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Fotógrafo Érico Hiller expõe a crise hídrica em seu projeto “água”

por | mar 1, 2020 | Cultura | 0 Comentários

Conhecido por seus projetos documentais, o fotógrafo mineiro Érico Hiller passa a maior parte do seu tempo em andanças pelos mais diversos rincões do planeta.

Suas viagens, em mais de 50 países, já renderam quatro trabalhos monumentais, que envolvem livros e exposições: “Emergentes” (2008), “Ameaçados” (2012), “A Jornada do Rinoceronte” (2016) e “A Marcha do Sal” (2018), cada um deles focado em temas instigantes e humanitários. No mais recente, feito em 2017, Érico refez o trajeto de 400 km que Mahatma Gandhi realizou na Índia em 1930, em sua célebre Marcha do Sal.

Crianças aguardam filetes de água em Kondo, na Etiópia. Fotos: Érico Hiller

Crianças aguardam filetes de água em Kondo, na Etiópia. Foto: Érico Hiller

Agora o fotógrafo se encontra mergulhado em países emergentes para mostrar a crise da água, o maior dilema em discussão no século 21. Colaborador da National Geographic, ele antecipa, neste ensaio especial, algumas imagens de seu longo projeto ao redor do planeta, a fim de mostrar o problema que atinge vilarejos, cidades e lugares no mundo todo.

Etíopes buscando água no leito seco do rio Keske. Foto: Érico Hiller

“Quando existe uma carência, seja de água limpa ou de água acessível, na história de uma família, a vida dela como um todo se torna caótica. As doenças tomam conta, há violência, depressão, ansiedade. Desde 2008, comecei a ver esse quadro em vários lugares por onde passei. Por isso decidi documentar essa crise, que é mais uma pesquisa social do que um projeto com viés artístico e cultural. É uma fotografia declaradamente social”, diz Érico.

O fotógrafo lembra que a escassez é sentida de maneiras diferentes, por razões diferentes, em locais também diferentes. “Mas o que mais me interessa é como as pessoas estão sofrendo hoje”. Documentar a crise mundial da água – seja pela dificuldade de coleta e da qualidade, pelo esgotamento da água, pela forma como é descartada – , esse é o foco de seu estudo.

Grupo à beira do rio na cidade etíope de Lalibela. Foto: Érico Hiller

A primeira viagem foi para o Himalaia, em 2018, e ele se encontra agora no terceiro ano de produção do projeto. Índia, Etiópia, Jordânia, Palestina, Bolívia, Chile e Argentina já foram visitados. “A água é um direito humano, à vida, e deveria estar acessível a todos. Afinal, não se nega a água a ninguém. Mas hoje o que vemos é um verdadeiro mercado da água. O futuro desse problema é que as pessoas ricas vão poder pagar pela água, enquanto os pobres só terão acesso à água de pior qualidade. O acesso ou não à água poderá ser nesse século de aquecimento global e mudanças climáticas o maior apartheid que a nossa humanidade já viu”.

Para Érico, a questão crucial do Brasil é o saneamento. “O país sofre um verdadeiro colapso no saneamento básico. É oficialmente o país com maior quantidade de água doce disponível no planeta, mas é um caso típico de quem não consegue administrar bem o que tem. A água é mal distribuída, mal cuidada e a família brasileira não tem o saneamento apropriado. Ainda hoje crianças morrem em escalas alarmantes de doenças que vêm da água e que poderiam ser evitadas”. Além disso, ele ressalta que historicamente os nossos governos não dão a devida atenção ao problema. Como se o saneamento, por não aparecer, fosse menor do que estradas e obras “visíveis”, que trazem votos.

No Rajastão, na Índia, mulheres pegam água em fonte desprotegida. Foto: Érico Hiller

No Rajastão, na Índia, mulheres pegam água em fonte desprotegida. Foto: Érico Hiller

Em suas andanças nesses dois anos e meio, o fotógrafo tem se deparado com cenas impactantes. “Na Etiópia eu vi crianças muito pequenas carregando água, e isso me entristeceu demais. Isso me toca profundamente como homem, pai e cidadão”, emociona-se Érico, que também é fotógrafo da Unicef, realizando missões em que registra a situação das crianças no mundo.

Mãe e filho nas imediações do lago Poopó, na Bolívia. Foto: Érico Hiller

Mãe e filho nas imediações do lago Poopó, na Bolívia. Foto: Érico Hiller

“A minha fotografia é minha forma de protesto”, diz, antes de rumar para o Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, uma das regiões que mais sofrem com a escassez da água, com a miséria e com o desalento. Este ano de 2020 trouxe um pouco de chuva ao lugar, depois de sete anos de estiagem. “A crise hídrica é uma pequena amostra do que estamos fazendo com nós mesmos. É um lento suicídio coletivo”.

Érico lembra que os maiores problemas que enfrentamos – pobreza, saúde precária, ausência de educação, injustiça social, insegurança alimentar – têm uma razão em comum: a água. Estatísticas e estudos nos dão apenas uma tímida perspectiva da tragédia.

“Por isso, combinei o viés histórico, ecológico e geológico e resolvi olhar tudo através das pessoas. Aquelas que acordam todos os dias e precisam pensar em como conseguir água naquele mesmo dia. Apenas elas nos darão um panorama da real dimensão desta crise”.

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