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Rádio Vozes: Melhor que o silêncio, só João?

por | abr 1, 2019 | Música | 0 Comentários

João Gilberto, Caetano Veloso e Gal em programa da extinta TV Tupi, em 1971

Tiro essa frase da canção “Pra Ninguém”, de Caetano Veloso, para abrir nossa conversa do mês. Essa música faz parte do disco “Livro de 97”, e nela Caetano fala de vários artistas, de Aracy de Almeida a Marisa Monte. Faz o que se conhece como list songs, citando sucessos ou suas canções preferidas em formato de lista:
Bethânia cantando “a primeira manhã”;
Djavan cantando “drão”;
Chico cantando “exaltação à mangueira”;
Paulinho, “sonho de um carnaval”, e por fim “melhor do que isso só o silêncio, melhor que o silêncio só João”;

Todos sabemos da admiração do autor pela obra de João Gilberto. Já em seu primeiro LP “Domingo” (67), isso já ficava explicito em “Saudosismo”, uma canção que traz os fundamentos do Tropicalismo antes mesmo de ele existir.

Uma letra inteligente e deliciosa, cheia de referências e de metalinguagem. Uma linda homenagem em forma de canção de amor, uma loa ao violão de João Gilberto, seu jeito dissonante de cantar e tocar, a modernidade que deu início a uma grande transformação na música brasileira a partir do final dos anos 50. Amo! É uma de minhas canções preferidas.

João Gilberto e seu violão apareceram em 1958 acompanhando Elizeth Cardoso em duas faixas do “Canção do Amor Demais”. No ano seguinte, 1959, portanto há 60 anos, ele lança o histórico “Chega de Saudade”, com arranjos de Tom Jobim. Um disco de clássicos. João gravou seus autores preferidos: Caymmi, Ary Barroso, Tom e Vinicius, Carlos Lyra,
Boscoli e Menescal, e na penúltima faixa do lado B o maravilhoso samba “Aos Pés da Cruz”, de Marino Pinto e Zé da Zilda. Destaco essa faixa porque o cantor sempre visitou esse repertório que vem da linhagem de Noel Rosa, Vadico, Geraldo Pereira, Assis Valente.

Sambas que ele ouvia no rádio, sambas que o Brasil ouvia. O rádio que mostrou para o país inteiro a voz de Orlando Silva, que é um mestre para João Gilberto, mesmo que seu estilo se pareça mais com o de Mário Reis, um dos primeiros cantores a usar a voz macia com apoio da tecnologia mais apurada dos microfones e métodos de gravação no acetato.

Esse foi só o principio. João Gilberto seguiu fazendo maravilhas por toda sua carreira discográfica. Minha sugestão para o mês de escuta atenta é dar uma geral nessa obra. Nos anos 60 ele encontrou Stan Getz e com Astrud Gilberto levou a bossa nova para o berço do jazz. Na década de 70 gravou George e Ira Gershwin no belíssimo “Amoroso”.

Em 81, gravou com Gil, Caetano e Bethânia o delicioso “Brasil”, um disco cheio de obras-primas interpretadas pelos baianos e que tem um dueto inesquecível de Maria Bethânia com João em “No Tabuleiro da Baiana”, de Ary Barroso.

Voltamos a Caetano Veloso para relembrar o disco que ele produziu em 99, lançado em 2000: “João Voz e Violão”. O repertório é primoroso e destaco aqui “Coração Vagabundo”, de Caetano; “Da Cor do Pecado”, de Bororó; “Segredo”, de Herivelto Martins e Marino Pinto;

“Eclipse”, do cubano Ernesto Lecuona. A capa faz alusão ao verso de Caetano que provoca essa coluna e que repasso pra você. Ouça, depois me diga: melhor que o silêncio, só João?

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