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Rita Lobo fala com seriedade e uma generosa pitada de bom humor sobre o poder da comida

por | set 1, 2020 | Pessoas, Pessoas & Ideias | 8 Comentários

Rita Lobo, que bombou na TV e na web durante a quarentena, fala com seriedade e uma generosa pitada de bom humor sobre o poder da comida e sua luta por uma alimentação mais saudável e mais consciente no “novo normal”

Foto divulgação | Editora Panelinha

DURANTE O AUGE DAS RESTRIÇÕES de isolamento social impostas pela quarentena para controlar a velocidade de avanço da pandemia, nos meses de março a junho, o coronavírus dominou as redes sociais e a programação da TV, mas outro nome também bombou em todas as plataformas: o de Rita Lobo, a Palmirinha do século 21, que ensinou muita gente a cozinhar e se virar no período de confinamento.

Foi graças a seus programas no canal GNT, suas lives no Instagram, seus vídeos no YouTube e seus livros que milhões de brasileiros conseguiram aplacar sua fome, aprenderam noções básicas de culinária e acabaram até melhorando sua alimentação.

Toda essa exposição e esse reconhecimento coroaram uma trajetória que começou há 30 anos, quando Rita Lobo iniciou sua vida pública. No final dos anos 1980, quando tinha apenas 15 aninhos, ela foi abordada pelo recrutador de uma conhecida agência de modelos durante uma tarde de compras no shopping Iguatemi e, pelos três anos seguintes, rodou o mundo posando para grandes fotógrafos em campanhas publicitárias e editoriais de moda para revistas badaladas. Nessas viagens, descobriu os prazeres da mesa japonesa, francesa, italiana, árabe, indiana, tailandesa e mexicana, entre outras.

De volta a São Paulo, em 1992, atuou com apresentadora do programa de moda “MTV a Go-Go” e, no ano seguinte, deixou o país novamente, mas agora para estudar gastronomia na Peter Kump’s School of Cooking Arts, de Nova York, e na Leith School of Food & Wine, de Londres.

Decidida a trabalhar nessa área, abriu na Rua José Maria Lisboa, em sociedade com sua amiga Patricia Li, o restaurante Oriental, que chegou a ser eleito pela crítica especializada o melhor asiático de São Paulo. “Lá, pude colocar em prática todo o meu conhecimento teórico e minha pesquisa. Mas, ao final de três ótimos anos, pude dizer, com certeza: restaurante, nunca mais!”

Foi aí que Rita passou a dedicar-se exclusivamente à coluna dominical que assinava na “Revista da Folha”. Esse trabalho foi o embrião do site Panelinha, que nasceu em 2000 e, atualmente, é uma plataforma que emprega dezenas de profissionais e funciona como editora de livros, licenciadora de utensílios para cozinha e produtora de conteúdo para o YouTube, para a TV e para um portal de receitas.

Hoje, aos 45 anos, esta fada desgourmetizadora da TV e da web acumula mais de uma dezena de livros, 1,5 milhão de seguidores no Instagram, mais de 500 mil no Facebook e outro meio milhão no Twitter.

Rita é famosa por ensinar receitas que realmente funcionam, sem frescura – mas com muito frescor. É uma ativista defensora da comida de verdade e uma batalhadora incansável pela universalização do empoderante e benéfico ato de cozinhar. Casada com Ilan Kow, idealizador do caderno “Paladar”, do jornal “O Estado de S. Paulo”, e mãe de um casal de filhos, na entrevista a seguir Rita Lobo fala sobre esse seu trabalho em prol da popularização da alimentação saudável, que em 2018 lhe rendeu uma medalha de honra ao mérito da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO/ ONU).

Foto divulgação | Editora Panelinha

O que você acha de ser chamada de ‘Musa da Quarentena’?
Estão me chamando de musa? Que legal! Olha, eu que vivo tentando convencer as pessoas a entrar na cozinha, desta vez nem precisei pedir: elas foram sozinhas, porque a nova rotina levou todo mundo para lá. Mas assim que elas encostaram a barriga no fogão, descobriram que não sabiam fazer muita coisa – e algumas não sabiam nada. Mas “Rita, Help!” e Panelinha tinham resposta para tudo: fiz 50 lives cozinhando direto de casa, a equipe fez atendimento nas redes sociais e o site sempre colocou no ar conteúdo novo e organizado para atender às dúvidas. Foi uma loucura o tanto que a gente produziu e a rapidez para colocar tudo no ar. Isso só foi possível porque é o que fazemos há vinte anos, temos muita experiência e muito conteúdo para ajudar as pessoas na cozinha.

Mas agora, durante o período de confinamento, o trabalho que o Panelinha faz tornou-se um verdadeiro serviço de utilidade pública…
Costumo dizer que o nosso trabalho é uma revolução silenciosa, porque ela acontece dentro das casas, na cozinha das pessoas, e meio que fica ali. Não é um assunto que vira notícia. Mas durante esse período virou um assuntão geral. E a audiência do site, que já vinha crescendo mês a mês, disparou. Mas não só o site: o número de seguidores meus e do Panelinha em todas as redes, os inscritos no canal Panelinha no Youtube, a venda de livros, a venda dos produtos na Loja Panelinha. Foi todo mundo para a cozinha!

Você considera que as orientações para ficar em casa acabaram tendo efeitos positivos não só no controle da pandemia como também na melhora da alimentação das pessoas, afinal cozinhar a própria comida é uma medida eficaz para controlar a obesidade, não?
Comida caseira é sinônimo de comida saudável. Isso é um conceito comprovado. Excluir os ultraprocessados e investir em comida de verdade melhora a alimentação e, consequentemente, a saúde. Para quem escolheu cozinhar mais ou aprender a cozinhar durante esse período, a transformação vai ser para a vida. Todo esse conceito de comida de verdade, de classificação dos alimentos por grau de processamento, de produtos ultraprocessados, foi criado aqui no Brasil por um grupo de Faculdade de Saúde Pública da USP, coordenado pelo professor Carlos Monteiro. Esse grupo, o Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (Nupens), tem um trabalho de enorme relevância nos estudos em nutrição no mundo todo. E eu tenho orgulho de dizer que eles são parceiros científicos do Panelinha desde 2016 e nos dão toda a retaguarda acadêmica para ajudarmos as pessoas a manter uma alimentação saudável.

Agora, é importante variar, ter um repertório, porque alimentação saudável pressupõe variação — é importante comer cenoura num dia, beterraba no outro, acelga no almoço, berinjela no jantar. Cada alimento tem uma composição nutricional única, que só ele pode oferecer ao seu corpo. Quanto mais alimentos você consome, mais nutrientes oferece ao seu organismo.

Na sua opinião, quais outros benefícios o ato de cozinhar traz? Você diria que este gesto tem também reflexos sociais e comportamentais, na reaproximação das pessoas e das famílias?
A alimentação é um desafio nos dias de hoje, em que o tempo todo tem alguém dizendo que você não precisa cozinhar, que é só pedir pelo delivery ou comprar pronto, que é só aquecer no microondas, e a gente sabe que não é verdade, que isso não deu certo. Nas sociedades em que as pessoas pararam de cozinhar, os índices de obesidade – e não estou falando de estética – e outras doenças crônicas não-transmissíveis cresceu a ponto de virar uma epidemia. A gente sabe que tem que voltar para uma alimentação mais ou menos parecida com a que tínhamos no tempo dos nossos avós, baseada no arroz com feijão, sempre com hortaliças na mesa.
Eu não estou dizendo para ficar olhando para trás. A gente tem que olhar para a frente: não dá para uma pessoa só na casa ser responsável pelo preparo das refeições. É preciso envolver a família toda na cozinha. A gente pode pensar que a cozinha é o que a mesa era no passado: um lugar onde a família convive, os pais conversam com os filhos, trocam ideias, um lugar de alimentar não só o corpo, mas também as relações, de fortalecer os vínculos. E todo mundo cozinhando. É por isso que sempre digo que alimentação não é assunto de dona de casa, é da casa toda.

Foto divulgação | Editora Panelinha

Quais são, a seu ver, os piores “alimentos” vendidos nos supermercados?
Vou te responder ao contrário: quais são os melhores alimentos, porque é isso o que as pessoas querem saber. E os melhores são aqueles que não têm lista de ingredientes no rótulo, eles são alimentos que vieram da natureza e passaram por um ou outro processo, mas sem o acréscimo de aditivos químicos. Pense nos alimentos da feira: da natureza direto para a sua casa.

Mas isso não significa que a pessoa tenha que viver de alface e tomate. Pelo contrário. Como já dissemos, a variação é fundamental. No grupo de alimentos in natura e minimamente processados, que devem ser a base da nossa alimentação, você encontra todas as hortaliças, os grãos (feijão, lentilha, grão-de-bico, ervilha, arroz), as farinhas (de milho, de mandioca, de trigo), o leite, o café, os ovos, as carnes (para quem come), as frutas frescas e secas, as castanhas. Esses alimentos, que podem ter sido secos, como no caso dos grãos, ou moídos , como no caso das farinhas, e todas as carnes, frutas e hortaliças (que são legumes e verduras) devem ser a base da nossa alimentação.

Já os piores são aquelas formulações industriais, repletas de aditivos químicos e que excluem da mesa a comida de verdade. Não estou falando só de lasanha congelada, de nuggets, de salsicha. Isso vale, por exemplo, para a bebida: água é um alimento essencial para a vida. Mas o refrigerante exclui a água. Você não toma um copo de refrigerante e um de água. Esses ultraprocessados estão em todos os lugares. São produtos que você não precisa cozinhar, eles já estão prontos, você só precisa abrir o pacote e comer ou aquecer no microondas. Tem o tempero pronto, que faz você deixar de temperar a própria comida. Salgadinho, barrinha de cereal, biscoito recheado… Todos fazem você comer de forma compulsiva e excluem uma fruta, por exemplo, do lanche. A lista é grande. Por isso é tão importante a pessoa aprender a diferenciar comida de verdade de imitação de comida, aprender a classificação de alimentos por grau de processamento. Para conseguir excluir esses produtos da alimentação, aprender a cozinhar é fundamental. Aliás, é essencial para conseguir manter a alimentação saudável.

Foto divulgação | Editora Panelinha

Mudando um pouco de assunto, quem são seus ídolos nessa área da culinária?
Quando eu fiz 18 anos, eu me dei conta de que não sabia cozinhar. E resolvi aprender. Foi uma experiência tão transformadora! Eu imediatamente entendi que aquilo me dava mais autonomia — e prazer. E fiquei obcecada com o assunto, queria convencer todo mundo a aprender a cozinhar. De certa maneira, é o que venho fazendo desde então, só que hoje com uma plataforma bem maior do que o meu grupo de amigos: tento levar todo mundo para a cozinha.

Meus ídolos na verdade são ídolas, três grandes mulheres: a [cozinheira e apresentadora de TV norte-americana] Delia Smith, pela precisão na hora de explicar o passo a passo da receita; a [cozinheira, antropóloga e escritora britânica] Claudia Roden, pela emoção que ela consegue passar até na descrição da receita; e a Nina Horta [banqueteira e colunista de gastronomia do jornal “Folha de S. Paulo”, falecida em 2019], por ter aberto para mim uma janela. A Nina foi a primeira pessoa que eu vi falando em comida de alma, ela escrevia lindamente sobre esse outro aspecto da nutrição, que vai além dos nutrientes.

E de onde veio esse dom para ensinar as pessoas a cozinhar? Acredita que essa é a sua missão aqui no planeta?
Ensinar está no meu DNA: todo mundo na minha família dá aula. Seria ótimo no Brasil se as escolas tivessem aula de culinária para a garotada. Seria incrível. Eu vivo dizendo que cozinhar é como ler e escrever, todo mundo deveria saber. Mas também é como ler e escrever porque ninguém nasce sabendo. A gente tem uma geração de pais e mães que não sabem cozinhar e seria fantástico essa revolução começar nas crianças, que aprenderiam a cozinhar na escola. Mas no Brasil o buraco da educação é tão mais embaixo, as pessoas mal sabem ler e escrever direito…

A cozinha é um lugar tão rico, que mesmo eu trabalhando com isso há mais de vinte anos, todos os dias aprendo alguma coisa nova. Ela é viva. É um lugar que está sempre mudando, sempre se renovando, a cozinha traz coisa nova todo dia. Eu também estou sempre aprendendo, não estou em um lugar de ser a detentora do conhecimento culinário. Acho que isso é que me faz ser uma boa professora, porque eu estou sempre aprendendo.

Foto divulgação | Editora Panelinha

Quantas horas por dia você trabalhou para produzir os episódios do “Rita, Help!”? E, agora que a série chegou ao fim, quais os próximos projetos da Panelinha Corporation?
Gravamos a série em casa, em família. A captação de cada programa de trinta minutos levou em média seis horas. Produzir um episódio não é só a captação, tem que pensar a série, escrever os roteiros, adequar receitas para o momento da quarentena, fazer dezenas de reuniões por videoconferência.

O Panelinha fez vinte anos em março, quando já estávamos em confinamento. Tínhamos um calendário cheio para 2020. Mas o ano virou de ponta cabeça e ficou mais cheio ainda. Fizemos muitas lives, fizemos o “Rita, Help!  Me Ensina a Cozinhar na Quarentena”, que além de série virou livro, já à venda nas melhores livrarias, e agora estamos voltando a gravar em estúdio para o GNT, com equipe reduzida, acompanhamento remoto e todas os protocolos de segurança sanitária. Em breve vamos lançar também um podcast. E, se não deu para comemorar os vinte anos do Panelinha, vamos comemorar no ano que vem a nossa maioridade, aos 21, com ainda mais gente na cozinha!

O que mais gosta de comer? Quando você voltar a comer fora de casa, qual será a primeira coisa que vai buscar e devorar?
Eu comi bem nesse período de confinamento. Todo mundo aqui em casa cozinhou bastante. Com aquela base do arroz com feijão no almoço, nos garantimos. O jantar era variado e o fim de semana era para receitas mais especiais. O Ilan, meu marido, adora cozinhar, e o meu filho mais velho se mostrou um cozinheiro fantástico! Fez clássicos como Beef Wellington, croissant, crème brûlée e até um bolo Floresta Negra para o próprio aniversário de 18 anos! Não estou desesperada por algum prato. A única coisa que eu não faço em casa é comida japonesa, então, o primeiro lugar que a gente vai é em um japonês.

Por fim: acredita que essa terrível pandemia fez muita gente repensar e mudar sua alimentação para sempre e para melhor, após o período de confinamento compulsório? O que você espera ou gostaria que nunca mais voltasse a ser um hábito nesse “novo normal” da humanidade?
Essa é fácil: espero que todo mundo que entrou na cozinha durante a pandemia tenha percebido que saber cozinhar é fundamental e me ajude a convencer ainda mais gente a entrar na cozinha.

 

 

8 Comentários

  1. Cris Dell´Amore

    Rita, vc nos fez entrar na cozinha para preparar nossas refeições nessa pandemia. Tomamos gosto e agora estamos até nos aventurando a novas receitas. Não comemos carne e temos nos alimentado muitíssimo bem.
    Suas receitas são precisas. Obrigada ! beijo da cris dell´amore

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    • Ana Lucia Pessolato Portilho

      Rita sou muito sua fã adorei seus programas na quarentena e sempre procurei me alimentar bem Adoro comida caseira e me baseou na sua não perco nenhum programa ..adoro Obrigada ….por nós ensinar coisas boas como comida de verdade sou professora e também um dia sonho com dias e comida de verdade pra todas elas ..Obrigada agradeço e tenho muita gratidão pir aprender com você …sucesso .semore…

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    • Marta Brichesi

      Aprimorei meu gosto pra cozinhar, foi muito bom, assisto todos os episódios da Rita e faço suas receitas que sempre dão certo. Obrigada 💐🥰

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  2. Neide pontes

    Essa mulher é fonte de inspiração!!! Sempre encostei minha barriga na cozinha e as vezes tinha vergonha de demonstrar essa preferência nas rodas sociais !!! Hoje depois da Rita me acho anos a frente das que me criticavam!!!! Kkkk Deus te ilumine cada vez mais Rita!!!!👏👏👏👏

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  3. Hilda

    Obrigada Rita por ser essa pessoa simples ,e tão dedicada,hoje preparo as refeições inspirado só nas suas receitas bjs

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  4. Nanci

    Oi Rita assisto sempre seus programas faço as receitas e tomei gosto e não tenho msis preguiça.obrigada

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  5. Lilian

    Adora suas receitas , sua didática e fantástica , nos motiva a comer melhor , a ter vontade de aprender e fazer cada vez mais , Parabéns que Deus abençoe todos os dias a sua vida 🙏

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  6. Silvia Helena Simões C. de Oliveira

    Adoro assistir aos seus programas,aprendi muita coisa,acho vc fantástica,tem o dom da culinária,de ensinar e a sua simplicidade em transmitir é demais,quero comprar seus livros.Obrigada por tornar esse trabalho tão prazeroso

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