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Destaque no surf mundial, Maya Gabeira luta pela preservação dos recursos hídricos

por | mar 1, 2020 | AGGIOTECH | 0 Comentários

A água é a casa, o lazer e o ganha-pão de Maya Gabeira. Ou seu templo, onde interage com forças da natureza e o imponderável. Surfista profissional premiadíssima, Maya viaja pelo mundo há 18 anos, sempre atrás das melhores ondas. Melhores e maiores. Sua especialidade é domar as ondas gigantes.

Entre uma rodada e outra da atual temporada, fomos localizar nossa big rider em Nazaré, Portugal, onde mora há cinco anos. Na última década, a pacata vila de pescadores virou parada obrigatória para os surfistas mais radicais. Hoje, do alto do forte da cidade, construído no século XVII, é possível acompanhar atletas valentes desafiando ondas selvagens de até 30 metros de altura.

Maya Gabeira é porta-voz da luta pela preservação dos recursos hídricos. Foto: Divulgação
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Maya Gabeira é porta-voz da luta pela preservação dos recursos hídricos. Foto: Divulgação

“Aqui é ótimo”, elogia Maya em conversa com a 29HORAS. “É um lugar bastante  com a verde, com praia e muita natureza. E temos um estilo de vida calmo e simples”.

Criada no Rio, onde aprendeu a surfar aos 12 anos, ela parece não ter planos de deixar Nazaré. Foi lá, na Praia do Norte, que a carioca bateu um recorde com direito a registro no Guinness Book. Em janeiro de 2018, encarou uma muralha d’água de 20,72 metros de altura. Imagina isso: um vagalhão de cinco andares, furioso, um vento danado de ruim, água gelada, e a Maya deslizando tudo desde lá do alto, reinando sozinha durante uma eternidade medida em segundos. Tenso, mas lindo de ver.

A façanha teve gosto ainda mais especial porque foi justamente na mesma praia, em 2013, que Maya sofreu um grave acidente na tentativa de vencer as alturas das ondas.

Atingida por uma massa de água descomunal, ela foi derrubada da prancha, ficou submersa um bom tempo e saiu da água desacordada e com um tornozelo quebrado.

Foram momentos escabrosos, mas ela foi resgatada pelo surfista Carlos Burle, seu companheiro de equipe, reanimada e levada para o hospital. Maya passou por duas cirurgias na coluna, caiu dentro do apoio psicológico, ficou de molho durante alguns meses e correu atrás da recuperação plena.

O susto gigante virou lição de vida a ser considerada até por quem nunca chegou perto de uma praia. Vem daí, aliás, uma reflexão muito válida:

Maya Gabeira com seu recorde registrado no Guinness Book. Foto: Arquivo Pessoal
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Maya Gabeira com seu recorde registrado no Guinness Book. Foto: Arquivo Pessoal

“Vivo com essa filosofia: não desistir, usar os erros e barreiras para evoluir, crescer e levar à frente os desafios. Você deve estar sempre buscando se superar, não desistir”, ensina Maya.

A propósito, foi com essa mesma raça – que naturalmente contou com o reforço de Iemanjá, Netuno e outras entidades das águas – que Maya se manteve em pé novamente sobre as ondas, com cada vez mais habilidade. E foi nessa fé que, em 2018, voltou à mesma praia do acidente para tornar-se a primeira mulher a surfar uma muralha daquele tamanho.

Esse episódio já rendeu inúmeras reportagens em todo o mundo e, não por acaso, a gente aqui considera a surfista carioca uma heroína – que, de fato, é. Ela se diz muito feliz nesse momento em que está de volta às águas do mar, com saúde e autoconfiança. É lindo de ver.

O que entristece a surfista é a crescente poluição nas praias – em todas por onde andou, nos cinco continentes. E elas não foram poucas em seus 32 anos de vida.

Maya Gabeira começou a competir aos 15. Dois anos depois, foi morar na Austrália e, em seguida, no Havaí, capital interplanetária do surfe. Foi nesse tempo que a carioca tomou contato e apaixonou-se pelas ondas gigantes. Desde então, a prancha voadora não sossegou mais: África do Sul, Indonésia, Polinésia Francesa, Taiti etc. Até no mar do Alasca ela fez seu nome.

Justamente a intimidade com esse mundão que permite seu veredicto: “A degradação ambiental é problema mundial, talvez o maior desafio da humanidade neste momento, e ainda vai dar muito trabalho para todos nós”, diz a surfista. “Não dá para apontar para um lugar ou outro que esteja livre dessa questão”.

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Maya com seus colegas no mar. Foto: Reprodução/Instagram

O que é mais evidente, no seu dia a dia, é a quantidade de lixo despejado nos litorais. Sobretudo, plástico. E é mesmo um volume assustador. Segundo relatório publicado em 2019 pela organização World Wide Fund for Nature (WWF), com dados do Banco Mundial, oito milhões de toneladas de lixo plástico vão parar nos oceanos, ano após ano. Nesse ritmo, diz a ONU, em 2050 haverá mais plásticos do que peixes nos mares do planeta.

Maya relata sua experiência pessoal, que é comum à de muitos de seus parceiros de esporte e de ofício: “Cada vez mais a gente sente falta de peixes e da fauna marinha em geral. Em alguns pontos, onde havia abundância de espécies, elas começam a ficar escassas mesmo, ou pela pesca em maior escala, ou porque deixam seu ambiente pela falta de alimentos”, afirma ela, já sem a tranquilidade natural da sua voz. “São muitas questões envolvidas, mas há cada vez menos vida no mar, que está mais sujo. Essa é uma combinação bem nítida. Lugares onde havia pesca submarina fácil agora têm cada vez menos peixes”.

Sempre que pode, dá sua opinião e dicas sobre como contribuir com a causa ecológica.

“Há milhões de coisas que a gente pode fazer no dia a dia, tipo não usar garrafa plástica ou os sacos do supermercado, nem tomar banhos tão longos para evitar desperdício… Qualquer tipo de economia é importante”, sugere ela, sem deixar de fora uma mensagem deveras instigante. “Temos que fazer um consumo consciente tanto da energia quanto da água e dos bens materiais. Vamos aprender a consumir menos e, assim, produzir menos lixo por pessoa”.

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A surfista em Nazaré, em Portugal. Foto: Luiza de Moraes/Divulgação

Muito bom, considerando que o consumismo é mesmo uma doença de larga escala e de longa data. No que toca ao meio ambiente, as ações individuais são necessárias, claro, mas Maya também reforça que a solução para a degradação acelerada passa sobretudo por decisões e políticas veementes de governos, entidades e, claro, empresas de todos os tamanhos.

“Do jeito que estamos, a gente vai ter que se mexer muito para mudar essa maré de poluição e de problemas ambientais. A crise é cada vez mais séria. Da parte dos governos, precisamos de novas leis. E as grandes empresas já começaram a olhar para isso de forma mais ativa, agindo para reverter esse quadro insustentável”.

Eis aí um recado direto, sem marola, de quem vê bem de perto os efeitos desastrosos dessa lixarada assassina.

Sangue verde

Pelo menos no caso da cidadã Maya Reis Gabeira, podemos garantir que brigar pelo meio ambiente é coisa que vem de berço. Ela é filha da estilista Yamê Reis, fundadora do Rio Ethical Fashion, reconhecida por seu trabalho na moda sustentável, e do jornalista Fernando Gabeira (foto), um dos fundadores do Partido Verde do Brasil, em janeiro de 1986.

Naquela época, a ideia de haver um partido pre ocupado com as questões ecológicas e sociais era bastante respeitada na Europa, e só. Aqui ainda dominava a visão ambiental atrasada, de que somos detentores de riquezas naturais ilimitadas, e que, por isso, essa pauta não é fundamental.

O tempo mostrou que a sustentabilidade deixou de ser uma preocupação regional e se tornou uma questão planetária, crucial para o bem-estar das próximas gerações.

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Fernando Gabeira, pai de Maya. Foto: Reprodução/Facebook

Eleito deputado federal do PV em 1994, Gabeira completou quatro mandatos em Brasília e, desde 2012, se dedica ao jornalismo e às palestras. Em suas viagens pelo Brasil, para o seu programa no GloboNews, ele se concentra em temas ambientais e sociais e, principalmente, na questão da água.

“A água é vida, tem uma importância fundamental, e o Brasil, por falta de saneamento básico e outros fatores, destrói permanentemente o seu patrimônio hídrico. A ausência de saneamento não é um problema de falta de educação, mas sim de política pública. É o grande fracasso da atual geração de políticos no Brasil”, afirma Gabeira, ressaltando que o consumo de serviços públicos, como saneamento, deve vir antes do consumo de eletrônicos.

Orgulhoso da filha Maya (ele também é pai de Tami, psicóloga), Gabeira acompanha carinhosa e atentamente a carreira da filha no mar. Tanto é que os dois têm um combinado: assim que a jovem sai da água, em campeonatos, liga para ele.

Logo após o acidente de 2013, quando Maya já estava devidamente longe de riscos, o pai zeloso não escondeu, numa entrevista ao jornal O Globo, uma opinião curiosa sobre as surpresas da filha:

“Preferia que a Maya fosse tenista, mas ela não seria a mesma pessoa. Então está ótimo assim”.

Pois é. Longe do surfe, Maya Gabeira não seria a mesma pessoa. Então está ótimo assim.

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