logo
logo

Chef Rodrigo Oliveira, do Mocotó, inaugura restaurante em Los Angeles

por | nov 1, 2020 | Pessoas, Pessoas & Ideias | 4 Comentários

O sertanejo é mesmo um forte. Em meio à maior crise que atingiu o setor de restaurantes, bares e baladas, o chef Rodrigo Oliveira expande aqui pela Região Metropolitana de São Paulo o alcance de seu Mocotó e leva a gastronomia brasileira a umas das mais vibrantes capitais gastronômicas do Primeiro Mundo: ainda em 2020, ele inaugura em Los Angeles um restaurante onde pretende popularizar internacionalmente ingredientes tipicamente brasileiros como o tucupi, a farofa, o caju, o torresmo, a flor de jambu, o pequi, a goiabada, a mandioca e o queijo de coalho.

  • Save

Rodrigo na lage do restaurante Mocotó, na zona norte de São Paulo (Foto Ricardo D’Angelo)

“Aqui no Mocotó – um restaurante instalado no sertão paulistano – temos em mente aquele mantra do resiliente e otimista povo brasileiro: ‘Espere sempre pelo melhor, mas esteja permanentemente preparado para o pior’. Quando a pandemia do coronavírus parou tudo, fechamos imediatamente o Mocotó, o Balaio (no Instituto Moreira Salles da Avenida Paulista) e os dois Cafés Mocotó (no Mercado de Pinheiros e no Shopping D). Foi um baque, tivemos que adaptar toda a nossa operação para um novo modelo de negócio, mas uma semana depois já inauguramos o Mocotó para Viagem, em Guarulhos, uma cozinha exclusiva para entregas. Até 2019, o delivery respondia por apenas 20% de nosso faturamento. Nos seis meses, de abril até a nossa reabertura, em setembro, ele foi a nossa única fonte de receita. Ainda bem que, de certa maneira, já estávamos inconscientemente nos estruturando para esta súbita e inesperada mudança. Graças ao delivery, não foi preciso dispensar ninguém e ainda conseguimos ampliar nosso trabalho com a comunidade onde estamos inseridos”, conta Rodrigo.

  • Save
Na definição da historiadora Adriana Salay, a esposa do chef, restaurante é um lugar para restaurar as pessoas. A gente entra ali de um jeito e sai de lá melhor. É para isso que serve. E Rodrigo acredita que, se o Mocotó pode deixar melhor uma pessoa, pode também restaurar um bairro inteiro. “Durante o auge da pandemia, ativamos o projeto Quebrada Alimentada e distribuímos a cada dia cerca de 200 quentinhas com comida saudável, feita com carinho e ingredientes da melhor qualidade. Entregamos também toneladas de alimentos para associações de bairro e cestas básicas com frutas e verduras orgânicas que vêm pelo Instituto Ibia, que apoia a agricultura familiar, além de cestas de produtos de higiene. Nunca trabalhei tanto e não sei quando é que poderemos parar com essas doações, pois imagino que este cenário de desemprego e economia patinando ainda vai perdurar por um bom tempo…”, avalia.

E Rodrigo só trabalha desse jeito porque quer e porque gosta. Se ele cobrasse dez centavos de royalty a cada porção de dadinhos de tapioca servida no planeta, ele já estaria bilionário. A receita foi criada por volta de 2007, logo nos primeiros anos depois do chef assumir o comando do restaurante simples de comida nordestina que seu pai, o pernambucano Seu Zé Almeida, tocava desde 1973 na Vila Medeiros. Hoje, os apetitosos dadinhos podem ser encontrados em 90% dos botecos brasileiros e nos cardápios de restaurantes e bares dos mais improváveis lugares, como a Coreia do Sul, o Canadá e a Austrália. “Mas o que me deixou mais feliz foi ver o Albert Adrià servindo dadinhos de tapioca com trufas em seu principal restaurante de Barcelona, o Tickets”, comemora Rodrigo.

  • Save

Espetinho de coração de boi com farofa de manteiga de garrafa – Foto Ricardo D’Angelo

Agora, após fazer sucesso na Europa, na Ásia e na Oceania, o chef quer conquistar novos territórios. Há cerca de quatro anos, ele foi procurado pelos executivos do Grupo Sprout, que comanda dezenas de hotéis e restaurantes na Califórnia – como o bistrô Republique e a osteria Bestia – para comandar um restaurante de comida brasileira em Los Angeles. A ideia inicial era ter o empreendimento funcionando dentro do icônico Roosevelt Hotel, que sediou em seu salão de baile a primeira cerimônia de entrega do Oscar, já serviu de residência para estrelas como Marilyn Monroe e Clark Gable e já hospedou celebridades como Charlie Chaplin, Ernest Hemingway, Prince e o casal Angelina Jolie & Brad Pitt.

Mas o prédio histórico não admitia uma série de reformas, então o grupo de investidores mudou o projeto para um outro imóvel, no Arts District. O restaurante vai ocupar um casarão avarandado, terá 120 lugares (inicialmente 70 por causa das medidas de distanciamento), uma carta de bebidas com várias opções de drinques à base de cachaça e um cardápio que vai focar na diversidade e na pluralidade do Brasil. Não será sertanejo como o Mocotó – a proposta é explorar as várias vertentes da culinária brasileira com um toque contemporâneo, mais ou menos como faz o Balaio. A cozinha será comandada por Victor Vasconcellos, que durante anos foi o chef do Balaio. Entre os destaques do cardápio estão a moqueca de caju, a peixada com molho de coco e a carne de sol com baião de dois cremoso feito com arroz e black eyed peas.

  • Save

Moqueca de caju – Foto Ricardo D’Angelo

E será que o público norte-americano vai apreciar a comida brasileira? A expectativa é que, como os californianos já são muito abertos aos sabores mexicanos, coreanos e japoneses, as receitas brasileiras não sejam um grande choque. O importante é que os clientes cheguem sem preconceitos, a fim de conhecer novos temperos, aromas e texturas. “Um crítico gastronômico inglês uma vez disse: ‘Adoro a comida italiana. O único problema é que, três dias depois, a gente já sente fome de novo’. Eu já sofri muito com esse preconceito. Muita gente não ia ao Mocotó porque a comida nordestina – principalmente a sertaneja – tem essa fama de ser pesada e muito forte. Quando mal executada, é indigesta mesmo. No Mocotó, a gente não usa caldo industrializado, toma cuidado para que cada ingrediente seja cozido no ponto certo e controla o uso de sal e de outros condimentos. Aí a nossa comida nordestina fica mais delicada, saudável, gostosa e fácil de digerir. Não tem nenhum grande segredo. Eu não promovi revolução nenhuma na culinária nordestina, apenas favoreci uma certa evolução, agreguei um pouco de técnica aos preparos originais e passei a utilizar ingredientes da melhor qualidade, preservando os sabores e a potência dessas receitas clássicas. Nos Estados Unidos, nossa comida será apresentada sem firulas, sem caricatura, sem pirotecnias ou exotismos tipo Carmen Miranda. Não é por aí”, avisa Rodrigo.

Com essa iniciativa, Rodrigo será um dos primeiros chefs desta safra mais jovem a colocar a comida brasileira em alguma “vitrine” global. Em breve, a paranaense Manu Buffara deve inaugurar o seu restaurante em Nova York. Nesse momento, está acontecendo um grande ‘boom’ da cozinha latina no mundo, mas o Brasil ainda não se posicionou. O Peru e México lideram o movimento. Tem o Lima London, do Virgilio Martínez (do limenho Central), em Londres, tem o Enrique Olivera (do mexicano Pujol) abrindo o Cosme em Nova York e tem ainda o argentino Tomás Kalika, que em breve inaugurará uma filial do portenho Mishiguene em Miami. São restaurantes que fogem dos estereótipos da comida latino-americana. São casas de alta cozinha, em localizações privilegiadas, com ambientes lindos, serviço acolhedor e muita visibilidade em termos de repercussão e mídia. “Acredito que esta é uma obrigação para nós, para os chefs da minha geração. O Brasil também precisa comparecer, ter seu espaço e mostrar seu valor”, opina Rodrigo, que ainda mantém em segredo o nome de seu novo restaurante angelino.

  • Save

Foto Balaio-IMS | Carol Gherardi

Enquanto a alta gastronomia volta a pisar no acelerador lá fora, aqui no Brasil a situação é bem diferente. O setor foi gravemente afetado e segue sofrendo um grande encolhimento, com estabelecimentos históricos fechando suas portas definitivamente, como os estrelados Tuju e Olympe. Rodrigo é uma das raras exceções nessa onda negativa. O consumidor mudou seus hábitos, e muita coisa não vai voltar tão cedo a ser como era antes. A gastronomia não será a mesma quando e se chegarmos um dia ao tão falado “novo normal”.

“Este período diferentão que vivenciamos por causa da pandemia foi uma fase de muita reflexão, muito aprendizado e muito amadurecimento. Meu trabalho foi afetado diretamente. Tudo o que eu faço aqui no Mocotó, no fundo, é para reunir as pessoas, e reunir pessoas praticamente virou crime. Mas aproveitamos esses meses para crescer, para nos fortalecermos e nos tornarmos melhores. Vamos apostar cada vez mais no que é essencial, na qualidade de vida, na saúde. Saúde é o que existe de mais importante. A minha, a sua, a dos nossos clientes, a da nossa equipe, a dos nossos vizinhos e a dos nossos fornecedores. Precisamos manter a cadeia se movimentando – para alguns pequenos produtores, o Mocotó representa 80% de sua renda. Vamos seguir apostando em uma comida bem-feita, saborosa, potente e autêntica. É isso que as pessoas esperam quando vêm aos nossos restaurantes. A experiência vai mudar por causa de protocolos sanitários? Sim, e isso não será um problema, será uma solução. Mas a nossa essência e a nossa raiz não vão mudar. Somos 100% brasileiros, mesmo quando estamos em Los Angeles”, finaliza o chef.

  • Save

Mural no restaurante Mocotó, com os mesmos desenhos e dizeres que são usados nas embalagens do serviço de delivery do restaurante – Foto Ricardo D’Angelo

 

4 Comentários

  1. Edison de Oliveira Jr

    Conheço mocotó + de 20 anos qdo era apenas um bar, daquela época mocotó torresmo eo tratamento já era tudo de bom, hoje eu vejo vcs merecem alcançarem mundo. Parabéns!

    Responder
  2. Wania Pastorello

    Parabéns merece seu toque de sabor e de mais tudo maravilhoso

    Responder
  3. Carlos C Ferreira

    Desejo todo sucesso no novo empreendimento, assim como o prestígio que vc tem aqui no Brasil…. parabéns.

    Responder
  4. Nilson

    Parabéns para nosso amigo chef Rodrigo, vc é um guerreiro e merece tudo aquilo que fez e faz aqui na região, temos muito orgulho de vc.

    Responder
Enviar um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Share via
Copy link
Powered by Social Snap