Cauã Reymond encarna um Dom Pedro I solitário, fragilizado e quase nada heroico no longa “A Viagem de Pedro”
No mês do Bicentenário da Independência, Cauã revive Dom Pedro I em longa com direção de Laís Bodanzky. O filme ainda marca o início da carreira do ator como produtor e showrunner
Na manhã do dia 22 de agosto, o Palácio de Itamaraty se alvoroçou com a chegada de um célebre visitante. Às vésperas do Bicentenário da Independência, aterrissou em Brasília, ao som do Hino Nacional e sob escolta da cavalaria, Dom Pedro I. Mergulhado em formol e conservado dentro de um cálice de prata, o coração do imperador veio diretamente da cidade do Porto para duas semanas de homenagem. “Arauto da independência e representante primeiro da nossa democracia, ele deve ser tratado como se estivesse vivo e presente”, ressaltou, na ocasião, o Chefe do Cerimonial do Ministério de Relações Exteriores, Alan Coelho de Séllos.
Essa não foi a primeira vez que os restos mortais de Dom Pedro I passearam pelo Brasil – em 1972, durante a ditadura, seus ossos rodaram o país em um cortejo saudosista. “Curioso ato de devoção a uma figura tão dúbia”, reflete Cauã Reymond à 29HORAS. A partir do dia 1° de setembro, o ator estreia nos cinemas vestindo a pele do imperador – mas do avesso. No longa “A Viagem de Pedro” – que também marca a estreia mundial de Cauã como produtor –, heroísmo e glória são postos à prova, em uma superprodução de tom ácido e intimista.

Cauã Reymond – Foto Thomas Tebet
“O filme se passa nove anos após a Proclamação da Independência, durante a viagem de Pedro de volta a Portugal. Naquele momento, ele se prepara para guerrear contra seu irmão, Dom Miguel, pela sucessão ao trono português, e já se vê enfraquecido pela doença que o mataria três anos depois”, explica Cauã. No roteiro idealizado por ele em parceria com Laís Bodanzky, Luiz Bolognesi e grande time, o ex-imperador, vendo-se sozinho no oceano, parte em uma viagem por seus erros e suas angústias. “Não há nenhum registro histórico que descreva esse período. Tudo que narramos é nossa versão do que poderia ter se passado em seu subconsciente ali.”
Despido do glamour, da saúde e dos nobres títulos, Pedro ganha camadas de fragilidade, vulnerabilidade e insegurança. “Nossa ideia era desnudá-lo de qualquer sacralidade ou reverência. No longa, Pedro é humano, e apenas isso.” Idealizado em 2013, rodado em 2018 e lançado oficialmente em 2022, durante o Festival de Gramado, “A Viagem de Pedro” vem em momento oportuno. “Não foi algo planejado, mas era para ser assim. Nosso filme propõe uma reflexão sobre quem o Brasil tem chamado de herói da pátria”, medita.

Cauã Reymond – Foto Thomas Tebet
Mulheres a bordo
Se nas epopeias clássicas, os poetas rogavam às deusas e musas do Olimpo o êxito de suas jornadas, em “A Viagem de Pedro” quem guia essa travessia interior são as muitas mulheres de seu convívio. Amélia, Leopoldina e Domitila são invocadas para confrontá-lo nesse solitário mergulho pelo passado. “O feminino teve papel crucial na vida e no governar de Pedro. Nada mais natural que ele retornar ao seu subconsciente nesse momento de desamparo e aflição”, analisa a diretora e co-roteirista do longa, Laís Bodanzky.
A mente brilhante por trás das produções premiadas “Chega de Saudade” (2007) e “Como Nossos Pais” (2017) foi a escolhida por Cauã para lançar luz sobre essas figuras que, em palavras dela, “sempre tiveram sua relevância histórica reduzida a seu gênero”. “Pintadas pelos documentos da época como ‘amantes’ do imperador, essas mulheres ao redor de Pedro foram, na realidade, grandes articuladoras do poder. Leopoldina, por exemplo, foi quem firmou as bases para nosso processo de independência. Enquanto mulher, nas rédeas de uma produção dessas, me sinto honrada por expor essa outra face da história.”

Laís Bodanzky no Septimius Awards em que “A Viagem de Pedro” foi laureado como Melhor Filme Americano da temporada – Foto divulgação
Sob essa nova e feminina ótica, debates sobre masculinidade tóxica, misoginia e racismo ganham destaque inédito. Em cenas inteiramente rodadas em dialetos originários, atrizes de ascendência africana – destaque para a angolana Isabél Zuaa – homenageiam a cultura de sua terra e falam, sem tabu, sobre prazer, sexo e ancestralidade. “Pedro é uma das maiores representações do domínio patriarcal brasileiro. Dizia-se liberal, antirracista, devoto ao povo, mas, para que tivesse a chance de ser lembrado e glorificado, quantas narrativas tiveram de ser silenciadas? No filme, essas vozes são amplificadas à medida que esse ‘herói’ é desconstruído e, sozinho com suas tormentas, se mostra dúbio, frágil e vacilante”, conclui Laís.
Vida de navegante
Em 42 anos de travessia pessoal, Cauã também teve de enfrentar seus revezes particulares. Filho de pais distantes, viveu boa parte da adolescência à sua própria sorte, em terras que não eram suas. “Eu havia abandonado minha carreira como modelo e passei alguns anos nos Estados Unidos, vivendo do que dava. Trocava lâmpada e limpava o chão em troca de aulas de teatro. Com o pouco que ganhava, uma refeição por dia às vezes era luxo, mas conseguia manter o sonho vivo.”
De lá para cá, foram onze novelas, 23 longas e oito participações em séries globais. Vieram junto uma legião de fãs e o lisonjeiro – porém taxativo – rótulo de galã. “Minha aparência me rendeu personagens memoráveis, mas também limitou meus desafios”, desabafa o ator, que tem encontrado, atrás das câmeras, um meio de se revelar por inteiro, em suas muitas faces. “Descobri que sendo produtor ou diretor, posso mergulhar em personas ainda mais complexas, e ir além da imagem que o público construiu e espera de mim.”
Em 2008, coroou essa descoberta no premiadíssimo “Se Nada Mais Der Certo”. No filme – dirigido por José Eduardo Belmonte, produzido com auxílio financeiro de Cauã, e, à época, laureado Melhor Longa de Ficção no Festival do Rio –, o ator vive um jornalista perturbado, que se envolve em um triângulo amoroso golpista. “Foi a minha primeira produção desse outro lado, oferecendo não só minha arte na prática, mas meu apoio e olhar de fora. Pude, assim, encarnar um personagem com suas dores acima de seus amores, diferente de tudo que já havia feito até ali. Sem dúvidas, esse foi meu trabalho mais marcante. Esse e ‘A Favorita’, novela que está em reexibição nas tardes da Globo e marcou minha estreia como protagonista jovem”, conta o multiartista.

Cauã Reymond – Foto Thomas Tebet
Sem a menor pressa para escolher entre as telas e os sets, nos próximos meses Cauã retorna às noites globais na pele do gerente de uma plataforma de petróleo Dante, na segunda temporada de “Ilha de Ferro”, ao mesmo tempo que se lança como showrunner em duas produções para o streaming. Em uma delas – a documental “Mata-Mata”, para o Globoplay –, ele descortina os bastidores da negociação futebolística; na outra, ainda sem nome ou data de estreia prevista, viaja de volta ao universo da moda e do entretenimento.
Seja como tripulante ou capitão dos sets, Cauã é do time dos navegantes ousados em mares tranquilos. Ao mesmo tempo que aponta para novos e instigantes caminhos, mantém as bases firmes, ancoradas no chão. Se quer retornar ao estrangeiro para ampliar seu império? Anunciem o “não” à Hollywood: ele declara que fica. “Me lançar no mercado internacional já foi uma ambição, mas há 10 anos deixou de ser meu objetivo de vida. Quando Sofia, minha filha, nasceu, eu percebi que o mundo era pequeno e o tempo, curto demais. Claro que posso viajar ao exterior por alguns meses para um trabalho ou outro, mas é no Brasil que meu coração está. Entre ser visto por milhões e ser lembrado por ela, escolho a segunda opção. É esse legado que me fará sentir herói, um dia.”

Cauã Reymond na pele de Pedro – Foto Fabio Baga
Rock in Rio: Confira um roteiro com os melhores shows de cada um dos 7 dias do maior festival de música do país
Edição 2022 do festival Rock in Rio tem a participação de mais de 200 bandas, artistas solo e DJs. Veja a seleção que a 29HORAS fez com as melhores atrações para cada noite
Depois de um hiato de quase três anos, o Rock in Rio está de volta! Os números do festival são superlativos: cerca de 100 mil pessoas por dia conferindo os shows ao vivo na Cidade do Rock; um palco principal com a mesma altura de um edifício com 10 andares e uma estrutura que inclui 200 toneladas de aço (o equivalente a 200 carros); 28 mil empregos gerados (desde a organização e os operadores de som e luz até a limpeza e a segurança) e um impacto econômico na economia da cidade do Rio de Janeiro, estimado pela Fundação Getúlio Vargas, em R$ 1,7 bilhão.

Foto Ariel Martini | I HATE FLASH
Mas o que a galera quer mesmo saber é do timaço de aproximadamente 200 bandas, artistas solo e DJs que comandam a festa entre a quinta (dia 2 de setembro) e o domingo, dia 11, nos vinte espaços de entretenimento da Cidade do Rock, como o já citado Palco Mundo, o Rock District, o Espaço Favela, a tenda New Dance Order, o Palco Sunset e a Rock Street.
Praticamente todos os ingressos colocados à venda no início de abril se esgotaram rapidamente. Mas algumas compras feitas via boleto não foram pagas e, com sorte, você ainda pode encontrar alguns últimos bilhetes nessas vendas extraordinárias. Cruze os dedos, acesse https://rockinrio.com/ e descubra se ainda restou algo.
Agora, se você já tem um ingresso digital baixado no seu celular, veja nas páginas a seguir o que te espera. Conheça as sugestões da equipe de 29HORAS para você curtir o melhor de cada um desses sete dias de som e fúria.

Foto Anne Karr | IHF
NOITE DAS TREVAS – Dia 2/set (sexta-feira)
Os headliners da noite são os metaleiros britânicos do Iron Maiden, famosos por clássicos como “Fear of the Dark”. Mas a pauleira tem também a colaboração dos americanos do Dream Theater, dos franceses do Gojira e dos brasileiros do quinteto Oitão (comandado pelo chef Henrique Fogaça, no palco Rock District) e do quarteto de death metal Sepultura, que é acompanhado pela Orquestra Sinfônica Brasileira. Outra boa pedida é o pouco divulgado show da banda de funk metal Living Colour, com a participação do lendário guitarrista Steve Vai.

Steve Vai – Foto divulgação
BAILE DA QUEBRADA – DIA 3/set (sábado)
Os principais shows desse segundo dia de Rock in Rio têm como destaque a sonzêra que nasce das ruas e das comunidades. A festa começa no palco Sunset, que recebe o carioquíssimo funk de Papatinho & L7nnon –autor do hit “Desenrola, Bate, Joga de Ladinho”. Depois segue com o show sempre matador dos Racionais MCs, com seu rap típico das periferias paulistanas. Aí, para fechar a noite, o Palco Mundo recebe o cantor e produtor musical norte-americano Post Malone, conhecido por seu original mix de hip-hop, rap, pop, R&B e trap. Aos 27 anos, ele já ganhou vários prêmios importantes, mas é acusado por ativistas da causa racial de ser um “abutre” que se apropria da cultura negra. “É uma luta ser um rapper branco”, costuma dizer o artista, autor de sucessos como “Wow” e “Circles”. Para a alegria da playboyzada, a programação inclui também uma apresentação do DJ Alok.

Post Malone – Foto divulgação
DIRTY GIRL & BAD BOY – Dia 4/set (domingo)
Demi Lovato foi uma atriz mirim que contracenava na TV com o dinossauro roxo Barney, e Justin Bieber estreou nas paradas aos 13 aninhos, entoando o inocente hit “Baby”. Hoje ela compõe canções que falam de morte, bebida, heroína, rehab, masturbação e sexo. Já ele se tornou um popstar planetário por causa de suas músicas cheia de atitude e de suas aparições nas páginas policiais, sempre envolvido com barracos, carrões em velocidade acima do permitido e drogas. Ela traz ao Rio o show da turnê “Holy Fvck”, e ele faz mais uma energética performance da “Justice World Tour”.

Demi Lovato – Foto Divulgação
Nesse mesmo dia, o palco Supernova recebe o show de Lil Whind, alter ego musical do humorista Whindersson Nunes, que tem 60 milhões de seguidores no Instagram. Ele apresenta composições como “Piauí” e “Trap do Gago’’. Para quem não quer saber de novidades e prefere letras que não falem só de “raba” e de “sentada”, vale acompanhar o show de Gilberto Gil celebrando os seus 80 anos no palco Sunset.
DIVERSIDADE – Dia 8/set (quinta)
Os headliners dessa noite são os veteranos do Guns N’ Roses, com suas dúzias de inquestionáveis clássicos do hard rock. Mas o line-up desta quinta inclui também performances vigorosas do andrógino quarteto italiano Måneskin, da empoderada cantora britânica Jessie J e da drag mais exuberante da zona leste paulistana, a fabulosa Gloria Groove. Com a regravação do velho sucesso “Beggin”, de 1967, o Måneskin conquistou ouvintes de variadas gerações e do mundo todo com sua sonoridade crua, seu estilo rocker meio vintage e seu look plurissexual. Já Jessie J, com seu acessível e sofisticado mix de pop e soul, faz sucesso por onde vai soltando a voz para falar de suas obsessões, desejos e fantasias. E a gloriosa rainha do Groove estreia no Rock in Rio fazendo o povo pular ao som de hits como “A Queda”, “Bonekinha” e “Vermelho”.

Guns N’ Roses – Foto divulgação
ETERNOS REBELDES – Dia 9/set (sexta)
Levar uma vida em estilo rock’n roll significa ter uma visão e uma posição crítica ao sistema, certo? Foi seguindo esse princípio que se estruturaram as carreiras das estrelas dessa penúltima noite de Rock in Rio. O trio Green Day, formado em 1986 na Califórnia, é conhecido por suas letras raivosas e irônicas contra os políticos e os caipiras dos Estados Unidos, como fica claro em hits como “Welcome to Paradise” e “American Idiot”. O palco Mundo terá ainda o punk sessentão Billy Idol e a banda Capital Inicial, celebrando seus 40 anos de estrada e de revolta contra a imundície que emana da cidade onde o quarteto surgiu: Brasília. No palco Sunset, quem faz protestos em forma de canção é a canadense Avril Lavigne, a eterna musa de skatistas, das vítimas de bullying e de todas as pessoas que se sentem incompreendidas.

Green Day – Foto divulgação
JORNADA ÉPICA – Dia 10/set (sábado)
Hoje vai ser um desfile de camisas polo e sapatos caramelo na Cidade do Rock: a atração principal do dia é o Coldplay, sucesso absoluto entre o público coxinha. Maledicências à parte, os shows dessa banda britânica são sempre cheios de emoção e de efeitos visuais. Invariavelmente terminam com a plateia rouca após cantar junto com Chris Martin hinos pop como “Fix You”, “Yellow”, “Viva la Vida” e “Higher Power”. O line-up inclui também a apresentação do quarteto londrino Bastille, conhecido por seu equilibrado mix de rock alternativo com pop, presente em sucessos como “Pompeii” e “Happier”. No Rock District, quem sobe ao palco é o ator global Thiago Fragoso, que interpreta bem-comportadas covers de Oasis, U2 e… Coldplay!

Chris Martin da banda Coldplay – Foto divulgação
POTÊNCIA FEMININA – Dia 11/set (domingo)
No encerramento desta edição do Rock in Rio, as mulheres vão comandar a p*##@ toda! A estrela maior da noite é a britânica de origem albanesa Dua Lipa, dona de hits como “ Don’t Start Now” e “One Kiss’’ e conhecida por suas posições feministas e na defesa dos direitos da comunidade LGBTQIA+. Antes dela, quem domina o palco Mundo é a monumental rapper norte-americana Megan Thee Stallion, que esbanja sensualidade enquanto canta letras sobre o empoderamento feminino e já gravou parcerias com divas como Beyoncé e Cardi B. E a programação do Palco Sunset inclui ainda um showzaço em tributo a Elza Soares, às suas lutas e à sua trajetória musical. A homenagem contará com a participação de artistas como Mart’nália, Gaby Amarantos, Majur e Larissa Luz.

Dua Lipa – Foto divulgação


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