Saí do Grupo 14zero3 e passei a pandemia duro para caramba. Agora voltei a ganhar dinheiro e ter prazer em sair para comer e postar o trabalho dos meus colegas”.

Babbo - Capesante & Caviale - Foto Rodrigo Azevedo

Babbo – Capesante & Caviale – Foto Rodrigo Azevedo

 

Mais do que uma confissão de taurino guloso, fato é que o revés profissional lhe trouxe uma dose generosa de maturidade. “Se eu saísse do Laguiole com a estrela debaixo do braço e abrisse meu restaurante, a probabilidade de me ferrar era imensa, 95%”, assume. Sem investidores em 2014, o chef engoliu em seco, mas aprendeu a criar marcas gastronômicas vendáveis e a respeitar todo tipo de empreitada gastronômica.
“Eu era um cara que tinha conseguido estrela e cozinhado com Virgílio Martinez (chef do peruano Central, um dos dez melhores restaurantes do mundo), no Refettorio Gastromotiva. Saí de uma linha in da galerinha e virei um pária que servia azeite trufado. Eu tinha vergonha, não era convidado para nada, nem podia fazer a minha cozinha afetiva”, confessa ele.

 

Tiramisu do Babbo Osteria - Foto Rodrigo Azevedo

Tiramisu do Babbo Osteria – Foto Rodrigo Azevedo

 

Hoje no comando do italiano mais “sexy” de Ipanema, cedeu a uma “salsa tartufatta” nos gnochhi, mas resistiu a incluir Nutella nas sobremesas: “Agora tenho um restaurante pé no chão e os melhores chefs me visitam. Só o Rafa Costa e Silva (chef do Lasai) já veio cinco vezes. Perdi o pudor e a minha insegurança. Eu achava que a gastronomia só valia se fosse haute cuisine, mas quem não gosta de macarrão com molho de tomate bem-feito?”. Quem Elia, quem?.

 

Babbo Osteria - II Giardino - Foto Rodrigo Azevedo

Babbo Osteria – Drinque II Giardino – Foto Rodrigo Azevedo

O mais brasileiro dos chefs franceses, Erick Jacquin inaugura o restaurante italiano LVTETIA

O mais brasileiro dos chefs franceses, Erick Jacquin inaugura o restaurante italiano LVTETIA

A única menção à Lutetia é encontrada nos “Comentários sobre as Guerras Gálicas”, de Júlio César. Foi o nome que o Imperador Romano usou para o povoado onde se encontravam os Parisii (celtas da Idade do Ferro), que viviam em uma ilha no rio Sena. Se os historiadores aproveitaram a deixa para associá-la à Île de la Cité, tornando a maior ilha de Paris o local de nascimento da cidade, Erick Jacquin recorreu ao lado místico que o passado costuma arrastar consigo. Elegeu o nome porque quer fazer história com sua interpretação da Itália.

Aberto em meados de dezembro, o Lvtetia (com “v” mesmo) fica a poucos passos do concorridíssimo Président e é o quarto restaurante (há antes o Ça-Va e o Buteco do Jacquin) do mais querido dos jurados do ‘MasterChef’, aberto no breve espaço de dois anos – ou de meses, se incluirmos uma pandemia no meio. Seria sua estratégia de guerra?

A bem dizer, como o general, Jacquin tem uma habilidade de mobilização impressionante: cativa clientes, sócios e o staff como soldados de sua brigada e, quando desce ao front, é para brilhar. Há poucos dias, seu principal campo de batalha era o Président. Ali, o chef se expõe como na tela da TV, visto que a cozinha faz parte do salão. Chega a receber mais de uma centena de comensais em um único expediente e a tirar foto com quase todos eles, pacientemente. Até porque quem não paga o serviço aos garçons não ganha selfie para postar.

 

Recém-inaugurado LVTETIA - Foto: Junior Estruc

Recém-inaugurado LVTETIA – Foto: Junior Estruc

 

“Outro dia veio um casal não sei de onde. Longe. De ônibus. Eles trabalhavam em cozinha e queriam comer a minha comida. Dividiram entrada, prato e sobremesa. Pagaram o serviço. Quando eu cheguei, eles pediram uma foto e contaram isso. Mandei voltarem para a mesa e fiz um menu degustação. Completo”, expõe. Ao invés de se gabar, o francês da pequena Dun-Sur-Auron estava apenas enfatizando o papel visceral que a restauração continua a ter em sua vida. E, sim, ela depende da culinária, mas não sobrevive sem o salão. É exatamente esse binômio a grande preocupação de Jacquin com o seu caçula.

No dia 7 dezembro, no primeiro teste oficial da casa, o chef não entendeu o que os garçons faziam de suspensórios e gravata borboleta verde, camisa branca e avental vermelho. Em seguida, ficou maluco quando viu a pouca afinidade deles com o menu, ainda que esse não fosse o oficial… “Tudo bem, a Itália é o Brasil da Europa, mas aqui não é cantina, gente!”

Moderno, o Lvtetia tem mesmo um sotaque singular. Como sua própria dicção, no começo da conversa, beira a ininteligibilidade para repentinamente se autoexplicar.

 

Salão do LVTETIA - Foto: Junior Estruc

Salão do LVTETIA – Foto: Junior Estruc

 

Outros significados

Já entre as explicações não dadas está o porquê de abrir um “italiano”. Em 1994, Jacquin chefiava um restaurante estrelado nos arredores de Paris quando um comensal lhe disse: “Eu vou mudar a sua vida e você vai ser rico. Venha comigo para o Brasil”. O clarividente em questão convenceu o cozinheiro sem muito esforço. Tratava-se de Vincenzo Ondei, falecido em 2020, um restaurateur italiano que, além da lábia, tinha a paixão pela França e o extinto Le Coq Hardy, no Itaim. A seu convite, antes de aterrissar em São Paulo, Erick passou dois meses a flanar pela Itália. Mais do que se bronzear na Costa Amalfitana ou se esbaldar com os vinhos na Toscana, teve a chance de mergulhar na consciência gastronômica coletiva do país.

Foi assim que o rapaz prestes a completar 30 anos entendeu o valor que os italianos davam aos produtos, ao frescor, à simplicidade. Fazer pasta em casa, fritar uma alcachofra ou uma abobrinha, preparar um molho de tomate, brasear uma carne pouco nobre, admirar uma polenta. Tudo o que parecia na melhor das hipóteses modesto ganhou um outro significado.

Junto à saudade do “pai Ondei”, é essa essência vivenciada que vem à tona no cardápio do Lvtetia. É, se necessário, saber abrir mão do creme de leite, do queijo e da manteiga; é servir um carpaccio como manda a tradição; é inventar um risoto de escargot em que os caracóis são feitos à moda florentina e o arroz allo zafferano, como mandam os milaneses.

É também escolher ingrediente por ingrediente e, se preciso, desenvolver o seu próprio, caso da mozzarella fresquíssima de búfala, “mozzata a mano”, que não vem da região da Campânia, porém, segue os mesmos preceitos no interior paulista, no laticínio Búfala Almeida Prado.

 

Bar do LVTETIA - Foto: Junior Estruc

Bar do LVTETIA – Foto: Junior Estruc

 

 

Em contrapartida, Jacquin não hesita em provocar: abre a massa tão finamente quanto o mais delicado dos gyozas, mistura foie gras e salmão defumado em uma salada e é capaz de juntar num mesmo prato capeletti, tortelli e raviólis e, lógico, não os esconder com nenhum tipo de molho.

Pois é, genialidade à parte, polemizar é seu estimulante natural. Vai daí que, contrapõe as costas do Papa a Obelix e Asterix, e não brinda a inauguração do “ristorante” com prosecco nem com negroni, mas com Lillet.

Com uns goles a mais do licoroso aperitivo francês, ele confessa o cansaço: “Hoje a gente tem quatro restaurantes, tem que aguentar. Eu já trabalhei sem energia. Na Rua Bahia (onde ficava a extinta Brasserie Erick Jacquin) às vezes caía a luz e a gente não reclamava. O que você faz? Você vende coisa fria, steak tartar, um carpaccio, coisa que não vai na chapa, um peixe que vai no forno. Hoje temos toda a estrutura. Quando vejo o cara estourar no telefone com o cliente porque tem muita reserva, não acredito. Que merda é isso? Vai embora.”

Encontro perfeito

Passional até dizer chega, se hoje o chef abre mais um empreendimento não é porque esqueceu como é fechar. Ao contrário: “A gente vendia o almoço para fazer o jantar, a gente não tinha nada. Eu comprava o vinho no empório da frente com o cartão de crédito do sommelier. Minha mulher acordava às 4h da manhã para fazer o café da manhã do flat em que ficava o restaurante para ajudar com as contas. Se a gente precisava de 15 pães para o buffet, a gente comprava cinco e dividia em 15. A vida estava desse jeito.”

Por sete anos, Jacquin cozinhou como um louco, mas em casa. Recusou todos os convites para emprestar o seu nome a bistrôs e restaurantes espalhados pelo Brasil. Até que conheceu o seu sócio, Orlando Leone. De cliente que “os santos se cruzaram”, o empresário de peças de motocicleta tornou-se um amigo: “Passei a comer na casa dele ou a gente ia para a praia, fumava charuto. Um dia falei: pô, um chef com a sua qualidade não pode ficar sem um restaurante.”

 

Erick Jacquin no LVTETIA – Foto: Junior Estruc

Erick Jacquin no LVTETIA – Foto: Junior Estruc

 

O francês repetiu o discurso que vinha dando: nunca mais teria um restaurante. Passados mais dois anos, Leone voltou com a conversinha. Desta vez, ouviu: “O dia em que eu pagar minha última ação trabalhista, eu posso entrar nessa”. Eis que um domingo os dois estão à beira mar: “Paguei minha última ação trabalhista”. Silêncio. “Você não entendeu o que eu falei? Eu paguei minha última ação trabalhista”. Foi o tempo de abrirem alguns champagnes, subirem a serra e, na manhã seguinte, começarem a procurar um ponto.

O lugar que abrigava uma loja de sapatos na Rua da Consolação, nos Jardins, caiu nas graças de ambos. A insistência dos dois garantiu o imóvel do Président e a simpatia do proprietário, coincidentemente ou não, o mesmo do antigo Bar Numero, onde hoje está o Lvtetia.

“É uma união bem bacana, abrimos um restaurante e depois de quatro meses veio a pandemia. Na pandemia apareceu o Ça-Va. Este ano veio o Buteco do Jacquin, agora o Lvtetia. A gente soube dividir, eu com administração e finanças, ele com a gastronomia”, resume o sócio. É de se esperar que tenha mais, não é mesmo? E tem: a dupla iniciou a obra de uma steak house no complexo Helbor Wide, na Avenida Rebouças. A ideia é avaliar o modelo para franquear e, concomitantemente, fazer o mesmo com o projeto de um café. “A gente não vai parar não, a gente vai seguir muito em frente” – palavra de Monsieur Jacquin.

 

Birosca S2 traz modernidade à tradicional gastronomia mineira

Birosca S2 traz modernidade à tradicional gastronomia mineira

Assim como os Novos Baianos renovaram a cena musical de Salvador, três jovens chefs de Belo Horizonte trazem modernidade à tradicional gastronomia mineira

“Um desafio de serenidade”. A alusão a Guimarães Rosa move Caio Soter. Ao trocar o direito tributário pela cozinha, o chef caiu em uma bela emboscada – a de preparar alimentos, servir histórias e nutrir almas. Em três anos, empreendeu na produção de carnes dry aged, participou do programa “Mestre do Sabor” e abriu seu primeiro restaurante, o novíssimo Pacato, seu “quintal autoral” no bairro de Lourdes.

Trocando em miúdos (elementos recorrentes nos pratos), Caio volta aos tempos em que o roçado integrava o cotidiano das famílias mineiras e os vegetais combinados às carnes de porcos e galinhas ocupavam a mesa. Seu menu degustação, formato pouco habitual em Belo Horizonte, resgata isso.

 

Enroladinho de porco com legumes da horta, do Pacato - Foto divulgação

Enroladinho de porco com legumes da horta, do Pacato – Foto divulgação

 

Milho, feijão e verduras protagonizam os snacks; o porco tem a banha servida como manteiga no couvert e os pés sublimados em sopa; a galinha brilha na sua ostra (pedacinho suculento da sobrecoxa) mesclada ao fígado, assim como na asinha caramelizada e no peito besuntado com glace e escoltado por purê de cenoura. “Aqui no restaurante, quero que os momentos sejam de desaceleração, que cada etapa seja apreciada, que o capricho na apresentação complemente o conforto à boca, que o cliente volte para casa mais pacato e mais feliz.”

 

 Cheesecake de paçoca, do Birosca S2 - foto divulgação

Cheesecake de paçoca, do Birosca S2 – foto divulgação

 

Caio está, sim, à vanguarda, mas não está só. Com o mesmo reality culinário no currículo, a colega Bruna Martins evoca lembranças de sua infância: “Comecei no fogão a lenha do sítio, brincadeira de criança que virou ofício de adulta”. Em seu Birosca S2, empodera-se da sabedoria de mãe, avós e tias, adicionando pitadas de originalidade a receitas ancestrais – caso do carbonara caipira, com gema vermelha, barriga de porco, milho verde e queijo curado, e da cheesecake de paçoca com doce de leite.

Em paralelo, Bruna mantém um bar de vinhos que harmoniza com essa cozinha jovem que abraça BH, o Gira, instalado no hipster Mercado Novo. O espaço abriga as iniciativas mais carismáticas da cidade. Tem cervejas artesanais, cachaças, gins locais, comfort food provocantes e cozinheiros promissores, como Henrique Gilberto, do Cozinha Tupis.

 

Chef Henrique Gilberto, no Cozinha Tupis – Foto divulgação

 

Seus PFs ganham notoriedade gastronômica não por recorrerem a ingredientes pomposos, mas por se comprometerem com a deliciosidade. A carne de panela apurada, a costelinha desmanchando e o feijãozinho que faz cafuné no estômago são os hits do almoço. Ao cair da tarde, junto aos rótulos da Cervejaria Viela, acepipes como a pururuca de língua mostram com orgulho seu DNA. Henrique, Bruna e Caio são a síntese da nova – e imperdível – cozinha mineira.

 

Saiba mais sobre o Birosca S2: https://www.instagram.com/biroscas2/

Criador da turminha mais amada dos gibis, Mauricio de Sousa estreia filme de seus personagens em dezembro

Criador da turminha mais amada dos gibis, Mauricio de Sousa estreia filme de seus personagens em dezembro

Com mais de seis décadas de carreira, um bilhão de gibis criados, livro recém-lançado e filme prestes a estrear, Mauricio de Sousa aproveita os 86 anos em plena forma.

 

Mauricio de Sousa - Foto: Caio Gallucci

Mauricio de Sousa – Foto: Caio Gallucci

 

Aos quatro anos de idade, Mauricio Araújo de Sousa viu uma revista jogada em uma calçada da pacata Mogi das Cruzes, no interior de São Paulo. Parecia um pouco errado, mas ele levou para casa assim mesmo. Sozinho, a primeira reação foi se encantar pelos desenhos – e havia muitos! Depois, veio o pedido de ajuda à mãe, que decifrou o bando de letrinhas nos balões. Nascia ali um fã voraz de histórias em quadrinhos.

De admirador, o garoto tornou-se um fazedor. Produzia tanto que, à beira dos 20 anos, o natural parecia profissionalizar a coisa. Os editores do jornal “Folha de S. Paulo”, porém, discordaram do plano e preferiram que o jovem estreasse como repórter policial: “Para um rapaz que achava que já tinha um bom trabalho como artista, fui tratado de forma inadequada. O que só depois percebi é que trabalhar textos concisos e rápidos nas reportagens me ajudou a escrever dentro dos balões”.

Entre uma coisa e outra, o ilustrador ainda amador improvisava retratos falados para matérias sem fotos, rabiscava cenas de crimes e aprendeu que, embora aquilo estivesse bem longe dos personagens “fofos” que costumava conceber, a gênese era a mesma, isso é, o homem e suas ações.

 

Mauricio de Sousa como repórter da "Folha de São Paulo" - Foto: Folha de São Paulo

Mauricio de Sousa como repórter da “Folha de São Paulo” – Foto: Folha de São Paulo

 

Dentre as qualidades humanas, perspicácia, sensibilidade e persistência permitiram ao jovem emplacar sua primeira tirinha no jornal. Bidu, o cãozinho azul, aparecia impresso em preto e branco. Mas aparecia. Com o tempo – somos testemunhas! – os desenhos evoluíram, coloriram-se intensamente e o dono do cachorrinho, Franjinha, ganhou uma série de amiguinhos para dividir historinhas.

No universo “mauricízico”, as palavras sucedem-se sem esforço no diminutivo, como numa conversa carinhosa com criança, de igual para igual. Denguice à parte, é a consciência adulta quem impera. Não se trata de moral da história, tampouco de infantiloidismo, há antes um comprometimento pedagógico. “É primordial que a nossa turminha leve junto com a brincadeira assuntos educativos para as crianças, como ter uma boa saúde, ser solidário e se importar em melhorar tudo no mundo”, aposta.

Aos 86 anos de idade, Mauricio exercita a própria teoria: rola no chão com Martin, o netinho de um ano, tuíta, instagrameia, desenha um pouco, lê muito. Ainda não voltou a frequentar restaurantes, teatros e nem cinemas. Todavia, está em vias de retomada!

Agora, dia 30 de dezembro, estreia “Turma da Mônica – Lições”. Sob direção de Daniel Rezende (o mesmo do “Turma da Mônica – Laços”, que em 2019 levou aos cinemas mais de 2 milhões de espectadores), o filme traz os personagens de volta às aulas presenciais com duas peculiaridades: a mudança de escola da Mônica e a entrada na pré-adolescência, pano de fundo para novos planos infalíveis e discussões sobre amizade.

“Antes do primeiro filme, em 2018, eu tinha algum receio em ver os personagens em carne e osso. Não por mim, mas pelos milhões de leitores da Turma da Mônica, que poderiam sentir que aqueles pequenos atores não representavam o que eles conheciam pelos gibis. Mas tudo estava muito encaixado e agora não queremos mais parar. Tem o ‘Lições’, que estreia este mês e virão mais filmes live-action por aí!”, antecipa Mauricio.

 

Cena do longa "Turma da Mônica - Lições" - Foto: Divulgação

Cena do longa “Turma da Mônica – Lições” – Foto: Divulgação

 

Sonhos sempre renovados

Pai de 10 filhos e de mais de 400 personagens, aplica com magia outra de suas fórmulas: “A criança gosta de diversão e de ação, tem que ter aventura e muito humor”. Assume também ser Horácio, o “dinossauro diferente, que não come carne e cuja visão ecológica sou eu, por isso nunca deixei alguém no estúdio criar novas histórias”. Aliás, até o início de 2022 sairá uma coleção com todas as tirinhas do animalzinho pré-histórico publicadas nos suplementos “Folhinha” e no “Estadinho”.

Ainda que a pandemia não tenha trazido novas figuras, seu esquadrão de 60 heróis brilhou em homenagens aos atletas das Olimpíadas e Paraolimpíadas e envolveu-se em ações pela vacina, pelo uso de máscara e pelo distanciamento social. “No momento mais difícil da pandemia, nossa campanha chegou até ao Japão, com um clipe sobre esses procedimentos”, orgulha-se.

Para sorte de Mauricio, a maioria de seus roteiristas já trabalhava de suas casas, em diversos pontos do Brasil. Os desenhistas seguiram o mesmo prumo. Assim, não só as quase 400 pessoas de seu estúdio não pararam, como ele notou um fervilhar saudabilíssimo de ideias. Um processo no qual ele mesmo se inclui: “Não paramos de sonhar com novas ideias!”.

 

Mauricio de Sousa com Bidu, seu primeiro personagem - Foto: Divulgação

Mauricio de Sousa com Bidu, seu primeiro personagem – Foto: Divulgação

 

Nascido das memórias dos tempos em que nadava no Tietê e lançado no dia do seu aniversário, 27 de outubro, o livro “Sou um Rio” (Editora Nova Fronteira e Mauricio de Sousa Editora) é uma delas. “Os rios são fonte de vida para todo o ecossistema, mas estão morrendo pela poluição desenfreada. A ligação entre o ser humano e a natureza é a melhor forma de aprendermos a amar o que recebemos de graça e estamos maltratando. Aos 86, tenho certeza de que todos nós precisamos passar para as novas gerações que é possível casar a tecnologia com a sustentabilidade e melhorar o planeta”, filosofa.

O filme sobre a sua vida, assinado com a Disney, que estará em cartaz em 2023 é mais um exemplo de sonho a se concretizar: “Ele mostrará a minha luta para realizar um sonho de criança, que era ser desenhista. Posso dar um spoiler: o final é feliz!”.

Falando em spoilers, os próximos dias são promissores. O programa infantil “Mauricio TV” estreia no Japão, os shows retornam ao teatro com “Turma da Mônica e a Árvore de Natal” (Teatro Bradesco, em São Paulo) e aguarda-se “#XôFakeNews”: “A escritora Januária Cristina usou nossa jornalista Tina para ensinar a Turma da Mônica Jovem sobre o perigo das notícias fraudulentas nas redes sociais e a importância do combate à desinformação e às mentiras. Um livro que todas as escolas de ensino médio deveriam adotar”.

Com mais de um bilhão e duzentas mil revistas impressas no Brasil, publicações em mais de 70 países, mais de três mil itens com os personagens licenciados mundo afora, canal no YouTube superando 10 bilhões de visualizações, tudo indica que 2022 só trará novos recordes para Mauricio de Sousa quebrar.

 

Turminha da representatividade

“Criei o Jeremias em 1960, antes mesmo de criar a Magali, o Cebolinha, o Cascão e a própria Mônica. Depois teve o Pelezinho e o Ronaldinho Gaúcho, com suas famílias e revistas próprias, e continuei estudando lançar uma família negra. Mas não é fácil lançar novos personagens, já que dependem da montagem cuidadosa de características visuais e, principalmente, de personalidades bem definidas e atemporais”, confessa Mauricio de Sousa.

Nesse sentido, o surgimento de Milena, em 2017, no formato de boneca, foi encarado como uma vitória por ele. E a coisa não parou ali: em 2019, a menininha meiga de 7 anos e autoestima elevada, ganhou o próprio clã na Rua do Limoeiro, além de historinhas, fãs e, agora, uma versão humana, no longa-metragem “Lições”.

 

Turma da Mônica e Milena, a mais recente personagem criada por Mauricio - Foto: Divulgação

Turma da Mônica e Milena, a mais recente personagem criada por Mauricio – Foto: Divulgação

 

Embora seja a última heroína a adentrar a turminha, ela reforça a busca pela diversidade, que vai além da cor da pele e do gênero. “Vou colocando, pinçando e, ao mesmo tempo, estudando cada etnia, cada necessidade, cada problema que nós temos enquanto sociedade, cada preconceito, porque viemos carregados de preconceitos”, desabafa o autor.

Sucesso automático de público, Milena tornou-se amicíssima de Mônica, mas sabe que tem a seu lado outros colegas que aludem à necessidade de inclusão, caso do Luca, garotinho cadeirante, André, um menino com autismo, Tati, com Síndrome de Down, e Dorinha, uma menina com deficiência visual inspirada na educadora Dorina Nowill. Possivelmente, em não muito tempo, terá também um amiguinho homossexual.