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Músicas para esquecer o barulho e os problemas do lado de fora na estação mais linda do ano

Músicas para esquecer o barulho e os problemas do lado de fora na estação mais linda do ano

Hoje acordei pensando em 2022. Em compensamos lá na frente e não no aqui e agora. 2001 com Tom Zé e Mutantes, Miss Brasil 2000 com Rita Lee… músicas compostas ainda no século passado. E na canção de Caetano com os versos de Maiakovski: “Ressuscita-me, ainda que mais não seja porque sou poeta e ansiava o futuro”. 

Demasiado humano pensar no futuro, claro. Mas achei melhor pensar no futuro mais próximo e me voltei para o fato de que estamos entrando na estação mais florida do ano, a primavera! Beto Guedes diz que é a boa nova chegando, para Zé Miguel Wisnik é quando desespera tudo em flor, e para Tim Maia é aquela delícia que a gente canta inteirinha junto mais alto ainda quando chega no refrão clássico: “É Primavera, te amo!”. Que maravilha de playlist 

Foto: Sergey Shmidt Koy | Unsplash

 

Não podemos negar, no entanto, que com a situação de desamparo em que se encontra a preservação das nossas florestas no Brasil, é difícil não lembrar que o Pantanal e a Amazônia estão pegando fogo. Volto a pensar em 2022… E lembro de um evento muito importante sediado no Rio de Janeiro, a tão maltratada cidade maravilhosa. Foi em 1992 que o Brasil recebeu o mundo inteiro para uma conferência mundial sobre o meio ambiente. Aja localmente, pense globalmente era o bordão. Jacques Costeau esteve aqui. Rio 92. Foi histórico, foi lindo. E eu fiz a cobertura pelo Baleia Azul, meu antigo programa de rádio que tocava muito reggae junto com o canto da baleia jubarte. Quantas músicas boas, quanta esperança no futuro, que clima de primavera estávamos experimentando. 

Nos anos 1990 assistimos ao boom da música sertaneja, lembram? Do pagode também. A diversidade musical desse país é um espanto. Assim como a biodiversidade, o sincretismo, somos a mistura, somos a antropofagia dos nossos povos ancestrais, os índios guardiões das florestas. Na música, isso se acentuou com o tropicalismomas já era prática desde o piano de Ernesto Nazareth. 

Mas voltando à primavera, já que entrou outubro, vamos falar de flores. Zélia Duncan teve uma canção de sucesso escrita por Fred Martins que tem “flores para quando tu chegares… Uma dinâmica botânica de coresPara tu dispores pela casa”. Para os Titãs, “as flores de plástico não morrem…”. Itamar Assumpção fez uma ode ao ciúme falando do cheiro e do perfume das flores: “Perfume de flor-de-lis, perfume de orquídea, perfume de amarílisperfume de flor de lótus, perfume de meretriz, perfume de flor de cactos, perfume de flor de anis…” 

Mas, talvez a minha preferida seja Maluca, de Luis Capucho, lindamente gravada por Cássia Eller: “Num dia triste de chuva foi minha irmã quem me chamou pra ver, era um caminhão carregado de botões de rosa, eu fiquei maluca, por flor tenho loucura…” E ela sai para a rua, na chuva que eu imagino ser de primavera, volta carregada de botões de rosa e espalha pela casa, “na cama, no quarto, no chão, na penteadeira, na cozinha, na geladeira, na varanda…e na janela era grande o barulho da chuva”.  

Exatamente como é agora nessa primavera de 2020. O barulho lá fora é imenso. Citando Zélia Duncan mais uma vez, “se você não se distrai o amor não chega”. Vamos aproveitar a estação e encher a casa de flor. E de músicas, sempre. 

A nova era dos festivais de música é dentro de casa

A nova era dos festivais de música é dentro de casa

É tempo de acompanhar os festivais de música ao vivo através das telas. E a variedade de opções é vasta.

Woodstock. Todos sabem o que foi. O mais icônico festival da cultura hippie, da paz e do amor abraçado pela música. É uma referência, é memória afetiva de quem foi, é sonho de que nem havia nascido. Por isso vários outros festivais buscam repetir aquele clima de utopia e liberdade. Tivemos aqui, por exemplo, o Festival de Iacanga que, recentemente, virou um documentário incrível já disponível na Netflix. Vale a pena. Até João Gilberto foi. Um grupo de amigos, uma fazenda, um pai muito bacana que topou a brincadeira, e um desejo enorme de encontro.

No Brasil, os festivais são na sua maioria de música independente. Estão espalhados por este país continental. Para lembrar de alguns: em Pernambuco tem o No AR Coquetel Molotov; no Pará, o Se Rasgum; em Goiania, o Bananada, no Rio Grande do Norte, o Festival do Sol; no Maranhão, o BR 135. E em São Paulo tem o Popload e o Coala.

 

Uma delícia correr esse circuito e conhecer música nova, local, diferente. Agora na pandemia, alguns desses festivais estão online. O Coquetel Molotov fez uma edição incrível. Você pode acompanhar programações no site de eventos Sympla, assistir, contribuir, manter a roda girando nesse chamado ecossistema da cultura e da música.

O primeiro a sair foi um festival emergencial chamado FicaEmCasa e que foi inspirado por uma iniciativa semelhante em Portugal. Foi bem no começo do isolamento no Brasil e foram dias, centenas de artistas, muitas horas no ar, cada um de sua casa em todos os cantos do país. Foi lindo.

A Casa de Francisca começou uma série de espetáculos dirigido por cineastas. Um luxo! O cenário da casa é maravilhoso e as pequenas equipes de cinema, com todos os cuidados, fazem a fotografia, a luz, o corte, e fica maravilhoso. Tivemos Tulipa Ruiz em preto e branco com direção de Lais Bodanzky e Siba com direção de Lô Politi. Ao vivo. O público em casa e com venda de ingressos para o mundo todo, especialmente para o Japão que ama nossa música. É possível acompanhar as novas programações e as reprises no site.

Eu fiz a experiência de assistir na tela da TV e foi muito bacana fazer todo o ritual, abrir um vinho, aumentar o som, comentar com amigos também conectados.

É diferente, sem dúvida. Muito longe de Iacanga e Woodstock, mas tem música, tem arte, tem vida. Ouvir música faz bem. Assisti-la sendo feita ao vivo é ainda melhor. E a criatividade não tem limites. Que a tecnologia seja cada vez mais acessível para que a arte e a educação cheguem para todos.

A música brasileira merece esse cuidado. Nós também.

Músicas para nos distrair, educar e embalar

Músicas para nos distrair, educar e embalar

Foto Divulgação | Murilo Alvesso

Músicas feitas dentro de casa: lançamentos de discos brasileiros na pandemia para nos distrair, educar e embalar.

Uma das questões que temos nos feito quase diariamente é como se manter produtivo durante essa temporada de isolamento. Estamos vivendo tempos extremos, difíceis. No mundo da música, muitos estão sem trabalho remunerado, os shows foram adiados e o que resta ao artista é se manifestar no mundo digital. Para alguns, a situação é opressiva a ponto de levar à inércia e, para outros, a saída é justamente produzir, compor, gravar, escrever. A arte tem nos salvado, a nós consumidores. E também aos artistas. Trago aqui dois exemplos de criação em tempos de Covid.

Adriana Calcanhotto lançou um trabalho que pode ser considerado um diário desses tempos dentro de casa. As canções vêm com data, como se estivessem dentro de um caderno de anotações. Foram compostas no dia a dia, a partir de estímulos internos ou dos acontecimentos no mundo. O disco se chama “” e foi gravado com a colaboração de músicos de várias partes do país, cada um em sua casa ou no estúdio com o jovem compositor paraense Arthur Nogueira, arregimentando o time.

Por isso mesmo as canções ganham novas cores e novos sotaques, é um trabalho brasileirismo, diverso ritmicamente, cheio de camadas como é o nosso tropical e antropofágico país. “Ninguém na Rua” é um batidão, no pensamento, no peito. É a música que abre o disco. Composta em 27 de março às 19 horas. Para quem, como eu, que gosta desses detalhes em uma ficha técnica, essa informação tem um sabor especial. A segunda canção é um clássico de Calcanhotto, uma dessas para tocar no rádio. “Era Só” é emocionante, romântica, fácil sem ser e com o belíssimo piano de Zé Manoel, compositor e músico pernambucano.

Assim segue o disco. São nove faixas, cada uma com a verba das vendas revertidas para um coletivo, para a favela da Maré, Rocinha, Ação Cidadania. Um trabalho absolutamente necessário e assertivo. Dá alento para quem ouve e traz em si a ação, o movimento, a responsabilidade social e comunitária. Um novo mundo.

O outro trabalho que acaba de sair é obra de uma dupla longeva, o casal Pato Fu, Fernanda Takai e John Ulhoa. É um lançamento que sai agora, enquanto escrevo essa coluna. Fernanda Takai em carreira solo é dessas delícias que o Brasil nos dá. As duas primeiras músicas são recados aos que vão melhorar o mundo, nossos filhos e filhas. “Terra Plana”, escrita por John, é uma mensagem de confiança na criação. Diante de tantas inverdades, teremos feito um bom trabalho? A segunda é de Nico Nicolaiewski, “Não Esqueça”. De ser feliz, de se apaixonar, de querer ser feliz, é linda… São dez canções com aquele astral que vem desse casal mineiro, delicado, irônico, maduro. Fernanda cantando lindamente e John compondo cada vez melhor. Participações de MakiNomiya, direto do Japão , e Virginie Boutaud, da França.

Maravilhas que a internet nos proporciona. O disco se chama “Será Que Você Vai Acreditar?” e, assim como “Só”, traz os temas que nos atravessam nesses dias. A solidão, a incerteza, o negacionismo que é preciso combater. E, claro, aquela que é uma das funções maiores da arte, nos distrair daquilo que nos desorienta. Quando você ouvir a faixa “One Day in Your Life”vai entender exatamente o que estou dizendo. Com arranjo delicioso, meio música de brinquedo levada muito a sério, voltei aos 14 anos em uma matinê de bailinho Motown. Ouça bem alto. Duvido que não balance o corpo…

A arte nos salva. A cultura traduz nosso tempo, distrai, embala e educa.

Boa audição!

Rádio Vozes: discos imprescindíveis para se fortalecer

Rádio Vozes: discos imprescindíveis para se fortalecer

Em tempos de isolamento, solidários em casa pela saúde de todos, quero sugerir que aproveitemos para ouvir de novo alguns discos fundamentais. Porque sabemos que a arte é uma ferramenta poderosa para manter a sanidade nesses dias difíceis. 

O primeiro que vou indicar é o extraordinário Amazing Grace de Aretha Franklin, o disco de maior sucesso de toda sua carreira. Gravado em dois dias de janeiro de 1972 na Igreja Batista New Temple, em Los Angeles, o disco tem a participação do Reverendo James Cleveland – que canta e toca piano, e do Southern California Community Choir. Um clássico da música gospel, mas com aquele acento pop, soul e R&B que marcou a história musical de Aretha. Para ouvir inteirinho, você vai levar uma hora e meia passando pelas 14 faixas do disco. Se dê esse tempo. Tudo começa com “Mary Don’t You Weep, um espiritual clássico que traz referências à história bíblica de Lazaro com mensagens de esperança e resistência.  

Amazing Grace – Aretha Franklin

A faixa entrega a genialidade de Aretha Franklin ao juntar o gospel ao pop registrando You’ve Got a Friend – sucesso de James Taylor naquele modo coro e cantora repetindo as frases da canção. Lindo! Não faltam momentos de catarse coletiva com o coro e a plateia batendo palmas e cantando junto. A faixa que dá nome ao disco é outro hino clássico e histórico, Amazing Grace, interpretado quase a capella com algumas intervenções do coro, do órgão e da plateia exatamente como acontece nos cultos da Igreja Batista. 

E há a divina “WholyHoly”, composição de Marvin Gaye com Aretha ao piano acompanhada do coro e de sua banda. Para dar ainda mais graça à essa escuta caprichada de “Amazing Grace”, recomendo assistir ao documentário que também é cheio de histórias. Foi filmado por Sidney Pollack, mas só lançado em 2018 depois que a tecnologia permitiu acertar os problemas de som. Mick Jagger e Charlie Watts estão na plateia. Aretha tem 30 anos e está linda com suas túnicas e óculos escuros e, mais que tudo, entregue àquelas canções.

Vamos ao próximo disco, também dos anos 1970, mas brasileiríssimo. “Quem é Quem”, do mestre do balanço, João Donato. Um LP cheio de pérolas deliciosas como A Rã, ainda em versão instrumental (ganhou letra de Caetano Veloso depois e foi gravada por Gal Costa no excelente disco Cantar); Até Quem Sabe com letra do irmão de Donato, Lysias Enio; Mentiras, que tem a voz de Nana Caymmi muito jovem; e o divertido e clássico arranjo de Cala Boca, Menino de Dorival Caymmi. João Donato toca piano acústico e elétrico, e os arranjos são dele, de Dori Caymmi, Maestro Gaya, Laercio de Freitas e Marcos Valle. Um disco que reúne gigantes da música brasileira, para se ouvir sorrindo e ficar feliz. 

Se você tem a sorte de ter esses LPs na sua discoteca ou se vai ouvir em um aparelho digital, não importa, apenas ritualize o momento. Ouça faixa a faixa. Descubra as informações a respeito, perceba as camadas de maravilhas que cada canção traz. Permita-se a distração de ser feliz aí dentro por algumas horas. Porque o mundo lá fora não está para brincadeira. Fique em casa, pelo bem do planeta. E boa escuta! 

Rádio Vozes: música e água

Rádio Vozes: música e água

Não entendo de física quântica nem de ciência, mas já li muito sobre o poder curativo da água e das diferentes composições químicas da lágrima de dor e de alegria. E todos sabemos que o planeta redondo onde vivemos é cheio de água e que nós também somos. Fazendo aqui um exercício de retórica, lógica ou bom senso, penso que se a lua mexe com a maré por que não mexeria conosco? Comigo mexe, e muito. Tenho dias de rasante e de maré cheia.

música e água

O cantor e compositor Gilberto Gil. Foto: Gérard Gaume/Divulgação

Quando a 29HORAS me pediu um texto sobre música e água, eu me lembrei de tudo isso e de um experimento do fotógrafo e pesquisador japonês Masaru Emoto, que fotografou moléculas de água expostas ao som de Mozart, de John Lennon e de heavy metal. As moléculas formavam cristais lindos com a música clássica suave e com “Imagine”, mas com o heavy metal tudo virava uma bagunça.

Eu vivo dizendo que a música transforma. Se somos feitos de 70% de água, é bem capaz de que nossas células, moléculas, ou sei lá o que, sejam mesmo modificadas com a boa música. Gilberto Gil, nosso compositor filósofo mestre pensador, faz essa ponte entre a arte e a ciência de maneira explicita no disco “Quanta”, lançado em 1997. A começar pela linda canção que dá nome ao disco e que tem a participação de Milton Nascimento: “Canto de louvor/De amor ao vento /Vento, arte do ar/Balançando o corpo da flor/Levando o veleiro pro mar…” E nesse mesmo disco, na canção “Água Benta”, ele fala da água como condutora, contando a história de um menino que foi batizado com água poluída: “A água benta que ao bel prazer /Se desmagnetizou / Desconectada do seu poder/ Por um capricho do amor …”

Muitos anos antes, no disco “Louvação”, de 1967, Gil fez com Capinan a canção “Água de Meninos”, que é um bairro histórico de Salvador. Um lugar abrigado de frente para o mar onde funcionava uma feira popular e que sofreu um incêndio histórico nos anos 1960. Nos versos de Capinan, aparecem as águas do mar e das lágrimas. De Dominguinhos e Anastácia Gilberto, Gil gravou “Tenho Sede”, uma linda canção de amor: “…Minha garganta pede um pouco de água / E meus olhos pedem teu olhar…”

Não sei se os efeitos de Mozart no cristal de água podem ser comprovados pela ciência, mas como nosso assunto é música e poesia sigo acreditando que ouvir uma seleção de maravilhas com Gilberto Gil, Dominguinhos e Milton Nascimento só pode mesmo fazer bem.

E pra reforçar termino com mais um pedacinho da letra de “Água Benta”, quando o autor justifica a confusão que o batismo com água poluída fez na vida do menino: “…Talvez por mero defeito na ligação/Sutil entre a essência e a representação/Verbal que tem que fazer todo coração/Mortal ao balbuciar sua oração..”

Do poder das palavras e de um bom copo de água fresca não duvidamos. Muito menos de Gilberto Gil.